{"id":6036,"date":"2014-03-29T17:42:49","date_gmt":"2014-03-29T17:42:49","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6036"},"modified":"2014-03-29T17:42:49","modified_gmt":"2014-03-29T17:42:49","slug":"vejam-a-entrevista-do-camarada-amadeu-felipe-membro-do-comite-central-do-pcb-e-dirigente-do-partido-no-parana-sobre-as-lutas-contra-a-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6036","title":{"rendered":"Vejam a entrevista do camarada Amadeu Felipe, membro do Comit\u00ea Central do PCB e dirigente do Partido no Paran\u00e1, sobre as lutas contra a ditadura"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Ex-comandante rev\u00ea hist\u00f3ria do 1\u00ba foco guerrilheiro contra ditadura<\/strong><\/p>\n<p><strong>Amadeu Felipe, de 78 anos, liderou guerrilheiros durante nove meses da regi\u00e3o do Parque Nacional do Capara\u00f3<\/strong><\/p>\n<p>Londrina (PR) \u2013 Da varanda de um belo apartamento \u00e0 beira do lago Camb\u00e9, no Bairro Jardim Cai\u00e7aras, um dos mais nobres da cidade da Regi\u00e3o Norte do Paran\u00e1, Amadeu Felipe, de 78 anos, se refere aos seus vizinhos como &#8220;pequenos burgueses&#8221;. Declara-se comunista e vislumbra um novo modo de produ\u00e7\u00e3o para o mundo. &#8220;A sociedade capitalista est\u00e1 contando seus dias&#8221;, crava Amadeu, que h\u00e1 47 anos tentou mudar a ordem e derrubar a ditadura militar (1964-1985) \u00e0 for\u00e7a \u2013 com armas em punho \u2013, quando comandou a Guerrilha do Capara\u00f3, na divisa entre Minas Gerais e Esp\u00edrito Santo. Quase duas dezenas de homens, a maioria militares de baixa patente, se aliaram ao ent\u00e3o governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, e financiados com dinheiro enviado pelo governo cubano, tentaram criar o primeiro foco guerrilheiro do Brasil, seguindo a cartilha de Che Guevara e os preceitos de Mao Ts\u00e9-Tung. \u00c9 esta hist\u00f3ria que o Estado de Minas conta hoje dentro da s\u00e9rie de reportagens sobre os 50 anos do golpe militar<\/p>\n<p>Amadeu \u00e9 um senhor simp\u00e1tico e apaixonado pela netinha de 5 anos, a quem ele dedica boa parte do dia. Pelo menos \u00e9 assim que a zeladora do condom\u00ednio Dolce Vita o v\u00ea. Ela n\u00e3o faz ideia do passado de Amadeu e questiona a raz\u00e3o de um rep\u00f3rter de um jornal mineiro procurar por ele antes das 9h de uma ter\u00e7a-feira. Ao ser informada laconicamente que o morador do 17\u00b0 andar \u00e9 um importante personagem da hist\u00f3ria recente do Brasil, a zeladora faz cara de espanto e quer saber a raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Do terceiro sargento no Ex\u00e9rcito do Rio Grande do Sul, que apoiou, junto de seus pares, o ent\u00e3o presidente Jo\u00e3o Goulart, em 1961, quando os militares tentaram derrubar o presidente ga\u00facho, at\u00e9 o senhor dos dias atuais, um bom peda\u00e7o da hist\u00f3ria do Brasil foi visto pelos olhos que come\u00e7am a ficar com a vis\u00e3o opaca com a chegada da catarata. Ao lado dos que lutaram pela perman\u00eancia de Jango, em 1961, Amadeu conheceu Brizola, governador do Rio Grande do Sul \u00e0 \u00e9poca e comandante da Campanha da Legalidade, que garantiu o presidente ga\u00facho no cargo, com a condi\u00e7\u00e3o de que Tancredo Neves fosse nomeado primeiro ministro. Tr\u00eas anos depois, em 1964, os militares conseguiram derrubar Jango definitivamente.