{"id":6178,"date":"2014-04-27T01:23:49","date_gmt":"2014-04-27T01:23:49","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6178"},"modified":"2017-08-25T00:48:44","modified_gmt":"2017-08-25T03:48:44","slug":"o-25-de-abril-e-o-direito-a-rebeliao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6178","title":{"rendered":"O 25 de Abril e o direito \u00e0 rebeli\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>Acredito que as sementes de Abril germinar\u00e3o ap\u00f3s a sua longa hiberna\u00e7\u00e3o. Os trabalhadores n\u00e3o esqueceram as prodigiosas conquistas da gera\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, nos dias em que \u00c1lvaro Cunhal e Vasco Gon\u00e7alves &#8211; dois grandes portugueses do s\u00e9culo XX &#8211; deram uma contribui\u00e7\u00e3o fundamental para o avan\u00e7o da revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e nacional. A mar\u00e9 da resist\u00eancia enche a cada semana.<\/p>\n<p>Transcorreram 40 anos desde o 25 de Abril de 1974.<\/p>\n<p>O povo portugu\u00eas festejar\u00e1 hoje em todo o pa\u00eds o anivers\u00e1rio do derrubamento do fascismo.<\/p>\n<p>O golpe militar daquela madrugada foi concebido para p\u00f4r fim \u00e0 guerra colonial. Mas a participa\u00e7\u00e3o torrencial do povo alterou em poucas horas o rumo e o objetivo do movimento. As massas, tomando as ruas, empurraram os capit\u00e3es de Abril para uma revolu\u00e7\u00e3o na qual a alian\u00e7a Povo-MFA desempenhou papel decisivo.<\/p>\n<p>Foi uma revolu\u00e7\u00e3o diferente de tudo o que se conhecia. Em 18 meses, no contexto de uma luta de classes exacerbada, permanente, Portugal avan\u00e7ou mais na Hist\u00f3ria do que nos tr\u00eas s\u00e9culos anteriores. N\u00e3o h\u00e1 precedente na Europa Ocidental desde a Comuna de Paris para conquistas sociais t\u00e3o importantes como as da breve Revolu\u00e7\u00e3o de Abril. Reforma Agr\u00e1ria t\u00e3o ambiciosa n\u00e3o acontecera antes.<\/p>\n<p>At\u00e9 onde iria essa revolu\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>A pergunta perde sentido porque a rutura da alian\u00e7a Povo-MFA, ideada e provocada pelo Partido Socialista e apoiada pelo PSD (e o CDS, seu ap\u00eandice), abriu a porta \u00e0 contrarrevolu\u00e7\u00e3o vitoriosa em Novembro de 1975.<\/p>\n<p>N\u00e3o era, por\u00e9m, previs\u00edvel que a destrui\u00e7\u00e3o da heran\u00e7a revolucion\u00e1ria fosse t\u00e3o r\u00e1pida e profunda.<\/p>\n<p>Quatro d\u00e9cadas depois, a classe dominante, que fora varrida do poder, est\u00e1 novamente nele encastelada. O governo que a representa, chefiado por um pol\u00edtico de voca\u00e7\u00e3o neofascista, imp\u00f5e ao Pais medidas que em alguns casos s\u00e3o t\u00e3o reacion\u00e1rias que nem Salazar as aplicou.<\/p>\n<p>Como foi poss\u00edvel a mudan\u00e7a da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as que inverteu o rumo da Hist\u00f3ria, empobreceu dramaticamente o Pa\u00eds e o fez regredir d\u00e9cadas?<\/p>\n<p>Muitos anos passar\u00e3o at\u00e9 que a pergunta tenha uma resposta rigorosa.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 a amargura nascida da rejei\u00e7\u00e3o do presente e o sentimento de rep\u00fadio \u00e0 pol\u00edtica do atual governo fascizante que imprimir\u00e1 hoje \u00e0s gigantescas manifesta\u00e7\u00f5es de Lisboa e do Porto um carater de protesto massivo do povo portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Muitos dos militares e civis que tiveram participa\u00e7\u00e3o relevante nas inesquec\u00edveis jornadas de Abril de 74 j\u00e1 faleceram. N\u00e3o podiam imaginar que Portugal projetaria hoje no mundo a imagem de um pa\u00eds surreal, uma ditadura da burguesia de fachada democr\u00e1tica no qual a pol\u00edtica \u00e9 um p\u00e2ntano.<\/p>\n<p>O bando que desgoverna o pa\u00eds criou uma linguagem adequada \u00e0 sua estrat\u00e9gia devastadora. \u00c9 um estranho l\u00e9xico que visa anestesiar a consci\u00eancia das v\u00edtimas. Ao roubo dos sal\u00e1rios chamam \u00absacrif\u00edcios\u00bb, \u00abcontribui\u00e7\u00e3o de solidariedade\u00bb a um brutal imposto, e a indigna\u00e7\u00e3o do povo \u00e9 farisaicamente transformada em \u00abcompreens\u00e3o dos portugueses\u00bb.<\/p>\n<p>Numa comunica\u00e7\u00e3o social submissa, os comentadores retomam e vulgarizam essa linguagem. A maioria critica o acess\u00f3rio para fazer a apologia da \u00abausteridade\u00bb como mal necess\u00e1rio. Alguns cumprem com devo\u00e7\u00e3o e habilidade a tarefa de confundir o povo.<\/p>\n<p>No heterog\u00e9neo governo Passos &amp; Portas as contradi\u00e7\u00f5es s\u00e3o permanentes, refletindo a incapacidade do timoneiro, que se comporta como um pajem da chanceler Angela Merkel.