{"id":5929,"date":"2014-03-01T22:00:54","date_gmt":"2014-03-01T22:00:54","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5929"},"modified":"2014-03-01T22:00:54","modified_gmt":"2014-03-01T22:00:54","slug":"caracazzo-e-a-unidade-civico-militar-na-venezuela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5929","title":{"rendered":"Caracazzo e a unidade c\u00edvico-militar na Venezuela"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Hugo Ch\u00e1vez<\/em><\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 25 anos,\u00a0\u00a0num 27 de fevereiro de 1989, o ent\u00e3o presidente da Venezuela, Carlos Andr\u00e9s Perez, lan\u00e7ou um pacote neoliberal\u00a0\u00a0explosivo aumentando drasticamente o pre\u00e7o da gasolina e dos alimentos. O povo de Caracas se rebela, sai \u00e0s ruas,\u00a0\u00a0saqueia supermercados, lojas de roupas, a\u00e7ougues. Perez d\u00e1 ordens para o ex\u00e9rcito reprimir com vigor. Centenas de cidad\u00e3os s\u00e3o mortos. O n\u00famero exato ainda est\u00e1 por ser calculado, pois muitos foram enterrados em valas comuns ou atirados nos lix\u00f5es da cidade.<\/p>\n<p>Quando tive a oportunidade entrevistar o presidente Ch\u00e1vez, no Pal\u00e1cio de Miraflores, ele\u00a0\u00a0contou\u00a0\u00a0que estava em servi\u00e7o e soube quando a ordem de reprimir\u00a0\u00a0foi dada e as tropas lan\u00e7aram-se\u00a0\u00a0pelos bairros pobres,\u00a0\u00a0esmagando sem d\u00f3 nem piedade a rebeli\u00e3o, conhecida com o nome de\u00a0<strong>Caracazzo<\/strong>.\u00a0\u00a0Ch\u00e1vez dizia\u00a0\u00a0que o Caracazzo foi o estopim, a alavanca , o encorajamento fundamental para que o movimento militar bolivariano, cuja constru\u00e7\u00e3o liderava dentro dos quart\u00e9is de toda a na\u00e7\u00e3o, se decidira a agir. Aquela repress\u00e3o havia provocado nas fileiras progressistas e nacionalistas militares muito mais do que uma indigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>47 segundos versus 10 anos<\/strong><\/p>\n<p>Quase tr\u00eas anos depois, em 4 de fevereiro de 1992, Ch\u00e1vez comandava uma\u00a0\u00a0insurrei\u00e7\u00e3o militar\u00a0\u00a0que pretendia colocar um fim no governo neoliberal e corrupto de Andr\u00e9s Peres e, com o apoio popular, convocar uma Assembleia Nacional Constituinte.\u00a0\u00a0Do ponto de vista militar, a insurrei\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi vitoriosa. Dialeticamente, foi vitoriosa do ponto de vista\u00a0\u00a0pol\u00edtico.\u00a0\u00a0Hugo Ch\u00e1vez\u00a0\u00a0comandou\u00a0\u00a0a rendi\u00e7\u00e3o para poupar vidas, entregou -se,\u00a0\u00a0e foi\u00a0\u00a0preso. Na pris\u00e3o, transforma-se no homem mais popular da Venezuela. O povo venezuelano identificou naqueles poucos segundos em que Ch\u00e1vez usou a cadeia de r\u00e1dio e TV\u00a0\u00a0&#8211;\u00a0\u00a0exig\u00eancia para a rendi\u00e7\u00e3o\u00a0\u00a0\u00a0&#8211;\u00a0\u00a0que aquele homem, meio negro e meio \u00edndio,\u00a0\u00a0era um dos seus, que falava sua l\u00edngua, representava seus anseios largamente reprimidos. Tanto assim que longas filas, diariamente, se formaram\u00a0\u00a0para visitar a Ch\u00e1vez na pris\u00e3o. Gente prolet\u00e1ria, sofrida, humilde, que tinha tido a objetividade hist\u00f3rica de compreender que ali estava preso o seu l\u00edder, enquanto os intelectuais pedantes discutiam,\u00a0\u00a0interminavelmente,\u00a0\u00a0se\u00a0\u00a0Ch\u00e1vez era um populista, um golpista, um autorit\u00e1rio ou\u00a0\u00a0um militaresco\u00a0\u00a0fascista.<\/p>\n<p>Certa vez, em debate com um dirigente do Partido Comunista Espanhol, em Madrid, escutei-o dizer que s\u00f3 depois do golpe de 2002, ele tivera certeza de que Ch\u00e1vez era de esquerda. Contra argumentando, assinalei que enquanto ele tinha levado 10 anos para entender a fun\u00e7\u00e3o hist\u00f3ria de Ch\u00e1vez,\u00a0\u00a0o\u00a0\u00a0povo venezuelano levara apenas 47 segundos para compreend\u00ea-lo , tempo exato\u00a0\u00a0daquela declara\u00e7\u00e3o do l\u00edder da insurrei\u00e7\u00e3o bolivariana por cadeia para render-se, \u201cpor ahora\u201d.