{"id":6188,"date":"2014-04-30T01:49:08","date_gmt":"2014-04-30T01:49:08","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6188"},"modified":"2014-04-30T01:49:08","modified_gmt":"2014-04-30T01:49:08","slug":"a-copa-ja-era","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6188","title":{"rendered":"A COPA J\u00c1 ERA!"},"content":{"rendered":"\n<p>O presente texto tem o prop\u00f3sito de apresentar onze argumentos, do goleiro ao ponta-esquerda, para demonstrar que a Copa j\u00e1 era!<\/p>\n<p>Ou seja, que j\u00e1 n\u00e3o ter\u00e1 nenhum valor para a sociedade brasileira e, em especial para a classe trabalhadora, restando-nos ser diligentes para que os danos gerados n\u00e3o se arrastem para o per\u00edodo posterior \u00e0 Copa.<\/p>\n<p><strong>1. A perda do sentido humano<\/strong><\/p>\n<p>O debate entre os que defendem a causa \u201cn\u00e3o vai ter copa\u201d e os que afirmam \u201cvai ter copa\u201d est\u00e1 superado. Afinal, haja o que houver, o evento n\u00e3o vai acontecer, ao menos no sentido originariamente imaginado, como instrumento apto a gerar lucros e dividendos pol\u00edticos \u201climpinhos\u201d, como se costuma dizer, pois n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel apagar os efeitos delet\u00e9rios que a Copa j\u00e1 produziu para a classe trabalhadora brasileira. \u00c9 certo, por exemplo, que para Jos\u00e9 Afonso de Oliveira Rodrigues, Raimundo Nonato Lima Costa, F\u00e1bio Luiz Pereira, Ronaldo Oliveira dos Santos, Marcleudo de Melo Ferreira, Jos\u00e9 Ant\u00f4nio do Nascimento, Ant\u00f4nio Jos\u00e9 Pitta Martins e Fabio Hamilton da Cruz, mortos nas obras dos est\u00e1dios, j\u00e1 n\u00e3o vai ter Copa!<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, a Copa j\u00e1 n\u00e3o tem o menor valor para mais de 8.350 fam\u00edlias que foram removidas de suas casas no Rio de Janeiro, em procedimento que, como adverte o jornalista Juca Kfouri, no document\u00e1rio, A Caminho da Copa, de Carolina Caff\u00e9 e Florence Rodrigues, \u201clembram pr\u00e1ticas nazistas de casas que s\u00e3o marcadas num dia para serem demolidas no dia seguinte, gente passando com tratores por cima das casas\u201d. Essas pr\u00e1ticas, segundo relatos dos moradores, expressos no mesmo document\u00e1rio, inclu\u00edram invas\u00f5es nas resid\u00eancias, para medir, pichar e tirar fotos, estabelecendo uma l\u00f3gica de press\u00e3o a fim de que moradores assinassem laudos que atestavam que a casa estava em \u00e1rea de risco, sob o argumento de que na aus\u00eancia de assinatura nada receberiam de indeniza\u00e7\u00e3o, o que foi completado com o uso da Pol\u00edcia para reprimir, com extrema viol\u00eancia, os atos de resist\u00eancia leg\u00edtima organizados pelos moradores, colimando com demoli\u00e7\u00f5es que se realizaram, inclusive, com pessoas ainda dentro das casas. As imagens do document\u00e1rio mencionado s\u00e3o de fazer chorar e de causar indigna\u00e7\u00e3o, revolta e rep\u00fadio, como o s\u00e3o tamb\u00e9m as imagens da viol\u00eancia utilizada para a desocupa\u00e7\u00e3o de im\u00f3vel da VIVO na zona norte do Rio de Janeiro, ocorrida no dia 11 de abril de 2014, onde se encontravam 5.000 pessoas. Lembre-se que as remo\u00e7\u00f5es para a Copa ocorreram tamb\u00e9m em Cuiab\u00e1, Curitiba, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Manaus, S\u00e3o Paulo e Fortaleza, atingindo, segundo os Comit\u00eas Populares da Copa, cerca de 170 mil fam\u00edlias em todo o Brasil.<\/p>\n<p>A Copa j\u00e1 n\u00e3o tem sentido para o Brasil, como na\u00e7\u00e3o, visto que embora sejam gastos cerca de R$ 30 bilh\u00f5es para o montante total das obras, sendo 85% vindos dos cofres p\u00fablicos, a forma como se organizou \u2013 ou n\u00e3o se organizou \u2013 a Copa acabou abalando a pr\u00f3pria imagem do Brasil. Ou seja, mesmo se pensarmos o evento do ponto de vista econ\u00f4mico e ainda que, imediatamente, se possa chegar a algum resultado financeiro positivo, considerando o que se gastou e o dinheiro que venha a ser atra\u00eddo para o mercado nacional, \u00e9 f\u00e1cil projetar um balan\u00e7o negativo em raz\u00e3o da quebra de confiabilidade.<\/p>\n<p>Se o Brasil queria se mostrar, como de fato n\u00e3o \u00e9, para mais de 2 bilh\u00f5es de telespectadores, pode estar certo de que a estrat\u00e9gia j\u00e1 n\u00e3o deu certo.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, a pr\u00f3pria FIFA, a quem se concederam benef\u00edcios in\u00e9ditos na hist\u00f3ria das Copas, tem difundido pelo mundo uma imagem extremamente negativa do Brasil, que at\u00e9 sequer corresponde \u00e0 nossa realidade, pois faz parecer que o Brasil \u00e9 uma terra de gente pregui\u00e7osa e descomprometida, quando se sabe que o Brasil, de fato, \u00e9 um pa\u00eds composto por uma classe trabalhadora extremamente sofrida e dedicada e onde se produz uma intelig\u00eancia extremamente relevante em todos os campos do conhecimento, mas que, enfim, serve para demonstrar que maquiar os nossos problemas sociais e econ\u00f4micos n\u00e3o ter\u00e1 sido uma boa estrat\u00e9gia.<\/p>\n<p><strong>2. Aus\u00eancia de beneficio econ\u00f4mico<\/strong><\/p>\n<p>Mesmo que entre perdas e ganhos o saldo econ\u00f4mico seja positivo, h\u00e1 de se indagar qual o pre\u00e7o pago pela popula\u00e7\u00e3o brasileira, vez que restar\u00e1 a esta conviver por muitos anos com o verdadeiro legado da Copa: alguns est\u00e1dios fantasmas e obras inacabadas, nos pr\u00f3prios est\u00e1dios e em aeroportos e avenidas, al\u00e9m da indigna\u00e7\u00e3o de saber que os grandes est\u00e1dios e as obras em aeroportos custaram milh\u00f5es aos cofres p\u00fablicos, mas que, de fato, pouca serventia ter\u00e3o para a maior parte da classe oper\u00e1ria, que raramente viaja de avi\u00e3o e que tem sido afastada das partidas de futebol, em raz\u00e3o do processo not\u00f3rio de elitiza\u00e7\u00e3o incrementado neste esporte.<\/p>\n<p>Oportuno frisar que o dinheiro p\u00fablico utilizado origina-se da riqueza produzida pela classe trabalhadora, vez que toda riqueza prov\u00e9m do trabalho e ainda que se diga que n\u00e3o houve uma transfer\u00eancia do dinheiro p\u00fablico para o implemento de uma atividade privada, vez que tudo est\u00e1 na base de empr\u00e9stimos, n\u00e3o se pode deixar de reconhecer que foram empr\u00e9stimos com prazos e juros bastante generosos, baseados na previsibilidade de ganhos paralelos com o evento, ganhos que, no entanto, j\u00e1 se demonstram bastante question\u00e1veis.<\/p>\n<p>No caso do est\u00e1dio Man\u00e9 Garrincha, em Bras\u00edlia, por exemplo, com custo final estimado em R$1,9 bilh\u00f5es, levando-se em considera\u00e7\u00e3o o resultado operacional com jogos e eventos obtidos em um ano ap\u00f3s a conclus\u00e3o da obra, qual seja, R$1.137 milh\u00f5es, ser\u00e3o precisos 1.167 anos para recuperar o que se gastou, o que \u00e9 um absurdo do tamanho do est\u00e1dio, ainda que o Ministro do Esporte, Aldo Rebelo, e o secret\u00e1rio executivo da pasta, Luis Fernandes, tenham considerado o resultado, respectivamente, \u201cum \u00eaxito\u201d e \u201cum exemplo contra o derrotismo\u201d.