{"id":5842,"date":"2014-01-24T13:27:39","date_gmt":"2014-01-24T13:27:39","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5842"},"modified":"2014-01-24T13:27:39","modified_gmt":"2014-01-24T13:27:39","slug":"o-socialismo-o-idiota-e-a-ideologia-resposta-de-mauro-iasi-a-arnaldo-jabor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5842","title":{"rendered":"O socialismo, o idiota e a ideologia (resposta de Mauro Iasi a Arnaldo Jabor)"},"content":{"rendered":"\n<p align=\"right\"><em>\u201cQuando a gente mente, ou seja, coloca com ast\u00facia alguma coisa que acontece com excessiva raridade ou nunca acontece, a\u00ed a mentira se torna muito mais veross\u00edmil<\/em><em>\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>O Idiota<\/em>, Dostoi\u00e9vski<\/p>\n<p align=\"right\">O Pr\u00edncipe Liev Nikol\u00e1ievitch M\u00edchkin [personagem do romance <em>O Idiota<\/em>], ex\u00edmio cal\u00edgrafo, um pouco santo, prof\u00e9tico e epil\u00e9tico, gosta tanto de suas id\u00e9ias que por vezes, segundo um personagem seu amigo, \u201clhe dava vontade de ir para algum lugar, sumir inteiramente dali. (\u2026) gostaria at\u00e9 de um lugar sombrio, deserto, contanto que ficasse s\u00f3 com os seus pensamentos\u201d. Sempre foi um humanista, nutria uma profundo amor pela humanidade, apesar de sua hipossexualidade, mas a humanidade lhe parecia errada, grotesca, como uma proje\u00e7\u00e3o de sua baixa auto-estima.<\/p>\n<p>Em uma carta, Hippolite [Hippolite Terentyev, personagem do romance\u00a0<em>O Idiota<\/em>] declara que \u201cno amor abstrato para com a humanidade, n\u00e3o se ama a ningu\u00e9m, e sim a si pr\u00f3prio\u201d. Assim era ele. Zeloso e heroico defensor da humanidade abstrata e inimigo declarado dos seres humanos. Disposto a morrer pela humanidade no ato heroico contra moinhos, ou preso \u00e0 cruz para salvar os pecados dos homens, como um Quixote\/Cristo crucificado entre dois ladr\u00f5es diante de um mar de moinhos vitoriosos.<\/p>\n<p>O pr\u00edncipe M\u00edchkin hoje se preocupa com o \u201cperigo vermelho\u201d, como um dia j\u00e1 se preocuparam os Czares, o Pent\u00e1gono, os militares latino-americanos e os reacion\u00e1rios de toda ordem. Ele sofre, como o \u00fanico que v\u00ea a verdade em uma terra de cegos e est\u00fapidos. Suas pr\u00e9dicas morais n\u00e3o t\u00eam valor algum em si mesmas, nem originalidade. S\u00e3o express\u00e3o de sua (para usar uma categoria cara ao autor) burrice, tagarelices de um idiota.<\/p>\n<p>Suas ideias nos servem, no entanto, para outro prop\u00f3sito, como um rico material para discutir os eficazes mecanismos da ideologia. Seguindo as pistas de Marx (o pr\u00edncipe M\u00edchkin prop\u00f5e, como veremos, uma bibliografia alternativa e mais gabaritada) sabemos que a ideologia opera como um poderoso instrumento de domina\u00e7\u00e3o de classe por meio de mecanismos como a invers\u00e3o, o ocultamento, a naturaliza\u00e7\u00e3o, a justificativa e a apresenta\u00e7\u00e3o do particular como fosse universal.<\/p>\n<p align=\"center\">*<\/p>\n<p>Vejamos, ent\u00e3o, seus principais \u201cargumentos\u201d para que possamos refletir sobre a profundidade abismal das alternativas que nos prop\u00f5e.<\/p>\n<p>Segundo M\u00edchkin o grande problema do Brasil \u00e9 que o ciclo dos governos petistas prende nosso pa\u00eds em uma anacronia. Isto \u00e9, ao inv\u00e9s de se ocuparem com as \u201creformas no Estado paral\u00edtico e patrimonialista\u201d, s\u00f3 pensam no passado com \u201cnostalgia masoquista de torturas, heran\u00e7as malditas, ossadas do Araguaia\u201d que, segundo o pr\u00edncipe amargurado, os legitimaria.