<\/p>\n<p>Brizola se exilou no Uruguai e os sargentos come\u00e7aram articular para derrubar o governo militar. Juntos formaram o Movimento Nacionalista Revolucion\u00e1rio (MNR). O plano inicial era fazer um levante no Rio Grande do Sul, nos moldes do que ocorreu na Campanha da Legalidade, e, assim, retirar o poder das m\u00e3os dos ditadores.<\/p>\n<p>Na noite de 24 de dezembro de 1964 Amadeu e outros dois companheiros do Ex\u00e9rcito foram encontrar Brizola em Montevid\u00e9u. &#8220;Ele (Brizola) disse que toparia ajudar a guerrilha rural, mas a condi\u00e7\u00e3o era tentar antes o levante no Sul e tomar o Rio Grande&#8221;, recorda Amadeu. O plano dos sargentos era partir logo para a guerrilha rural, seguindo a teoria chamada de foquismo, cujo maior expoente foi Che Guevara, um dos respons\u00e1veis pelo sucesso pr\u00e1tico da tese, quando, junto de Fidel Castro e outros companheiros, derrubou a ditadura de Fulg\u00eancio Batista em Cuba, em 1959.<\/p>\n<p>O local escolhido pelos sargentos para ser a vers\u00e3o brasileira da Sierra Maestra foi a regi\u00e3o do Parque Nacional do Capara\u00f3, onde fica o Pico da Bandeira, que \u00e0 \u00e9poca ainda era considerado o mais alto do Brasil. Antes de partirem para a divisa de Minas com o Esp\u00edrito Santo, os sargentos, com Amadeu Felipe \u00e0 frente, tentaram fazer um levante no Rio Grande do Sul, conforme acordado com Brizola.<\/p>\n<p>O velho Caudilho, como Brizola ficou conhecido depois, passou os contatos que tinha na divis\u00e3o ga\u00facha do Ex\u00e9rcito e na Brigada Militar (como \u00e9 chamada a Pol\u00edcia Militar de l\u00e1) para os sargentos. Amadeu lembra que, j\u00e1 clandestino, conseguiu entrar na cadeia em que estava preso o coronel da Brigada, \u00c1tila Nunes, para conspirar. &#8220;Conversei durante uma hora com ele e com outros militares&#8221;, lembra. De acordo com Amadeu, a Brigada estava de acordo com os planos de Brizola, que al\u00e9m dos sargentos tinha apoio tamb\u00e9m dos funcion\u00e1rios dos Carris (como eram chamados os bondes) e da empresa de energia el\u00e9trica. &#8220;Pod\u00edamos parar tudo em Porto Alegre&#8221;, destaca Amadeu.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, quando faltavam 48h para o levante, acontece um fato inusitado. &#8220;Um dos oficiais da Brigada Militar com quem havia conversado e facilitou a entrada para que eu conversasse com o \u00c1tila teve uma dor de barriga nervosa e contou para a mulher, que mais que depressa entregou tudo para o comandante da Brigada&#8221;, lamenta Amadeu. &#8220;Foi um atraso. N\u00f3s ter\u00edamos conseguido, pois havia uma ades\u00e3o grande e o golpe militar estava desmoralizado&#8221;, resigna-se.<\/p>\n<p><strong>Negociador<\/strong><\/p>\n<p>O acordo feito com Brizola era primeiro tentar o levante no Rio Grande do Sul e depois partir para a guerrilha rural. Com o fracasso da insurrei\u00e7\u00e3o em terras ga\u00fachas, Brizola apoiou a ideia do foco guerrilheiro. Amadeu e os outros sargentos partiram para o Rio de Janeiro. Mais do que clandestinos depois do fracasso do levante, eles estavam com a cabe\u00e7a a pr\u00eamio e eram ca\u00e7ados pela repress\u00e3o, como destaca Amadeu. &#8220;Recebi recados para sair do pa\u00eds, pois eles n\u00e3o poupariam minha vida&#8221;, recorda.<\/p>\n<p>Na capital fluminense, Amadeu conversou com Anivanir de Souza Leite, um para-quedista que tinha fam\u00edlia em Manhumirim, na Zona da Mata mineira. Os sargentos tamb\u00e9m fizeram contatos com os militantes da Organiza\u00e7\u00e3o Revolucion\u00e1ria Marxista Pol\u00edtica Oper\u00e1ria (Polop), que j\u00e1 haviam sondado um poss\u00edvel foco de resist\u00eancia na regi\u00e3o do Capara\u00f3.