{"id":6106,"date":"2014-04-09T22:21:43","date_gmt":"2014-04-09T22:21:43","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6106"},"modified":"2014-04-09T22:21:43","modified_gmt":"2014-04-09T22:21:43","slug":"vasco-goncalves-o-mais-insigne-capitao-de-abril-e-timoneiro-da-revolucao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6106","title":{"rendered":"Vasco Gon\u00e7alves: o mais insigne capit\u00e3o de Abril e timoneiro da revolu\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>Falar de Vasco Gon\u00e7alves, em sua mem\u00f3ria e na dos 40 anos de tomada de posse como o timoneiro da Revolu\u00e7\u00e3o, \u00e9 sermos fi\u00e9is \u00e0 justi\u00e7a e ao reconhecimento. \u00c9 falar de Vasco Gon\u00e7alves, da sua ac\u00e7\u00e3o como militar e pol\u00edtico revolucion\u00e1rio, seja como -coronel- um dos mais experiente e cultos dos oficiais conspiradores, entre capit\u00e3es do MFA, a partir de 5 de Dezembro de 1973, seja como primeiro chefe da 5\u00aaa Divis\u00e3o do EMGFA, seja como primeiro-ministro dos 2\u00ba,3\u00ba,4\u00ba e 5\u00ba Governos Provis\u00f3rios, seja como um dos mais puros \u201ccapit\u00e3es de Abril\u201d caluniado e vilipendiado. \u00c9 reflectir tamb\u00e9m sobre uma vertente do MFA, dos militares que sempre com ele estiveram (com subida honra apelidados de gon\u00e7alvistas) e sobre as iniciativas e organiza\u00e7\u00f5es criadas, sob o seu impulso, e que mais n\u00e3o fizeram que, ao dar-lhe apoio, apoiarem o Povo, apoiarem a Revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Comecemos por citar uma express\u00e3o de Vasco Gon\u00e7alves: \u201c\u2026o <em>MFA n\u00e3o era um movimento revolucion\u00e1rio: tinha revolucion\u00e1rios nas suas fileiras mas isso n\u00e3o fazia dele um movimento com essas caracter\u00edsticas\u2026<\/em>\u201d. Dentro do MFA havia militares com v\u00e1rias tend\u00eancias e diferentes graus de politiza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o era um corpo homog\u00e9neo e muito menos de homogeneidade revolucion\u00e1ria. <em>\u201dOs aspectos mais progressistas da actua\u00e7\u00e3o do MFA s\u00e3o motivados pelo levantamento popular num sentido revolucion\u00e1rio<\/em>\u201d s\u00e3o palavras do pr\u00f3prio Vasco. Foi o pulsar do Povo (dos Povos) e a for\u00e7a da sua raz\u00e3o e o exemplo dado na luta pela liberdade (em Portugal e nas col\u00f3nias) contra a opress\u00e3o que nos conduziram \u00e0 ac\u00e7\u00e3o de revolta.<\/p>\n<p>\u00c9, ainda e sempre, falar da interven\u00e7\u00e3o de Vasco, tamb\u00e9m na colabora\u00e7\u00e3o do texto final, do pr\u00f3prio Programa do MFA, como na sua interpreta\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica. Vasco Gon\u00e7alves sabe que havia militares que faziam do Programa do MFA uma leitura est\u00e1tica, respeitando apenas o texto. Mas Vasco tamb\u00e9m sabe que outros entendiam o Programa como um projecto suficientemente aberto \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria realidade. Para ele, e para o MFA revolucion\u00e1rio, novas din\u00e2micas surgiram, que parecendo n\u00e3o estar previstas \u00e0 partida, impuseram uma interpreta\u00e7\u00e3o \u201cn\u00e3o apenas literal\u201d do Programa do MFA. Porque nele est\u00e3o expressas as ac\u00e7\u00f5es program\u00e1ticas essenciais e que constituem emana\u00e7\u00e3o profunda das gentes sacrificadas deste pa\u00eds, dum Portugal oprimido e isolado durante 48 anos, exigindo: \u201d<em>uma nova pol\u00edtica econ\u00f3mica<\/em>\u201d,\u201d<em>uma estrat\u00e9gia anti-monopolista<\/em>\u201d, e \u201c<em>uma outra pol\u00edtica