{"id":6011,"date":"2014-03-24T00:50:58","date_gmt":"2014-03-24T03:50:58","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6011"},"modified":"2017-08-24T23:57:12","modified_gmt":"2017-08-25T02:57:12","slug":"as-mortes-que-nao-o-mataram","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6011","title":{"rendered":"As mortes que n\u00e3o o mataram"},"content":{"rendered":"\n<p>Mataram-no tantas vezes\u2026 Por\u00e9m, depois de cada morte reaparecia sempre, com a carabina nas m\u00e3os, disparando entre a fuma\u00e7a o seu certeiro fogo pol\u00edtico. Matavam-no com os fuzis do desejo e o ensurdecedor chicotear dos linotipos, transpassados por um disparo; mortalmente ferido no peito, em combate com tropas regulares; destro\u00e7ado por uma granada num choque de encontro\u2026, que morreu sangrando, abandonado por seus homens. Por\u00e9m, nunca mostraram o cad\u00e1ver.<\/p>\n<p>\u201cOuvi minhas mortes, basicamente, pelo r\u00e1dio\u201d \u2013 dizia Marulanda. \u201cN\u00e3o podem matar uma pessoa todos os dias com disparos de palavras. Claro que essas mortes de mentira n\u00e3o passam de propaganda. Por\u00e9m, n\u00e3o se pode enganar o povo por toda a vida. Talvez esse tipo de not\u00edcia tenha explica\u00e7\u00e3o num sentido psicol\u00f3gico dirigido \u00e0s tropas e \u00e0s massas. O problema dessa t\u00e1tica \u00e9 que agora eles t\u00eam que nos ver fazendo declara\u00e7\u00f5es ante a imprensa e a televis\u00e3o, bem vivos, e n\u00e3o mortos como sempre quiseram nos ver\u201d.<\/p>\n<p>No entanto, apesar destas considera\u00e7\u00f5es, voltaram a mat\u00e1-lo nas manchetes da imprensa. Como n\u00e3o conseguiram mat\u00e1-lo com todos os operativos, nem com os bombardeios da avia\u00e7\u00e3o, nem com o fogo mortal dos cercos militares, imaginaram sua morte num ataque surpresa de congas (formigas selvagens) nas selvas do Caquet\u00e1. Para um conhecedor destas formigas gigantes, a vers\u00e3o do di\u00e1rio \u201cEl Tiempo\u201d de Bogot\u00e1 n\u00e3o podia ser de todo absurda. Se a picada de apenas uma, al\u00e9m da terr\u00edvel dor, provoca ondas de febre, paralisia, espasmos e desejo de morte, um ataque em massa, como geralmente \u00e9 o das congas, seria a agonia e, tamb\u00e9m, a morte.<\/p>\n<p>Dizia \u201cEl Tiempo\u201d, da fam\u00edlia Santos, que, depois de v\u00e1rios dias de peregrina\u00e7\u00e3o pelas selvas in\u00f3spitas do sul, carregado algumas vezes numa rede e outras numa maca, Marulanda tinha morrido sob o manto verde, imerso na vis\u00e3o de sua entrada triunfal em Bogot\u00e1 \u00e0 frente de suas tropas guerrilheiras. Por\u00e9m, essa hist\u00f3ria despareceu no estrondo dos combates do sul, do oriente e do noroeste\u2026 Todos souberam que continuava vivo quando reapareceu falando de paz e da troca de prisioneiros. A guerrilha tinha em seu poder 500 militares e policiais capturados em combate.<\/p>\n<p>A \u00faltima vez que viram Marulanda foi naquela tarde de fogo do Cagu\u00e1n, nas sequ\u00eancias dos di\u00e1logos de paz, quando ao despedir-se dos jornalistas que o cercavam com suas perguntas, microfones e c\u00e2meras, disse, com seu refinado humor de sempre: \u201cvou porque est\u00e1 caindo a noite e, como voc\u00eas sabem, por aqui existe muita guerrilha\u201d.<\/p>\n<p>Depois, uma cr\u00f4nica da jornalista Patricia Lara o matou. Afirmava com toda certeza e aguda intui\u00e7\u00e3o, que tinha morrido de c\u00e2ncer de pr\u00f3stata. Relatou os angustiosos e in\u00fateis esfor\u00e7os de seus companheiros de ideias e de armas por embarc\u00e1-lo num avi\u00e3o ambul\u00e2ncia que o levara at\u00e9 Cuba. Morreu tentando, disse Patricia. Morrendo de rir, Manuel Marulanda escutou a not\u00edcia.<\/p>\n<p>Permaneceram obsessivos, matando-o at\u00e9 depois de sua morte\u2026<\/p>\n<p>Desfazendo todas as d\u00favidas, o Presidente Uribe e seu Ministro da Defesa, Santos, ao tomar conhecimento da not\u00edcia difundida pelo Secretariado sobre a partida do l\u00edder em 26 de mar\u00e7o, buscando pescar vit\u00f3rias em rio revolto, como delirantes doidivanas, sa\u00edram a espalhar na m\u00eddia que Manuel Marulanda tinha sido abatido, como o disse Uribe, num bombardeio no qual foram lan\u00e7adas 250 bombas; que o tinha matado de susto, como assegurou num coment\u00e1rio ir\u00f4nico o Ministro da Defesa.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m conseguiu conceber que o lend\u00e1rio guerrilheiro, que enfrentou durante 60 anos 17 governos e todos os estados maiores das For\u00e7as Armadas oficiais, de repente tivesse morrido de susto!<\/p>\n<p>Morreu, mas n\u00e3o como queriam. O Comandante em Chefe morreu de velho, dirigindo pessoalmente seus ex\u00e9rcitos guerrilheiros no turbulento cora\u00e7\u00e3o do Plan Patriota, patrulhando a selva sob as asas da guerra de guerrilhas m\u00f3veis, sua t\u00e1tica de combate que ainda tem de ser colocada em pr\u00e1tica. Como Bol\u00edvar em Santa Marta, apenas se recostou para sonhar com o momento em que, a partir do Comando Geral, muito pr\u00f3ximo de Bogot\u00e1, dirigir\u00e1 a entrada vitoriosa de seus guerrilheiros \u00e0 capital, rodeados de povo<\/p>\n<p>(texto extra\u00eddo do livro \u201cMANUEL MARULANDA V\u00c9LEZ \u2013 o her\u00f3i insurgente da Col\u00f4mbia de Bolivar\u201d)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n(a Manuel Marulanda, falecido em 26 de mar\u00e7o de 2008)\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6011\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[34],"tags":[],"class_list":["post-6011","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c39-colombia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1yX","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6011","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6011"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6011\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6011"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6011"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6011"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}