<\/p>\n<p>Antes de contar os detalhes da guerrilha, que estava prestes a come\u00e7ar na narrativa, Amadeu faz uma pausa na entrevista para ir com a filha e a neta almo\u00e7ar em um restaurante self-service do bairro. A netinha v\u00ea a medalha Dinarco Reis concedida pelo Partido Comunista Brasileiro ao tio de Amadeu, hom\u00f4nimo dele, que havia sido mostrada ao rep\u00f3rter, e pede para levar a condecora\u00e7\u00e3o para a escola. O ex-guerrilheiro consente. No restaurante, Amadeu n\u00e3o almo\u00e7a e explica que \u00e9 um h\u00e1bito que adquiriu nos nove meses passados embrenhado nas matas do Capara\u00f3. Toma um caf\u00e9 da manh\u00e3 refor\u00e7ado e s\u00f3 come novamente \u00e0 noite. Faz assim h\u00e1 quase 50 anos.<\/p>\n<p>Com muita paci\u00eancia d\u00e1 comida na boca da neta, compra um picol\u00e9 para ela e segue dirigindo para deixar primeiro a filha em uma escola p\u00fablica, onde ela leciona, e depois a neta na escola religiosa comandada por freiras. Amadeu leva mais de 15 minutos dentro do col\u00e9gio e na volta explica ao rep\u00f3rter, que aguardava no carro, o motivo da demora: &#8220;Tive que negociar para pegar a medalha. A Duda (neta) estava mostrando para as amigas e a freira fez um olhar de quem n\u00e3o estava gostando muito. Medalha de comunista em col\u00e9gio de freira n\u00e3o fica bem&#8221;.<\/p>\n<p>Amadeu trocou a medalha com Duda por uma garrafa pet. A atividade do dia da escola pedia que cada crian\u00e7a levasse uma dessas garrafas vazias. Como nem na casa de Amadeu e nem na casa da filha dele bebe-se refrigerante, Duda foi de m\u00e3os vazias. Amadeu conseguiu uma na \u00faltima hora e convenceu a neta a trocar a medalha pela garrafa vazia.<\/p>\n<p>O perfil negociador, ali\u00e1s, \u00e9 uma das raz\u00f5es que levam alguns comandados de Amadeu na guerrilha do Capara\u00f3 a acus\u00e1-lo de ter acordado a rendi\u00e7\u00e3o com os militares. As vers\u00f5es dos outros guerrilheiros podem ser lidas no livro Capara\u00f3 (Editora Boitempo, 2007), escrito por Jos\u00e9 Caldas da Costa. Fato que Amadeu nega veementemente. &#8220;Quando eu vi que n\u00e3o eram camponeses e eram policiais s\u00f3 eu estava com um fuzil na m\u00e3o. Teria a chance de matar um e depois morrer. N\u00e3o ia ser s\u00f3 suic\u00eddio. Ia ser uma chacina. Eu sempre tive algo muito bom, que \u00e9 n\u00e3o perder a calma. Se n\u00e3o fosse assim n\u00e3o estar\u00edamos conversando aqui hoje&#8221;, afirma Amadeu sobre o momento em que foram presos, quando ele era o respons\u00e1vel pela guarda do acampamento.<\/p>\n<p><strong>A guerrilha<\/strong><\/p>\n<p>Entre o in\u00edcio da guerrilha e a pris\u00e3o dos oito que restaram no Capara\u00f3, no dia 1\u00ba de abril de 1967, transcorreram nove meses. Al\u00e9m dos sargentos, havia tamb\u00e9m por determina\u00e7\u00e3o do comando de Montevid\u00e9u, liderado por Brizola, marinheiros que fizeram treinamento de guerrilha em Cuba. Amadeu lembra que naquela \u00e9poca havia um plano articulado por Cuba e comandado por Brizola no Brasil de serem feitos v\u00e1rios focos guerrilheiros.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do Capara\u00f3, comandado por ele, haveria outro no Mato Grosso e um terceiro na divisa entre Maranh\u00e3o, Par\u00e1 e Goi\u00e1s (hoje Tocantins), que anos depois seria palco da Guerrilha do Araguaia, cujos guerrilheiros n\u00e3o tiveram o mesmo destino e foram mortos barbaramente pelo Ex\u00e9rcito. O plano maior, segundo Amadeu, era de uma integra\u00e7\u00e3o com o movimento guerrilheiro de Che Guevara na Bol\u00edvia, massacrado seis meses depois da queda do Capara\u00f3.