social<\/em>\u201d tudo \u201dn<em>a defesa dos interesses das classes trabalhadoras e no aumento progressivo mas acelerado da qualidade da vida de todos os portugueses<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>O programa do MFA \u00e9 emana\u00e7\u00e3o da vontade dum povo e dum povo inteiro, daqu\u00e9m e de al\u00e9m-mar, onde, numa \u201cGuerra da Liberta\u00e7\u00e3o\u201d (dita do Ultramar,mas colonial) os capit\u00e3es de Abril, durante longos treze anos, beberam ensinamentos: com os combatentes, dum lado e doutro, com as contradi\u00e7\u00f5es do fascismo e do colonialismo mas tamb\u00e9m com as li\u00e7\u00f5es dos ventos da \u00e9poca e de quantos, resistentes e militantes, durante meio s\u00e9culo lutaram e morreram, pelo fim da noite escura duma das mais longas ditaduras europeias. A ac\u00e7\u00e3o do MFA, (<em>com muito poucos oficiais superiores, tal como Vasco Gon\u00e7alves,este j\u00e1 antifascista conspirador, ainda como capit\u00e3o, no Golpe da S\u00e9 em Mar\u00e7o de 1959<\/em>) sendo o resultado duma experi\u00eancia de organiza\u00e7\u00e3o e unidade, de jovens capit\u00e3es que emerge, se consolida e se organiza, \u00e9 com as armas nas m\u00e3os do povo-soldado que faz o 25 de Abril e no seu desenvolvimento cresce a alian\u00e7a Povo-MFA. A partir dessa alvorada luminosa, do \u201cRenascer da Esperan\u00e7a\u201d, Vasco Gon\u00e7alves, na miss\u00e3o que lhe \u00e9 incumbida, \u00e9 quem melhor interioriza o Programa do MFA, como b\u00fassola que tra\u00e7a um rumo e lhe d\u00e1 mais for\u00e7a para a lideran\u00e7a das \u201cConquistas da Revolu\u00e7\u00e3o\u201d, em nome do seu povo, e que a Constitui\u00e7\u00e3o de 1976, contra ventos e mar\u00e9s, acabar\u00e1 por consagrar.<\/p>\n<p>A partir do momento o MFA d\u00e1 ao seu programa o \u00fanico significado que ele podia ter, e emana uma ordem de miss\u00e3o, para acabar de vez com os resqu\u00edcios fascistas e construir uma democracia do Povo e para o Povo, v\u00ea-se a bra\u00e7os, e de que maneira, com os inimigos desta din\u00e2mica. E o grave \u00e9 que isso aconte\u00e7a dentro do pr\u00f3prio MFA particularmente ap\u00f3s a queda de Sp\u00ednola e do falhan\u00e7o das for\u00e7as conservadoras, militares e civis, que o acolitaram.<\/p>\n<p>Os \u201cCapit\u00e3es de Abril\u201d e a seus representantes &#8211; a Comiss\u00e3o Coordenadora do MFA &#8211; foram ainda firmes e coesos, quer no \u201cgolpe Palma Carlos\u201d, em Julho, quer mais tarde no \u201cgolpe da maioria silenciosa\u201d, em 28 de Setembro. Resistindo aos \u00edmpetos dum projecto pessoal e de gan\u00e2ncia de Poder, o MFA n\u00e3o s\u00f3 afasta e recusa os prop\u00f3sitos do General Sp\u00ednola, como escolhe Vasco Gon\u00e7alves para a responsabilidade de chefiar o segundo e o terceiro Governos Provis\u00f3rios, respectivamente a 18 de Julho e a 1 de Outubro de 1974. Em ambas as tomadas de posse Vasco Gon\u00e7alves reitera a decis\u00e3o inabal\u00e1vel de cumprir escrupulosamente o Programa do Movimento e em entrevista, horas depois desse acto, \u00e9 absolutamente claro ao afirmar: \u201c<em>A unidade entre o Povo e o MFA constitui condi\u00e7\u00e3o fundamental do nosso progresso\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Sab\u00edamos de que Povo o General falava mas \u00e9 pertinente questionarmo-nos: -e que se passava no seio do MFA? Interrogamo-nos em v\u00e1rias quest\u00f5es. Do MFA que n\u00e3o tinha falhado nas medidas e conquistas pol\u00edtico-sociais, impulsionadas pelos governos de Vasco? Do MFA que fora imperturb\u00e1vel no processo, complexo e dif\u00edcil, do in\u00edcio da descoloniza\u00e7\u00e3o, mesmo, e ainda, com Sp\u00ednola? N\u00e3o estavam com o pensamento de Vasco, alguns membros do MFA, que nunca entenderam que a descoloniza\u00e7\u00e3o n\u00e3o era uma d\u00e1diva mas sim uma conquista da Liberdade. Conquista marcada pela coragem dos Movimentos de Liberta\u00e7\u00e3o e dos militares conscientes que queriam a Paz, que se recusaram a mais guerra e negaram os \u00edmpetos do imperialismo.