<\/p>\n<p>O problema aumenta, gerando indigna\u00e7\u00e3o, quando se lembra que n\u00e3o se tem visto historicamente no Brasil \u2013 desde sempre \u2013 a mesma disposi\u00e7\u00e3o de investir dinheiro p\u00fablico em valores ligados aos direitos sociais, tais como educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, sa\u00fade p\u00fablica, moradias, creches e transporte.<\/p>\n<p>O que se sabe com certeza \u00e9 que a FIFA, que n\u00e3o precisa se preocupar com nenhum efeito social e econ\u00f4mico correlato da Copa, obter\u00e1 um enorme lucro com o evento. \u201cUma proje\u00e7\u00e3o feita pela BDO, empresa de auditoria e consultoria especializada em an\u00e1lises econ\u00f4micas, financeiras e mercadol\u00f3gicas, aponta que a Copa do Mundo de 2014 no Brasil vai render para a Fifa a maior arrecada\u00e7\u00e3o de sua hist\u00f3ria: nada menos do que US$ 5 bilh\u00f5es entrar\u00e3o nos cofres da entidade (cerca de R$ 10 bilh\u00f5es).\u201d<\/p>\n<p><strong>3. O preju\u00edzo para o governo<\/strong><\/p>\n<p>O governo brasileiro, que tenta administrar todos os preju\u00edzos do evento, v\u00ea-se obrigado, pelo compromisso assumido por ocasi\u00e3o da candidatura, a conferir para a FIFA garantias, que ferem a Constitui\u00e7\u00e3o Federal e que, por consequ\u00eancia, estabelecem um aut\u00eantico Estado de exce\u00e7\u00e3o, para que o lucro almejado pela FIFA n\u00e3o corra risco de diminui\u00e7\u00e3o, entregando-lhe, al\u00e9m dos est\u00e1dios, que a FIFA utilizar\u00e1 gratuitamente:<\/p>\n<p>a) a cria\u00e7\u00e3o de um \u201clocal oficial de competi\u00e7\u00e3o\u201d, que abrange o per\u00edmetro de 2 km em volta do est\u00e1dio, no qual ser\u00e1 reservada \u00e0 FIFA e seus parceiros, a comercializa\u00e7\u00e3o exclusiva, com proibi\u00e7\u00e3o do livre com\u00e9rcio, inclusive de estabelecimentos j\u00e1 existentes no tal, caso seu com\u00e9rcio se relacione de alguma forma ao evento;<\/p>\n<p>b) a institucionaliza\u00e7\u00e3o do trabalho volunt\u00e1rio, para servi\u00e7os ligados a atividade econ\u00f4mica (estima-se que cerca de 33 mil pessoas ter\u00e3o seu trabalho explorado gratuitamente, sem as condi\u00e7\u00f5es determinadas por lei, durante o per\u00edodo da Copa no Brasil);<\/p>\n<p>c) o permissivo, conferido pela Recomenda\u00e7\u00e3o n. 3\/2013, do CNJ, da explora\u00e7\u00e3o do trabalho infantil, em atividades ligadas aos jogos, incluindo a de gandula, o que foi proibido, ainda que com bastante atraso, em torneios organizados pela CBF (Confedera\u00e7\u00e3o Brasileira de Futebol), desde 2004, seguindo a previs\u00e3o constitucional e o Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente (ECA);<\/p>\n<p>d) a liberdade de atuar no mercado, sem qualquer interven\u00e7\u00e3o do Estado, podendo a FIFA fixar o pre\u00e7o dos ingressos como bem lhe aprouver (art. 25, Lei Geral da Copa);<\/p>\n<p>e) a elimina\u00e7\u00e3o do direito \u00e0 meia-entrada, pois a Lei Geral da Copa permitiu \u00e0 FIFA escalonar pre\u00e7os em 4 categorias, que ser\u00e3o diferenciadas, por certo, em raz\u00e3o do local no est\u00e1dio, sendo fixada a obrigatoriedade de que se tenha na categoria 4, a mais barata (n\u00e3o necessariamente com pre\u00e7o 50% menor que a mais cara), apenas 300 mil ingressos, sem qu\u00f3rum m\u00ednimo para cada jogo, e apenas dentre estes \u00e9 que se garantiu a meia entrada para estudantes, pessoas com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos; e participantes de programa federal de transfer\u00eancia de renda, que, assim, foram colocados em concorr\u00eancia pelos referidos ingressos;<\/p>\n<p>f) o afastamento da aplica\u00e7\u00e3o do C\u00f3digo de Defesa do Consumidor, deixando-se os crit\u00e9rios para cancelamento, devolu\u00e7\u00e3o e reembolso de ingressos, assim como para aloca\u00e7\u00e3o, realoca\u00e7\u00e3o, marca\u00e7\u00e3o, remarca\u00e7\u00e3o e cancelamento de assentos nos locais dos Eventos \u00e0 defini\u00e7\u00e3o exclusiva da FIFA, a qual poder\u00e1 inclusive dispor sobre a possibilidade: de modificar datas, hor\u00e1rios ou locais dos eventos, desde que seja concedido o direito ao reembolso do valor do ingresso ou o direito de comparecer ao evento remarcado; da venda de ingresso de forma avulsa, da venda em conjunto com pacotes tur\u00edsticos ou de hospitalidade; e de estabelecimento de cl\u00e1usula penal no caso de desist\u00eancia da aquisi\u00e7\u00e3o do ingresso ap\u00f3s a confirma\u00e7\u00e3o de que o pedido de ingresso foi aceito ou ap\u00f3s o pagamento do valor do ingresso, independentemente da forma ou do local da submiss\u00e3o do pedido ou da aquisi\u00e7\u00e3o do Ingresso (art. 27).<\/p>\n<p><strong>4. O preju\u00edzo para a cidadania<\/strong><\/p>\n<p>Para garantir mesmo que o lucro da FIFA n\u00e3o seja abalado, o Estado j\u00e1 anunciou que o evento ter\u00e1 o maior efetivo de policiais da hist\u00f3ria das Copas, com gasto estimado de 2 bilh\u00f5es de reais, mobilizando, inclusive, as For\u00e7as Armadas, tudo isso n\u00e3o precisamente para proteger o cidad\u00e3o contra atos de viol\u00eancia urbana, mas para impedir que o cidad\u00e3o, v\u00edtima da viol\u00eancia da Copa, possa se insurgir, democraticamente, contra a sua realiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A respeito das manifesta\u00e7\u00f5es, vale frisar, \u00e9 completamente impr\u00f3prio o argumento de que como nada se falou antes, agora \u00e9 tarde para os cidad\u00e3os se insurgirem. Primeiro, porque quando o compromisso foi firmado ningu\u00e9m foi consultado quanto ao seu conte\u00fado. E, segundo, porque nenhum sil\u00eancio do povo pode ser utilizado como fundamento para justificar o abalo das institui\u00e7\u00f5es do Estado de Direito, vez que assim toda tirania, baseada na for\u00e7a e no medo, estaria legitimada. O argumento, portanto, \u00e9 insustent\u00e1vel e muito grave, sobretudo no ano em que a sociedade brasileira se v\u00ea diante do desafio de saber toda a verdade sobre o golpe de 1964 e os 21 anos da ditatura civil-militar.<\/p>\n<p>Deve-se acrescentar, com bastante relevo, que o evento festivo, composto por alguns jogos de futebol, est\u00e1 sendo organizado de modo a abranger toda a sociedade brasileira, impondo-lhe os mais variados sacrif\u00edcios, pois imp\u00f5e uma intensa altera\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria rotina social, atingindo a pessoas que nenhuma rela\u00e7\u00e3o possuem com o evento ou mesmo que tenham avers\u00e3o a ele.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio calend\u00e1rio escolar foi alterado, para que n\u00e3o houvesse mais aulas durante a Copa, buscando, de fato, melhorar artificialmente o tr\u00e2nsito e facilitar o acesso aos locais dos jogos. A educa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 preceito fundamental, que se arranje, pois, afinal, \u00e9 ano da Copa! Algumas cidades, para melhor atingir esse objetivo da facilitar a circula\u00e7\u00e3o, mascarando os problemas do transporte, pensam, seriamente, em decretar feriados nos dias de jogo da sele\u00e7\u00e3o brasileira, interferindo, tamb\u00e9m, na l\u00f3gica produtiva nacional.