{"id":5872,"date":"2014-02-10T02:04:46","date_gmt":"2014-02-10T02:04:46","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5872"},"modified":"2014-02-10T02:04:46","modified_gmt":"2014-02-10T02:04:46","slug":"violencia-urbana-suas-determinacoes-e-como-resolve-la","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5872","title":{"rendered":"Viol\u00eancia urbana, suas determina\u00e7\u00f5es e como resolv\u00ea-la"},"content":{"rendered":"\n<p>A viol\u00eancia \u00e9 resultado dos problemas sociais. \u00c9 produto da falta de garantia dos direitos sociais b\u00e1sicos: como alimenta\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, moradia, saneamento, emprego e educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" src=\"http:\/\/latuffcartoons.files.wordpress.com\/2014\/02\/um-dia-qualquer-no-rio.gif?w=747\" border=\"0\" \/>Para sustentar a afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 suficiente apresentar a rela\u00e7\u00e3o entre os \u00edndices de atendimento dos direitos b\u00e1sicos citados acima e os \u00edndices de viol\u00eancia. Mas \u00e9 pertinente apresentar tamb\u00e9m o outro lado da moeda, ou seja, como se d\u00e1 o processo do ponto de vista da forma\u00e7\u00e3o do comportamento, como se d\u00e1 a internaliza\u00e7\u00e3o nos indiv\u00eddios do campo simb\u00f3lico correspondente \u00e0 realidade social vivida, ou, em outras palavras, a socializa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lico-ideol\u00f3gica dos indiv\u00edduos.<\/p>\n<p>Dentre os casos de melhoria das condi\u00e7\u00e3o sociais encontramos tanto as experi\u00eancias sociaistas, que s\u00e3o os casos mais emblem\u00e1tico, quanto concess\u00f5es feitas dentro do capitlaismo, como o <em>Welfare State<\/em> (Estado de Bem-Estar Social). N\u00e3o por acaso, estas realidades apresentam os menores \u00edndices de viol\u00eancia. Mesmo depois do fim da URSS com o per\u00edodo especial e suas priva\u00e7\u00f5es em virtude do bloqueio econ\u00f4mico estadunidense, Cuba mant\u00e9m um baix\u00edssimo n\u00edvel de viol\u00eancia. Em s\u00edntese, quando s\u00e3o generalizadas condi\u00e7\u00f5es adequadas de vida, a necessidade de garantir a sobreviv\u00eancia atrav\u00e9s da viol\u00eancia diminui drasticamente.<\/p>\n<p>Se abordarmos a quest\u00e3o pelo ponto de partida da internaliza\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica da realidade pelos indiv\u00edduos, veremos que as duas an\u00e1lise se completam e se refor\u00e7am. Vigotsky e Bakhtin desenvolveram uma formula\u00e7\u00e3o consistente nesta \u00e1rea, com base em experimentos e apropria\u00e7\u00e3o cr\u00edtica do ac\u00famulo te\u00f3rico at\u00e9 ent\u00e3o desenvolvido.<\/p>\n<p>Opera\u00e7\u00f5es com signos aparecem como o resultado de um processo prolongado e complexo, sujeito a todas as leis b\u00e1sicas do desenvolvimento psicol\u00f3gico. Significa que a atividade de utiliza\u00e7\u00e3o de signos nas crian\u00e7as n\u00e3o \u00e9 inventada e tampouco ensinada pelos adultos. Surge de algo que originalmente n\u00e3o \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o com signos, tornando-se uma opera\u00e7\u00e3o desse tipo somente ap\u00f3s um s\u00e9rie de transforma\u00e7\u00e3o qualitativas, de acordo com Vigotsky (2008).<\/p>\n<p>A internaliza\u00e7\u00e3o de formas culturais de comportamento envolve a reconstru\u00e7\u00e3o da atividade psicol\u00f3gica tendo como base as opera\u00e7\u00f5es com signos. A internaliza\u00e7\u00e3o das atividades socialmente enraizadas e historicamente desenvolvidas constitui o aspecto caracter\u00edstico da psicologia humana; \u00e9 a base do salto qualitativo da psicologia animal para a psicologia humana, conforme Vigotsky (2007).<\/p>\n<p>Os experimentos de Vigotsky mostram que as pessoas n\u00e3o nascem prontas, elas se formam interativamente em sociedade.