<\/p>\n<p>O MFA, apesar das ac\u00e7\u00f5es do \u00f3rg\u00e3o politico militar criado pelo MFA -a 5\u00aaDivis\u00e3o do EMGFA- de quem Vasco Gon\u00e7alves foi o primeiro chefe, das suas ac\u00e7\u00f5es da Dinamiza\u00e7\u00e3o Cultural, das suas mais diversas e criativas formas de esclarecimento p\u00fablico, come\u00e7ava agora, para os revolucion\u00e1rios, a dar os primeiros sinais de vulnerabilidade, tal como dizia Vasco: \u201d\u2026<em>da incapacidade de o MFA revolucion\u00e1rio estender a sua influ\u00eancia a todas as For\u00e7as Armadas, do demissionismo, quantas vezes deliberado, de oficiais n\u00e3o afectos ao MFA, das d\u00favidas e receios de militares menos esclarecidos politicamente, cuja forma\u00e7\u00e3o conservadora e tradicionalista os perturbava e tornava incompreens\u00edvel o processo revolucion\u00e1rio e tendo neste aspecto um papel muito negativo as actividades provocat\u00f3rias esquerdistas<\/em>.\u201d E n\u00e3o esquecendo, num xadrez mais alargado, a interac\u00e7\u00e3o\/influ\u00eancia daquilo que o fascismo deixara implantado nas nossas terras, do caciquismo e do clero conservador e preconceituoso, do \u00edndice de analfabetismo que rondava os 33 % da popula\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Vasco Gon\u00e7alves e o MFA, com o imperativo de salvar a economia, para salvar a revolu\u00e7\u00e3o, enfrentam os disfar\u00e7ados ataques do \u201ccapital\u201d (quer nacional quer imperialista) que, sentindo-se a perder terreno, foram ex\u00edmios na concretiza\u00e7\u00e3o dos mais ousados esquemas de destabiliza\u00e7\u00e3o e de quebra da unidade revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Na evolu\u00e7\u00e3o dos acontecimentos o n\u00facleo duro do MFA (a sua Coordenadora comandada por Melo Antunes) deixa-se descompensar e perde em firmeza e coer\u00eancia, aquilo que lhe oferecem em debilidade e inconsequ\u00eancia, na aspira\u00e7\u00e3o duma \u201cvelha aparente estabilidade de ordem externa\u201d que jamais disfar\u00e7ar\u00e1 uma \u201cprofunda desordem interna e mal-estar social\u201d, absolutamente em contraste com um novo Portugal que se queria como sociedade mais justa e equilibrada.<strong>Esta tr\u00e1gica din\u00e2mica, anti-revolu\u00e7\u00e3o e anti-Vasco Gon\u00e7alves, infelizmente atravessou quatro d\u00e9cadas e chegou aos dias de hoje.<\/strong><\/p>\n<p>Bem se esfor\u00e7ou Vasco Gon\u00e7alves, e se esfor\u00e7aram os revolucion\u00e1rios militares e civis,<\/p>\n<p>para porem fim aos ataques \u00e1 genu\u00edna \u201cess\u00eancia dos capit\u00e3es de Abril\u201d e ao cumprimento do seu programa. Vasco sabia bem e afirmava-o muitas vezes \u201c<em>n\u00e3o perder nos gabinetes e\/ou pela m\u00e3o dos militares conservadores o que j\u00e1 se conquistara no terreno<\/em>\u201d. Refor\u00e7a-se, assim, a necessidade e a vontade da institucionaliza\u00e7\u00e3o do MFA. Nascem as Assembleias do MFA (AMFA) suscitadas pela positiva experi\u00eancia da sua cria\u00e7\u00e3o no processo de descoloniza\u00e7\u00e3o da Guin\u00e9-Bissau. Abre-se ainda mais o caminho para referida institucionaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Iniciam-se as conversa\u00e7\u00f5es com os partidos para lhes comunicar o desejo da institucionaliza\u00e7\u00e3o e criar um \u201cmodus vivendi\u201d com eles que fosse fiel \u00e0s conquistas da revolu\u00e7\u00e3o j\u00e1 alcan\u00e7adas. O Pacto MFA-Partidos.