{"id":5962,"date":"2014-03-12T17:49:38","date_gmt":"2014-03-12T17:49:38","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5962"},"modified":"2014-03-12T17:49:38","modified_gmt":"2014-03-12T17:49:38","slug":"o-ninho-da-serpente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5962","title":{"rendered":"O ninho da serpente"},"content":{"rendered":"\n<p>Carta Maior &#8211; 08\/03\/2014<\/p>\n<p>H\u00e1 um ditado que reza que, toda vez que o capitalismo se v\u00ea amea\u00e7ado, ele sai para passear com o fascismo. A Europa mostra que n\u00e3o aprendeu nada com o passado<\/p>\n<p>H\u00e1 um velho ditado que reza que, toda vez que o capitalismo se v\u00ea amea\u00e7ado, ele sai para passear com o fascismo.<\/p>\n<p>Como um skinhead e seus pit-bulls, que pode ser por eles atacado, depois de tentar prend\u00ea-los \u00e0 for\u00e7a no canil, ao voltar para casa, b\u00eabado drogado, a Europa mostra que n\u00e3o aprendeu nada com as not\u00edcias dos jornais, nem com as li\u00e7\u00f5es do passado.<\/p>\n<p>Dirigentes europeus &#8211; e norte-americanos &#8211; tiram fotos, sorridentes, ao lado dos l\u00edderes do Partido Svoboda ucraniano, que podem ser vistos, em outras fotos, recentes, discursando em tribunas nazistas e saudando com a palma da m\u00e3o levantada.<\/p>\n<p>A cruz celta, s\u00edmbolo da supremacia branca, as su\u00e1sticas, os tr\u00eas dedos que lembram o tridente tradicional usado pelos neofascistas ucranianos, os raios assassinos das SS nazistas, destacam-se nas bandeiras e bra\u00e7adeiras portadas pela multid\u00e3o, na qual desfilam, triunfantes, membros das 22 organiza\u00e7\u00f5es neonazistas que existem no pa\u00eds, que, segundo analistas locais, s\u00e3o muito mais radicais que o \u201cSvoboda\u201d.<\/p>\n<p>As not\u00edcias que vem de Kiev d\u00e3o conta de que h\u00e1 ind\u00edcios de que os atiradores que mataram manifestantes durante os protestos, antes do golpe, teriam sido contratados pelos pr\u00f3prios neonazistas para faz\u00ea-lo. Sinagogas t\u00eam sido incendiadas nos \u00falimos meses, professores e estudantes de Yeshivas \u2013 assim como estrangeiros e homossexuais &#8211; t\u00eam sido insultados e espancados pelas ruas.<\/p>\n<p>Na Ucr\u00e2nia atual o anti-semitismo \u00e9 t\u00e3o forte, que nos \u00faltimos 20 anos, depois da derrocada da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica \u2013 que sempre protegeu os judeus como etnia \u2013 80% dos 500.000 hebreus que viviam no pa\u00eds o abandonaram, desde 1989, em um \u00eaxodo sem precedentes no p\u00f3s-guerra. Hoje, em uma popula\u00e7\u00e3o mais de 44 milh\u00f5es de habitantes, h\u00e1 menos de 70.000 judeus ucranianos.<\/p>\n<p>Se a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 amea\u00e7adora para a popula\u00e7\u00e3o judaica, \u00e9 ainda pior para os cerca de 120.000 a 400.000 ciganos que vivem na Ucr\u00e2nia, uma minoria que n\u00e3o conta com recursos para deixar o pa\u00eds, nem com um destino, como Israel, que os possa receber.<\/p>\n<p>Com a desmobiliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia e do ex\u00e9rcito, e sua substitui\u00e7\u00e3o por brigadas paramilitares compostas de v\u00e2ndalos e arruaceiros, os neonazistas t\u00eam circulado livremente pelos bairros ciganos da periferia de Kiev e de cidades do interior do pa\u00eds, insultando e agredindo. impunemente, qualquer homem, mulher, crian\u00e7a, idoso, que encontrem pela frente.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso lembrar que os roms, assim como os judeus, foram torturados e \u00a0mortos \u2013 seis milh\u00f5es de judeus e um milh\u00e3o de ciganos, pelo menos \u2013 nos campos de concentra\u00e7\u00e3o e de exterm\u00ednio nazistas, a maioria deles pelas \u00a0m\u00e3os de volunt\u00e1rios ucranianos, que serviam de \u201cguarda\u201d auxiliar para os alem\u00e3es, em lugares como Treblinka, Auschwitz e Sobibor.<\/p>\n<p>Os nazistas ucranianos n\u00e3o apenas forneceram \u00a0assassinos e torturadores para o holocausto &#8211; e a elimina\u00e7\u00e3o de prisioneiros pol\u00edticos e de homossexuais &#8211; mas tamb\u00e9m lutaram ao lado dos alem\u00e3es, por meio da sua famigerada Legi\u00e3o Ucraniana de Autodefesa e da Divis\u00e3o SS \u00a0Galitzia, contra os russos, na Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>Longe de renegar esse passado, do qual toma parte o exterm\u00ednio da pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o ucraniana \u2013 em Baby Yar, uma ravina perto de Kiev, foram massacrados, com a ajuda de soldados e policiais ucranianos, 150.000 mil civis, entre \u00a0ciganos, comunistas, e judeus ucranianos, 33.700 \u00a0 deles apenas nos dias 29 e 30 de setembro de 1941 \u2013 a direita ucraniana o venera e honra.<\/p>\n<p>No dia primeiro de agosto de 2013, com a presen\u00e7a de um padre ortodoxo, dezenas de pessoas vestindo uniformes da Waffen SS, em meio a uma profus\u00e3o de bandeiras ucranianas e de su\u00e1sticas, se encontraram na cidade de Chervone, na Ucr\u00e2nia, para honrar o \u201csacrif\u00edcio\u201d dos \u201cher\u00f3is\u201d ucranianos da Divis\u00e3o SS Galitzia.