<\/p>\n<p>Pensamento e linguagem possuem origens diferentes, o pensamento independe da linguagem e \u00e9 anterior \u00e0 ela, mas com a internaliza\u00e7\u00e3o da liguagem, fundem-se pensamento e liguagem resultando no salto qualitativo chamado de pensamento verbal. O pensamento verbal \u00e9 que possibilita o controle do indiv\u00edduo sobre seu comportamto em sociedade. \u00c9 um processo essencialmente social, \u00e9 a apropria\u00e7\u00e3o da sociedade pelos indiv\u00edduos, segundo Vigotsky (2008).<\/p>\n<p>Para Bakhtin (1981), cada campo da cria\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica \u00e9 dado pela fun\u00e7\u00e3o social que cumpre, por\u00e9m o que os unifica \u00e9 seu car\u00e1ter simb\u00f3lico. Al\u00e9m disso, cada parte do campo simb\u00f3lico \u00e9 simultaneamente parte, fragmento da realidade, o que torna pass\u00edvel de estudo metodologicamente unit\u00e1rio.<\/p>\n<p>A consci\u00eancia individual deve ser explicada a partir do meio ideol\u00f3gico e social. A consci\u00eancia, privada de seu conte\u00fado semi\u00f3tico e ideol\u00f3gico, \u00e9 um simples ato fisiol\u00f3gico, desprovido de sentido, conforme Bakhtin (1981).<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre ideologia e psicologia \u00e9 colocada nos seguintes temos por Bakhtin (1981): o estudo da ideologias n\u00e3o depende da psicologia, por\u00e9m o estudo da psicologia precisa se apoiar no estudo das ideologias.<\/p>\n<p>Para Bakhtin (1981), a exist\u00eancia do signo materializa a comunica\u00e7\u00e3o social e esta \u00e9 a natureza dos fen\u00f4menos ideol\u00f3gicos. A linguagem explicita esta caracteriza\u00e7\u00e3o, pois a palavra n\u00e3o comporta nada al\u00e9m de sua fun\u00e7\u00e3o social, al\u00e9m de uma rela\u00e7\u00e3o social. O estudo da consci\u00eancia individual n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel isolado do tecido social.<\/p>\n<p>A psicologia do corpo social \u00e9 o elo de liga\u00e7\u00e3o entre a ideologia e a estrutura s\u00f3cio-pol\u00edtica, segundo Bakhtin (1981).<\/p>\n<p>Todo signo \u00e9 resultado do processo social interativo dos indiv\u00edduos que produz um consenso provis\u00f3rio e as formas do signo s\u00e3o condicionadas tanto pelo conte\u00fado social quanto pela forma como a intera\u00e7\u00e3o acontece. Como o processo \u00e9 interativo, o signo influencia o conte\u00fado e a forma social, por\u00e9m se tais formas de intera\u00e7\u00e3o mudam e conte\u00fados sociais mudam, o signo se torna inadequado e tende a dar lugar \u00e0 nova significa\u00e7\u00e3o. Portanto, para Bakhtin (1981), n\u00e3o se pode: i) separar ideologia e realidade material do signo; ii) dissociar o signo da formas de comunica\u00e7\u00e3o social; iii) desligar a comunica\u00e7\u00e3o da formas da sua base material.<\/p>\n<p>Toda consci\u00eancia individual \u00e9 ideol\u00f3gica, para Bakhtin (1981), com o processo de interioriza\u00e7\u00e3o ela absorve o signo como sendo seu, mesmo assim a fonte n\u00e3o se encontra na consci\u00eancia individual.<\/p>\n<p>O signo reflete a realidade e a realidade se refrata no signo, ou seja, n\u00e3o se trata de uma rela\u00e7\u00e3o exata, a determina\u00e7\u00e3o do grau de refra\u00e7\u00e3o (distor\u00e7\u00e3o) da realidade no signo \u00e9 produto da intera\u00e7\u00e3o social, nas sociedade de classe, a luta de classes. Como a comunidade semi\u00f3tica n\u00e3o pode se resumir \u00e0 classe, diferentes classes utilizam a mesma l\u00edngua, portanto o signo implica certo consenso e certa contradi\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo, pois expressa uma realidade contradit\u00f3ria. O signo n\u00e3o escapa \u00e0 luta de classe e \u00e9 uma arena de disputa, conforme Bakhtin (1981). A classe dominante tende a apresentar o signo ideol\u00f3gico como acima dos