<\/p>\n<p>Em meados de 1966, o governo federal estava indenizando cafeicultores do Esp\u00edrito Santo para substituir a lavoura. &#8220;Quem tinha terreno recebia o dinheiro e podia plantar, mas e o trabalhador rural? A gente via retirantes na estrada, como no Nordeste na \u00e9poca das grandes secas, indo embora para os centros urbanos&#8221;, recorda Amadeu. O contexto social da regi\u00e3o foi um dos motivos de terem escolhido o Capara\u00f3, al\u00e9m, \u00e9 claro, de n\u00e3o ser pr\u00f3ximo dos grandes centros, como Rio de Janeiro, S\u00e3o Paulo e Belo Horizonte, o que daria um pouco de trabalho para as for\u00e7as repressivas.<\/p>\n<p>Quando chegaram ao local os guerrilheiros se instalaram em um s\u00edtio arrendado da fam\u00edlia do para-quedista e aos poucos foram reconhecendo a regi\u00e3o do parque, at\u00e9 passarem a sobreviver somente na mata. O objetivo era, sempre seguindo os preceitos de Che e Mao, conhecer a regi\u00e3o como a palma da m\u00e3o, para, quando fosse necess\u00e1rio, atrair os militares que estavam no poder e derrot\u00e1-los no local. A frase de Guevara sobre criar &#8220;um, dois, tr\u00eas, v\u00e1rios Vietn\u00e3s&#8221; era uma esp\u00e9cie de mantra, uma refer\u00eancia \u00e0 derrota dos Estados Unidos na Guerra do Vietn\u00e3. Mas, as dificuldades eram grandes. O abastecimento de comida n\u00e3o era ideal e por muitas vezes chegaram a passar fome. Amadeu lembra que em uma ocasi\u00e3o comeram ovos chocos, com o pintinho j\u00e1 come\u00e7ando a se formar.<\/p>\n<p>Amadeu era o comandante, mas dependia do aval de Brizola para o momento de atacar. O contato era feito pelo n\u00facleo urbano da guerrilha, que ficava no Rio de Janeiro e cuidava do abastecimento de armas e comida, al\u00e9m de fazer o elo entre os guerrilheiros e o pol\u00edtico ga\u00facho. &#8220;O Brizola deu autonomia em termos. Ele topou a montagem da guerrilha, mas queria discutir o momento de uma atitude armada ou tomar uma cidade&#8221;, recorda Amadeu.<\/p>\n<p>O desejo dos guerrilheiros, segundo Amadeu, era tomar a cidade de Presidente Soares, hoje chamada de Alto Jequitib\u00e1, com apenas 8 mil habitantes, que \u00e0 \u00e9poca n\u00e3o passava de 6 mil. &#8220;Tomar a delegacia de pol\u00edcia, pegar o armamento, tomar o correio, o juizado, o banco, pegar os recursos e fazer um comunicado&#8221;, detalha. Por\u00e9m, o aval n\u00e3o foi dado por Brizola. &#8220;Quando o Brizola negou a tomada de Presidente Soares, o pessoal perdeu o \u00e2nimo&#8221;, acredita Amadeu.<\/p>\n<p>Para o comandante, a hist\u00f3ria poderia ter sido outra se eles tivessem tomado Presidente Soares. &#8220;Criaria um princ\u00edpio e mostraria que \u00e9 poss\u00edvel. Ter\u00edamos algumas horas para ficar como donos da cidade e depois far\u00edamos o recuo. Isso era pensado, mas o Brizola nunca concordou com a possibilidade&#8221;, lamenta. Dos 17 guerrilheiros que estiveram no Capara\u00f3 o grupo estava reduzido a oito quando a Pol\u00edcia Militar de Minas Gerais (PM) os prendeu, sem resist\u00eancia e muito fracos, pois alguns chegaram a contrair peste bub\u00f4nica.