<\/p>\n<p>Trata-se, segundo o ju\u00edzo do nobre decadente, da insanidade de insistir em uma luta perdida de tempos ilus\u00f3rios. Ele pode afirmar com seguran\u00e7a essa constata\u00e7\u00e3o porque \u201cestava l\u00e1\u201d e viu \u201co absurdo que foi aquela tentativa de revolu\u00e7\u00e3o sem a mais escassa condi\u00e7\u00e3o objetiva\u201d. Entretanto, na opini\u00e3o do talentoso cal\u00edgrafo, a raiz desse equ\u00edvoco \u00e9 mais profunda: j\u00e1 nos primeiros anos do governo petista, M\u00edchkin alertava para o perigo de \u201csovietiza\u00e7\u00e3o\u201d do governo brasileiro e agora insiste no car\u00e1ter \u201cneobolchevique\u201d do governo Dilma. E profetiza:<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um perigo grave que pode criar situa\u00e7\u00f5es irrevers\u00edveis a m\u00e9dio prazo, levando o Pa\u00eds a uma recess\u00e3o barra-pesada em 14\/15. \u00c9 necess\u00e1rio alertar \u00e0 popula\u00e7\u00e3o pensante para esse \u201cperigo vermelho\u201d anacr\u00f4nico e f\u00e1cil para cooptar jovens sem cultura pol\u00edtica. Pode jogar o Brasil numa inextrinc\u00e1vel cat\u00e1strofe econ\u00f4mica sem volta.\u201d<\/p>\n<p>Vejam: n\u00f3s, que n\u00e3o fazemos parte da popula\u00e7\u00e3o pensante, doentes mentais de marxismo cr\u00f4nico e jovens sem a cultura pol\u00edtica do pr\u00edncipe M\u00edchkin, estamos sendo manipulados pelo \u201cneobolchevismo\u201d que nos leva, sem que saibamos, para o abismo da crise \u201cbarra-pesada\u201d. Essa sua espessa cultura lhe permite remeter aos ensinamentos hist\u00f3ricos. Por exemplo, \u00e0 situa\u00e7\u00e3o alem\u00e3 na qual o stalinismo satanizou a social democracia e abriu caminho para o nazismo, nos esclarecendo que o \u201cPSDB da Alemanha\u201d, para eles, era mais perigoso que Hitler. N\u00f3s que n\u00e3o somos parte da popula\u00e7\u00e3o pensante ficamos confusos diante do brilho desta sabedoria. O PSDB representa aqui no Brasil uma for\u00e7a reformista, com ra\u00edzes no movimento sindical e oper\u00e1rio(?), o PT uma reencarna\u00e7\u00e3o grotesca do bolchevismo stalinista(?)\u2026 ent\u00e3o, quem s\u00e3o os nazistas? Bom\u2026 n\u00e3o perdemos tempo com coisas que nossa cabecinha n\u00e3o pode compreender. Deixemos o pr\u00edncipe epil\u00e9tico continuar pregando, pois ele tem a solu\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cTemos que parar de pensar do Geral para o Particular, de Universais para Singularidades. As grandes solu\u00e7\u00f5es imposs\u00edveis amarram as poss\u00edveis. Temos que encerrar reflexos dedutivas e apostar no indutivo. O discurso \u00e9pico tem de ser substitu\u00eddo por um discurso realista, poss\u00edvel e at\u00e9 pessimista.\u201d<\/p>\n<p>Eu sei, leitores jovens sem cultura, \u00e9 dif\u00edcil acompanhar o M\u00edchkin em seus chiliques, mas ele come\u00e7ou a doutrinar metodologicamente agora. Vejam, ele estava falando de pol\u00edtica, de economia, de hist\u00f3ria (ele estava l\u00e1 e viu), todas \u00e1reas nas quais ele acumula uma s\u00f3lida ignor\u00e2ncia, e agora saltou para as bases te\u00f3ricas e filos\u00f3ficas daquilo que ele n\u00e3o entende. Um pouco atr\u00e1s no artigo ele j\u00e1 havia se referido a Hegel e sua teleologia da hist\u00f3ria (que ele confundiu com \u201cteologia\u201d) segundo a qual na sua genial s\u00edntese \u201cas derrotas n\u00e3o passam de \u2018contradi\u00e7\u00f5es negativas\u2019 que levam \u00e0 novas teses\u201d. \u00c9 certo que n\u00e3o h\u00e1 uma mera continuidade entre a vis\u00e3o de hist\u00f3ria de Hegel e Marx. \u00c9 evidente que nem Hegel nem Marx fundamentam seu pensamento procedendo o caminho metodol\u00f3gico do Geral para o Particular, nem de Universais para as Singularidades. Mas o que sabem Hegel e Marx sobre seus pensamentos?