{"id":5948,"date":"2014-03-08T09:12:14","date_gmt":"2014-03-08T09:12:14","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5948"},"modified":"2014-03-08T09:12:14","modified_gmt":"2014-03-08T09:12:14","slug":"um-ano-sem-chavez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5948","title":{"rendered":"Um ano sem Ch\u00e1vez"},"content":{"rendered":"\n<p>A direita, articulada como nunca em escala mundial por obra e gra\u00e7a do fenomenal poder midi\u00e1tico estadunidense, acreditava que com a morte do l\u00edder bolivariano, o chavismo acabaria. Em sua vulgaridade intelectual seus partid\u00e1rios reciprocamente se consolavam quanto suas derrotas latino-americanas, dizendo que \u201cmorto o cachorro se acaba a raiva\u201d. Por\u00e9m, at\u00e9 agora a hist\u00f3ria tem sido mesquinha com seus anseios. A \u201craiva\u201d dos povos n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno passageiro, mas a consequ\u00eancia da iniquidade, desigualdade e opress\u00e3o que o capitalismo segrega incessantemente nestas terras como em qualquer outro lugar. S\u00f3 que em Nossa Am\u00e9rica a raiva uniu-se com uma bicenten\u00e1ria tradi\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-intelectual emancipacionista, antiolig\u00e1rquica e anti-imperialista que n\u00e3o est\u00e1 ausente por completo em outras partes do chamado costumeiramente de Terceiro Mundo, mas que se apresenta firme num punhado de pa\u00edses, sem d\u00favida, sem a for\u00e7a e longevidade evidenciadas na Am\u00e9rica Latina e no Caribe. Tradi\u00e7\u00e3o que se personifica nas figuras gigantescas de Bol\u00edvar e Mart\u00ed, em ambos extremos do s\u00e9culo dezenove e que continua com uma longa lista \u2013 que n\u00e3o podemos reproduzir aqui \u2013, que arrancando com Sim\u00f3n Rodr\u00edguez, Miranda, San Mart\u00edn, Artigas, Bilbao, Hostos, Betances e tantos outros, passaria tempos depois por Mari\u00e1tegui e Mella at\u00e9 chegar a Bosch, Che e Fidel. Desse feliz encontro entre a \u201craiva\u201d e uma vener\u00e1vel tradi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica brotaram os ventos emancipacionistas que percorrem nossa geografia desde come\u00e7os do s\u00e9culo, impulsionados por essa verdadeira for\u00e7a desatada da natureza que foi Hugo Ch\u00e1vez.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Ventos que diminu\u00edram sua intensidade, mas que continuam soprando. Por isso Nicol\u00e1s Maduro venceu as elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 14 de abril de 2013 por 1,5% do voto popular, ainda que Barack Obama insista em sua necessidade de desconhecer sua vit\u00f3ria. \u00c9 preciso lembrar ao ocupante da Casa Branca que nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de seu pr\u00f3prio pa\u00eds, em 1960, John F. Kennedy ganhou por uma diferen\u00e7a de 0,1%: 49,7 versus 49,6 de Richard Nixon. E nas elei\u00e7\u00f5es de 2000, George W. Bush ganhou com 47,9% de Al Gore, que obteve 48,4. Por\u00e9m, o irm\u00e3o de Bush, John Ellis (a) \u201cJeb\u201d, ent\u00e3o governador do estado da Fl\u00f3rida, tra\u00e7ou uma escandalosa artimanha jur\u00eddica que permitiu George W. vencesse no estado (onde havia sido derrotado por Gore) e, assim, levasse os votos eleitorais da Fl\u00f3rida, com o qual conseguiu a maioria no col\u00e9gio eleitoral que o consagrou presidente.<\/p>\n<p>A derrota de 14 de abril mergulhou a direita venezuelana numa grande decep\u00e7\u00e3o. Encorajada pelo sil\u00eancio da Casa Branca, decidiu desconhecer o resultado das urnas, denunciar uma suposta fraude eleitoral e lan\u00e7ar, atrav\u00e9s de Henrique Capriles, um intenso motim (antes: o golpe de abril de 2002, depois a greve petroleira). Essa tentativa criminosa produziu uma dezena de v\u00edtimas fatais e enormes danos materiais. Ante a inconsist\u00eancia das den\u00fancias de fraude, depois que extensas auditorias certificaram a honestidade das elei\u00e7\u00f5es, os Estados Unidos e seus parceiros locais lan\u00e7aram uma campanha de desestabiliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica: desabastecimentos programados, sincronizados e ac\u00famulo de artigos de primeira necessidade; corrida contra o Bol\u00edvar e desenfreio especulativo dos pre\u00e7os foram os tr\u00eas pontos da sabotagem econ\u00f4mica, tal como recomenda Eugene Sharp em seus manuais para o \u201cgolpe suave\u201d. Prosseguiram com estas t\u00e1ticas, destinadas a irritar a popula\u00e7\u00e3o e a fomentar a ideia da inaptid\u00e3o ou sensibilidade governamental, at\u00e9 as elei\u00e7\u00f5es municipais de 8 de dezembro de 2014. Dando mostras de uma not\u00e1vel incapacidade para ler a conjuntura pol\u00edtica, a direita as definiu como um referendo nacional: \u201cSe o chavismo perde\u201d \u2013 diziam \u2013 \u201cMaduro deve renunciar\u201d. Em tal caso, n\u00e3o existiam raz\u00f5es para esperar at\u00e9 2016 para convocar o referendo revocat\u00f3rio contemplado pela Constitui\u00e7\u00e3o bolivariana. Por\u00e9m, longe de perder, o chavismo tirou 