<\/p>\n<p>Todos foram presos e tamb\u00e9m outros militantes que vieram do Rio de Janeiro ap\u00f3s a queda, em busca de not\u00edcias acabaram capturados. Amadeu conta que o que salvou a vida deles, pois acredita que havia ordens do ex\u00e9rcito para execut\u00e1-los, foi uma fotografia feita por Geraldo Viola e publicada na Revista O Cruzeiro. A foto foi feita antes do embarque para Juiz de Fora, onde ficaram presos na penitenci\u00e1ria de Linhares. &#8220;O coronel da PM Jacinto Franco do Amaral ligou para a imprensa e permitiu que f\u00f4ssemos fotografados. Ele salvou a vida da gente, pois essa foto foi para o mundo todo&#8221;, acredita.<\/p>\n<p><strong>Comunista de ber\u00e7o<\/strong><\/p>\n<p>Enquanto dirige pelas ruas de Londrina, cidade com alto \u00cdndice de Desenvolvimento Humano (IDH), Amadeu conta um pouco da hist\u00f3ria do munic\u00edpio de 540 mil habitantes que adotou para viver depois que saiu da pris\u00e3o, em abril de 1971, e discorre sobre as desigualdades sociais. Nascido em Blumenau, em Santa Catarina, Amadeu \u00e9 bisneto de Herc\u00edlio Pedro da Luz, que governou Santa Catarina por tr\u00eas oportunidades entre 1894 e 1924. Foi criado pelo padastro, oficial do ex\u00e9rcito e filiado ao Partido Comunista Brasileiro. &#8220;Eu sou comunista e sou comunista desde menino. Tive o privil\u00e9gio de ser educado por um oficial de Ex\u00e9rcito que casou com minha m\u00e3e, pois meu pai morreu quando eu tinha quatro anos. Ele era do partido e me educou lendo Jorge Amado e toda a literatura comunista e me deu exemplos muitos verdadeiros&#8221;, orgulha-se Amadeu.<\/p>\n<p>O ex-guerrilheiro entende que o comunismo n\u00e3o \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o ideal e que um novo modo de produ\u00e7\u00e3o deve ser desenvolvido. &#8220;Essa nova sociedade deve ter car\u00e1ter socialista e caracter\u00edsticas humanistas&#8221;, aponta. Mesmo sem crer no comunismo como solu\u00e7\u00e3o ele se diz comunista. &#8220;\u00c9 a \u00fanica teoria que trata como quest\u00e3o clara a distribui\u00e7\u00e3o de renda de forma comum a todos. Ela j\u00e1 foi pensada, mas precisa ser aperfei\u00e7oada. Ela precisa ser aperfei\u00e7oada na pr\u00e1tica, pois \u00e9 na pr\u00e1tica que se constroem as coisas&#8221;, entende o ex-guerrilheiro.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s sair da pris\u00e3o, Amadeu se tornou s\u00f3cio de um cunhado em uma empresa de refrigera\u00e7\u00e3o e com isso criou a fam\u00edlia. Seus tr\u00eas filhos, outros dois filhos de uma irm\u00e3 que morreu jovem e mais dois enteados. &#8220;Quando eu sai da pris\u00e3o onde eu fosse eu estava queimado. Al\u00e9m disso, eu tinha duas crian\u00e7as que at\u00e9 ent\u00e3o eu n\u00e3o conhecia&#8221;, destaca. Al\u00e9m da fam\u00edlia, ele disse que se convenceu de que a possibilidade de &#8220;virar o jogo&#8221; por meios armados seria muito dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Passou a militar clandestinamente no PCB na d\u00e9cada de 1970 e em 1985 foi o candidato a deputado federal mais votado do partido no Paran\u00e1, mas n\u00e3o foi eleito. No in\u00edcio dos anos 2000 tentou ser prefeito de Londrina e na \u00faltima elei\u00e7\u00e3o se candidatou a governador do Paran\u00e1, sempre pelo PCB. &#8220;Foi mais uma afirma\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria e individual. N\u00e3o havia nem tempo de campanha e nem dinheiro&#8221;, lamenta Amadeu.