<\/p>\n<p>Os nazistas ucranianos n\u00e3o foram os \u00fanicos a combater, ao lado de Hitler, contra a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e a colaborar no exterm\u00ednio de judeus e ciganos e da sua pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O massacre de Odessa, tamb\u00e9m na Ucr\u00e2nia, de outubro de 1941, no qual morreram 50.000 judeus, foi cometido, sob \u201corganiza\u00e7\u00e3o\u201d alem\u00e3, por tropas do ex\u00e9rcito romeno, um dos diversos pa\u00edses \u00a0que participaram, como aliados do nazismo, da invas\u00e3o da URSS na Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>Entre elas, estavam, al\u00e9m da It\u00e1lia, da Espanha e da Rom\u00eania, Bulg\u00e1ria, Hungria e Eslov\u00e1quia, pa\u00edses n\u00e3o por acaso colocados &#8211; para que isso n\u00e3o viesse a acontecer de novo &#8211; sob a esfera de influ\u00eancia sovi\u00e9tica, ap\u00f3s o fim do conflito.<\/p>\n<p>Engrossada pela deteriora\u00e7\u00e3o do estado de bem-estar social, a crise econ\u00f4mica, o desemprego e a press\u00e3o migrat\u00f3ria &#8211; criada em boa parte pela pr\u00f3pria Europa com o incentivo ao terr\u00edvel pesadelo da \u201cPrimavera \u00c1rabe\u201d &#8211; a baba do racismo, do \u00f3dio contra os ciganos e os \u00e1rabes, do \u00a0antissemitismo e do anticomunismo mais arcaico e bestial, espalha-se como peste seguindo o curso de grandes rios como o Dnieper e o Dan\u00fabio, criando uma sopa densa e corrosiva, apropriada para alimentar as ovas &#8211; nunca totalmente inertes &#8211; da serpente nazista.<\/p>\n<p>Fruto de uma na\u00e7\u00e3o multi\u00e9tnica, que estabelece seu passado e seu futuro na diversidade universal de sua gente, nenhum brasileiro pode ficar ao lado dos golpistas neofascistas ucranianos.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel faz\u00ea-lo, n\u00e3o apenas pelo senso comum de n\u00e3o apoiar uma gente que odeia e despreza tudo o que somos.<\/p>\n<p>Mas, tamb\u00e9m, porque n\u00e3o podemos desonrar o sangue e a mem\u00f3ria daqueles cujos ossos descansaram no solo sagrado de Pist\u00f3ia.<\/p>\n<p>De quem, em lugares como Monte Castelo e Fornovo di Taro \u2013 onde derrotamos, em um \u00fanico dia, a 148 Divis\u00e3o Wermacht e a Divis\u00e3o Bersaglieri It\u00e1lia, obtendo a rendi\u00e7\u00e3o incondicional de dois generais e de milhares de prisioneiros \u2013 combateu, \u00a0com a FEB, o bom combate.<\/p>\n<p>Dos soldados e aviadores que, com a for\u00e7a e a determina\u00e7\u00e3o de 25.700 cora\u00e7\u00f5es brasileiros, ajudaram a derrotar, naquele momento, a serpente hitleriana.<\/p>\n<p>No af\u00e3 de prejudicar e sitiar a R\u00fassia, criando problemas \u00e0 sua volta, em pa\u00edses que j\u00e1 a atacaram no passado, o que a UE n\u00e3o entendeu, ainda, \u00e9 que o que est\u00e1 em jogo na Ucr\u00e2nia n\u00e3o \u00e9 o apenas o futuro do maior pa\u00eds europeu em extens\u00e3o territorial, nem mesmo o de Putin, mas o da pr\u00f3pria Europa.<\/p>\n<p>At\u00e9 agora, o neonazismo se ressentia de um territ\u00f3rio grande e simb\u00f3lico o suficiente, do ponto de vista de uma forte liga\u00e7\u00e3o com o anticomunismo e com o nacional-socialismo, no passado, para servir de estu\u00e1rio para o ressentimento e as frustra\u00e7\u00f5es de um continente decadente e nost\u00e1lgico das gl\u00f3rias perdidas, que nunca se sentiu realmente distante, ou decididamente oposto, ao fascismo.<\/p>\n<p>Faltava um lugar, um santu\u00e1rio, onde se pudesse perseguir o mais fraco, o diferente, impunemente. Um front ideol\u00f3gico e militar para onde pudessem convergir \u2013 como volunt\u00e1rios ou simpatizantes &#8211; militantes da supremacia branca de todo o mundo.<\/p>\n<p>Um laborat\u00f3rio para a cria\u00e7\u00e3o de um novo estado, com leis, estrutura e ideologia semelhantes \u00e0s que imperavam na Alemanha h\u00e1 70 anos.<\/p>\n<p>Se, como tudo indica, os neonazistas se encastelarem no poder em Kiev, por meio de elei\u00e7\u00f5es fraudadas, ou da consolida\u00e7\u00e3o de um golpe de estado desfechado contra um governante eleito, o ninho da serpente poder\u00e1 renascer, agora, no conflagrado territ\u00f3rio ucraniano.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nMauro Santayana\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5962\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-5962","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1ya","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5962","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5962"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5962\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5962"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5962"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5962"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}