{"id":6078,"date":"2014-04-04T01:19:36","date_gmt":"2014-04-04T01:19:36","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6078"},"modified":"2014-04-04T01:19:36","modified_gmt":"2014-04-04T01:19:36","slug":"o-golpe-e-a-construcao-da-dependencia-financeira-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6078","title":{"rendered":"O golpe e a constru\u00e7\u00e3o da depend\u00eancia financeira brasileira"},"content":{"rendered":"\n<p>Entrevista especial com F\u00e1bio Antonio de Campos<\/p>\n<p>&#8220;A ditadura serviu para garantir a expans\u00e3o da industrializa\u00e7\u00e3o pesada dinamizada pelo capital internacional em proveito dos diferenciais do mercado interno, estabelecidos pela elevada concentra\u00e7\u00e3o de renda que garantia a valoriza\u00e7\u00e3o \u00e0 custa da superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho\u201d, avalia o economista.<\/p>\n<p>Passados 50 anos do golpe militar que dep\u00f4s o ex-presidente Jo\u00e3o Goulart, na madrugada do dia \u00a01\u00ba de abril de 1964, pesquisadores de diferentes \u00e1reas do conhecimento tentam compreender quais raz\u00f5es fizeram com que a ditadura se mantivesse por mais de 20 anos no pa\u00eds. A economia, nesse sentido, \u201c\u00e9 fundamental para entender o alcance e os limites da ditadura como instrumento do capitalismo brasileiro\u201d, diz, \u00e0 IHU On-Line, o economista F\u00e1bio deCampos, autor da tese de doutorado A arte da conquista: o capital internacional no desenvolvimento capitalista brasileiro (1951-1992).<\/p>\n<p>Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, o professor do Instituto de Economia da Unicamp assinala que as multinacionais que atuavam no Brasil \u00e0 \u00e9poca apoiaram e financiaram o golpe, porque ele era \u201cextremamente necess\u00e1rio para dar continuidade \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o capitalista das empresas multinacionais com o mercado interno brasileiro\u201d. Segundo ele, a ditadura \u201cpermitiu a conex\u00e3o dos interesses de valoriza\u00e7\u00e3o das filiais estrangeiras com o sistema financeiro internacional. A reforma da legisla\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de retirar do marco institucional as medidas que impediam as remessas ao exterior a partir de reinvestimentos de lucro, criou novos instrumentos que liberalizavam o acesso da filial estrangeira ao endividamento externo\u201d.<\/p>\n<p>Campos esclarece que a Lei de Remessas de Lucro, como outras propostas do ex-presidente Jango, entre elas a estatiza\u00e7\u00e3o do setor energ\u00e9tico e a negocia\u00e7\u00e3o da d\u00edvida externa, bem como \u201cqualquer pol\u00edtica que fosse um pouco mais discricion\u00e1ria em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 entrada e sa\u00edda de capitais estrangeiros (investimentos, empr\u00e9stimos, remessas, repatria\u00e7\u00f5es, juros, transfer\u00eancias diversas), afetava a valoriza\u00e7\u00e3o capitalista que sustentava os interesses do complexo multinacional\u201d.<\/p>\n<p>Cr\u00edtico das interpreta\u00e7\u00f5es de que a ditadura gerou o \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d para o Brasil, Campos frisa que o \u201ccapital internacional, ao mesmo tempo que permitiu o avan\u00e7o da industrializa\u00e7\u00e3o brasileira, constituindo-se no eixo din\u00e2mico dessa expans\u00e3o, selou a alian\u00e7a imperialista entre as burguesias internacionais com suas correspondentes nativas que sempre se subordinaram a essa articula\u00e7\u00e3o. Longe de isso criar as condi\u00e7\u00f5es para autodetermina\u00e7\u00e3o do desenvolvimento nacional, acabou por sacramentar nossa depend\u00eancia externa e subdesenvolvimento\u201d. Essa alian\u00e7a tem reflexos ainda hoje e pode ser percebida no processo de desindustrializa\u00e7\u00e3o e primariza\u00e7\u00e3o da economia nacional.<\/p>\n<p>F\u00e1bio Antonio de Campos \u00e9 graduado em Ci\u00eancias Econ\u00f4micas pela Universidade Estadual Paulista J\u00falio de Mesquita Filho, mestre em Hist\u00f3ria Econ\u00f4mica e doutor em Desenvolvimento Econ\u00f4mico pela Universidade Estadual de Campinas &#8211; Unicamp.