<\/p>\n<p><strong>Milico<\/strong><\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1990 Amadeu foi anistiado e reintegrado \u00e0s For\u00e7as Armadas. Promovido a capit\u00e3o, ele recebe o soldo de major. O capit\u00e3o, entretanto, n\u00e3o ameniza as cr\u00edticas ao militarismo. \u00c9 a favor, inclusive, da desmilitariza\u00e7\u00e3o das pol\u00edcias militares. &#8220;O policial fardado se sente como um milico e o milico n\u00e3o \u00e9 bom conselheiro para segurar movimento. O milico \u00e9 para fazer guerra&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Sobre os movimentos que tomaram as ruas no ano passado e prometem agitar novamente durante a Copa do Mundo, Amadeu atribui os excessos \u00e0 a\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia. &#8220;A viol\u00eancia \u00e9 puxada pela pol\u00edcia. A viol\u00eancia policial \u00e9 que gera a viol\u00eancia dos movimentos. Quando voc\u00ea se acostuma a fazer viol\u00eancia para se defender voc\u00ea tamb\u00e9m faz a outra viol\u00eancia agressiva, que n\u00e3o tem sentido&#8221;, entende Amadeu.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o consegue enxergar nenhum legado positivo no que os militares deixaram para o pa\u00eds durante mais de duas d\u00e9cadas de governo. &#8220;Foi uma subordina\u00e7\u00e3o ao capital internacional terr\u00edvel&#8221;, lamenta. O ex-guerrilheiro acredita que Jango estava prestes a promover avan\u00e7os imensos para o pa\u00eds, com as reformas de base, e lembra de um epis\u00f3dio, nos dias que antecederam o golpe, quando ele, acompanhado de outros 40 sargentos, foi visitar Juscelino Kubitschek.<\/p>\n<p>&#8220;Presidente, vai haver um golpe. O senhor \u00e9 o maior interessado, pois pode ser eleito na pr\u00f3xima elei\u00e7\u00e3o&#8221;, lembra de ter dito a JK. O ex-presidente telefonou ent\u00e3o para o Amaral Peixoto (militar, um dos l\u00edderes do PSD e que havia sido ministro de JK), que era genro do Get\u00falio Vargas, e escutou do conselheiro que aquilo era apenas &#8220;papo de sargento&#8221;, recorda.<\/p>\n<p>Ao rever o passado, ap\u00f3s quase um dia de conversa, Amadeu demonstra muito orgulho de sua hist\u00f3ria. N\u00e3o guarda rancor e, ao olhar para a pr\u00f3pria imagem impressa em um livro, quando foi preso no Capara\u00f3, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o remeter \u00e0 figura de Che Guevara, \u00edcone m\u00e1ximo dos guerrilheiros e que seis meses depois seria assassinado na Bol\u00edvia, quando tentava fazer uma guerrilha naquele pa\u00eds. Pelo cabelo grande, a barba espessa e principalmente pela lend\u00e1ria frase do revolucion\u00e1rio argentino, que pode ser aplicada \u00e0 trajet\u00f3ria de Amadeu: &#8220;Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jam\u00e1s&#8221;.<\/p>\n<p>O ex-guerrilheiro faz quest\u00e3o de levar o rep\u00f3rter at\u00e9 o aeroporto, mas volta para casa sem demora, pois precisa ficar de prontid\u00e3o para sua pr\u00f3xima miss\u00e3o. A qualquer momento pode ser acionado para buscar a neta na escola.<\/p>\n<p>http:\/\/www.em.com.br\/app\/noticia\/politica\/2014\/03\/25\/interna_politica,511459\/ex-comandante-reve-historia-do-1-foco-guerrilheiro-contra-ditadura.shtml<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nDaniel Camargos\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6036\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-6036","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c56-memoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1zm","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6036","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6036"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6036\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6036"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6036"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6036"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}