<\/p>\n<p>Nos servi\u00e7os p\u00fablicos j\u00e1 se anunciaram altera\u00e7\u00f5es nos hor\u00e1rios de funcionamento, de modo a n\u00e3o permitir coincid\u00eancia com os dias de jogos do Brasil, sendo que em alguns Tribunais do Trabalho (Mato Grosso \u2013 em Cuiab\u00e1 e nas cidades do interior; Rio Grande do Sul e S\u00e3o Paulo, com diferen\u00e7as de intensidade e de datas); o funcionamento foi suspenso, gerando adiamento das audi\u00eancias\u2026 Ou seja, o trabalhador, que esperou meses para ser atendido pela Justi\u00e7a, ver\u00e1 sua audi\u00eancia adiada para daqui a alguns novos meses, pois, afinal, era dia de jogo da Copa!<\/p>\n<p>Somados todos esses fatores, \u00e9 f\u00e1cil entender que a Copa j\u00e1 perdeu todo o sentido para a na\u00e7\u00e3o brasileira. N\u00e3o por outra raz\u00e3o, ali\u00e1s, \u00e9 que a aprova\u00e7\u00e3o para a realiza\u00e7\u00e3o da Copa no Brasil, em novembro de 2008, que era de 79% caiu, em abril de 2014, para 48%, e os que eram contr\u00e1rios subiram, no mesmo per\u00edodo, de 10% para 41%, sendo que mais da metade dos brasileiros considera que os preju\u00edzos ser\u00e3o maiores que os ganhos.<\/p>\n<p><strong>5. O preju\u00edzo para a raz\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Numa leitura otimista, o diretor-geral do Comit\u00ea Organizador Local da Copa do Mundo Fifa 2014, que se chama, por coincid\u00eancia reveladora, Ricardo Trade (com\u00e9rcio, em ingl\u00eas), prefere dar destaque ao fato de que 48% s\u00e3o a favor e apenas 41% s\u00e3o contra, avaliando, ent\u00e3o, que o copo est\u00e1 meio cheio. S\u00f3 n\u00e3o consegue ver que o copo est\u00e1 esvaziando e que, de fato, nos trens e \u00f4nibus, que transportam os trabalhadores, s\u00f3 se fala da Copa para expressar indigna\u00e7\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s condi\u00e7\u00f5es do transporte, da sa\u00fade, das escolas, e da falta de creches. Sintom\u00e1tico, ali\u00e1s, o fato de que as periferias das grandes cidades n\u00e3o est\u00e3o pintadas para a \u201cfesta\u201d do futebol, como estavam nas Copas anteriores e isso porque, com a Copa sendo realizada aqui, \u00e9 poss\u00edvel ver as disparidades e perceber com maior facilidade como a ret\u00f3rica do legado n\u00e3o atinge, concretamente, a vida da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>Os tais empregos gerados s\u00e3o prec\u00e1rios e inseridos, sobretudo nas obras de est\u00e1dios, aeroportos e vias p\u00fablicas, na l\u00f3gica perversa da terceiriza\u00e7\u00e3o, sendo que muitos trabalhadores ainda ser\u00e3o explorados sem qualquer remunera\u00e7\u00e3o no mal denominado trabalho \u201cvolunt\u00e1rio\u201d, referido com orgulho pelo \u201cSenhor Com\u00e9rcio\u201d.<\/p>\n<p>Fato \u00e9 que n\u00e3o ser\u00e1 mais poss\u00edvel assistir a um jogo da Copa, no est\u00e1dio, pela TV ou nos circos armados do \u201cFan Fest\u201d e se emocionar com uma jogada ou um gol, sem lembrar do pre\u00e7o pago: assalto \u00e0 soberania; Estado de exce\u00e7\u00e3o; gastos p\u00fablicos; abalo da confiabilidade em raz\u00e3o da desorganiza\u00e7\u00e3o; viol\u00eancias dos despejos, dos acidentes de trabalho e da repress\u00e3o policial\u2026<\/p>\n<p>Sobre o Fan Fest, ademais, \u00e9 oportuno esclarecer que se trata de um \u201cevento oficial\u201d da Copa da FIFA, que deve ser organizado e custeado pelas cidades sedes de jogos, para que os exclu\u00eddos dos est\u00e1dios possam assistir aos jogos por um tel\u00e3o, com o acompanhamento de shows. Esse evento, organizado e pago pelo Estado (que se far\u00e1 em S\u00e3o Paulo mediante pareceria com o setor privado, conforme Comunicado de Chamamento P\u00fablico n. 01\/2014\/SMSP, que estabeleceu o prazo de uma semana para o oferecimento de ofertas), realizado em espa\u00e7o p\u00fablico, atende aos interesses privados da FIFA e suas parceiras. No caso da cidade de S\u00e3o Paulo, por exemplo, o Decreto n. 55.010, de 9 de abril de 2014, assinado pela vice-prefeita em exerc\u00edcio, N\u00e1dia Campe\u00e3o (em nova coincid\u00eancia reveladora), que regulou o evento, transforma a \u00e1rea p\u00fablica do Fan Fest em uma \u00e1rea privada, reservada, como dito no Decreto, aos f\u00e3s da Copa. Nos termos expressos no Decreto: \u201cFAN FEST: \u00e1rea do Vale do Anhangaba\u00fa indicada pela cidade-sede e reconhecida pela FIFA como \u00e1rea de lazer exclusiva aos f\u00e3s da Copa do Mundo FIFA 2014\u201d (inciso VIII, do art. 2\u00ba.) \u2013 grifou-se<\/p>\n<p>O mesmo Decreto fixa esse local, o do Fan Fest, como \u00e1rea de \u201crestri\u00e7\u00e3o comercial\u201d, que s\u00e3o \u201c\u00e1reas definidas pelo Poder P\u00fablico Municipal com per\u00edmetros restritos no entorno de locais oficiais espec\u00edficos de competi\u00e7\u00e3o, nas quais, respeitadas as normas legais existentes, fica assegurada a exclusividade prevista no artigo 11 da Lei Federal n\u00ba 12.663, de 2012, \u00e0 FIFA ou a quem ela autorizar\u201d (inciso XIII, do art. 2\u00ba.), valendo reparar que o Decreto, artificialmente, amplia, em muito, a extens\u00e3o geogr\u00e1fica do Vale do Anhangaba\u00fa: \u201cFAN FEST: a partir do Largo da Mem\u00f3ria, Rua Formosa, Viaduto do Ch\u00e1, Pra\u00e7a Ramos de Azevedo, Rua Conselheiro Crispiniano, Rua Capit\u00e3o Salom\u00e3o, Pra\u00e7a Pedro Lessa, Largo S\u00e3o Bento, Rua Flor\u00eancio de Abreu, Rua Boa Vista, Rua L\u00edbero Badar\u00f3, Pra\u00e7a do Patriarca, al\u00e7a de retorno da Av. 23 de Maio do sentido Bairro\/Centro para o sentido Centro\/Bairro, Av. 23 de Maio, entre o Largo da Mem\u00f3ria e o Viaduto do Ch\u00e1, conforme Anexo II deste decreto\u201d (inciso II, do art. 3\u00ba.), atingindo at\u00e9 mesmo o espa\u00e7o a\u00e9reo: \u201cOs espa\u00e7os a\u00e9reos correspondentes aos per\u00edmetros descritos nos incisos I e II do \u201ccaput\u201d deste artigo tamb\u00e9m se constituem em \u00e1reas de restri\u00e7\u00e3o comercial\u201d (par\u00e1grafo \u00fanico do art. 3\u00ba.).<\/p>\n<p>\u00c9 importante saber que ao se impedir a comercializa\u00e7\u00e3o na \u00e1rea reservada a Prefeitura de S\u00e3o Paulo acabou interrompendo um processo de negocia\u00e7\u00e3o, iniciado em maio de 2012, com os ambulantes que atuavam na cidade e, em especial, na regi\u00e3o central, onde se situa o Vale do Anhangaba\u00fa, e cuja licen\u00e7a havia sido cassada no contexto de uma pol\u00edtica de endurecimento muito forte quanto \u00e0 fiscaliza\u00e7\u00e3o de sua atua\u00e7\u00e3o, que fora intensificada, exatamente, a partir de 2011, quando houve a assinatura do termo de compromisso, anunciando S\u00e3o Paulo como uma das cidades sedes da Copa. Em 2012, acabaram sendo canceladas todas as 5.137 licen\u00e7as dos ambulantes e at\u00e9 hoje, mesmo ap\u00f3s instaurado, desde 2012, um grupo de trabalho tripartite \u2013 trabalhadores, sociedade civil e prefeitura (F\u00f3rum dos Ambulantes), para a discuss\u00e3o do problema, nada se resolveu e, em concreto, ao editar o Chamamento P\u00fablico acima citado, a Prefeitura acabou dificultando sobremaneira a pretens\u00e3o dos ambulantes de terem alguma atua\u00e7\u00e3o comercial durante a Copa. \u00c9 a Copa, na verdade, fechando postos de trabalho!