<\/p>\n<p>Vasco, a Dinamiza\u00e7\u00e3o Cultural e ac\u00e7\u00e3o da Quinta Divis\u00e3o empenham-se, ainda mais, em garantir a continuidade e desenvolvimento do processo revolucion\u00e1rio. Atrav\u00e9s do Boletim quinzenal do MFA, dirigido pela \u201cCoordenadora\u201d do MFA e corpo redactorial da 5\u00aa Divis\u00e3o, Vasco apela, como primeiro-ministro, \u00e0 edi\u00e7\u00e3o dum artigo de fundo, sob o t\u00edtulo <strong>\u201d<\/strong><em><strong>O MFA: do Politico ao Econ\u00f3mico\u201d<\/strong><\/em> em Novembro de 74. Sugere um apelo para a urg\u00eancia de se tomarem medidas de car\u00e1cter econ\u00f3mico, lan\u00e7ar as bases para um efectivo controlo da actividade b\u00e1sica pelo Estado e da luta contra a sabotagem ainda vigente, criando condi\u00e7\u00f5es que permitam melhorias da qualidade de vida dos portugueses e promovam o desmantelamento da base econ\u00f3mica do fascismo. Contrariar a indiferen\u00e7a dos latifundi\u00e1rios \u00e0s solicita\u00e7\u00f5es, do Governo e do MFA, para a realiza\u00e7\u00e3o de projectos de aproveitamento econ\u00f3mico das terras.<\/p>\n<p>Com a tentativa golpista do 11 de Mar\u00e7o, despoletada novamente por Sp\u00ednola e as suas hostes desesperadas, para fazer gorar a institucionaliza\u00e7\u00e3o do MFA, estes tudo precipitam. Opera-se a institucionaliza\u00e7\u00e3o do MFA, criando-se o Conselho da Revolu\u00e7\u00e3o (CR) dois dias depois. No patamar econ\u00f3mico-social s\u00e3o apontadas a necessidade de se tomarem as medidas mais revolucion\u00e1rias: Planeamento, Nacionaliza\u00e7\u00f5es e Reforma Agr\u00e1ria. Estas foram das primeiras medidas do ne\u00f3fito CR. Foram dados poderes a Vasco Gon\u00e7alves para formar a 4\u00aa Governo Provis\u00f3rio que inicia suas fun\u00e7\u00f5es a partir de 27 de Mar\u00e7o. A reestrutura\u00e7\u00e3o da banca nacionalizada, o controlo das empresas privadas pelo Estado, a cria\u00e7\u00e3o do sistema de Planeamento, o prosseguimento da nacionaliza\u00e7\u00e3o dos sectores b\u00e1sicos e a reforma agr\u00e1ria, s\u00e3o as principais bases da agenda e programa deste governo.<\/p>\n<p>Avan\u00e7a-se para elei\u00e7\u00f5es da \u201cconstituinte\u201d e para o pacto: MFA-Partidos. J\u00e1 referimos anteriormente o alcance deste Pacto <strong>\u201c<\/strong><em><strong>n\u00e3o perder prematuramente as conquistas alcan\u00e7adas e tentar inclu\u00ed-las na Constitui\u00e7\u00e3o de 1976<\/strong><\/em><strong>\u201d<\/strong>.Embora houvesse consenso no MFA veio-se a confirmar que quem punha reservas \u00e0s medidas revolucion\u00e1rias mais tarde se constituiria no chamado \u201cgrupo dos nove\u201d. Mas aos partidos de direita e incluindo o PS n\u00e3o interessaria divulgar tais reservas antes das elei\u00e7\u00f5es. Houve aqui um tacticismo eleitoralista. Ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es, com a vit\u00f3ria do Partido Socialista (PS) logo seguido pelo PPD, estes partidos procuraram atacar desabridamente Vasco Gon\u00e7alves e acabar com o processo revolucion\u00e1rio, agravando as condi\u00e7\u00f5es que eram naturais entre os dois processos. Tudo serviu de pretexto. O processo revolucion\u00e1rio foi travado mas n\u00e3o completamente derrotado: as conquistas alcan\u00e7adas durante o per\u00edodo mais criativo da revolu\u00e7\u00e3o foram, efectivamente, todas consagradas na Constitui\u00e7\u00e3o de 1976.