{"id":5835,"date":"2014-01-23T12:41:57","date_gmt":"2014-01-23T12:41:57","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5835"},"modified":"2014-01-23T12:41:57","modified_gmt":"2014-01-23T12:41:57","slug":"critica-social-e-previsao-em-marx","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5835","title":{"rendered":"Cr\u00edtica social e previs\u00e3o em Marx"},"content":{"rendered":"\n<p>Hegel havia ensinado a seus alunos ver a hist\u00f3ria do mundo como um processo dial\u00e9tico, ditado e dirigido pelo esp\u00edrito absoluto ou pela raz\u00e3o impl\u00edcita dos acontecimentos. Esses se sucederiam segundo uma f\u00e9rrea l\u00f3gica: tudo o que \u00e9 fenece em decorr\u00eancia de sua contradi\u00e7\u00e3o interna; tudo o que \u00e9 sobrevive na s\u00edntese superior em que tese e ant\u00edtese se unem.<\/p>\n<p>\u00c9 de se perguntar se os \u00faltimos resultados da hist\u00f3ria, as formas mais desenvoltas da sociedade e do pensamento tamb\u00e9m obedecem a tais leis. Ser\u00e1 poss\u00edvel aplicar o m\u00e9todo dial\u00e9tico, evidenciar a tens\u00e3o entre elementos contr\u00e1rios e apresentar previs\u00f5es quanto a s\u00ednteses superiores, que se concretizar\u00e3o em seu devido tempo?<\/p>\n<p>Pensamentos desse tipo n\u00e3o s\u00e3o considerados pela Filosofia da Hist\u00f3ria de Hegel. Segue o desenrolar dos s\u00e9culos e mostra como a necessidade interna desemboca num est\u00e1gio final no qual as contradit\u00f3rias tend\u00eancias passam a coincidir. Mostra que o passado sobrevive no presente, e que este n\u00e3o \u00e9 produto do acaso e sim o resultado mais apurado de um processo. Caso contr\u00e1rio a postura conservadora do velho Hegel n\u00e3o se coadunaria com a realidade manifesta. Na ordem dada ele percebe um sistema de valores, que n\u00e3o pode ser espoliado por nenhum projeto de futuro de qualquer salvador do mundo. Encontra a passagem de Deus pelo mundo nos s\u00edmbolos do Cristianismo protestante, expressando explicitamente as verdades mais profundas do crist\u00e3o estado germ\u00e2nico ou de uma monarquia constitucional na qual todos s\u00e3o tidos como livres.<\/p>\n<p>A esquerda hegeliana considerava quest\u00f5es n\u00e3o percebidas ou n\u00e3o reconhecidas por seu grande mestre em Berlim. Defendia poder dirigir a dial\u00e9tica para formas culturais e sociais existentes. Piedade mal direcionada n\u00e3o impediria o pensador de desnudar suas latentes contradi\u00e7\u00f5es. Seu dever n\u00e3o seria o de justificar o existente e sim o de esclarec\u00ea-lo como um est\u00e1gio transit\u00f3rio a caminho de modos superiores de vida. O manifesto seria absorvido pelo processo como uma das partes de seu encadeamento.<\/p>\n<p>Cada ponto final de uma s\u00e9rie era visto como o in\u00edcio de outra. Aquilo que foi objeto de um enfoque dial\u00e9tico \u00e9 superado ao n\u00edvel do pensamento. Segundo os hegelianos n\u00e3o somos dominados pelo objeto, reconhecemo-nos homens livres para provar a realidade. Um hegeliano de esquerda defende que s\u00f3 o racional \u00e9 verdadeiramente real; a situa\u00e7\u00e3o considerada sendo em muito irracional seria, portanto, irreal. Defendem a dial\u00e9tica como um instrumento de emancipa\u00e7\u00e3o espiritual.<\/p>\n<p>Bruno Bauer, o l\u00edder dos jovens hegelianos, enaltecia o esp\u00edrito cr\u00edtico com um entusiasmo quase religioso. Para esse cr\u00e9dulo ateu o enfoque hegeliano apresentava-se como uma salvadora deidade, uma for\u00e7a superiora liberando as almas do dom\u00ednio da f\u00e9 autorit\u00e1ria e descortinando ilimitadas perspectivas de futuro. A cr\u00edtica passaria assim a ser desenvolvida num plano teol\u00f3gico. Ao perderem sua aur\u00e9ola os sagrados credos mostraram-se incapazes de deter o livre desenvolvimento do esp\u00edrito. As quest\u00f5es pol\u00edticas fizeram-se atuais. As antigas forma\u00e7\u00f5es sociais deveriam ser superadas da mesma forma que as antigas cren\u00e7as, com descompromissada cr\u00edtica, forjada no melhor esp\u00edrito da filosofia dial\u00e9tica.<\/p>\n<p>Marx manteve tra\u00e7os essenciais do enfoque dos jovens hegelianos. Viu a tradi\u00e7\u00e3o nost\u00e1lgica como uma for\u00e7a adversa e considerava a filosofia carente de um cr\u00edtico acerto de contas com os seus fundamentos. N\u00e3o hesitou em afirmar ser a religi\u00e3o o \u00f3pio do povo. Mas ao contr\u00e1rio da f\u00e9 de Bruno Bauer na capacidade do puro pensamento em se libertar e se recriar, Marx afirma que a id\u00e9ia n\u00e3o passa de gafe quando n\u00e3o vem ligada a algum interesse. Obedece \u00e0 seguinte constru\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>A cr\u00edtica \u00e9 uma atividade social; pressup\u00f5e um p\u00fablico receptivo \u00e0 sua argumenta\u00e7\u00e3o. Noutro caso n\u00e3o passaria de uma arenga no vazio, sem sentido. Em que circunst\u00e2ncias poder\u00e1 se dirigir a algu\u00e9m que d\u00ea aten\u00e7\u00e3o e se impressione? S\u00f3 com o interesse dos ouvintes voltando-se em favor do cr\u00edtico; sen\u00e3o reagiriam contrariamente ou restariam indiferentes, como se a quest\u00e3o n\u00e3o lhes dissesse respeito. O audit\u00f3rio ou o c\u00edrculo de leitores precisa entender que as institui\u00e7\u00f5es e as ideologias atravancam o caminho de suas exig\u00eancias de uma vida