<\/p>\n<p><strong>6. De novo o dinheiro<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 de se considerar que todos esses efeitos j\u00e1 foram produzidos e continuar\u00e3o repercutindo na vida real para al\u00e9m da Copa, ainda que o saldo econ\u00f4mico desta venha a ser positivo.<\/p>\n<p>E se o tema \u00e9 dinheiro, h\u00e1 de se indagar: dinheiro para quem, cara p\u00e1lida? \u00c9 evidente que o benef\u00edcio econ\u00f4mico n\u00e3o ficar\u00e1 para a classe trabalhadora e sim para quem explora o trabalho ou se vale da l\u00f3gica de reprodu\u00e7\u00e3o do capital. Para o trabalhador, o dinheiro que se direciona \u00e9 o fruto do trabalho realizado, que, de fato, na l\u00f3gica do modelo de sociedade capitalista, n\u00e3o representa, jamais, o equivalente necess\u00e1rio para restituir \u00e0 classe trabalhadora como um todo o valor do trabalho empregado no servi\u00e7o ou na obra. A l\u00f3gica econ\u00f4mica da Copa n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o a intensifica\u00e7\u00e3o do processo de acumula\u00e7\u00e3o de riqueza por meio da explora\u00e7\u00e3o do trabalho alheio, sendo que se considerarmos a utiliza\u00e7\u00e3o do denominado \u201ctrabalho volunt\u00e1rio\u201d, que se realizar\u00e1 sem qualquer custo remunerat\u00f3rio, a acumula\u00e7\u00e3o que se autoriza \u00e9 ainda maior.<\/p>\n<p>O tal efeito benef\u00edcio econ\u00f4mico, a que tanto se alude, portanto, n\u00e3o ser\u00e1, obviamente, revertido \u00e0 classe trabalhadora. Esta, inclusive, ser\u00e1 enormemente prejudicada, na medida em que o dinheiro p\u00fablico utilizado para financiar a atividade lucrativa de \u00edndole privada foi extra\u00eddo da tributa\u00e7\u00e3o realizada sobre a riqueza produzida pelo trabalho e que, assim, deveria ser, prioritariamente, revertida ao conjunto da classe trabalhadora para a satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades essenciais garantidas por preceitos constitucionais: escolas, hospitais, previd\u00eancia e assist\u00eancia social, creches e transporte, por exemplo. \u00c9 completamente il\u00f3gico dizer, como disse o diretor-geral do Comit\u00ea Organizador Local da Copa do Mundo Fifa 2014, no texto mencionado, que se est\u00e1 usando o dinheiro p\u00fablico para incentivar uma produ\u00e7\u00e3o privada com o objetivo de, ao final, tributar essa produ\u00e7\u00e3o e devolver o dinheiro aos cofres p\u00fablicos.<\/p>\n<p>O argumento seria apenas il\u00f3gico n\u00e3o fosse, tamb\u00e9m, digamos assim, carregado de alguns equ\u00edvocos, o que o torna, portanto, muito mais grave. Ora, como adverte Maur\u00edcio Alvarez da Silva, pelos termos da Lei Geral da Copa, Lei n. 12.350\/10, \u201cfoi concedida \u00e0 Fifa e sua subsidi\u00e1ria no Brasil, em rela\u00e7\u00e3o aos fatos geradores decorrentes das atividades pr\u00f3prias e diretamente vinculadas \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o ou realiza\u00e7\u00e3o dos Eventos, isen\u00e7\u00e3o de praticamente todos os tributos federais\u201d .<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, em 17 de maio de 2013, o governo federal publicou no \u201cDi\u00e1rio Oficial da Uni\u00e3o decreto que concede isen\u00e7\u00e3o de tributos federais nas importa\u00e7\u00f5es destinadas \u00e0 Copa das Confedera\u00e7\u00f5es neste ano e \u00e0 Copa do Mundo de 2014. Entre os produtos inclu\u00eddos na isen\u00e7\u00e3o est\u00e3o alimentos, suprimentos m\u00e9dicos, combust\u00edvel, materiais de escrit\u00f3rio, trof\u00e9us. O benef\u00edcio abrange Imposto sobre Produtos Industrializados incidente na importa\u00e7\u00e3o, Imposto de Importa\u00e7\u00e3o, PIS\/Pasep-Importa\u00e7\u00e3o, Cofins-Importa\u00e7\u00e3o, Taxa de utiliza\u00e7\u00e3o do Siscomex, Taxa de utiliza\u00e7\u00e3o do Mercante, Adicional ao Frete para Renova\u00e7\u00e3o da Marinha Mercante e Cide-combust\u00edveis\u201d.<\/p>\n<p>Em concreto, continuar\u00e3o sendo tributados apenas as empresas nacionais, que n\u00e3o estejam integradas ao rol das apaziguadas da FIFA, sofrendo, ainda, com a isen\u00e7\u00e3o concedida \u00e0s importadoras, os trabalhadores e os consumidores, sendo que o valor circulado nesta seara \u00e9 \u00ednfimo se considerarmos aquele, sem tributa\u00e7\u00e3o, destinado \u00e0 FIFA e suas parceiras e \u00e0s importadoras.<\/p>\n<p><strong>7. De novo os ataques aos trabalhadores<\/strong><\/p>\n<p>Quando os trabalhadores, saindo da invisibilidade, se apresentam no cen\u00e1rio pol\u00edtico e econ\u00f4mico e se expressam no sentido de que planejam uma organiza\u00e7\u00e3o coletiva para tentarem diminuir o preju\u00edzo, buscando, por meio de reivindica\u00e7\u00f5es grevistas, atrair para si uma parte maior do capital posto em circula\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o da Copa, logo algum economista de plant\u00e3o vem a p\u00fablico com a amea\u00e7a de que tais ganhos podem resultar em demiss\u00f5es futuras.<\/p>\n<p>Mas, essa possibilidade aventada pelos trabalhadores de se fazerem ouvir na Copa, que pode, em concreto, minimizar o preju\u00edzo dos trabalhadores, no processo de acumula\u00e7\u00e3o, e do pa\u00eds, na evas\u00e3o de riquezas, acabou provocando uma rea\u00e7\u00e3o institucional imediata, afinal o compromisso assumido pelo Estado brasileiro foi o de permitir que a FIFA obtivesse o seu maior lucro da hist\u00f3ria. Ent\u00e3o, a Justi\u00e7a do Trabalho se adiantou e divulgou que vai estabelecer um sistema de plant\u00e3o para julgar, com a m\u00e1xima celeridade (de um dia para o outro), as greves que ocorram durante a Copa, com o pressuposto j\u00e1 anunciado de que \u201cas greves t\u00eam custo para os trabalhadores, empregadores e popula\u00e7\u00e3o\u201d, sendo certo que a Copa n\u00e3o pode ser usada para \u201cexpor o pa\u00eds a uma humilha\u00e7\u00e3o internacional, como no Carnaval, quando houve greve de garis\u201d.<\/p>\n<p>Pouco importa o quanto a Justi\u00e7a do Trabalho, historicamente, demora para dar respostas aos direitos dos trabalhadores, no que se refere \u00e0s diversas formas de viol\u00eancias de que s\u00e3o v\u00edtimas em raz\u00e3o das pr\u00e1ticas de algumas empresas no que tange \u00e0 falta de registro, ao n\u00e3o pagamento de verbas rescis\u00f3rias, ao n\u00e3o pagamento de horas extras, ao n\u00e3o pagamento de indeniza\u00e7\u00f5es por acidentes do trabalho etc. Mesmo que j\u00e1 tendo melhorado sobremaneira na defesa dos interesses dos trabalhadores, transmite ainda a ideia central de que o que importa \u00e9 ser c\u00e9lere quando isso interessa ao modelo econ\u00f4mico, que se vale da explora\u00e7\u00e3o do trabalho para reproduzir o capital.