<\/p>\n<p>O Caracazzo pariu a Insurrei\u00e7\u00e3o de 4 de Fevereiro de 1992. Mas, \u00e9 chocante observar, ainda hoje,\u00a0\u00a0a infinita hipocrisia dos meios de comunica\u00e7\u00e3o internacionais e dos governos que os controlam ou manipulam,\u00a0\u00a0diante da crise atual da Venezuela.\u00a0\u00a0Quando o governo venezuelano de 1989 mandou reprimir e matou a rodo\u00a0\u00a0populares nas ruas de Caracas\u00a0\u00a0\u00a0&#8211;\u00a0\u00a0\u00a0Ch\u00e1vez insistia sempre que eram milhares os mortos\u00a0\u00a0\u00a0&#8211;\u00a0\u00a0\u00a0esta m\u00eddia que faz o maior estardalha\u00e7o sobre uma inexistente guerra civil na Venezuela hoje, na \u00e9poca, n\u00e3o fez nenhum esc\u00e2ndalo diante da matan\u00e7a aos olhos de todos, nas ruas caraquenhas.\u00a0\u00a0Tampouco os governos ,\u00a0\u00a0como o dos Estados Unidos, que lan\u00e7am c\u00ednicos comunicados de \u201cpreocupa\u00e7\u00e3o com os direitos humanos na Venezuela\u201d, na\u00a0\u00a0\u00e9poca ,\u00a0\u00a0foram os patrocinadores do pacote neoliberal de Carlos Andr\u00e9s Perez, fizeram o mais criminoso sil\u00eancio. O sil\u00eancio da cumplicidade com aquela matan\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Maldito seja&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>O Caracazzo foi uma rebeli\u00e3o popular\u00a0\u00a0que levou a uma li\u00e7\u00e3o fundamental para os militares revolucion\u00e1rios que se organizavam em torno de Ch\u00e1vez, entre eles o Embaixador da Venezuela no Brasil, Almirante Diego Molero. E a li\u00e7\u00e3o era a aplica\u00e7\u00e3o de uma\u00a0\u00a0das frases de Bol\u00edvar mais repetidas pelo pr\u00f3prio Ch\u00e1vez, linha de princ\u00edpio do movimento que, depois de anos de prepara\u00e7\u00e3o pol\u00edtica doutrin\u00e1ria, preparava-se para agir: \u201cMaldito seja o soldado que aponta seu fuzil contra seu pr\u00f3prio povo!\u201d<\/p>\n<p>Por\u00e9m, a linha doutrin\u00e1ria, program\u00e1tica, ia muito mais al\u00e9m. Recuperava e atualizava o Simon Bol\u00edvar integracionista, reformador social, criando\u00a0\u00a0outra concep\u00e7\u00e3o para o papel dos militares: a integra\u00e7\u00e3o latino-americana, a unidade c\u00edvico-militar e a sustenta\u00e7\u00e3o pela via democr\u00e1tica, por\u00e9m de armas nas m\u00e3os, do processo de mudan\u00e7as em busca de justi\u00e7a social. Afinal, a Venezuela, um pa\u00eds t\u00e3o rico, possu\u00eda 85 por cento de pobres e miser\u00e1veis, uma maioria de analfabetos, favelas desumanas por todos os lados, enquanto sua burguesia era conhecida por ser uma das maiores consumidoras de\u00a0\u00a0caviar e champanhe do mundo, perdendo apenas para\u00a0\u00a0burguesia francesa.<\/p>\n<p>Hoje, 25 anos depois do Caracazzo, j\u00e1 podemos contabilizar os frutos na Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana, mesmo assediada, atacada, sabotada, golpeada por mais de 15 anos. O pa\u00eds de Bol\u00edvar n\u00e3o tem mais analfabetos, diz a Unesco. Diz a FAO que houve redu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica da desnutri\u00e7\u00e3o e da fome no pa\u00eds. Os trabalhadores j\u00e1 possuem uma lei trabalhista moderna\u00a0\u00a0e foram\u00a0\u00a0universalizados\u00a0\u00a0os direitos previdenci\u00e1rios.\u00a0\u00a0L\u00e1 se paga\u00a0um dos maiores sal\u00e1rios m\u00ednimos da Am\u00e9rica Latina, comparativamente falando. E, pela primeira vez\u00a0\u00a0na hist\u00f3ria do pa\u00eds, o petr\u00f3leo, que enriqueceu\u00a0\u00a0por d\u00e9cadas uma camarilha insens\u00edvel e corrupta, agora tem a sua receita aplicada na constru\u00e7\u00e3o de moradias, de universidades bolivarianas, na sustenta\u00e7\u00e3o do ensino p\u00fablico gratuito, na instala\u00e7\u00e3o de milhares de postos de sa\u00fade, com presen\u00e7a\u00a0\u00a0de mais 23 mil m\u00e9dicos cubanos, o que reduziu tremendamente a mortalidade infantil.<\/p>\n<p>Claro que a Venezuela tem muitos outros\u00a0\u00a0desafios a superar, a come\u00e7ar pela economia rentista do petr\u00f3leo, como disse hoje, em Bras\u00edlia, o Chanceler Bolivariano, Elias Jaua, bem como enfrentar a criminalidade, que, ali\u00e1s, n\u00e3o \u00e9 problema exclusivo venezuelano.