{"id":6101,"date":"2014-04-08T04:46:04","date_gmt":"2014-04-08T04:46:04","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6101"},"modified":"2014-04-08T04:46:04","modified_gmt":"2014-04-08T04:46:04","slug":"o-silencio-dos-inocentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6101","title":{"rendered":"O sil\u00eancio dos inocentes"},"content":{"rendered":"\n<p>Demorei pr\u00e1 entender. Ou, como diz mo\u00e7as e mo\u00e7os de hoje, a ficha s\u00f3 caiu agora.<\/p>\n<p>Foi a tal da fome com a vontade de comer.<\/p>\n<p>De fato, o pacto da Anistia nunca existiu.<\/p>\n<p>Mas no fundo, al\u00e9m dos fac\u00ednoras e do apoio \u00e0 transi\u00e7\u00e3o conservadora de Ernesto Geisel, havia a concord\u00e2ncia dos reformistas, da turma de FHC e dos futuros demos ou dem\u00f4nios, sucessores do PFL, PDS e ARENA.<\/p>\n<p>Foi uma quest\u00e3o de tempo para comunistas combativos, hoje apenas de logotipo, e o chefe do futuro coletivo da Papuda, junto com Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, escrevesse a Carta aos Brasileiros e chegasse finalmente ao governo federal.<\/p>\n<p>Houve quem n\u00e3o concordasse e sa\u00edsse do partido. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 aqueles que ficaram pretendendo mudar o j\u00e1 sacramentado e imposs\u00edvel de ser mudado.<\/p>\n<p>Nisso tudo, a vaidade tola cumpriu papel decisivo. Gente viva foi transformada em hero\u00ednas e her\u00f3is, passou-se a homenagear torturadas e torturados, perseguidas e perseguidos. Enfim, os que restaram da brutalidade atr\u00e1s das muralhas.<\/p>\n<p>No entanto, pareceu estranho o ufanismo dos que apregoam um golpe contra o Brasil e n\u00e3o principalmente contra a classe oper\u00e1ria, trabalhadores do campo e das cidades. At\u00e9 ent\u00e3o, parecia apenas o velho aparelhamento de uma esquerda sem base social, fraudando a hist\u00f3ria e se auto-homenageando para sair bem na fotografia.<\/p>\n<p>Mas ai chamou muita aten\u00e7\u00e3o a presen\u00e7a de Alexandre Padilha, ex-ministro da Sa\u00fade e candidato do PT ao governo de S\u00e3o Paulo, e de seu papai, Anivaldo, no dia do ato no antigo DOI-CODI paulista. Os dois berrando a favor da revis\u00e3o da Lei da Anistia, para punir, finalmente, os fac\u00ednoras.<\/p>\n<p>Dava-se como certo que a press\u00e3o popular seria suficiente para convencer a turma do Geisel, e com garantia do apoio da Presidenta Dilma Rousseff, que teria sinalizado para alguns antigos companheiros sua disposi\u00e7\u00e3o de rever a Lei da Anistia.<\/p>\n<p>Mas o imponder\u00e1vel ou previs\u00edvel aconteceu. Os bate-paus dos capitalistas, os militares torturadores, n\u00e3o ser\u00e3o tocados e a presidenta tratou de garantir de que nada ser\u00e1 alterado. Afinal \u201cpactos\u201d precisam ser preservados.<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o tenha havido pacto algum, conforme comprovei documentalmente na pesquisa para o livro<em>Revolucion\u00e1rios sem rosto: uma hist\u00f3ria da A\u00e7\u00e3o Popular<\/em>. A proposta da direita ou da ditadura de Anistia foi aprovada com apenas quatro votos a mais no Congresso Nacional.<\/p>\n<p>Quando falou da volta dos exilados, a presidenta at\u00e9 chorou.<\/p>\n<p>A campanha das Diretas J\u00e1 n\u00e3o obteve votos suficientes no Congresso Nacional; em seguida veio o Col\u00e9gio Eleitoral, Jos\u00e9 Sarney, o neoliberalismo com Fernando Collor de Mello, Itamar Franco no meio e Fernando Henrique Cardoso, que depois de 1996 estabeleceu indeniza\u00e7\u00f5es financeiras, pens\u00f5es vital\u00edcias, para as vitimas vivas do regime militar. Mais tarde, petistas e outros perseguidos (muitos por justi\u00e7a, outros nem tanto) aceitaram de bom grado as indeniza\u00e7\u00f5es e alguns se lambuzaram.<\/p>\n<p>Afinal, como diz o padeiro, \u00e9 imposs\u00edvel fazer p\u00e3o de primeira com farinha de terceira.<\/p>\n<p>Agora houve um pacto de elites, armado pela presidenta Dilma com os militares. O que esvazia a prec\u00e1ria Comiss\u00e3o Nacional da Verdade e mais uma vez leva para a concilia\u00e7\u00e3o de classe e fortalece o capitalismo social liberal no pa\u00eds.<\/p>\n<p>O jogo de cena da investiga\u00e7\u00e3o de atrocidades em algumas unidades militares tirou os crimes cometidos da justi\u00e7a comum e mandou para a corporativa justi\u00e7a militar.<\/p>\n<p>E ainda tem gente que acredita que a presidenta far\u00e1 a revis\u00e3o da Lei da Anistia. Menos o Aton Fon Filho, da Rede de Advogados Populares, que passou dez anos encarcerado, de 1969 a 1979, e barbaramente torturado. Em entrevista ao Correio da Cidadania, ele disse que recentemente o Estado brasileiro pediu desculpas pelas atrocidades que sofreu. E avisou ao ministro Celso Amorim que abre m\u00e3o de qualquer repara\u00e7\u00e3o financeira pela revis\u00e3o da Lei da Anistia e puni\u00e7\u00e3o dos torturadores.<\/p>\n<p>Nada parece suficiente para mudar a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, nem mesmo a valentia do deputado Adriano Diogo, presidente da Comiss\u00e3o da Verdade Rubens Paiva, da Assembleia Legislativa de S\u00e3o Paulo. Mas um dia, mais hoje, mais amanh\u00e3, mesmo depois que o socialismo finalmente triunfar, os pegaremos. E se os antigos militares e civis torturadores tiverem morrido, pela idade, os seus sucessores, os novos trogloditas, ser\u00e3o julgados nos tribunais do poder oper\u00e1rio e popular.<\/p>\n<p>*Otto Filgueiras \u00e9 jornalista<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nOtto Filgueiras*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6101\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-6101","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1Ap","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6101","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6101"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6101\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6101"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6101"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6101"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}