<\/p>\n<p>A iniciativa repressiva da Justi\u00e7a, ademais, foi aplaudia, rapidamente, por editorial do jornal Folha de S. Paulo, o qual, inclusive, em declara\u00e7\u00e3o, no m\u00ednimo, infeliz, chamou os trabalhadores de oportunistas:<\/p>\n<p>\u00c9 uma iniciativa elogi\u00e1vel para evitar o excesso de oportunismo sindical, que n\u00e3o hesita em prejudicar o p\u00fablico e amea\u00e7ar o principal evento do ano no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Ou seja, todo mundo pode ganhar, menos os trabalhadores. Parodiando a m\u00e1xima penal, \u00e9 como se lhes fosse dito: \u201ctudo que voc\u00eas ganharem pode ser utilizado contra voc\u00eas mesmos\u2026\u201d<\/p>\n<p>Como foram as condi\u00e7\u00f5es de trabalho nas obras? Quantos trabalhadores n\u00e3o receberam ainda os seus direitos por servi\u00e7os que prestaram para a realiza\u00e7\u00e3o da Copa? Segundo preconizado pelo vi\u00e9s dessa preocupa\u00e7\u00e3o, nada disso vem ao caso\u2026 Na vis\u00e3o dos que s\u00f3 veem imperativo obrigacional de realizar a Copa, como quest\u00e3o de honra, custe o que custar, o que importa \u00e9 que o \u201cp\u00fablico\u201d receba o proveito dos servi\u00e7os dos trabalhadores e se estes n\u00e3o ganham sal\u00e1rio digno ou se trabalham em condi\u00e7\u00f5es indignas n\u00e3o h\u00e1 como trazer \u00e0 tona, para n\u00e3o impedir a realiza\u00e7\u00e3o do evento e para n\u00e3o abalar a imagem no Brasil l\u00e1 fora.<\/p>\n<p>Mas, concretamente, que situa\u00e7\u00e3o pode constranger mais a figura do Brasil no exterior? O Brasil que faz greves? Ou o Brasil em que os trabalhadores s\u00e3o submetidos a condi\u00e7\u00f5es subumanas de trabalho e que n\u00e3o permite que esses mesmos trabalhadores, em geral invis\u00edveis aos olhos das institui\u00e7\u00f5es brasileiras, se insurjam contra essa situa\u00e7\u00e3o, tendo que aproveitar o momento de um grande evento para, enfim, ganhar visibilidade, inclusive, internacional?<\/p>\n<p>Na verdade, a humilha\u00e7\u00e3o internacional, a qual n\u00e3o se quer submeter o Brasil, \u00e9 a de que o mundo saiba como o capitalismo aqui se desenvolve, ainda marcado pelos resqu\u00edcios culturais de quase 400 anos de escravid\u00e3o e sem sequer os limites concretos da efic\u00e1cia dos Direitos Humanos e dos direitos sociais, promovendo, em concreto, uma das sociedades mais injustas da terra.<\/p>\n<p><strong>8. O perverso legado das condi\u00e7\u00f5es de trabalho na Copa<\/strong><\/p>\n<p>Do ponto de vista da realidade, \u00e9 preciso consignar que a pressa na execu\u00e7\u00e3o das obras ainda tem aumentado a espolia\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora com eleva\u00e7\u00e3o das jornadas de trabalho, cuja retribui\u00e7\u00e3o, ainda que paga, nunca \u00e9 suficiente para atingir o n\u00edvel da equival\u00eancia, ainda mais quando s\u00e3o implementadas f\u00f3rmulas jur\u00eddicas fugidias do efetivo pagamento (banco de horas, compensa\u00e7\u00f5es etc.). O trabalho em jornadas extraordin\u00e1rias, ademais, gera um desgaste f\u00edsico e mental do trabalhador que n\u00e3o \u00e9 computado e n\u00e3o se compensa por pagamento.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos acidentes do trabalho citados inicialmente, portanto, \u00e9 importante adicionar ao legado da Copa para a classe trabalhadora as m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de trabalho, caracterizadas pela eleva\u00e7\u00e3o das jornadas de trabalho, pelo aumento do ritmo do trabalho e da press\u00e3o pela celeridade.<\/p>\n<p>O relato de alguns fatos, extra\u00eddos do notici\u00e1rio jornal\u00edstico, auxilia na visualiza\u00e7\u00e3o desse contexto de supress\u00e3o de direitos dos trabalhadores no per\u00edodo de prepara\u00e7\u00e3o para a Copa.<\/p>\n<p>Em setembro de 2013, 111 migrantes, vindos do Maranh\u00e3o, Sergipe, Bahia e Pernambuco foram encontrados em condi\u00e7\u00f5es an\u00e1logas \u00e0 de escravos na obra de amplia\u00e7\u00e3o do aeroporto de Guarulhos\/SP, o mais movimentado da Am\u00e9rica Latina, sob a responsabilidade da empresa OAS, que al\u00e9m de ser uma das maiores construtoras do Brasil, \u00e9 tamb\u00e9m a terceira empresa que mais faz doa\u00e7\u00f5es a candidatos de cargos pol\u00edticos, segundo levantamento do jornal Folha de S. Paulo, sendo uma das quatro empresas que formam o cons\u00f3rcio Invepar que, junto com a Airports Company South Africa, det\u00eam 51% da sociedade com a Infraero para a administra\u00e7\u00e3o do Aeroporto Internacional de Guarulhos atrav\u00e9s da GRU Airport e que para as obras de amplia\u00e7\u00e3o do aeroporto, onde foi flagrado trabalho escravo, obteve do BNDES um empr\u00e9stimo-ponte de R$1,2 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>E a OAS, evidentemente, declarou que \u201cvem apurando e tomando todas as provid\u00eancias necess\u00e1rias para atender \u00e0s solicita\u00e7\u00f5es\u201d do Minist\u00e9rio do Trabalho e Emprego, negando que as v\u00edtimas fossem suas empregadas ou que tivesse tido qualquer \u201cparticipa\u00e7\u00e3o no incidente relatado\u201d .<\/p>\n<p>At\u00e9 abril de 2012, conforme reportagem de Vin\u00edcius Segalla, oito dos doze est\u00e1dios da Copa j\u00e1 haviam enfrentado greves, atingindo 92 dias de paralisa\u00e7\u00e3o, sendo o recorde do Maracan\u00e3, no Rio de Janeiro, com 24 dias. As reivindica\u00e7\u00f5es foram variadas, indo desde quest\u00f5es ligadas \u00e0 remunera\u00e7\u00e3o at\u00e9 o desrespeito de direitos como pagamento de horas extras e fornecimento de planos de sa\u00fade. Segundo a reportagem, \u201cEm uma das quatro paralisa\u00e7\u00f5es j\u00e1 ocorridas em Pernambuco, no in\u00edcio de novembro do ano passado, o motivo foi a forma como a Odebrecht lidou com as reivindica\u00e7\u00f5es dos trabalhadores. \u00c9 que a empreiteira demitiu dois funcion\u00e1rios da arena que eram membros da Cipa (Comiss\u00e3o Interna de Preven\u00e7\u00e3o de Acidentes) porque eles teriam incitado os trabalhadores a fazer greve. A demiss\u00e3o dos oper\u00e1rios, junto com den\u00fancias de ass\u00e9dio moral supostamente praticados pelo respons\u00e1vel pela seguran\u00e7a do canteiro, levou os funcion\u00e1rios a decretar greve.\u201d<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m nos termos da reportagem, \u201ca empresa explicou ao UOL Esporte que \u2018Os dois empregados membros da Cipa foram demitidos por justa causa, por cometimento de flagrante ato de indisciplina, quando, no \u00faltimo dia 31 de outubro, instigaram os colegas a paralisarem a obra da Arena da Copa, sem nenhuma raz\u00e3o plaus\u00edvel\u2019.\u201d Embora, depois, por meio de nota tenha dito que as dispensas se deram sem justa causa.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o, revela a mesma reportagem, foi tamb\u00e9m bastante s\u00e9ria na greve do Maracan\u00e3, em setembro de 2011, cuja motiva\u00e7\u00e3o, segundo Nilson Duarte, presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Ind\u00fastrias da Constru\u00e7\u00e3o Pesada (Sitraicp), teria sido o fato de que \u201cforam servidos aos cerca de 2.000 trabalhadores da obra macarr\u00e3o e feij\u00e3o estragados, salada com bichos e leite fora da validade\u201d, o que fora negado pelo Cons\u00f3rcio Maracan\u00e3 (Odebrecht, Delta e Andrade Gutierrez), por meio de nota. O local j\u00e1 havia sido alvo de uma greve, um m\u00eas antes, agosto de 2011, por causa de uma explos\u00e3o no canteiro que feriu um trabalhador.