<\/p>\n<p>A partir das elei\u00e7\u00f5es, de 25 de Abril de 1975, o PS inicia ac\u00e7\u00f5es e um comportamento nada conducente com o seu ide\u00e1rio socialista e promessas eleitorais, fomenta divis\u00f5es entre sindicatos e trabalhadores e salienta-se como um dos principais aliados das for\u00e7as contra-revolucion\u00e1rias. O capital e os inimigos da revolu\u00e7\u00e3o (sobretudo os que perderam privil\u00e9gios) montam centrais de intriga, de intoxica\u00e7\u00e3o e de inquieta\u00e7\u00e3o junto das popula\u00e7\u00f5es. Faz-se crer que Vasco Gon\u00e7alves e o Partido Comunista (PCP) \u201cs\u00e3o uma e a mesma coisa\u201d e que pretendem controlar tudo. O anticomunismo prim\u00e1rio sai \u00e0 rua. Alarmam-se pessoas, sobretudo as menos esclarecidas com fantasmas e preconceitos.<\/p>\n<p>Vasco Gon\u00e7alves chega a ter reuni\u00f5es com M\u00e1rio Soares e \u00c1lvaro Cunhal, mas sem sucesso. Procura-se uma plataforma de unidade estrat\u00e9gica entre si, Vasco Gon\u00e7alves e o MFA. Tenta institucionalizar a Alian\u00e7a POVO-MFA avan\u00e7ando para o aprofundamento duma pol\u00edtica de est\u00edmulo \u00e0 participa\u00e7\u00e3o popular, atrav\u00e9s das suas organiza\u00e7\u00f5es e ao estreitamento das rela\u00e7\u00f5es entre o MFA e estas estruturas.<\/p>\n<p>Na pr\u00f3pria Assembleia Constituinte os deputados do PS e dos partidos mais \u00e0 direita atacam o Governo. Vasco Gon\u00e7alves e a corrente dos militares do MFA, mais \u00e0 esquerda, tentam \u201csuperar as contradi\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias\u201d com a aprova\u00e7\u00e3o de documentos como o PAP \u2013 Plano de Ac\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica e do Documento Guia da Alian\u00e7a Povo-MFA. Embora este \u00faltimo, n\u00e3o reunisse grande consenso, \u00e9 este Documento-Guia, com forte influ\u00eancia dos sectores radicais esquerdistas do MFA, que leva a sa\u00edda dos ministros, do PS e do PPD, do 4\u00ba Governo. A gravosa situa\u00e7\u00e3o s\u00f3 se regulariza em 8 de Agosto com o inicio dum novo Governo, com car\u00e1cter ef\u00e9mero &#8211; o 5\u00ba Governo Provis\u00f3rio &#8211; cuja tomada de posse se realiza um dia depois da publica\u00e7\u00e3o do designado \u201cDocumento dos Nove\u201d (que p\u00f5e em causa Vasco Gon\u00e7alves e o MFA revolucion\u00e1rio) e tamb\u00e9m cinco dias antes do dito \u201cdocumento de Oficiais do COPCON\u201d (que procurando contrapor-se \u00e0quele documento, abre a porta a futuras posi\u00e7\u00f5es de radicalismo contra Vasco e os militares da sua linha).<\/p>\n<p>Porque os nove oficiais (4) do documento referido s\u00e3o todos do CR instala-se definitivamente uma cis\u00e3o neste \u00f3rg\u00e3o. Na tentativa de a superar \u00e9 ainda criado, nesta ocasi\u00e3o, um \u201cpequeno direct\u00f3rio\u201d constitu\u00eddo por Gosta Gomes, Vasco Gon\u00e7alves e Otelo Saraiva de Carvalho. Mas estava aberta a contesta\u00e7\u00e3o a Vasco Gon\u00e7alves j\u00e1 com alguns anteriores incidentes, n\u00e3o s\u00f3, por parte dos oficiais ditos moderados, como por parte de ministros do PS a quando do chamado caso (jornal) \u201cRep\u00fablica\u201d.