<\/p>\n<p>Desavisados acreditariam que o caminho do m\u00e9todo para compreender o real e seu movimento, para Hegel e para Marx, seria do singular ao universal, por meio das particularidades. Mas deixemos de lado estas quest\u00f5es secund\u00e1rias que s\u00f3 podem interessar \u00e0queles que ainda se apegam ao trabalho doentio de estudar os autores por aquilo que eles de fato afirmaram. Voltemos aos ensinamentos do s\u00e1bio.<\/p>\n<p>Procedendo metodologicamente da maneira adequada que \u00e9 sugerida (para facilitar o entendimento aos jovens incultos: abandone Marx e Hegel e volte a Kant, s\u00f3 para destru\u00ed-lo e refugiar-se em Nietzsche\u2026 agora \u00e9 s\u00f3 passar para Lyotard) estar\u00edamos aptos a abandonar certos preconceitos, como por exemplo a qualidade de \u201cesquerda\u201d que segundo o pr\u00edncipe epil\u00e9tico \u00e9 s\u00f3 uma \u201csubst\u00e2ncia\u201d que ningu\u00e9m mais sabe o que \u00e9, servindo para enobrecer discursos. Segundo nosso profeta da amargura, devemos substituir \u201cesquerda e direita\u201d por \u201cprogressistas e conservadores\u201d. Feito isso, ter\u00edamos que trocar de referencias, eis a sugest\u00e3o de M\u00edchkin:<\/p>\n<p>\u201cO pensamento da velha \u2018esquerda\u2019 tem que dar lugar a uma reflex\u00e3o mais testada, mais sociol\u00f3gica, mais cotidiana [???]. Weber em vez de Marx, Sergio Buarque de Holanda em vez de Caio Prado, Tocqueville em vez de Gramsci.\u201d<\/p>\n<p>L\u00f3gico que por mod\u00e9stia, o pr\u00edncipe n\u00e3o seguiu suas sugest\u00f5es para o campo da cultura, no qual ter\u00edamos que seguir as substitui\u00e7\u00f5es, por exemplo, Julio Iglesias em vez de Atahualpa Yupanqui, Paulo Coelho em vez de Graciliano Ramos, ou mesmo, quem sabe, Jabor em vez de Fellini. N\u00e3o, ele est\u00e1 preocupado com o Brasil. Para enfrentar as tarefas urgentes que evitem que caminhemos para abismo \u00e9 necess\u00e1rio partir de cara assumindo o fracasso do socialismo real. E ele se pergunta: quem (al\u00e9m dele) tem peito para isso? O Socialismo \u00e9 uma palavra, um dogma, que nos amarra a um fim obrigat\u00f3rio, esbraveja e lamenta, \u201ccomo se tiv\u00e9ssemos que pegar um \u00f4nibus [de gra\u00e7a&#8230; perd\u00e3o, n\u00e3o interrompo mais]\u2026 at\u00e9 o final da linha, ignorando atalhos e caminhos novos\u201d. E conclui:<\/p>\n<p>\u201cA verdade tem que ser enfrentada: infelizmente ou n\u00e3o,\u00a0<em>inexiste no mundo atual uma alternativa ao capitalismo<\/em>. Isso \u00e9 \u00f3bvio. Digo e repito: uma \u2018nova esquerda\u2019 tem que acabar com a f\u00e9 e a esperan\u00e7a \u2013 trabalhar no mundo do n\u00e3o sentido, procurar caminhos, sem saber para onde vai.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 qualquer um que sugere caminhos sem saber onde v\u00e3o dar, \u00e9 preciso uma dose de coragem ou outra qualidade de car\u00e1ter para isso. Para a marinha mercante seria uma cat\u00e1strofe, mas para conduzir a humanidade, quem sabe, n\u00e3o \u00e9. O nosso idiota sai das g\u00e9lidas paisagens da R\u00fassia, passa pelas ensolaradas terras brasileiras amea\u00e7adas pelo perigo vermelho e chega \u00e0 Alemanha para fazer a troca. Deixa Marx e abra\u00e7a ternamente a Max Weber, que lhe responde:<\/p>\n<p>\u201cPor muito diferente que fossem nossas opini\u00f5es sobre a configura\u00e7\u00e3o da ordem social futura, aceitamos para o momento presente, a forma capitalista. N\u00e3o porque nos parece melhor diante das antigas formas, mas por considerarmos praticamente inevit\u00e1vel e acreditamos que as tentativas de luta radical contra ela nunca seriam um progresso, mas antes um obst\u00e1culo no acesso da classe oper\u00e1ria \u00e0 luz da cultura.\u201d<\/p>\n<p>(Max, Weber,\u00a0<em>Sobre a teoria das Ci\u00eancias Sociais<\/em>, Lisboa: Presen\u00e7a, 1979, p. 29).