<\/p>\n<p>Hoje continua, no Instituto Humanitas Unisinos &#8211; IHU, a programa\u00e7\u00e3o do Ciclo de Estudos \u201c50 anos do Golpe de 64. Impactos, (des)caminhos, processos. A programa\u00e7\u00e3o do evento est\u00e1 dispon\u00edvel aqui.<\/p>\n<p>Confira a entrevista.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Quantas multinacionais havia no Brasil antes do golpe de 64 e como elas atuavam?<\/p>\n<p>F\u00e1bio Antonio de Campos &#8211; A presen\u00e7a de empresas multinacionais na economia brasileira data desde os tempos do Imp\u00e9rio, quando se fixaram nas \u00e1reas de utilidade p\u00fablica, transporte, finan\u00e7as, infraestrutura e atividades ligadas \u00e0 economia cafeeira. No decorrer da primeira metade do s\u00e9culo XX, novos investimentos estrangeiros se destinaram aos setores energ\u00e9tico, prim\u00e1rios, de comunica\u00e7\u00f5es e de representa\u00e7\u00e3o comercial de ind\u00fastrias manufatureiras. Mas foi na segunda metade dos anos 1950 que tivemos um marco decisivo na internacionaliza\u00e7\u00e3obrasileira, quando as empresas estrangeiras chegavam ao pa\u00eds para conquistar o mercado interno e, com isso, se constituir estrategicamente nos setores de bens de capital e de consumo dur\u00e1veis, os mais din\u00e2micos na implanta\u00e7\u00e3o e desenvolvimento da ind\u00fastria pesada brasileira. A origem desse capital foi norte-americana e europeia, e os principais investimentos se destinaram aos setores de transporte, qu\u00edmica, metal-mec\u00e2nica, materiais el\u00e9tricos, seguidos pelos setores de consultorias, com\u00e9rcio e farmac\u00eauticos.<\/p>\n<p>Mais que uma quest\u00e3o quantitativa que permitiu a economia brasileira crescer a um ritmo de \u201c50 anos em 5\u201d, emJuscelino Kubitschek \u2013 JK, e depois intensamente na ditadura militar, o que se consolidou nessa \u00e9poca com o capital internacional foi um novo nexo imperialista que articulou de forma subordinada o Estado brasileiro e os s\u00f3cios privados internos \u00e0 estrat\u00e9gia de conquista das grandes corpora\u00e7\u00f5es. Nesse momento de Guerra Fria, tal articula\u00e7\u00e3o era extremamente necess\u00e1ria para dirimir os riscos de valoriza\u00e7\u00e3o capitalista diante da amea\u00e7a sovi\u00e9tica em espa\u00e7os perif\u00e9ricos como a Am\u00e9rica Latina. Junto com a internacionaliza\u00e7\u00e3o produtiva dessa fase que alavancava a industrializa\u00e7\u00e3o brasileira, estava internalizando tamb\u00e9m um modo de vida genuinamente fordista e funcional \u00e0 domina\u00e7\u00e3o imperialista. Uma quest\u00e3o complexa, portanto, que ultrapassa em muito a linha de argumenta\u00e7\u00e3o economicista do per\u00edodo.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; O ent\u00e3o presidente Jo\u00e3o Goulart tinha alguma proposta em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 atua\u00e7\u00e3o das empresas multinacionais no Brasil?<\/p>\n<p>F\u00e1bio Antonio de Campos &#8211; Jo\u00e3o Goulart sempre foi cauteloso nessa mat\u00e9ria porque sabia que qualquer interven\u00e7\u00e3o mais nacionalista intensificava as contradi\u00e7\u00f5es seculares de nossa depend\u00eancia externa. No entanto, estas nasceram da nossa forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, convertendo em antagonismos abertos que necessitavam ser enfrentados dentro do contexto da \u201crevolu\u00e7\u00e3o brasileira\u201d. Demandas hist\u00f3ricas de controle ao capital internacional passaram a serbandeiras de sindicados, movimentos sociais organizados, intelectuais, estudantes e os partidos progressistas. A press\u00e3o nacional-popular cresceu tanto que a \u201cLei de Remessas de Lucro\u201d foi aprovada no Congresso em 1962, sendo que Goulart s\u00f3 a sancionou em janeiro de 1964, j\u00e1 na antessala do Golpe. Portanto, a iniciativa de controlar o capital internacional foi resultado de uma conscientiza\u00e7\u00e3o popular que vinha de longo prazo. Tal como a campanha do \u201cPetr\u00f3leo \u00e9 Nosso\u201d, Goulart seria pressionado pela movimenta\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p>Em contrapartida, isso aumentaria a apreens\u00e3o do Governo norte-americano, das empresas multinacionais aqui instaladas e dos setores estatais e de empresas privadas nacionais que formavam uma associa\u00e7\u00e3o de interesses que tinha na depend\u00eancia externa a realiza\u00e7\u00e3o de seus neg\u00f3cios. Como observo em minha tese de doutorado, a hist\u00f3ria se acelerou naquela quadra, e as condi\u00e7\u00f5es para uma revolu\u00e7\u00e3o brasileira emergiram dentro da polariza\u00e7\u00e3o entre um \u201ccomplexo multinacional\u201d versus for\u00e7as nacional-populares.