<\/p>\n<p>O processo precipita-se no designado \u201cVer\u00e3o Quente\u201d de 1975, com perip\u00e9cias e dist\u00farbios graves e diversos. A norte do pa\u00eds o ent\u00e3o grupo contra-revolucion\u00e1rio (com civis e militares do fascismo) &#8211; MDLP \u2013 intenta ac\u00e7\u00f5es terroristas destruindo sedes de partidos de esquerda e praticando vandalismos. Em finais de Agosto, as instala\u00e7\u00f5es da 5\u00aa Divis\u00e3o do EMGFA, s\u00e3o assaltadas pelo Regimento de Comandos \u00e0s ordens de Otelo Saraiva de Carvalho, Comandante Operacional do Continente (COPCON. S\u00e3o capturados e destru\u00eddos documentos e grava\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas. A culminar surge a divulga\u00e7\u00e3o dum documento \u201cinsultuoso\u201d subscrito por Otelo a convidar de forma nada digna o abandono de Vasco Gon\u00e7alves de primeiro-ministro e a proibi-lo de entrar em quart\u00e9is.<\/p>\n<p>\u00c9 numa dita \u201cAssembleia do MFA em Tancos\u201d em 5 de Setembro de 1975, constitu\u00edda por militares escolhidos \u201cad-hoc\u201d, delegados intencionalmente seleccionados, que o MFA progressista e revolucion\u00e1rio se v\u00ea afastado do seu processo, ao decapitarem-lhe a sua cabe\u00e7a, aquele que ser\u00e1 sempre para n\u00f3s (quer militares do MFA que o seguiam, quer para as popula\u00e7\u00f5es que o estimavam e amavam) mais do que o General Vasco Gon\u00e7alves -o eterno Companheiro Vasco-timoneiro das mais singulares e valiosas conquistas que a nossa Associa\u00e7\u00e3o Conquistas da Revolu\u00e7\u00e3o (3) se constituiu para preservar, muito particularmente em sua homenagem e ao povo portugu\u00eas que o mereceu- que mereceu este HOMEM, simples, \u00edntegro e revolucion\u00e1rio, <strong>ao leme desta barca.<\/strong><\/p>\n<p>Passados mais de quinze anos Vasco Gon\u00e7alves d\u00e1 uma longa entrevista, editada em livro, em 2002 (1). \u00c9 seu, este excerto premonit\u00f3rio, da situa\u00e7\u00e3o que vivemos, agora em 2014:<\/p>\n<p>\u201c\u2026<em>j\u00e1 havia o objectivo de romper com aqueles militares que mais consequentemente apoiavam as aspira\u00e7\u00f5es populares e travar o aprofundamento da democracia\u2026e digo isto passados tantos anos\u2026porque desde a queda do 5\u00ba Governo Provis\u00f3rio temos vindo a assistir \u00e0 reconstitui\u00e7\u00e3o duma democracia pol\u00edtica que convive bem com as limita\u00e7\u00f5es dos direitos sindicais e pol\u00edticos dos trabalhadores, com a destrui\u00e7\u00e3o do sector p\u00fablico da economia, com a destrui\u00e7\u00e3o da reforma agr\u00e1ria, com a sucess\u00e3o de pacotes de Leis cada vez mais gravosos para os trabalhadores que v\u00e3o sendo aplicados \u00e0 medida que a direita e a reac\u00e7\u00e3o ganham cada vez mais for\u00e7a\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Em 2004,um ano antes de morrer, Nestor Kohan, professor e fil\u00f3sofo argentino, (2) faz a \u00faltima entrevista que Vasco Gon\u00e7alves concede. O entrevistador, entusiasmado com o militar que veio encontrar, tra\u00e7a bem, na introdu\u00e7\u00e3o, o perfil do general e da revolu\u00e7\u00e3o, um pouco aquilo que todos n\u00f3s sentimos, da qual retiramos excertos.<\/p>\n<p>\u00ab\u2026 Vasco Gon\u00e7alves\u2026(ao inv\u00e9s dos Generais que conheci \u00e9 sem d\u00favida uma <em>avis rara)<\/em> fala pausadamente, de forma suave e calma. Tem os gestos am\u00e1veis e a atitude de um velho professor universit\u00e1rio. Dirige-se aos interlocutores com um \u00eanfase pedag\u00f3gico que n\u00e3o consegue dissimular. A Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos foi at\u00edpica. Teve lugar na Europa Ocidental, precisamente quando se supunha que a revolu\u00e7\u00e3o j\u00e1 estava fora da agenda. Precisamente quando nos restantes pa\u00edses europeus se abriam as flores murchas do eurocomunismo e da social-democracia (correntes que renunciavam a toda a rebeli\u00e3o radical\u2026 por princ\u00edpios pol\u00edticos) Portugal p\u00f4s na ordem do dia a quest\u00e3o do poder. Isto teve lugar em plena crise capitalista (1973-1974), quando o d\u00f3lar e o petr\u00f3leo sofreram um aban\u00e3o mundial, liquidando o keynesianismo do p\u00f3s guerra e abrindo caminho ao neoliberalismo.