<\/p>\n<p>M\u00edchkin e Weber se abra\u00e7am em sil\u00eancio. M\u00edchkin est\u00e1 emocionado, Weber n\u00e3o tem a menor ideia de quem \u00e9 aquela figura. Aproveitando que estava por ali, o pr\u00edncipe epil\u00e9tico vai at\u00e9 Viena tentando encontrar Freud \u2013 isso porque ele est\u00e1 convencido que precisamos alistar o pai da psican\u00e1lise na an\u00e1lise das milit\u00e2ncias \u2013, mas n\u00e3o o encontra. Os conceitos da velha esquerda como \u201cluta de classes\u201d, \u201cdemocracia burguesa\u201d, \u201csectarismo\u201d, \u201cfins justificam os meios\u201d e outros, deveriam ser substitu\u00eddos por conceitos como \u201cnarcisismo\u201d, \u201cvoluntarismo\u201d, \u201conipot\u00eancia\u201d, \u201cparanoia\u201d e \u201cburrice\u201d. Vejam que o fato de que os conceitos da esquerda e da psican\u00e1lise sejam, digamos, um pouco mais sofisticados do que a s\u00edntese apresentada n\u00e3o incomoda nosso quixote da nova moralidade necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u201cSomos vitimas de um desequil\u00edbrio ps\u00edquico\u201d, brada, quase derrubando o samovar e o bule de ch\u00e1. Concordamos, parece-nos at\u00e9 evidente. H\u00e1 estudos que tentaram diagnosticar clinicamente a epilepsia de Liev Nikol\u00e1ievitch M\u00edchkin, assim como a de seu criador (Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski) como s\u00edndrome de personalidade interictal na epilepsia do lobo temporal\u00a0\u2013\u00a0h\u00e1 d\u00favidas se no lado esquerdo ou direito (eu n\u00e3o tenho nenhuma: \u00e9 no da direita). Algumas caracter\u00edsticas de comportamento costumam ser associados \u00e0 doen\u00e7a, tais como a hipossexualidade, a hipergrafia, o car\u00e1ter antissocial, associados ou n\u00e3o \u00e0 sintomas como paran\u00f3ia, humor deprimido e hipermoralismo. Segundo um<a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0004-282X2004000300036\" target=\"_blank\">interessante artigo<\/a> de Leonardo Cruz de Souza e Mirian Fab\u00edola Studart Gurgel Mendes nos Arquivos de Neuropsquiatria, o pr\u00edncipe M\u00edchkim expressaria de forma brilhante no espectro liter\u00e1rio os sintomas da doen\u00e7a de seu criador.<\/p>\n<p>Freud, entretanto, tem outra opini\u00e3o, para ele o trauma de odiar seu pai opressor e v\u00ea-lo sendo morto pelos camponeses desencadeou um processo ps\u00edquico de autopuni\u00e7\u00e3o que levou \u00e0 doen\u00e7a do escritor russo \u2013 patologia, portanto, de natureza hist\u00e9rica e n\u00e3o epil\u00e9tica. Mas nada disso nos interessa, porque da mesma forma que a hist\u00f3ria n\u00e3o nos serve como teoria (nem a economia, nem a filosofia), n\u00e3o ser\u00e1 a psican\u00e1lise que ter\u00e1 algo a dizer. O que Freud queria mesmo dizer, mas n\u00e3o disse, talvez porque estava ocupado desenvolvendo a psican\u00e1lise, \u00e9 que o \u201cdesequil\u00edbrio ps\u00edquico\u201d que aflige os nossos governantes (perigosos bolcheviques vermelhos) pode ser enquadrado nas categorias de \u201cpsicopatas e paran\u00f3icos simpl\u00f3rios\u201d.<\/p>\n<p>Freud, pelo que me lembro, n\u00e3o tratou disso, falou de enfermidades narcis\u00edsticas, as psicoses, dentre as quais a paran\u00f3ia. Formas mais ou menos graves de cis\u00e3o com a realidade. Mas isso n\u00e3o deve ser pertinente. Mais precisas s\u00e3o as categorias cl\u00ednicas e pol\u00edticas de \u201cpsicopatas e paran\u00f3icos simpl\u00f3rios\u201d.<\/p>\n<p>Falando em cis\u00e3o com a realidade, nosso pr\u00edncipe, j\u00e1 um tanto cansado de sua labuta para alertar as elites pensantes e velhos cultos, evoca Baudrillard que teria profetizado que \u201co comunismo hoje desintegrado se tornou viral\u201d, isto \u00e9, seria capaz de contaminar o mundo, n\u00e3o por suas id\u00e9ias e alternativas societ\u00e1rias (que teriam fracassado), mas \u201catrav\u00e9s de seu modelo de desfuncionamento e desestrutura\u00e7\u00e3o brutal\u201d.