{"id":5971,"date":"2014-03-16T22:51:53","date_gmt":"2014-03-16T22:51:53","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=5971"},"modified":"2014-03-16T22:51:53","modified_gmt":"2014-03-16T22:51:53","slug":"elite-economica-que-deu-golpe-no-brasil-tinha-bracos-internacionais-diz-historiadora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5971","title":{"rendered":"Elite econ\u00f4mica que deu golpe no Brasil tinha bra\u00e7os internacionais, diz historiadora"},"content":{"rendered":"\n<p>Martina Spohr, coordenadora do CPDOC\/FGV, d\u00e1 detalhes sobre a atua\u00e7\u00e3o do alto empresariado na deposi\u00e7\u00e3o de Jango: \u201ctrabalho com a exist\u00eancia de uma elite org\u00e2nica transnacional e anticomunista\u201d<\/p>\n<p>A reportagem foi publicada por Opera Mundi, 02-03-2014.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de atuar no movimento civil-militar que conspirou e dep\u00f4s o presidente Jo\u00e3o Goulart em 1964, a elite empresarial brasileira tamb\u00e9m manteve, ao longo de todos os anos sessenta, estreito v\u00ednculo com o capital estrangeiro, numa \u201crela\u00e7\u00e3o \u00edntima\u201d com os interesses dos executivos norte-americanos. A afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 da historiadora Martina Spohr, coordenadora da \u00e1rea de Documenta\u00e7\u00e3o do CPDOC da FGV (Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas) e estudiosa do regime ditatorial que vigorou no Brasil at\u00e9 1985.<\/p>\n<p>Como muitos pesquisadores que se debru\u00e7am sobre o per\u00edodo, Martina concebe o 31 de mar\u00e7o como um golpe classista e empresarial-militar. No mestrado, &#8220;P\u00e1ginas golpistas: anticomunismo e democracia no projeto editorial do IPES (1961-1964)&#8221;, conclu\u00eddo em 2010 pela UFF (Universidade Federal Fluminense),Martina esmiu\u00e7ou o projeto editorial do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, organiza\u00e7\u00e3o fundada com o objetivo p\u00fablico de defender a &#8220;livre iniciativa&#8221; e a &#8220;economia de mercado&#8221;, mas que funcionou, na pr\u00e1tica, como um ponto de encontro de acad\u00eamicos conservadores, empres\u00e1rios e militares empenhados em desestabilizar o governo de Jo\u00e3o Goulart (1961-1964).<\/p>\n<p>No doutorado, em andamento na UFRJ (com uma bolsa-sandu\u00edche na Brown University, nos EUA), Martina aprofundou a pesquisa sobre os civis que fizeram o regime militar. Por conta de seu trabalho na chefia do setor de Documenta\u00e7\u00e3o do CPDOC\/FGV, come\u00e7ou a colecionar ind\u00edcios de que muitos dos empres\u00e1rios brasileiros que atuaram com destaque na conspira\u00e7\u00e3o pr\u00e9-64 tamb\u00e9m buscavam criar uma esp\u00e9cie de rede empresarial anticomunista com fortes la\u00e7os em todo o continente.<\/p>\n<p>Um desses homens de neg\u00f3cios era paulista, empres\u00e1rio da ind\u00fastria farmac\u00eautica. Seu acervo particular \u2014 que re\u00fane cartas, recortes de jornal, pap\u00e9is importantes e c\u00f3pias de grande parte da documenta\u00e7\u00e3o do extinto Ip\u00eas-SP \u2014 foi doado, pelos herdeiros, ao CPDOC\/FGV, que tradicionalmente trabalha com a organiza\u00e7\u00e3o e a preserva\u00e7\u00e3o de arquivos particulares da elite brasileira. Esse material, tratado por Martina, faz parte do rol de fontes prim\u00e1rias que comp\u00f5em a pesquisa provisoriamente intitulada \u201cElite org\u00e2nica transnacional: a rede de rela\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-empresarial anticomunista entre Brasil e Estados Unidos (1961-1968)\u201d.<\/p>\n<p>\u201cTrabalho com a exist\u00eancia de uma elite org\u00e2nica transnacional, que n\u00e3o estava s\u00f3 no Brasil e tinha seus bra\u00e7os internacionais. Personagens importantes do empresariado latino-americano estavam de alguma maneira envolvidos com norte-americanos\u201d, afirma Martina, explicando que foi a partir de Paulo Ayres Filho, anticomunista ferrenho e um dos fundadores do Ip\u00eas, que p\u00f4de come\u00e7ar a mapear essa rede.