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Qual foi a rela\u00e7\u00e3o das empresas multinacionais com o golpe de 1964? Quais empresas financiaram o golpe?<\/p>\n<p>F\u00e1bio Antonio de Campos &#8211; A rela\u00e7\u00e3o mais evidente foi o financiamento do IPES [instituto de Pesquisas e Estudos Sociais] e IBAD [Instituto Brasileiro de A\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica] \u2014 que eram \u00f3rg\u00e3os de conex\u00e3o pol\u00edtica do Governo norte-americano \u2014, empresas multinacionais e as burguesias brasileiras. Buscavam na verdade intervir por meio da conspira\u00e7\u00e3o contra os interesses que colocariam em risco a valoriza\u00e7\u00e3o capitalista desse complexo multinacional. Os trabalhos de Dreifussapresentam de forma pioneira os atores que financiaram tais \u00f3rg\u00e3os. No entanto, \u00e9 necess\u00e1ria uma media\u00e7\u00e3o mais profunda para entender o est\u00e1gio de desenvolvimento capitalista brasileiro conectado com a fase imperialista do p\u00f3s-IIGM \u2013 II Guerra Mundial. Diante da conjuntura da Guerra Fria, a viabilidade da realiza\u00e7\u00e3o dos investimentos estrangeiros mediante a conquista do mercado interno exigia parcerias nacionais s\u00f3lidas, de modo a sancionar uma pol\u00edtica econ\u00f4mica favor\u00e1vel \u00e0 mobilidade do capital internacional, principalmente para realizar seus lucros extra\u00eddos com explora\u00e7\u00e3o do trabalho brasileiro em moeda de origem (divisas fortes). Essa valoriza\u00e7\u00e3o externa, geralmente em d\u00f3lares, alavancava neg\u00f3cios internos dentro de um poderoso arco de alian\u00e7as.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Qual era o interesse dessas empresas em que houvesse um golpe militar no Brasil?<\/p>\n<p>F\u00e1bio Antonio de Campos &#8211; Qualquer pol\u00edtica que fosse um pouco mais discricion\u00e1ria em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 entrada e sa\u00edda de capitais estrangeiros (investimentos, empr\u00e9stimos, remessas, repatria\u00e7\u00f5es, juros, transfer\u00eancias diversas) afetava a valoriza\u00e7\u00e3o capitalista que sustentava os interesses do complexo multinacional. O capitalismo dependente brasileiro, quando passou a ser questionado por for\u00e7as populares, cujas classes subalternas passaram a ter alguma voz, dilatando de forma in\u00e9dita a democracia que sempre fora restrita e dominada por uma burguesia ultraelitista, fez com que o risco dos neg\u00f3cios aumentasse. Do ponto de vista concreto, \u00e9 poss\u00edvel observar na \u201cLei de Remessas de Lucro\u201d, ao lado de outras quest\u00f5es importantes como a estatiza\u00e7\u00e3o do setor energ\u00e9tico e a negocia\u00e7\u00e3o da d\u00edvida externa, como se manifestava essa correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as.<\/p>\n<p>Dentre v\u00e1rias atribui\u00e7\u00f5es, a lei propunha criar um c\u00f3digo in\u00e9dito de sele\u00e7\u00e3o de investimentos e uma sistem\u00e1tica regula\u00e7\u00e3o das remessas de lucros, royalties, transfer\u00eancias tecnol\u00f3gicas, juros, etc. Em seu dispositivo mais pol\u00eamico estava o limite de remessas de lucro em 10% apenas do capital inicial, ou seja, s\u00f3 podia remeter a partir do que de fato entrou, e n\u00e3o de uma base maior em que se adicionavam os reinvestimentos de lucro. Sem falar que, em caso de crise cambial, previa-se paralisa\u00e7\u00e3o das remessas e outras medidas de controle na conta capital e de servi\u00e7os do balan\u00e7o de pagamentos. Na hist\u00f3ria econ\u00f4mica brasileira, toda vez que se tentou algo semelhante, como durante o per\u00edodo Vargas, por exemplo, tais medidas n\u00e3o duraram mais do que um ano. Essa legisla\u00e7\u00e3o, a despeito de seu elevado grau de tecnicidades, que atrapalham a compreens\u00e3o, revela o sentido pol\u00edtico dos poderes do capital internacional que est\u00e3o em jogo, e tamb\u00e9m como eles se articulavam para obstruir qualquer instrumento que inviabilizasse seus interesses. A partir do momento que no terreno da democracia esses interesses foram sendo vencidos, como no caso da aprova\u00e7\u00e3o da Lei de Remessas de Lucro em 1962, a conspira\u00e7\u00e3o e o Golpe seriam extremamente necess\u00e1rios para dar continuidade \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o capitalista das empresas multinacionais com o mercado interno brasileiro.