<\/p>\n<p>Interessante ele lembrar de Baudrillard nesta sopa confusa de senso comum refinado com \u00e1caros de cultura de bibliotecas est\u00e9reis. N\u00e3o foi Baudrillard que disse \u201clivre do real, voc\u00ea pode fazer algo mais real que o real: o hiper-real\u201d? Nosso M\u00edchkin navega nas pradarias do \u201chiper-real\u201d. Agora entendi, tudo fica mais claro.<\/p>\n<p>O pr\u00edncipe epil\u00e9tico ainda tentou estabelecer uma conex\u00e3o com o \u201ceixo do mal\u201d na America Latina, mas n\u00e3o desenvolveu. Estava exausto, e eu de saco cheio com tanta bobagem junta. Ent\u00e3o, vamos aos finalmentes.<\/p>\n<p align=\"right\">Como \u00e9 poss\u00edvel ver, n\u00e3o h\u00e1 nada de novo nos argumentos e destemperos discursivos do autor. Entretanto, ele cumpre uma fun\u00e7\u00e3o precisa naquilo que de fato opera. Como dissemos, a ideologia opera atrav\u00e9s de mecanismos como a invers\u00e3o, o ocultamento, a naturaliza\u00e7\u00e3o, a justificativa e a apresenta\u00e7\u00e3o do particular como fosse universal. Vejamos.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar h\u00e1 uma clara invers\u00e3o neste confuso discurso raivoso. O problema do Brasil \u00e9 um governo de linha bolchevique, arraigado a dogmas do marxismo e da meta socialista que, por isso, n\u00e3o executa as \u201creformas necess\u00e1rias\u201d no Estado brasileiro (!!!).<\/p>\n<p>Neste \u00e2mbito da \u201chiper-realidade\u201d fica dif\u00edcil seguir a an\u00e1lise. Os governos petistas aceitaram e assumiram a reforma do Estado nos mesmos moldes de seu antecessor e rejeitaram explicitamente qualquer nexo com a meta socialista que um dia defenderam, rendendo-se \u00e0 forma capitalista como inevit\u00e1vel. Na invers\u00e3o ideol\u00f3gica apresentada, o PSDB quer reformas e o PT \u00e9 conservador e as impede.<\/p>\n<p>O que fica oculto nesta artimanha \u00e9 que, nos alerta o cr\u00edtico, caso sigamos o caminho do \u201csocialismo\u201d iremos dar em uma \u201crecess\u00e3o barra-pesada\u201d. Veja, tentando manter a sanidade, a crise que estamos enfrentando n\u00e3o resulta da op\u00e7\u00e3o por medidas ou formas socialistas de qualquer esp\u00e9cie, mas exatamente pela manuten\u00e7\u00e3o das formas capitalistas, do mercado e da perpetua\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es burguesas de produ\u00e7\u00e3o e propriedade.<\/p>\n<p>A crise que estamos enfrentando n\u00e3o \u00e9 culpa do socialismo, real ou imagin\u00e1rio. Se o socialismo fracassou e desapareceu como alternativa e a \u00fanica alternativa poss\u00edvel \u00e9 continuarmos no capitalismo, como professou Weber e n\u00e3o se cansa de repetir o M\u00edchkin, como o socialismo pode nos levar para o buraco? Ah\u2026 \u00e9 que ele, como uma amea\u00e7a viral, se imp\u00f5e pelo seu \u201cdesfuncionamento\u201d ou sua \u201cdesestrutura\u00e7\u00e3o brutal\u201d\u2026 Onde? Atrav\u00e9s de que pol\u00edticas e a\u00e7\u00f5es governamentais?<\/p>\n<p>Assim \u00e9 f\u00e1cil porque n\u00e3o precisamos encontrar a reposta no real \u2013 baudrillardamente, nos livramos do real. O autor \u00e9 um militante imagin\u00e1rio, numa batalha imagin\u00e1ria contra um inimigo imagin\u00e1rio, e pior\u2026 est\u00e1 perdendo. Deve ser desesperador.