<\/p>\n<p>Prendeu em particular a aten\u00e7\u00e3o da pesquisadora uma s\u00e9rie de correspond\u00eancias \u201cde cunho bastante pessoal, chegando mesmo a ser \u00edntimo\u201d, entre Ayres Filho e David Rockefeller, multimilion\u00e1rio e magnata do petr\u00f3leo. David e seu irm\u00e3o Nelson (vice-presidente dos EUA de 1974 a 1977) eram dois dos maiores entusiastas da Alian\u00e7a para o Progresso, projeto pol\u00edtico que sintetizava os interesses dessa \u201celite org\u00e2nica transnacional\u201d: um programa anticomunista de integra\u00e7\u00e3o regional levado a cabo pelos EUA no auge da Guerra Fria para lutar contra o que seus defensores chamavam de \u201ccubaniza\u00e7\u00e3o\u201d do continente.<\/p>\n<p>Paulo Ayres Filho teve atua\u00e7\u00e3o destacada em um importante epis\u00f3dio que evidenciava o elo entre os altos capitalistas do continente. Em 1963, evento sediado em Nova York proporcionou um encontro informal de empres\u00e1rios das Am\u00e9ricas, congregando 67 homens de neg\u00f3cios de 11 pa\u00edses do continente. Na ocasi\u00e3o, cinco executivos brasileiros \u2014 quase todos importantes lideran\u00e7as do Ip\u00eas \u2014 puderam estabelecer contato com os altos escal\u00f5es da pol\u00edtica e da economia dos Estados Unidos. Paulo Ayres Filho foi um deles. E o principal, diga-se: foi escolhido porta-voz do grupo de latino-americanos para encontrar pessoalmente o presidente John F. Kennedy.<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso, um dos temas preferidos pelos norte-americanos no encontro foi justamente a discuss\u00e3o da Alian\u00e7a para o Progresso. Na documenta\u00e7\u00e3o analisada, Martina Spohr p\u00f4de constatar que os empres\u00e1rios dos EUA tinham grande interesse em tornar o projeto conhecido (de maneira positiva, obviamente) no Brasil. Por outro lado, os brasileiros aproveitaram o ensejo para criticar certos aspectos da pol\u00edtica externa econ\u00f4mica dos Estados Unidos que prejudicavam seus interesses comerciais.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, em entrevistas concedidas a jornais ap\u00f3s a volta para o Brasil, tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel perceber \u201cuma certa milit\u00e2ncia pol\u00edtica dos empres\u00e1rios brasileiros\u201d. Uma tentativa, conforme explica Martina, de \u201cconscientizar\u201d a elite econ\u00f4mica brasileira, que se sentia \u201camea\u00e7ada\u201d pelo contexto pol\u00edtico do pa\u00eds. \u201cEles estavam chamando o empresariado a participar do processo. E os norte-americanos incentivavam esse tipo de discurso\u201d, afirma a historiadora.<\/p>\n<p>A pesquisa desenvolvida por Martina, entretanto, n\u00e3o fica restrita \u00e0 atua\u00e7\u00e3o dos empres\u00e1rios brasileiros na conspira\u00e7\u00e3o que culminou com a derrubada de Jo\u00e3o Goulart. At\u00e9 1968 \u2014 ano que marca a radicaliza\u00e7\u00e3o da ditadura brasileira com a edi\u00e7\u00e3o do AI-5, a chegada da linha dura ao poder e o consequente afastamento de muitos dos setores liberais que haviam apoiado o golpe \u2014, Paulo Ayres Filho recorrentemente viajaria aos EUA para palestrar nas principais universidades do pa\u00eds, \u201ccom o objetivo de trazer algum tipo de legitimidade para o novo governo do Brasil\u201d.<\/p>\n<p>Apesar do apoio norte-americano, parcelas do establishment internacional estavam questionando o regime brasileiro pelo rompimento institucional e inconstitucional que representou o golpe de 64 e a tomada do poder pela for\u00e7a. \u201cHavia uma busca desse empresariado para tentar justificar a \u2018revolu\u00e7\u00e3o\u2019. E n\u00e3o s\u00f3 nos EUA; eles tamb\u00e9m foram para pa\u00edses como Alemanha e Fran\u00e7a\u201d, assinala Martina Spohr.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/529078-elite-economica-que-deu-golpe-no-brasil-tinha-bracos-internacionais-diz-historiadora\" target=\"_blank\">http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/529078-elite-economica-que-deu-golpe-no-brasil-tinha-bracos-internacionais-diz-historiadora<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/5971\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-5971","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1yj","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5971","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5971"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5971\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5971"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5971"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5971"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}