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Qual foi a pol\u00edtica econ\u00f4mica implementada durante o golpe militar? O que mudou em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica econ\u00f4mica anterior?<\/p>\n<p>F\u00e1bio Antonio de Campos &#8211; O Programa de A\u00e7\u00e3o Econ\u00f4mica do Governo &#8211; PAEG e as reformas financeiras que nasceram logo ap\u00f3s o Golpe foram mudan\u00e7as essenciais. Isso porque de um lado as pol\u00edticas de oferta ampliaram as condi\u00e7\u00f5es para o financiamento da economia, sendo que as pol\u00edticas de demanda criaram, por outro lado, uma intensa restri\u00e7\u00e3o via cortes de gasto p\u00fablico e arrocho salarial que penalizou boa parte das for\u00e7as populares que estavam lutando contra o complexo multinacional antes de 1964. Essa pol\u00edtica econ\u00f4mica, ao mesmo tempo que criava as condi\u00e7\u00f5es para aprofundar a desigualdade social brasileira, restabelecia, por meio do financiamento \u00e0s grandes empresas e \u00e0s fam\u00edlias da classe m\u00e9dia alta para cima, as condi\u00e7\u00f5es vitais para o crescimento econ\u00f4mico a partir de uma estrutura industrial montada na \u00e9poca de Kubitschek. Tais medidas que aprofundaram nosso subdesenvolvimento s\u00f3 tiveram \u00eaxito porque, com o Golpe de 1964 e a ditadura, o nexo imperialista foi renovado. Al\u00e9m de destituir da Lei de Remessas de Lucro seus dispositivos mais discricion\u00e1rios em rela\u00e7\u00e3o ao capital internacional, j\u00e1 em agosto de 1964 (Lei 4.390), foram criadas novas medidas que facilitariam o acesso ao mercado internacional de cr\u00e9dito.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Como, depois do golpe, a pol\u00edtica econ\u00f4mica beneficiou as multinacionais?<\/p>\n<p>F\u00e1bio Antonio de Campos &#8211; Al\u00e9m da pol\u00edtica econ\u00f4mica mais geral que beneficiava tanto as condi\u00e7\u00f5es de financiamento da empresa multinacional quanto restabelecia a potencialidade do mercado interno por meio de incentivo ao consumo das classes altas, a ditadura permitiu a conex\u00e3o dos interesses de valoriza\u00e7\u00e3o das filiais estrangeiras com o sistema financeiro internacional. A reforma da legisla\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de retirar do marco institucional as medidas que impediam as remessas ao exterior a partir de reinvestimentos de lucro, criou novos instrumentos que liberalizavam o acesso da filial estrangeira ao endividamento externo. Na medida em que as matrizes intermediavam no Euromercado esses empr\u00e9stimos para suas filiais no Brasil, tornavam-se suas credoras, e todo pagamento pelo servi\u00e7o dessa d\u00edvida poderia ser superfaturado remetendo lucros disfar\u00e7ados em juros. Essa foi uma nova fase do endividamento externo brasileiro, cujas empresas multinacionais foram agentes fundamentais desse processo. Essa liquidez internacional foi drenada pelo complexo multinacional no final dos anos 1960, internalizando cr\u00e9dito externo bem acima das necessidades de financiamento industrial para importa\u00e7\u00e3o de bens de capital. Desse modo, o endividamento externo assumiu um car\u00e1ter eminentemente financeiro, haja vista que as reservas cambiais que iam se avolumando deveriam ser esterilizadas por meio de emiss\u00e3o de t\u00edtulos da d\u00edvida p\u00fablica ante o impacto inflacion\u00e1rio que isso causava na economia.