<\/p>\n<p>Toda essa engenharia imagin\u00e1ria acaba servindo para naturalizar uma determinada ordem, justific\u00e1-la. Filtrando toda a baboseira pretensiosa, destaco a \u00fanica frase pertinente do artigo (pertinente pois expressa um ju\u00edzo preciso do autor): \u201cinfelizmente ou n\u00e3o, inexiste no mundo atual uma alternativa ao capitalismo. Isso \u00e9 \u00f3bvio\u201d. Precisamente, nisso n\u00e3o h\u00e1 nada de \u00f3bvio. Dito de outra maneira, o argumento \u00e9 o seguinte: se o capitalismo \u00e9 inevit\u00e1vel o que atrapalha a humanidade s\u00e3o aqueles que ainda n\u00e3o perceberam isso e tentam insistir nas alternativas radicais para super\u00e1-lo. Com efeito, essa constru\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica acaba por justificar o capitalismo e eximi-lo da cat\u00e1strofe que a humanidade se meteu seguindo o caminho proposto por seus defensores. A ideologia aqui apresentada quer botar a culpa na gente!<\/p>\n<p>Ao atacar o petismo como \u201cneobolchevismo\u201d, a critica capenga oculta as verdadeiras e necess\u00e1rias alternativas, tenta desqualific\u00e1-las, antes mesmo que elas se apresentem. O PT \u00e9 a express\u00e3o do pragmatismo que abandonou da meta socialista e revolucion\u00e1ria para construir uma estrat\u00e9gia de perman\u00eancia no governo. Entender como bolchevismo a ocupa\u00e7\u00e3o dos dez mil cargos de confian\u00e7a por membros do PT \u00e9 n\u00e3o entender o que \u00e9 burocracia (que n\u00e3o foi inventada nem se restringe \u00e0 experi\u00eancia socialista). J\u00e1 que o pr\u00f3prio autor prop\u00f4s, eu tenho uma dica: v\u00e1 ler Weber.<\/p>\n<p>Por fim, n\u00e3o \u00e9 a defesa da ordem capitalista, n\u00e3o \u00e9 a sociedade burguesa\u2026 \u00e9 a humanidade que precisa ser defendida, diz o pr\u00edncipe angustiado. N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9. A ordem capitalista e os interesses burgueses foram devolvidos \u00e0 sua particularidade, perderam a universalidade abstrata e restrita que um dia expressaram na fase revolucion\u00e1ria da burguesia. Capital e humanidade s\u00e3o hoje antag\u00f4nicos, o que implica dizer que a sobreviv\u00eancia de um amea\u00e7a a continuidade de outro.<\/p>\n<p>Quando a solu\u00e7\u00e3o era o capitalismo a hist\u00f3ria tinha sentido e objetividade, agora que chegamos ao capitalismo plenamente desenvolvido e o mundo, nas palavras de Adorno e Horkheimer, se assemelha a uma calamidade triunfal, devemos encarar que devemos \u201cacabar com a f\u00e9 e a esperan\u00e7a \u2013 trabalhar no mundo do n\u00e3o sentido, procurar caminhos, sem saber para onde vamos\u201d! Bem vindo ao deserto da p\u00f3s-modernidade.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma alternativa para o Brasil e para o mundo e esta alternativa \u00e9 anticapitalista e socialista. O que fracassou no Brasil foi o capitalismo real, aquele que est\u00e3o nos impondo durante todo o s\u00e9culo XX e in\u00edcio do s\u00e9culo XXI sempre nos afirmando que agora vai. N\u00e3o foi, e estamos escrevendo numa conta para o dia que este mundo vai virar. Se a ordem moribunda do mercado e do capital confunde sua exist\u00eancia com a da humanidade e quer arrastar-nos para a cova para a qual caminha, devemos nos desvencilhar de suas armadilhas ideol\u00f3gicas e recusar os conselhos dos profetas que nos empurram para o abismo para nos salvar da queda.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 esta passagem que vou citar no livro de Dostoi\u00e9vski, mas depois que aprendi que posso me livrar do real, fiquei mais tranquilo em descrev\u00ea-la. O pr\u00edncipe Liev Nikol\u00e1ievitch M\u00edchkin, em determinado momento, lamenta-se que as pessoas acham que ele \u00e9 um idiota, mas n\u00e3o deixam de perceber sua grande intelig\u00eancia. Neste momento, l\u00e1 da realidade, sai um oper\u00e1rio, entra na cena, atravessa a sala e colocando a m\u00e3o no ombro de M\u00edchkin, mais amistoso que violento, lhe diz com voz calma: M\u00edchkin\u2026 voc\u00ea\u00a0<em><strong>\u00e9<\/strong> <\/em>um idiota!