{"id":6136,"date":"2014-04-16T21:23:56","date_gmt":"2014-04-16T21:23:56","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6136"},"modified":"2014-04-16T21:23:56","modified_gmt":"2014-04-16T21:23:56","slug":"o-golpe-contra-os-trabalhadores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6136","title":{"rendered":"O golpe contra os trabalhadores"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>O in\u00e9dito espa\u00e7o pol\u00edtico conquistado por lideran\u00e7as sindicais incomodava e amedrontava. O golpe de 1964 foi, sobretudo, um golpe contra os trabalhadores. <\/strong><\/p>\n<p>Em recente editorial no qual reconhece que o apoio ao golpe de 1964 foi um erro, o jornal O GLOBO justifica de forma reveladora que seu entusiasmo com a queda do governo de Jo\u00e3o Goulart era devido ao temor da instala\u00e7\u00e3o de uma suposta \u201cRep\u00fablica Sindical\u201d no pa\u00eds. A ret\u00f3rica anticomunista e a histeria conservadora que contagiavam vastos setores das classes m\u00e9dias e altas tinham um alvo claro: o crescimento da organiza\u00e7\u00e3o de oper\u00e1rios e de vastos setores populares nas cidades, bem como a impressionante mobiliza\u00e7\u00e3o de camponeses nas zonas rurais. O in\u00e9dito espa\u00e7o pol\u00edtico conquistado por lideran\u00e7as sindicais incomodava e amedrontava. O golpe de 1964 foi, antes de tudo e sobretudo, um golpe contra os trabalhadores e suas organiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a p\u00fablica e as lutas por direitos dos trabalhadores brasileiros, intensas desde o final da II Guerra Mundial, atingiriam seu \u00e1pice no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1960. Os sindicatos foram os principais vetores da organiza\u00e7\u00e3o popular naqueles anos. Mas tal mobiliza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m ocorria atrav\u00e9s de associa\u00e7\u00f5es de moradores e espa\u00e7os informais, como clubes de bairros e institui\u00e7\u00f5es culturais. Estudos recentes mostram que, ao contr\u00e1rio do que se supunha, a presen\u00e7a sindical nos locais de trabalho se fortalecia. No campo, a emerg\u00eancia das Ligas Camponesas, e suas demandas por uma Reforma Agr\u00e1ria transformadora, surpreendeu o pa\u00eds e colocou os trabalhadores rurais no centro do cen\u00e1rio pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Trabalhistas, cat\u00f3licos, comunistas, janistas, entre diversas outras for\u00e7as pol\u00edticas, disputavam e formavam alian\u00e7as no interior deste movimento. Greves, protestos e uma linguagem marcadamente nacionalista e reformista embalavam reivindica\u00e7\u00f5es por transforma\u00e7\u00f5es estruturais e pela conquista de direitos desde sempre negados, como a lei do 13o sal\u00e1rio e a sindicaliza\u00e7\u00e3o no campo.<\/p>\n<p>Em um contexto marcado pela Guerra Fria e pelos impactos da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, esta presen\u00e7a p\u00fablica dos trabalhadores significava, para muitos, a antesala do comunismo. A desenvoltura com que lideran\u00e7as camponesas e dirigentes do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) se aproximavam do governo e do presidente Jango (nunca perdoado por cultivar essas \u201crela\u00e7\u00f5es perigosas\u201d) era particularmente execrada. A visibilidade desta alian\u00e7a no famoso com\u00edcio da Central do Brasil no dia 13 de mar\u00e7o foi a gota d\u2019\u00e1gua para os grupos conservadores e golpistas. Apesar da intensa campanha contra o governo, pesquisas de opini\u00e3o ent\u00e3o realizadas, e durante muito tempo ocultadas, mostram que a maioria da popula\u00e7\u00e3o apoiava Jango e suas reformas.<\/p>\n<p>O golpe acabou com tudo aquilo. E surpreendeu muitos dirigentes sindicais, radicalizados e demasiadamente confiantes na sua influ\u00eancia pol\u00edtica e poder de mobiliza\u00e7\u00e3o. Para os vitoriosos, era primordial destruir a \u201chidra comunista e trabalhista\u201d. Sindicatos em todo o pa\u00eds foram invadidos, sofreram interven\u00e7\u00f5es governamentais e tiveram seu patrim\u00f4nio dilapidado. Suas lideran\u00e7as foram presas, ca\u00e7adas e, algumas, assassinadas. A ditadura foi dura desde seu primeiro dia.<\/p>\n<p>Entidades empresarias, como a FIESP, celebraram a nova era. A queda do governo foi a senha para a revanche patronal. Milhares de trabalhadores foram demitidos e, devido \u00e0 prolifera\u00e7\u00e3o das infames \u201clistas negras\u201d, tiveram enormes dificuldades para encontrar novos empregos. A alian\u00e7a entre empres\u00e1rios e o DOPS que, como historiadores j\u00e1 demonstraram, vinha de longe, tornou-se ainda mais s\u00f3lida e disseminada. Um clima de medo e persegui\u00e7\u00f5es passaria a dominar o interior das empresas. No campo, um n\u00famero ainda n\u00e3o calculado de trabalhadores rurais foi expulso de suas comunidades e muitos foram mortos por mil\u00edcias privadas e capangas a servi\u00e7o de latifundi\u00e1rios.