<\/p>\n<p>Relata-se, ainda, que em Manaus (AM), na Arena Amaz\u00f4nia, houve paralisa\u00e7\u00e3o de um dia, em 22 de mar\u00e7o de 2012, porque conta do valor da cesta b\u00e1sica que estava sendo paga aos oper\u00e1rios, R$ 37, enquanto que \u201cde acordo com pesquisa do Dieese (Departamento Intersindical de Estat\u00edstica e Estudos Socioecon\u00f4micos ), o valor da cesta b\u00e1sica, composta por 12 produtos, fechou o m\u00eas de mar\u00e7o a um custo R$ 251,38 na capital amazonense\u201d, tendo a greve se encerrado com o aumento da cesta para R$ 60, acompanhado da promessa da empresa de que iria \u201cvoltar a pagar hora extra aos s\u00e1bados, o que parara de fazer tr\u00eas meses antes\u201d.<\/p>\n<p>Na arena de Pernambuco, no in\u00edcio de 2012, foi promovida a dispensa coletiva de 560 empregados, conforme destacado em reportagem de Paulo Henrique Tavares, que vale a pena reproduzir:<\/p>\n<p>A sexta-feira marcou a volta aos trabalhos dos oper\u00e1rios respons\u00e1veis pela constru\u00e7\u00e3o da Arena Pernambuco, na cidade de S\u00e3o Louren\u00e7o da Mata. E como \u201cboas-vindas\u201d, 560 trabalhadores acabaram recebendo o comunicado de demiss\u00e3o. A expectativa da comiss\u00e3o organizadora da recente greve, que paralisou as obras do est\u00e1dio por oito dias, \u00e9 de que outros mil funcion\u00e1rios pe\u00e7am a carta de dispensa at\u00e9 o fim da tarde.<\/p>\n<p>Por considerar \u201cabusiva e ilegal\u201d, o Tribunal Regional do Trabalho (TRT-PE) exigiu, na quinta-feira, a volta aos trabalhos dos grevistas, com penalidade de R$ 5 mil, por dia, ao sindicato da categoria, o Sintepav, em caso de descumprimento. Apesar da obrigatoriedade, a ideia dos remanescentes nas obras da Arena Pernambuco \u00e9 praticar \u2013 como os pr\u00f3prios denominam \u2013 uma \u201copera\u00e7\u00e3o tartaruga\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEu vim preparado para ser demitido. Como n\u00e3o fui, a maneira que encontrei para ajudar meus companheiros \u00e9 trabalhar de maneira lenta. Cada prego desta Arena ir\u00e1 demorar pelo menos um dia, para ser colocado\u201d, disse um trabalhador, que preferiu n\u00e3o ser identificado. \u201cEu n\u00e3o tenho prazo para terminar a obra. Quem tem prazo \u00e9 o governo.\u201d<\/p>\n<p>Antes das demiss\u00f5es, as obras para a Arena da Copa contavam com 2.437 trabalhadores. J\u00e1 contando com as sa\u00eddas desta sexta-feira, cerca de 250 novos oper\u00e1rios se apresentaram para o trabalho, em S\u00e3o Louren\u00e7o da Mata. \u201cPelo n\u00famero de pol\u00edcias que est\u00e3o aqui na obra hoje, acredito que eles e o governador Eduardo Campo devem colocar a m\u00e3o na massa para levantar o est\u00e1dio at\u00e9 a Copa do Mundo\u201d, falou, em tom ir\u00f4nico, um dos novos desempregados.<\/p>\n<p>Entre as reivindica\u00e7\u00f5es, os trabalhadores exigiam aumento de benef\u00edcios, como cesta b\u00e1sica de R$ 80 para R$ 120, maior participa\u00e7\u00e3o nos lucros e resultados (PLR), Plano de Sa\u00fade para os profissionais e ajudantes, al\u00e9m de abono dos dias parados e estabilidade de um ano para a comiss\u00e3o dos trabalhadores.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o pertinente \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de trabalho chegou a tal extrema que, na Arena do Gr\u00eamio (que n\u00e3o est\u00e1 integrada aos jogos da Copa, mas se alimenta da mesma l\u00f3gica), em outubro de 2011, os pr\u00f3prios trabalhadores pediram sua demiss\u00e3o, como \u201cforma de protesto pelas condi\u00e7\u00f5es de trabalho impostas pela empreiteira. A maioria dos trabalhadores \u00e9 do Maranh\u00e3o e retornar\u00e1 ainda hoje para seu estado natal.\u201d<\/p>\n<p>No est\u00e1dio do Itaquer\u00e3o, os oper\u00e1rios disseram, em janeiro de 2014, \u00e0 reportagem do UOL que estavam recebem sal\u00e1rio \u201cpor fora\u201d (que impede a tributa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o se integra aos demais direitos dos trabalhadores), \u201cpara trabalhar mais do que o previsto pelo acordo e evitar que a inaugura\u00e7\u00e3o do palco de abertura da Copa do Mundo atrase ainda mais\u201d. Segundo consta da reportagem, \u201cUm soldador que trabalha na obra contou \u00e0 reportagem que espera receber um sal\u00e1rio quatro vezes maior do que o normal neste m\u00eas devido \u00e0s horas extras irregulares que est\u00e1 fazendo\u201d.<\/p>\n<p>Segundo a reportagem, o acordo em quest\u00e3o, firmado com o aval do Minist\u00e9rio do Trabalho e Emprego, em 19 de dezembro de 2013, foi o de que estaria autorizado o trabalho em at\u00e9 duas horas extras diariamente, sendo que, anteriormente, dizem os trabalhadores, havia jornadas de at\u00e9 16 horas. E, presentemente, as horas al\u00e9m das duas extras permitidas, que j\u00e1 \u00e9, por si, grave afronta \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o, eram trabalhadas sem marca\u00e7\u00e3o em cart\u00e3o de ponto. \u201cEles [os chefes] falam para a gente: \u2018N\u00e3o pode atrasar\u2019. Ainda tem muita coisa pra fazer e \u00e0s vezes \u00e9 melhor mesmo voc\u00ea trabalhar umas horinhas a mais num dia para terminar uma tarefa e j\u00e1 come\u00e7a num ponto mais a frente no dia seguinte\u201d, disse \u00e0 reportagem um ajudante de pedreiro, de 23 anos, que, assim como os outros trabalhadores que conversaram com o UOL Esporte, pediu para n\u00e3o ser identificado.<\/p>\n<p>Nos termos da reportagem, \u201cAl\u00e9m do medo de perder o sal\u00e1rio adicional, os funcion\u00e1rios da construtora disseram que foram orientados a n\u00e3o dar entrevistas. \u2018Teve uma palestra no fim do ano para falar pra gente tomar cuidado com a imprensa, pra n\u00e3o ficar falando qualquer coisa porque isso s\u00f3 atrapalha a gente\u2019, declara o ajudante de pedreiro.\u201d<\/p>\n<p>Como revela not\u00edcia publicada no jornal Folha de S. Paulo, edi\u00e7\u00e3o de 23\/03\/14 (p. D-4), foram flagrados pelos jornalistas trabalhadores executando suas tarefas sem as m\u00ednimas condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a e de uma subsist\u00eancia digna em obra do centro de treinamento da sele\u00e7\u00e3o da Alemanha no sul da Bahia (Santa Cruz Cabr\u00e1lia).<\/p>\n<p><strong>9. O atentado hist\u00f3rico \u00e0 classe trabalhadora<\/strong><\/p>\n<p>A maior parte dos problemas vivenciados pelos trabalhadores nas obras da Copa est\u00e1 ligada \u00e0 sua submiss\u00e3o ao processo de terceiriza\u00e7\u00e3o e de precariza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho, que acabaram sendo acatados, sem resist\u00eancia institucional contundente, durante o per\u00edodo de prepara\u00e7\u00e3o para a Copa, interrompendo o curso hist\u00f3rico que era, at\u00e9 ent\u00e3o, de intensa luta pela melhoria das condi\u00e7\u00f5es de trabalho no setor da constru\u00e7\u00e3o civil, que \u00e9 o recordista, vale destacar, em acidentes do trabalho. Essa luta, implementada pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho, tendo como ponto essencial o combate \u00e0 terceiriza\u00e7\u00e3o, entendida como fator principal da precariedade que gera acidentes, j\u00e1 havia sido, inclusive, encampada pelo Governo Federal, em 2012, ao se integrar, em 27 de abril, ao Plano Nacional de Seguran\u00e7a e Sa\u00fade no Trabalho.