<\/p>\n<p>Uma corrup\u00e7\u00e3o desenfreada instalou-se nos Minist\u00e9rios, na c\u00fapula da alta Administra\u00e7\u00e3o e na banca. Favores e pr\u00e9mios escandalosos aos ep\u00edgonos do poder s\u00e3o a contrapartida das puni\u00e7\u00f5es impostas aos trabalhadores, reformados e pensionistas. N\u00e3o surpreendeu a not\u00edcia de que Gaspar vai ter no FMI um vencimento mensal de 23 000 euros. \u00c9 uma recompensa pelos servi\u00e7os prestados ao grande capital pelo ex- ministro das Finan\u00e7as. Ampliar a desigualdade tem sido ali\u00e1s, quase uma obsess\u00e3o para Passos &amp; Portas. Hoje, as fortunas dos 46 portugueses mais ricos representam l0 % do PIB nacional (in \u00abCorreio da Manh\u00e3\u00bb, 4.04.14).<\/p>\n<p>Ao avaliar o gabinete, admito que alguns ministros e secret\u00e1rios de estado ter\u00e3o sido cidad\u00e3os comuns, acima de suspeita, antes de ingressarem no Governo. Mas hoje, pela sua participa\u00e7\u00e3o e cumplicidade na obra criminosa em curso, n\u00e3o h\u00e1 um s\u00f3 que possa ser merecedor de respeito. Palavras como hipocrisia, ambi\u00e7\u00e3o, incultura, ignor\u00e2ncia, ego\u00edsmo, crueldade, cobardia s\u00e3o insuficientes para qualificar os atos e o caracter dessa gente.<\/p>\n<p>Nas v\u00e9speras do anivers\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o os partidos que controlam a Assembleia da Republica demonstraram com clareza a sua ideologia reaccion\u00e1ria opondo-se a que na sess\u00e3o comemorativa da efem\u00e9ride usasse da palavra um representante dos capit\u00e3es de Abril.<\/p>\n<p>Um dia, espero que n\u00e3o muito distante, ficar\u00e1 transparente que a esc\u00f3ria humana que hoje exerce o Poder pol\u00edtico se comportou coletivamente como inimiga do povo portugu\u00eas.<\/p>\n<p>O que fazer?<\/p>\n<p>A velha e pertinente pergunta leninista \u00e9 atual\u00edssima neste Portugal saqueado e humilhado, no qual at\u00e9 as For\u00e7as Armadas, as Pol\u00edcias e a Guarda Nacional Republicana expressam j\u00e1 o seu descontentamento nas escadarias da Assembleia da Republica.<\/p>\n<p>Acredito que as sementes de Abril germinar\u00e3o ap\u00f3s a sua longa hiberna\u00e7\u00e3o. Os trabalhadores n\u00e3o esqueceram as prodigiosas conquistas da gera\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, nos dias em que \u00c1lvaro Cunhal e Vasco Gon\u00e7alves &#8211; dois grandes portugueses do s\u00e9culo XX &#8211; deram uma contribui\u00e7\u00e3o fundamental para o avan\u00e7o da revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e nacional.<\/p>\n<p>A mar\u00e9 da resist\u00eancia enche a cada semana, apesar da aliena\u00e7\u00e3o de grande parte da popula\u00e7\u00e3o. Essas lutas, agora permanentes, di\u00e1rias, ampliam-se com destacada participa\u00e7\u00e3o da CGTP e dos comunistas. Mas \u00e9 ainda insuficiente o protesto popular. A resposta \u00e0 intoler\u00e1vel opress\u00e3o social e econ\u00f3mica ter\u00e1 de assumir uma amplitude muito maior.<\/p>\n<p>J\u00e1 Locke, no seculo XVII, na sua Teoria do Estado Liberal, defendia o direito \u00e0 rebeli\u00e3o quando a tirania ofende a condi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>A Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos do Homem, aprovada pela Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas em l948, abre tamb\u00e9m a porta \u00e0 rebeli\u00e3o dos povos quando os direitos por ela enunciados e garantidos s\u00e3o violados.<\/p>\n<p>\u00c9 o que o governo de Passos &amp; Portas faz, impune, com arrog\u00e2ncia desafiadora. At\u00e9 quando?<\/p>\n<p>Vila Nova de Gaia,25 de Abril de 2014<\/p>\n<blockquote data-secret=\"vAK8YpoqrM\" class=\"wp-embedded-content\"><p><a href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3256\">Manual de autoajuda para os golpes de Estado suaves<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" src=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3256\/embed#?secret=vAK8YpoqrM\" data-secret=\"vAK8YpoqrM\" width=\"600\" height=\"338\" title=\"&#8220;Manual de autoajuda para os golpes de Estado suaves&#8221; &#8212; PCB - Partido Comunista Brasileiro\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nMiguel Urbano Rodrigues\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6178\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-6178","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1BE","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6178","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6178"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6178\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6178"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6178"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6178"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}