<\/p>\n<p>Uma pol\u00edtica econ\u00f4mica antitrabalhista proibiu greves, comprimiu sal\u00e1rios, acabou com a estabilidade no emprego, facilitando demiss\u00f5es e a rotatividade da m\u00e3o de obra. Seu impacto foi t\u00e3o grande que o ditador Castello Branco viu-se obrigado a reiteradamente repetir, em v\u00e3o, que \u201ca Revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o era contra os trabalhadores\u201d. O deliberado enfraquecimento dos sindicatos facilitou em muito a superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho, uma das marcas do regime, que faria do pa\u00eds o campe\u00e3o mundial em acidentes e mortes no trabalho no in\u00edcio dos anos 1970.<\/p>\n<p>A mesma ditadura que tanto reprimiu e controlou os sindicatos e organiza\u00e7\u00f5es populares chegaria ao fim, em grande medida, pela for\u00e7a e mobiliza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. Fruto de uma persistente resist\u00eancia cotidiana e de transforma\u00e7\u00f5es de vulto na sociedade brasileira, as grandes greves que, a partir do ABC paulista, tomaram conta do pa\u00eds, clamaram novamente por justi\u00e7a e democracia. Ao mesmo tempo revitalizaram o sindicalismo e deixaram marcas presentes at\u00e9 hoje em nossa vida pol\u00edtica e social.<\/p>\n<p>No entanto, ainda sabemos pouco sobre a hist\u00f3ria dos trabalhadores durante a Ditadura Civil-Militar. Boa parte do interesse dos estudiosos sobre o per\u00edodo concentrou-se em outros grupos sociais e temas, o que se reflete na literatura e na programa\u00e7\u00e3o dos numerosos eventos que analisam os 50 anos do golpe.<\/p>\n<p>Felizmente, este quadro come\u00e7a a mudar. Neste sentido, a abertura dos arquivos governamentais, incluindo o do Minist\u00e9rio do Trabalho, cuja documenta\u00e7\u00e3o apodrece, sem cuidado algum, em um pr\u00e9dio da periferia de Bras\u00edlia, \u00e9 um passo fundamental. E sem d\u00favida, o relat\u00f3rio final da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade poder\u00e1 ter um papel decisivo neste encontro do Brasil com sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><em>(*) Professor da Escola de Ci\u00eancias Sociais da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas (CPDOC\/FGV) onde coordena o Laborat\u00f3rio de Estudos dos Mundos do Trabalho e Movimentos Sociais. No momento, \u00e9 Visiting Fellow no Instituto Re:work da Humboldt University em Berlim.<\/em><\/p>\n<p><strong>Nota do autor<\/strong>: <em>Em meados de mar\u00e7o fui procurado pela assistente da dire\u00e7\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o na qual trabalho, questionando se eu teria interesse em publicar um artigo sobre o golpe de 64 para o jornal O Globo. Como em outros momentos de anivers\u00e1rio de eventos hist\u00f3ricos, O Globo solicitava ent\u00e3o aos pesquisadores do CPDOC artigos de avalia\u00e7\u00e3o e opinativos. Apesar de mergulhado em outras atividades, concordei em fazer um curto artigo sobre o papel dos trabalhadores no golpe e na ditadura, por julgar ser este um tema de grande relev\u00e2ncia acad\u00eamica, pol\u00edtica e social. Entreguei o artigo no dia 20 de mar\u00e7o. Para minha surpresa, ele n\u00e3o foi publicado. Ap\u00f3s varias tentativas frustradas de contato, a editora respons\u00e1vel do jornal pediu desculpas e afirmou que o artigo n\u00e3o seria publicado. Segundo ela a n\u00e3o publica\u00e7\u00e3o baseia-se em uma s\u00e9rie de decis\u00f5es editoriais que dizem respeito \u00e0 espa\u00e7o, a prioridades tem\u00e1ticas com o surgimento de novas not\u00edcias ou contribui\u00e7\u00f5es n\u00e3o previstas etc.<\/em><\/p>\n<p><em>Dif\u00edcil n\u00e3o pensar que um par\u00e1grafo inicial\u00a0 cr\u00edtico ao j\u00e1 famoso editorial onde O Globo reconhece seu erro (de maneira t\u00edmida e defensiva, por sinal) no apoio ao golpe de 64\u00a0 n\u00e3o tenha tido algum papel na decis\u00e3o editorial de n\u00e3o publicar o artigo. Al\u00e9m disso, parece que discuss\u00f5es sobre movimento sindical e os mundos do trabalho n\u00e3o s\u00e3o muito bem vistas pelo jornal. No m\u00ednimo paradoxal para quem diz defender tanto a liberdade de express\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Politica\/O-golpe-contra-os-trabalhadores\/4\/30727\">http:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Politica\/O-golpe-contra-os-trabalhadores\/4\/30727<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":" Paulo Fontes*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6136\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-6136","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1AY","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6136","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6136"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6136\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6136"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6136"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6136"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}