\u00bb<\/p>\n<p>\u00ab\u00a0Esta revolu\u00e7\u00e3o realizada em plena guerra fria deslocava o papel tradicional das For\u00e7as Armadas europeias, especialistas na guerra contra- revolucion\u00e1ria nas col\u00f3nias africanas e, ao mesmo tempo, peritas na contra-revolu\u00e7\u00e3o e na tortura pelos militares latino americanos (Brasil, Argentina, Chile, etc).A de Portugal foi uma revolu\u00e7\u00e3o que questionava num mesmo movimento o v\u00ednculo imanente entre capitalismo, fascismo e colonialismo\u00a0\u00a0. Tr\u00eas formas de domina\u00e7\u00e3o que costumam apresentar-se na literatura pol\u00edtica como se fossem fen\u00f3menos desligados entre si,\u00bb<\/p>\n<p>\u00abEm Novembro de 1975, um ano e meio depois do in\u00edcio da Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos, as ac\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias foram neutralizadas. Um golpe de estado de direita,um golpe contra-revolucion\u00e1rio saiu vitorioso. Foi instigado pelo Partido Socialista Portugu\u00eas \u2013 M\u00e1rio Soares como respons\u00e1vel civil \u2013, pelos EUA, pela social democracia internacional e pela Internacional Democrata Crist\u00e3.\u00bb<\/p>\n<p>\u00abA partir do triunfo da reac\u00e7\u00e3o de direita com m\u00e1scara social democrata, em Portugal tudo volta \u00e0 &#8220;normalidade&#8221;&#8230; Isto \u00e9, ao capitalismo, \u00e0 explora\u00e7\u00e3o e \u00e0 obedi\u00eancia.\u00bb<\/p>\n<p>\u00abVasco Gon\u00e7alves \u00e9 hoje (2004)- diz-nos o entrevistador, um homem idoso, mas ainda se lhe incendeia o olhar com o brilho de um adolescente, quando fala da revolu\u00e7\u00e3o que o teve como principal expoente das for\u00e7as populares.\u00a0\u00a0Modesto e simples, sente-se surpreendido quando uma humilde camponesa, mais velha que ele, vestida de negro da cabe\u00e7a aos p\u00e9s, se aproxima para lhe acariciar a cara, expressar-lhe a sua admira\u00e7\u00e3o e sentar-se com ele como se fosse um filho.\u00bb<\/p>\n<p>Mas \u00e9 nesta, \u00faltima entrevista da sua vida, feita a Nestor Kohan que Vasco diria: <em>\u201cpenso que hoje n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para uma &#8220;terceira via&#8221;. A experi\u00eancia do passado e do presente demonstra-nos que a &#8220;terceira via&#8221; caminha sempre para a direita, caminha sempre num rumo reformista do capital, para a ideia de uma suposta &#8220;reforma do capital&#8221;. N\u00e3o se trata de alcan\u00e7ar um capitalismo reformado sem superar o capitalismo. O capitalismo n\u00e3o \u00e9 reform\u00e1vel, porque as rela\u00e7\u00f5es sociais nas quais se baseia, e sem as quais n\u00e3o pode sobreviver, s\u00e3o intrinsecamente injustas e de explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem. A &#8220;terceira via&#8221; n\u00e3o persegue conquistas profundas nas estruturas econ\u00f3micas e sociais. Basta olhar a Inglaterra, a Fran\u00e7a e a Alemanha para corrobor\u00e1-lo. Jospin em Fran\u00e7a, Schroeder na Alemanha e Blair na Gr\u00e3-Bretanha adoptaram na pr\u00e1tica pol\u00edticas neoliberais e de privatiza\u00e7\u00f5es. Todos os que pretendem colocar-se entre o capitalismo e o socialismo, no final acabam por adoptar pol\u00edticas neoliberais.