<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/photo.php?fbid=625854670795973&amp;set=a.413974941983948.89447.173366462711465&amp;type=1&amp;theater\" target=\"_blank\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem100\" src=\"http:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2014\/01\/14-01-22_mauro-iasi_o-socialismo-o-idiota-e-a-ideologia_charge_blog-da-boitempo.jpg?w=747&#038;h=319&#038;fit=500%2C319\" border=\"0\" \/><\/a><em>***<\/em><\/p>\n<p>Mauro Luis Iasi \u00e9 um dos colaboradores do livro de interven\u00e7\u00e3o <strong><em><a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/350#.Ulxbs1Ckqjg\" target=\"_blank\">Cidades Rebeldes: passe livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil<\/a><\/em><\/strong>, organizado pela Boitempo. Com textos de David Harvey, Slavoj\u00a0\u017di\u017eek, Mike Davis, Ruy Braga, Erm\u00ednia Maricato entre outros. Confira, abaixo, o debate de lan\u00e7amento do livro no Rio de Janeiro, com os autores Carlos Vainer, Mauro Iasi, Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira:<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2014\/01\/23\/o-socialismo-o-idiota-e-a-ideologia\/www.blogdaboitempo.com.br\/jornadas-de-junho\" target=\"_blank\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem100\" src=\"http:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2013\/08\/cidades-rebeldes_jornadas1.jpg?w=747&#038;h=145&#038;fit=500%2C145\" border=\"0\" alt=\"Cidades Rebeldes_Jornadas\" \/><\/a>Confira a <a href=\"http:\/\/wp.me\/PB9tZ-1PC\" target=\"_blank\">cobertura das manifesta\u00e7\u00f5es de junho no Blog da Boitempo<\/a>, com v\u00eddeos e textos de Mauro Iasi, Ruy Braga, Roberto Schwarz, Paulo Arantes, Ricardo Musse, Giovanni Alves, Silvia Viana,\u00a0Slavoj \u017di\u017eek, Immanuel Wallerstein,\u00a0Jo\u00e3o Alexandre Peschanski,\u00a0Carlos Eduardo Martins, Jorge Luiz Souto Maior, Lincoln Secco, D\u00eanis de Moraes, Marilena Chaui e Edson Teles, entre outros!<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><strong>Mauro Iasi<\/strong>\u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/48#.Ul8Kh1Csh8E\" target=\"_blank\"><em>O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia<\/em><\/a> (Boitempo, 2002) e colabora com os livros\u00a0<a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/cidades-rebeldes\" target=\"_blank\"><em>Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil<\/em><\/a> e\u00a0<a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/gy%C3%B6rgy-lukacs-e-a-emancipacao-humana\" target=\"_blank\"><em>Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana<\/em><\/a> (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o <strong>Blog da Boitempo <\/strong>mensalmente, \u00e0s quartas.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2014\/01\/23\/o-socialismo-o-idiota-e-a-ideologia\" target=\"_blank\">http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2014\/01\/23\/o-socialismo-o-idiota-e-a-ideologia<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":" Mauro Iasi.\nEste artigo \u00e9 uma resposta a O \u201cperigo vermelho\u201d, de Arnaldo Jabor.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5842\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-5842","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1we","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5842","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5842"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5842\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5842"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5842"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5842"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}