\u00a0\u00a0Ele informou sobre os focos de viol\u00eancia orquestrados por pequenos grupos de agentes provocadores , com apoio do\u00a0\u00a0exterior. Enquanto a Venezuela possui 325 munic\u00edpios, as a\u00e7\u00f5es violentas registraram-se em apenas 18 localidades de todo o pa\u00eds. Reveladora \u00e9 a informa\u00e7\u00e3o de que os atos violentos ocorrem centralmente nos bairros mais\u00a0\u00a0ricos. Mais reveladora ainda, da condi\u00e7\u00e3o de classe desses jovens de fam\u00edlias ricas que agem violentamente, \u00e9 que optaram por queimar um caminh\u00e3o do sistema Mercal, um sistema estatal de distribui\u00e7\u00e3o de alimentos a baixo custo. Queimaram, mas n\u00e3o saquearam os alimentos. Ou seja, o motivo n\u00e3o era a fome, mas apenas queimar, destruir.<\/p>\n<p><strong>Militares progressistas<\/strong><\/p>\n<p>As manifesta\u00e7\u00f5es pac\u00edficas s\u00e3o permitidas e a oposi\u00e7\u00e3o, caso queira,\u00a0\u00a0pode recorrer\u00a0\u00a0ao instrumento\u00a0\u00a0da revogabilidade de mandatos, contido na Constitui\u00e7\u00e3o Bolivariana, uma das mais avan\u00e7adas do mundo, para tentar retirar Maduro pela vida legal. Mas, se o objetivo \u00e9 exigir, sem base nem fundamento, a ren\u00fancia do Presidente Nicol\u00e1s Maduro, e por meio de inc\u00eandios, instala\u00e7\u00e3o de linhas de nylon cortantes nas ruas dos bairros mais chiques, o que j\u00e1 provocou a degola de motociclistas, evidentemente, estes grupos\u00a0\u00a0v\u00e3o se defrontar com aquilo que talvez seja uma das mais importantes obras de Ch\u00e1vez: a unidade c\u00edvico-militar. Os militares bolivarianos possuem\u00a0<strong>outra consci\u00eancia<\/strong>, enriquecida e temperada\u00a0\u00a0na experi\u00eancia da Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos, de Portugal, no governo antiimperailista de Velasco Alvarado, no Peru, no exemplo do governo socialista do capit\u00e3o Thomas Sankara, o Che Guevara africano, de Burkina Fasso, experi\u00eancias em que os militares atuaram sempre ao lado do povo,\u00a0\u00a0sustentando um processo revolucion\u00e1rio, transformador, como ferramenta estrat\u00e9gica.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o eixo que d\u00e1 suporte e mant\u00e9m de p\u00e9 a Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana at\u00e9 hoje, enfrentando todas as a\u00e7\u00f5es de desestabiliza\u00e7\u00e3o\u00a0\u00a0emanadas pela Casa Branca, ecoadas\u00a0\u00a0pela m\u00eddia internacional. Assim, \u00e9\u00a0\u00a0muito explicativo observar\u00a0\u00a0que a m\u00eddia brasileira, especialmente aquela que apoiou o golpe militar de 64 no Brasil,\u00a0\u00a0e, tamb\u00e9m, o golpe derrotado contra Ch\u00e1vez, em 2002, esteja agora tentando fazer crer que exista\u00a0\u00a0uma convuls\u00e3o social na Venezuela. E que ontem, data dos 25 anos do Caracazzo que pariu a Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana,\u00a0\u00a0nada tenha dito daquela rebeli\u00e3o, quando,\u00a0\u00a0apoiou n\u00e3o apenas o pacote de amargas medidas neoliberais, mas, tamb\u00e9m, a sangrenta matan\u00e7a que hoje est\u00e1 sendo apurada por uma esp\u00e9cie de comiss\u00e3o da verdade de l\u00e1.<\/p>\n<p><strong>Beto Almeida<\/strong><\/p>\n<p><strong>Membro do Diret\u00f3rio da Telesur<\/strong><\/p>\n<p><strong>28.02.2014<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\u201cA Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana \u00e9 pac\u00edfica,\u00a0\u00a0pero armada\u201d\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5929\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[45],"tags":[],"class_list":["post-5929","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c54-venezuela"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1xD","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5929","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5929"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5929\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5929"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5929"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5929"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}