<\/p>\n<p>A oferta de t\u00edtulos p\u00fablicos com taxas de juros cada vez mais convidativas para o mercado criava um neg\u00f3cio interno extremante lucrativo para o complexo multinacional, originando no futuro a \u201cciranda financeira\u201d. Assim, a corpora\u00e7\u00e3o multinacional ganhava tanto no Euromercado, permitindo que suas filiais se endividassem para remeter lucros disfar\u00e7ados, como credoras internamente, ao lado do grande capital privado nacional, na rolagem de t\u00edtulos da d\u00edvida p\u00fablica. A chamada moderniza\u00e7\u00e3o do sistema financeiro pela ditadura garantiu essa facilidade, dentre outras, para o complexo multinacional.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; A pol\u00edtica econ\u00f4mica do per\u00edodo do golpe favoreceu os brasileiros?<\/p>\n<p>F\u00e1bio Antonio de Campos &#8211; A pol\u00edtica econ\u00f4mica p\u00f3s-Golpe favoreceu a minoria da popula\u00e7\u00e3o brasileira, isto \u00e9, os brasileiros da classe m\u00e9dia alta para cima. A burguesia e seus aliados usufru\u00edram de novas fronteiras de investimentos e de variados neg\u00f3cios que nasceram nesse per\u00edodo.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; De que maneira o capital internacional influenciou na forma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do Brasil? Qual foi a rela\u00e7\u00e3o do capital internacional com o desenvolvimento capitalista brasileiro entre 1951 e 1992?<\/p>\n<p>F\u00e1bio Antonio de Campos &#8211; Ao conquistar o mercado interno brasileiro, impondo o ritmo e o compasso da implanta\u00e7\u00e3o e desenvolvimento das for\u00e7as produtivas, o capital internacional, ao mesmo tempo que permitiu o avan\u00e7o da industrializa\u00e7\u00e3o brasileira, constituindo-se no eixo din\u00e2mico dessa expans\u00e3o, selou a alian\u00e7a imperialista entre as burguesias internacionais com suas correspondentes nativas que sempre se subordinaram a essa articula\u00e7\u00e3o. Longe de isso criar as condi\u00e7\u00f5es para autodetermina\u00e7\u00e3o do desenvolvimento nacional, acabou por sacramentar nossa depend\u00eancia externa e subdesenvolvimento. Se antes essa articula\u00e7\u00e3o permitia um certo desenvolvimento capitalista, em fun\u00e7\u00e3o de que os investimentos se orientavam por um regime central de acumula\u00e7\u00e3o, cuja necessidade era de integrar o mercado interno por r\u00edgidas fronteiras adensando as cadeias produtivas, hoje, com a mundializa\u00e7\u00e3o financeira, a articula\u00e7\u00e3o deve ser global.<\/p>\n<p>O Brasil como o elo fraco no modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, deve se adaptar apresentando uma pol\u00edtica econ\u00f4mica liberal que garanta a mobilidade do capital internacional e, com isso, sofrer desnacionaliza\u00e7\u00e3o, privatiza\u00e7\u00e3o, desindustrializa\u00e7\u00e3o e primariza\u00e7\u00e3o da economia. A despeito das particularidades da \u00e9poca neoliberal que vivemos, a continuidade dessa depend\u00eancia foi resultado de um processo hist\u00f3rico que s\u00f3 a partir do per\u00edodo colonial podemos entender em sua totalidade.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Qual era a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do Brasil no per\u00edodo p\u00f3s-golpe? Alguns especialistas comentam que o Brasil viveu uma situa\u00e7\u00e3o de milagre econ\u00f4mico durante a Ditadura, mas, com a reabertura, constatou-se que o d\u00e9ficit externo era alt\u00edssimo.<\/p>\n<p>F\u00e1bio Antonio de Campos &#8211; A economia \u00e9 fundamental para entender o alcance e os limites da ditadura como instrumento do capitalismo brasileiro. A ditadura serviu para garantir a expans\u00e3o do desenvolvimento capitalista brasileiro definido a partir de JK, ou seja, a industrializa\u00e7\u00e3o pesada dinamizada pelo capital internacional em proveito dos diferenciais do mercado interno, estabelecidos pela elevada concentra\u00e7\u00e3o de renda que garantia a valoriza\u00e7\u00e3o \u00e0 custa da superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho. \u00c0 medida que se avan\u00e7ava na industrializa\u00e7\u00e3o intensificando a depend\u00eancia externa e o subdesenvolvimento, os limites estruturais que se impunham (financiamento e liberaliza\u00e7\u00e3o cambial), exigiam reformas institucionais que aperfei\u00e7oassem o modelo econ\u00f4mico funcional ao complexo multinacional.