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que o evento Copa, diante da necessidade de se acelerarem as obras, acabou por jogar por terra quase toda, sen\u00e3o toda, a racionalidade que j\u00e1 havia sido produzida a respeito do assunto pertinente ao combate \u00e0 terceiriza\u00e7\u00e3o no setor da constru\u00e7\u00e3o civil, chegando-se mesmo ao c\u00famulo do pr\u00f3prio Superintendente Regional do Trabalho e emprego de S\u00e3o Paulo, vinculado ao Minist\u00e9rio do Trabalho e Emprego, Luiz Ant\u00f4nio Medeiros, um ex-sindicalista, declarar, sobre as condi\u00e7\u00f5es de trabalho no Itaquer\u00e3o, que: \u201cSe esse est\u00e1dio n\u00e3o fosse da Copa, os auditores teriam feito um auto de infra\u00e7\u00e3o por trabalho prec\u00e1rio e paralisado a obra. Estamos fazendo de conta que n\u00e3o vemos algumas irregularidades\u201d (entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, em 03\/04\/14).<\/p>\n<p>O per\u00edodo da prepara\u00e7\u00e3o para a Copa, portanto, pode ser apontado como um atentado hist\u00f3rico \u00e0 classe trabalhadora, que jamais ser\u00e1 compensado pelo aludido \u201caumento de empregos\u201d, at\u00e9 porque, como dito, tais empregos, no geral, se deram por formas prec\u00e1rias. Nas obras o que se viu e se v\u00ea \u2013 embora n\u00e3o seja visto pelo Minist\u00e9rio do Trabalho e Emprego \u2013 s\u00e3o processos de terceiriza\u00e7\u00e3o e quarteiriza\u00e7\u00e3o, sem uma oposi\u00e7\u00e3o institucional, que, por conseq\u00fc\u00eancia, produz o legado de grave retrocesso sobre o tema, que tende a se estender, perigosamente, para o per\u00edodo posterior \u00e0 Copa.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode esquecer que quase todos os acidentes fatais acima mencionados, n\u00e3o por coincid\u00eancia, atingiram trabalhadores terceirizados, e o Estado de exce\u00e7\u00e3o, acoplado ao sil\u00eancio institucional sobre as formas de explora\u00e7\u00e3o do trabalho (exce\u00e7\u00e3o feita a algumas iniciativas individualizadas de membros do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho) e acatado para garantir a Copa, acabaram servindo como uma luva a certas fra\u00e7\u00f5es do setor econ\u00f4mico, que ser\u00e3o as \u00fanicas, repita-se, que verdadeiramente, se beneficiar\u00e3o do evento, para desferir novo ataque aos trabalhadores, representado pela tentativa de fuga de responsabilidade da empresa respons\u00e1vel pela obra, transferindo-a \u00e0 empresa contratada (terceirizada), que possui, como se sabe, quase sempre, irris\u00f3rio suporte financeiro para arcar com os riscos econ\u00f4micos envolvidos.<\/p>\n<p>Sobre a morte de Jos\u00e9 Afonso de Oliveira Rodrigues, a construtora Andrade Gutierrez, respons\u00e1vel pela constru\u00e7\u00e3o da arena em Manaus, defendeu-se, publicamente, dizendo que Martins trabalhava para a Martifer, empresa contratada para fazer as estruturas met\u00e1licas da fachada e da cobertura.<\/p>\n<p>Quando da morte de Marcleudo de Melo Ferreira, tamb\u00e9m na obra da arena de Manaus, a Andrade Gutierrez repetiu a estrat\u00e9gia, expressando-se em nota:<\/p>\n<p>\u00c9 com pesar que a Construtora Andrade Gutierrez informa que por volta das 4h da manh\u00e3 de hoje, 14\/12\/2013, o oper\u00e1rio Marcleudo de Melo Ferreira, 22 anos, natural de Limoeiro do Norte \u2013 CE, funcion\u00e1rio de empresa subcontratada que presta servi\u00e7os na montagem da cobertura da Arena da Amaz\u00f4nia, sofreu uma queda de uma altura de cerca de 35 metros, sendo socorrido e levado ao Pronto Socorro 28 de Agosto ainda com vida, onde n\u00e3o resistiu aos ferimentos e veio a falecer nesta manh\u00e3.<\/p>\n<p>Reiteramos o compromisso assumido com a seguran\u00e7a de todos os funcion\u00e1rios e que uma investiga\u00e7\u00e3o interna est\u00e1 sendo feita para apurar as causas do acidente. As medidas legais est\u00e3o sendo tomadas em conjunto com os \u00f3rg\u00e3os competentes.<\/p>\n<p>Lamentamos profundamente o acidente ocorrido e estamos prestando total assist\u00eancia \u00e0 fam\u00edlia do oper\u00e1rio. Em respeito \u00e0 mem\u00f3ria do mesmo, os trabalhos deste s\u00e1bado foram interrompidos. \u2013 grifou-se<\/p>\n<p>Igual postura foi adotada pela Odebrecht Infraestrutura, respons\u00e1vel pela obra do Itaquer\u00e3o, no que tange \u00e0s mortes de F\u00e1bio Luiz Pereira e Ronaldo Oliveira dos Santos. Eis a nota publicada:<\/p>\n<p>A Odebrecht Infraestrutura e o Sport Club Corinthians Paulista lamentam informar que no in\u00edcio da tarde de hoje um acidente na obra da Arena Corinthians provocou o falecimento de dois trabalhadores \u2013 F\u00e1bio Luiz Pereira, 42, motorista\/operador de Munck da empresa BHM, e Ronaldo Oliveira dos Santos, 44 anos, montador da empresa Conecta. Pouco antes das 13 horas, o guindaste, que i\u00e7ava o \u00faltimo m\u00f3dulo da estrutura da cobertura met\u00e1lica do est\u00e1dio, tombou provocando a queda da pe\u00e7a sobre parte da \u00e1rea de circula\u00e7\u00e3o do pr\u00e9dio leste \u2013 atingindo parcialmente a fachada em LED. A estrutura da arquibancada n\u00e3o foi comprometida. Era a 38\u00aa vez que esse tipo de procedimento realizava-se na obra e uma pe\u00e7a de igual propor\u00e7\u00e3o foi instalada h\u00e1 pouco mais de uma semana no setor Sul do est\u00e1dio. Equipes do corpo de bombeiros est\u00e3o no local. No momento, todos os esfor\u00e7os est\u00e3o concentrados para oferecer assist\u00eancia total \u00e0s fam\u00edlias das v\u00edtimas.<\/p>\n<p>E para demonstrar que a terceiriza\u00e7\u00e3o, com a utiliza\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia de se eximir de responsabilidade, n\u00e3o \u00e9 privilegio da iniciativa privada, quando houve a morte de Jos\u00e9 Ant\u00f4nio do Nascimento na obra do Centro de Conven\u00e7\u00f5es do Amazonas, desenvolvida pelo Centro de Gest\u00e3o Metropolitana do Munic\u00edpio de Manaus ao lado da Arena da Amaz\u00f4nia, a entidade em quest\u00e3o expediu a seguinte nota:<\/p>\n<p>O funcion\u00e1rio da Conserge, empresa que presta servi\u00e7o para a Unidade de Gest\u00e3o Metropolitana, Jos\u00e9 Ant\u00f4nio da Silva Nascimento, de 49 anos, morreu de infarto por volta das 9h da manh\u00e3 deste s\u00e1bado (14 de dezembro), quando trabalhava nos servi\u00e7os de limpeza e terraplanagem para o asfaltamento do Centro de Conven\u00e7\u00f5es da Amaz\u00f4nia, localizado na Avenida Pedro Teixeira.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Ant\u00f4nio se sentiu mal quando subiu em uma ca\u00e7amba. Uma ambul\u00e2ncia do Samu foi acionada imediatamente para realizar o atendimento, mas o trabalhador n\u00e3o resistiu. A Conserge est\u00e1 dando toda a assist\u00eancia necess\u00e1ria \u00e0 fam\u00edlia da v\u00edtima.<\/p>\n<p>Segundo a fam\u00edlia de Jos\u00e9 Ant\u00f4nio, este trabalhava sob press\u00e3o devido ao atraso na obra. \u201cEle trabalhava de domingo a domingo\u201d, afirmou sua cunhada, Priscila Soares.