900.000 votos do conjunto da direita, a Mesa de Unidad Democr\u00e1tica (MUD), e quase 10% dos votos. Isto, unido ao paulatino avan\u00e7o na concretiza\u00e7\u00e3o de um dos grandes sonhos de Ch\u00e1vez: a institucionaliza\u00e7\u00e3o da CELAC, com a realiza\u00e7\u00e3o de sua Segunda C\u00fapula em Cuba, fez com que a direita internacionalizada lan\u00e7asse sem qualquer escr\u00fapulo e abra\u00e7asse sem mais a via da sedi\u00e7\u00e3o, mal dissimulada por tr\u00e1s dos meandros do direito da oposi\u00e7\u00e3o de manifestar-se pacificamente. Na realidade, este \u00faltimo \u00e9 apenas uma ilus\u00e3o para ocultar o verdadeiro projeto: derrotar Maduro, como explicitou o l\u00edder dos sediciosos, Leopoldo L\u00f3pez Mendoza, seguindo a cartilha dos \u201cdemocratas\u201d sublevados contra Gadaffi em Benghasi e os neonazistas na Ucr\u00e2nia atual. Caber\u00e1 ao governo de Maduro tra\u00e7ar uma fina linha para diferenciar a oposi\u00e7\u00e3o que respeita as regras do jogo democr\u00e1tico da que aposta na insurrei\u00e7\u00e3o e na sedi\u00e7\u00e3o. Di\u00e1logos de paz com a primeira, por\u00e9m \u2013 como ensina a jurisprud\u00eancia estadunidense \u2013 todo o rigor da lei penal para os segundos. Fazer o contr\u00e1rio n\u00e3o levaria a nada, sen\u00e3o \u00e0 propaga\u00e7\u00e3o do inc\u00eandio da subvers\u00e3o.<\/p>\n<p>Um ano ap\u00f3s sua partida, a heran\u00e7a de Ch\u00e1vez aparece dotada de uma invej\u00e1vel vitalidade: o chavismo continua sendo invenc\u00edvel nas urnas \u2013 ganhou 18 das 19 elei\u00e7\u00f5es convocadas durante seu mandato \u2013 e na P\u00e1tria Grande os processos de unidade e integra\u00e7\u00e3o que com tanto fervor e clarivid\u00eancia promovera o grande patriota latino-americano seguem em curso, avan\u00e7ando apesar de todos os obst\u00e1culos que se erigem contra eles. Da\u00ed a intensifica\u00e7\u00e3o da contraofensiva reacion\u00e1ria que concebe a luta de classes como uma guerra sem quartel e sem limites morais ou jur\u00eddicos de nenhum tipo. O objetivo imediato, urgente devido \u00e0 deteriora\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos no grande tabuleiro da geopol\u00edtica internacional, \u00e9 apoderar-se da Venezuela e de seu petr\u00f3leo, com a cumplicidade das classes e setores sociais que usufru\u00edram do despojo da renda petroleira praticado pelas grandes transnacionais durante quase todo o s\u00e9culo vinte. Gente que jamais perdoar\u00e1 Ch\u00e1vez e o chavismo de terem devolvido essa riqueza ao povo venezuelano, e que por isso se colocam a destruir a ordem constitucional. Essa \u00e9 a natureza profunda de sua reivindica\u00e7\u00e3o \u201cdemocr\u00e1tica\u201d: o petr\u00f3leo para os Estados Unidos e o governo e todo o aparato estatal para as velhas classes dominantes e seus representantes pol\u00edticos que aperfei\u00e7oaram a pilhagem durante a Quarta Rep\u00fablica. O imp\u00e9rio se monta sobre esta retr\u00f3grada ambi\u00e7\u00e3o para fazer na Venezuela o que fez no Iraque, na L\u00edbia, no Afeganist\u00e3o e agora pretende fazer na S\u00edria e na Ucr\u00e2nia. Em todos os casos, em nome da democracia, dos direitos humanos e da liberdade, bandeiras bel\u00edssimas que na boca de seus maiores transgressores se convertem numa po\u00e7\u00e3o venenosa que os povos de Nossa Am\u00e9rica n\u00e3o est\u00e3o dispostos a ingerir, tendo uma raz\u00e3o bem simples: passou um ano de sua morte, por\u00e9m Ch\u00e1vez est\u00e1 bastante vivo na consci\u00eancia de nossos povos para que estes decidam ser presos novamente ao jugo de seus exploradores.<\/p>\n<p>Dr. Atilio A. Boron<\/p>\n<p>Diretor do PLED<\/p>\n<p>Programa Latino-americano de Educa\u00e7\u00e3o \u00e0 Dist\u00e2ncia em Ci\u00eancias Sociais<\/p>\n<p>Centro Cultural de Coopera\u00e7\u00e3o &#8220;Floreal Gorini&#8221;<\/p>\n<p>Corrientes 1543 \u2013 C1042AAB \u00a0Buenos Aires, Argentina<\/p>\n<p>Telefones \u00a0(54-11) \u00a05077-8021\/22\/24<\/p>\n<p>www.centrocultural.coop\/pled<\/p>\n<p>BLOG: www.atilioboron.com.ar<\/p>\n<p>Facebook: http:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=596730002<\/p>\n<p>Twitter: http:\/\/twitter.com\/atilioboron<\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/www.atilioboron.com.ar\/2014\/03\/un-ano-sin-chavez.html<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nAtilio A. Boron\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5948\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[45],"tags":[],"class_list":["post-5948","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c54-venezuela"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1xW","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5948","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5948"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5948\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5948"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5948"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5948"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}