interesses de classe a fim de ocultar tais interesses, buscando o consenso em torno de seus pr\u00f3prios interesses, esterilizando o campo simb\u00f3lico a fim de torn\u00e1-lo monovalente. A realidade oculta no signo s\u00f3 se revela abertamente em tempos de crise social e situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode confundir o psicol\u00f3gico com o individual e o social com o ideol\u00f3gico, pois o processo de pensamento individual \u00e9 por sua vez s\u00f3cio-ideol\u00f3gico e portanto o psiquismo individual \u00e9 igualmente social, tanto quanto a ideologia. O social est\u00e1 contraposto n\u00e3o ao indiv\u00edduo, mas sim ao natural, segundo Bakhtin (1981). A ideologia por sua vez carrega a marca da individualidade criadora, mesmo assim esta marca \u00e9 t\u00e3o social quanto os signos distintos das diversas manifesta\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas, ou seja, a individualidade \u00e9 social.<\/p>\n<p>Em resumo, n\u00e3o se pode avaliar o comportamento violento fora do contexto social no qual ele \u00e9 produzido. O comportamento violento \u00e9 resultado de condi\u00e7\u00f5es sociais, mediado pelo campo simb\u00f3lico (ideol\u00f3gico).<\/p>\n<p>A repress\u00e3o n\u00e3o apenas \u00e9 inaceit\u00e1vel como in\u00fatil \u00e0 solu\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia urbana, por n\u00e3o atacar a raiz do problema e sim a sua manifest\u00e7\u00e3o! A solu\u00e7\u00e3o para a viol\u00eancia \u00e9 a garantia universal de direitos b\u00e1sicos que tornam desnecess\u00e1rio o comportamento violento.<\/p>\n<p>Em contextos din\u00e2micos, tanto no caso de realidades sociais onde se passa de um estado de direitos generalizados para situa\u00e7\u00e3o de perda, quanto no caso inverso, comportamentos cristalizados podem oferecer resist\u00eancia, exigindo media\u00e7\u00f5es. Mesmo considerando tais cristaliza\u00e7\u00f5es, em casos como o Brasil, a repress\u00e3o al\u00e9m de inaceit\u00e1vel e in\u00fatil, \u00e9 tamb\u00e9m promotora da viol\u00eancia e acaba por agravar o problema a ponto da pr\u00f3pria ONU solicitar a extins\u00e3o do aparato repressivo Pol\u00edcia Militar.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o para a viol\u00eancia \u00e9 a universaliza\u00e7\u00e3o de direitos!<\/p>\n<p><em>*Dario da Silva \u00e9 economista pela Universidade Federal de Santa Maria \u2013 UFSM, mestrando em Patrim\u00f4nio Cultural pela mesma universidade e membro do Comit\u00ea Central do Partido Comunista Brasileiro \u2013 PCB.<\/em><\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n<p>BAKHTIN, Mikhail. <em><strong>Marxismo e Filosofia da Linguagem<\/strong><\/em>. Editora Hucitec, 2<sup>a<\/sup> edi\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo, 1981.<\/p>\n<p>VIGOTSKY, Lev Semenovich. <em><strong>A Forma\u00e7\u00e3o Social da Mente: O Desenvolvimento dos Processos Psicol\u00f3gicos Superiores<\/strong><\/em>. Org. Michael Cole, Vera John-Steiner, Sylvia Scribner e Ellen Souberman. Martins Fontes, 7<sup>a<\/sup> ed., 2007.<\/p>\n<p>VIGOTSKY, Lev Semenovich. <em><strong>Pensamento e Linguagem<\/strong><\/em>. Martins Fontes, 4<sup>a<\/sup> ed., S\u00e3o Paulo, 2008.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nDario da Silva*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5872\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-5872","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1wI","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5872","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5872"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5872\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5872"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5872"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5872"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}