<\/em><\/p>\n<p>Dez anos depois tudo se agravou com Hollande, com Merkel, com Cameron e com outros. Ao comemorarmos 40 anos do 25 de Abril e 40 anos da tomada de posse de Vasco Gon\u00e7alves, como primeiro-ministro, est\u00e3o os portugueses conscientes da diferen\u00e7a entre o que se conseguiu em 1974 (e no ano seguinte) e o que n\u00e3o se consegue em 2014, entre o que se conquistou com Abril e o que tem sido destru\u00eddo com Novembro (e desde Novembro) e com as t\u00f3xicas pol\u00edticas neoliberais dos dias de hoje.<\/p>\n<p>Por isso \u201ccompanheiro Vasco\u201d se \u00e9 com muita saudade que te recordamos \u00e9 ainda com a tua voz nos nossos cora\u00e7\u00f5es que manteremos alento a prosseguir na tua luta que \u00e9, e ser\u00e1 sempre, a nossa luta.<em>Como sempre disseste<\/em><em>: \u00ab<\/em><em><strong>H\u00e1 que lutar, no dia a dia, por reformas cujo conte\u00fado contraria a l\u00f3gica do pensamento \u00fanico, dominante, a pretens\u00e3o ao dom\u00ednio universal dos interesses de um restrito conjunto de for\u00e7as econ\u00f3micas<\/strong><\/em><em>\u00bb<\/em><\/p>\n<p>Quisemos e constru\u00edmos este passado com Vasco e ele connosco. Abrem-se de novo presente e futuro, generosos e amplos, em tempos de defesa e de luta pelas conquistas da revolu\u00e7\u00e3o. Com Vasco timoneiro vamos continuar. Vasco sempre.<\/p>\n<p>\u201cVasco sempre.\u201d \u201cVasco nome de Abril\u2026Continuas vivo e presente.\u201d<\/p>\n<p>*<em><strong>M.Duran Clemente,Coronel Ref<\/strong><\/em>. &#8211; \u201ccapit\u00e3o de Abril, cronista, autarca e associativista\u201d.<\/p>\n<p><em>Dirigente da Associa\u00e7\u00e3o Conquistas da Revolu\u00e7\u00e3o e Membro da Presid\u00eancia do CPPC.<\/em><\/p>\n<p>(1)-\u201cVasco Gon\u00e7alves \u2014 um General na Revolu\u00e7\u00e3o\u201d, Entrevista de Maria Manuela Cruzeiro, Outubro de 2002.<\/p>\n<p>(2)-\u201cVasco Gon\u00e7alves-Entrevista de Nestor Kohan para Rebeli\u00f3n\/Accion,em Outubro de 2004.<\/p>\n<p>(3)- \u201c<em>Tudo j\u00e1 foi dito e tudo resta para dizer do Companheiro Vasco, \u2026 \u2013 pelo seu exemplo, pela sua obra, pelo seu pensamento -quisemos, inicialmente, que o seu nome fosse o nome da nossa Associa\u00e7\u00e3o \u2013 o que s\u00f3 n\u00e3o aconteceu por obst\u00e1culos imposs\u00edveis de superar \u2026.<\/em>\u201d. Declara\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios justificativos da cria\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o Conquistas da Revolu\u00e7\u00e3o em 2011.<\/p>\n<p>(4)-\u201cGrupo dos Nove\u201d: Melo Antunes, Vasco Louren\u00e7o, Pezarat Correia, Franco Charais, Canto e Castro, Costa Neves, Sousa e Castro, V\u00edtor Alves, V\u00edtor Crespo.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Homenagem ao General Vasco Gon\u00e7alves.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Comunica\u00e7\u00e3o feita no Porto em 7 de Abril de 2014.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nM.Duran Clemente*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6106\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[98],"tags":[],"class_list":["post-6106","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c111-portugal"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1Au","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6106","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6106"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6106\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6106"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6106"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6106"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}