melhor. Ent\u00e3o e s\u00f3 ent\u00e3o levar\u00e1 em conta uma cr\u00edtica capaz de evidenciar com motivos incontest\u00e1veis a falta de conte\u00fado da comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Do ponto de vista do observador externo, visto objetivamente, essas pessoas est\u00e3o destitu\u00eddas de qualquer interesse em manter uma situa\u00e7\u00e3o estabelecida. N\u00e3o t\u00eam nenhuma participa\u00e7\u00e3o nas vantagens que possa oferecer. Querem-na melhor. Podem, no entanto, aceitar sua situa\u00e7\u00e3o como uma necessidade inevit\u00e1vel alegando que o mundo sempre foi assim, e assim sempre ser\u00e1. Talvez desde a mais tenra idade tenham recebido imagens de tradi\u00e7\u00f5es, justificando a ordem estabelecida, e condenam toda resist\u00eancia a grupos sociais dominantes. Talvez sintam de forma pouco clara que essas ideologias sejam contr\u00e1rias a seus anseios de uma exist\u00eancia mais digna. Diz-se de tais desejos que s\u00e3o presun\u00e7osos e infrut\u00edferos: temos que ser submissos contentando-nos com a situa\u00e7\u00e3o que um poder superior nos proporcionou.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica social de Marx procura tornar os grupos desfavorecidos conscientes de seus interesses objetivos. Com argumentos cientificamente imbricados evidencia as realidades sociais n\u00e3o observadas ou mascaradas por falsas idealiza\u00e7\u00f5es. Explica a situa\u00e7\u00e3o social reinante como um est\u00e1gio e um desenvolvimento ainda em curso; arrancando assim as bases do fatalismo que leva \u00e0 passividade social. Finalmente mostra que as imagens endoutrinadas s\u00e3o ideologias estranhas cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 manter os interesses da classe dominante. A for\u00e7a demolidora do corpo te\u00f3rico deixado por Marx abre campo para a renova\u00e7\u00e3o social, tarefa do proletariado consciente.<\/p>\n<p>Em Marx a cr\u00edtica n\u00e3o \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o suficiente para a emancipa\u00e7\u00e3o. Nada pode realizar se n\u00e3o apelar para latentes interesses tornando-os claramente conscientes. \u00c9 para ela uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria; sem sua contribui\u00e7\u00e3o a grande obra de reconstru\u00e7\u00e3o social n\u00e3o \u00e9 realiz\u00e1vel. Para Marx o pensamento cr\u00edtico tem ainda uma outra fun\u00e7\u00e3o: provar as id\u00e9ias que se evidenciam no mundo do trabalho e eliminar os elementos sem fundamento real. Sobreviv\u00eancias de antigas formas de pensar t\u00eam que ser rastreadas e neutralizadas; entre elas est\u00e1 a avers\u00e3o \u00e0 sociedade industrial e o reacion\u00e1rio sonho de retorno a uma sociedade de pequenos produtores e artes\u00e3os. Insustent\u00e1veis utopias sociais t\u00eam que ter seus intentos desmascarados. Assim como todo obscuro e mal pensado revolucionarismo rom\u00e2ntico. A emancipa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores tem que ser obra deles mesmos, reza o Manifesto Comunista. Marx observa com toda energia que os trabalhadores precisam ser formados para uma compreens\u00e3o da realidade livre de ilus\u00f5es, para que sua luta n\u00e3o resulte em decep\u00e7\u00f5es e fracasso. Via como uma prazerosa obriga\u00e7\u00e3o exercer o papel de educador.<\/p>\n<p>Bakunin e outros advers\u00e1rios acusaram Marx de ilimitada sede de poder aborrecendo-se com seus modos autorit\u00e1rios. Certamente sem motivo. Ele era altamente intolerante em rela\u00e7\u00e3o a opini\u00f5es divergentes quanto ao socialismo. Sabia, no entanto, sempre motivar seus atos com a necessidade de se resguardar de falsos educadores, condutores das massas ao engano. Entre esses se encontrava Proudhon, com suas arengas sobre a justi\u00e7a eterna; Bakunin, com sua retumbante ret\u00f3rica, ocultando confus\u00e3o e pobreza intelectual; e Lasalle, uma figura suspeita, que secretamente conspirava com Bismarck, imperador da Pr\u00fassia, e induzia os trabalhadores a acreditar no Estado como institui\u00e7\u00e3o protetora.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m lembrar ainda que o primeiro programa dos social-democratas alem\u00e3es, o programa de Gotha, n\u00e3o obteve o apoio de Marx; discut\u00edveis heresias haviam se infiltrado no mesmo. Marx via o caminho claro baseando-se no inabal\u00e1vel alicerce da ci\u00eancia(1).<\/p>\n<p>*Frank Svensson, professor titular aposentado da Universidade de Bras\u00edlia, \u00e9 membro do CC do PCB.<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p>(1) N\u00e3o confundir com o sentido corriqueiro de ci\u00eancia limitado \u00e0s chamadas ci\u00eancias exatas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nFrank Svensson*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5835\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-5835","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1w7","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5835","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5835"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5835\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5835"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5835"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5835"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}