<\/p>\n<p>O Golpe de 1964 e a ditadura tiveram essa fun\u00e7\u00e3o, ou seja, viabilizar um tipo de ind\u00fastria que recolocava nossos dilemas de forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica numa situa\u00e7\u00e3o ainda mais dram\u00e1tica. Os problemas que surgem desse per\u00edodo, como desacelera\u00e7\u00e3o do crescimento, redu\u00e7\u00e3o na taxa de investimento, aumento da desigualdade, desemprego e estatiza\u00e7\u00e3o da d\u00edvida externa s\u00f3 podem ser compreendidos dentro da \u201ccontrarrevolu\u00e7\u00e3o brasileira\u201d. Na ess\u00eancia, ela significou o div\u00f3rcio dos meios estruturais que tinham, na utopia de desenvolvimento nacional, os fins. O antagonismo que se abriu nos anos 1950, acirrando em forma de in\u00fameros conflitos e lutas na segunda metade dos anos 1960, foi enfrentado com uma rota desenvolvimentista antinacional, antidemocr\u00e1tica e antissocial.<\/p>\n<p>Enquanto a ditadura serviu para viabilizar os interesses do complexo multinacional, que, ali\u00e1s, tinham na industrializa\u00e7\u00e3o seu eixo de valoriza\u00e7\u00e3o capitalista, ela cumpriu seu papel, mas quando a pr\u00f3pria articula\u00e7\u00e3o imperialista entre a economia brasileira e o padr\u00e3o mundial de acumula\u00e7\u00e3o teve que ser realinhada em favor do capital internacional, ela perdeu sua fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Ainda hoje o capital internacional exerce influ\u00eancia no desenvolvimento capitalista brasileiro? Em que medida? O que diferencia o per\u00edodo analisado com os dias de hoje?<\/p>\n<p>F\u00e1bio Antonio de Campos &#8211; O Estado, na ditadura, foi instrumentalizado para atender os fins do capital internacional e seus s\u00f3cios internos em um determinado padr\u00e3o mundial de acumula\u00e7\u00e3o, e era assim que sua face intervencionista se ajustava \u00e0s necessidades impostas pelas classes dominantes. Seu raio de manobra foi delimitado por essa dimens\u00e3o, permitindo apresentar certa legitimidade por meio da ideologia desenvolvimentista, um aparente nacionalismo e o crescimento econ\u00f4mico puxado pela ind\u00fastria.<\/p>\n<p>Hoje, a interven\u00e7\u00e3o estatal \u00e9 para garantir a viabilidade dos neg\u00f3cios externos e internos que comp\u00f5em outro arco de interesses do complexo multinacional, sob uma ideologia neoliberal, cujo aumento do poder do capital internacional na economia brasileira sanciona tanto a secular depend\u00eancia externa quanto o subdesenvolvimento.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Deseja acrescentar algo?<\/p>\n<p>F\u00e1bio Antonio de Campos &#8211; Apenas convidar os leitores para que revisitem a forma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica brasileira, relendo autores brasileiros cl\u00e1ssicos, de modo a extra\u00edrem as determina\u00e7\u00f5es profundas do significado do capital internacional em nossa hist\u00f3ria. Naquele dif\u00edcil contexto do pr\u00e9-Golpe, o pensamento social brasileiro estava armado para discutir essas quest\u00f5es com enorme f\u00f4lego. Atualmente, diante de uma crise estrutural que enfrentamos no capitalismo, se faz urgente estudar nossas particularidades hist\u00f3ricas e a posi\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica que o pa\u00eds ocupa em um mundo cujas corpora\u00e7\u00f5es multinacionais dominam a reprodu\u00e7\u00e3o material e cultural da sociedade contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/529782-o-golpe-e-a-construcao-da-dependencia-financeira-brasileira-entrevista-especial-com-fabio-antonio-de-campos<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6078\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-6078","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1A2","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6078","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6078"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6078\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6078"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6078"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6078"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}