<\/p>\n<p>Por ocasi\u00e3o da morte de Ant\u00f4nio Jos\u00e9 Pitta Martins, t\u00e9cnico especializado em opera\u00e7\u00f5es de guindastes de grande porte, que veio de Portugal para trabalhar na obra da Arena da Amaz\u00f4nia, tendo sido atingido na cabe\u00e7a por uma pe\u00e7a de ferro que se soltou de um guindaste, novamente a fala se repete. Em nota oficial, a empresa respons\u00e1vel t\u00e9cnica pela obra, Andrade Gutierrez, destaca que o trabalhador n\u00e3o era seu empregado, ao mesmo tempo em que deixa claro que \u201co acidente n\u00e3o interferiu no seguimento das obras\u201d<\/p>\n<p>Eis o teor da nota:<\/p>\n<p><strong>NOTA DE ESCLARECIMENTO<\/strong><\/p>\n<p>A Construtora Andrade Gutierrez informa que, por volta das 8h da manh\u00e3 de hoje, 07\/02\/2014, um t\u00e9cnico de guindaste de grande porte, funcion\u00e1rio da empresa Martifer, sofreu um acidente nas depend\u00eancias do samb\u00f3dromo enquanto desmontava a m\u00e1quina utilizada nas obras da Arena da Amaz\u00f4nia. O guindaste, que auxiliava os trabalhos da Arena, j\u00e1 estava com as opera\u00e7\u00f5es encerradas desde 11\/01\/2014 e desmobilizado em uma \u00e1rea externa. O operador foi socorrido pela equipe de Seguran\u00e7a do Trabalho e levado pelo SAMU at\u00e9 o hospital 28 de Agosto, onde teve seu quadro de sa\u00fade estabilizado e foi transferido para o hospital Jo\u00e3o L\u00facio. O acidente n\u00e3o interferiu no seguimento das obras da Arena da Amaz\u00f4nia. \u2013 grifou-se<\/p>\n<p>A empresa Martifer Constru\u00e7\u00f5es Metalomec\u00e2nica S\/A, por sua vez, emitiu nota de pesar, noticiando que iria \u201capurar as causas do acidente\u201d.<\/p>\n<p>A \u00faltima morte foi a de Fabio Hamilton da Cruz, que se deu em acidente ocorrido no Itaquer\u00e3o, ap\u00f3s uma queda de oito metros de altura. Fabio, conforme foi v\u00e1rias vezes frisado pelos envolvidos, com difus\u00e3o na imprensa, era empregado da WDS, uma subcontratada da Fast Engenharia, que fora contratada pela AmBev, que aceitou bancar os 38 milh\u00f5es de reais para coloca\u00e7\u00e3o de arquibancadas provis\u00f3rias, exigidas pela FIFA para que o est\u00e1dio tivesse a capacidade de p\u00fablico necess\u00e1ria para receber a abertura da Copa do Mundo.<\/p>\n<p><strong>10. A culpabiliza\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas<\/strong><\/p>\n<p>A respeito do acidente de F\u00e1bio Hamilton da Cruz, o Delegado designado para verifica\u00e7\u00e3o do ocorrido, ap\u00f3s ouvir alguns relatos, um dia depois do ocorrido, sem a realiza\u00e7\u00e3o de qualquer laudo t\u00e9cnico, j\u00e1 concluiu que teria havido um \u201cexcesso de confian\u00e7a\u201d da v\u00edtima.<\/p>\n<p>Essa foi, ademais, outra forma de agress\u00e3o aos direitos dos trabalhadores que a pressa para a realiza\u00e7\u00e3o da Copa acabou refor\u00e7ando, a da culpabiliza\u00e7\u00e3o da v\u00edtima nos acidentes do trabalho.<\/p>\n<p>Ora, como o pr\u00f3prio nome diz, o acidente do trabalho \u00e9 um sinistro que se d\u00e1 em fun\u00e7\u00e3o da realiza\u00e7\u00e3o de trabalho em benef\u00edcio alheio, ao qual, independente da postura da v\u00edtima, fica obrigado a reparar o dano, j\u00e1 que o risco da atividade econ\u00f4mica lhe pertence (art. 2\u00ba. da CLT) e, consequentemente, \u00e9 de sua responsabilidade o cuidado com o meio ambiente de trabalho.<\/p>\n<p>\u00c9 extremamente agressivo \u00e0 intelig\u00eancia humana, servindo, inclusive para fazer prolongar no tempo o sofrimento da v\u00edtima ou de seus familiares, o argumento, daquele que explora com proveito econ\u00f4mico o trabalho alheio, de que \u201cvai apurar\u201d o ocorrido, deixando transparecer no ar uma acusa\u00e7\u00e3o, que nem sempre \u00e9 velada, de que a culpa pelo acidente foi do trabalhador.<\/p>\n<p>Veja-se, por exemplo, o que se passou no caso do Raimundo Nonato Lima Costa, que morreu ap\u00f3s uma queda de 35 metros na Arena da Amaz\u00f4nia. Em nota de pesar pela sua morte, a respons\u00e1vel t\u00e9cnica pela obra n\u00e3o teve o menor receio, inclusive, de fazer uma acusa\u00e7\u00e3o generalizada aos trabalhadores, apontando-os como respons\u00e1veis por sua pr\u00f3pria seguran\u00e7a. Diz a nota.<\/p>\n<p><strong>NOTA DE PESAR<\/strong><\/p>\n<p>A Andrade Gutierrez lamenta a morte do oper\u00e1rio Raimundo Nonato Lima Costa, ocorrida na noite desta quinta-feira, durante o turno noturno da obra da Arena da Amaz\u00f4nia. A empresa providenciou apoio imediato \u00e0 fam\u00edlia do funcion\u00e1rio e aguarda o resultado dos trabalhos da per\u00edcia t\u00e9cnica que foi iniciada pela Pol\u00edcia Civil com o objetivo de apurar as causas do ocorrido.<\/p>\n<p>A Andrade Gutierrez reitera o compromisso assumido com a seguran\u00e7a de todos os seus funcion\u00e1rios e informa que intensificar\u00e1 o trabalho de conscientiza\u00e7\u00e3o dos oper\u00e1rios com foco na preven\u00e7\u00e3o de acidentes.<\/p>\n<p>Por ocasi\u00e3o da morte de Marcleudo de Melo Ferreira, na mesma Arena, j\u00e1 mencionada acima, o secret\u00e1rio da Copa em Manaus, Miguel Capobiango, foi al\u00e9m na agress\u00e3o aos trabalhadores e desferiu o ataque de que as duas quedas fatais at\u00e9 ent\u00e3o havidas na Arena tinham sido fruto do \u201crelaxo\u201d dos oper\u00e1rios na utiliza\u00e7\u00e3o dos equipamentos de seguran\u00e7a. \u201cUsar o equipamento de seguran\u00e7a \u00e0s vezes \u00e9 chato e nem todos gostam de estar usando. O oper\u00e1rio \u00e0s vezes abre m\u00e3o por pregui\u00e7a, ent\u00e3o ele relaxa, e \u00e9 isso que agora n\u00f3s n\u00e3o podemos deixar\u201d. \u201cInfelizmente, os dois acidentes aconteceram por uma quest\u00e3o b\u00e1sica de n\u00e3o cuidado do trabalhador no uso correto do equipamento.\u201d<\/p>\n<p>E, sobre a morte de Fabio Hamilton da Cruz no est\u00e1dio no Itaquer\u00e3o, disse Andr\u00e9s Sanches: \u201cNa vida, cometemos erros e excessos. J\u00e1 dirigi carro a 150 km\/h. Eu n\u00e3o bebo. Voc\u00eas j\u00e1 devem ter dirigido \u201cmamados\u201d. Infelizmente, cometemos erros que acabam em fatalidade. Realmente, \u00e9 padr\u00e3o na constru\u00e7\u00e3o civil.\u201d<\/p>\n<p><strong>11. O retrocesso social e humano da Copa<\/strong><\/p>\n<p>Bem se v\u00ea que o legado mal\u00e9fico para os trabalhadores brasileiros com a Copa n\u00e3o est\u00e1 apenas nas m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de trabalho e nos conseq\u00fcentes oito acidentes fatais (n\u00e3o se contando aqui os v\u00e1rios outros acidentes do trabalho que n\u00e3o resultaram em \u00f3bito), o que, por si, j\u00e1 constitui um grande preju\u00edzo, ainda mais se lembrarmos que as obras para a Copa da \u00c1frica em 2010 deixaram 02 mortes por acidente do trabalho, est\u00e1 tamb\u00e9m na tentativa expl\u00edcita de culpar as v\u00edtimas, buscando atingir a uma impunidade que refor\u00e7a a l\u00f3gica de uma explora\u00e7\u00e3o do trabalho alheio pautada pela desconsidera\u00e7\u00e3o da dignidade humana.<\/p>\n<p>A Copa j\u00e1 trouxe grandes preju\u00edzos \u00e0 classe trabalhadora e \u00e9 preciso impedir que se consagrem e se prolonguem, mansa e silenciosamente, para o per\u00edodo p\u00f3s-Copa. N\u00e3o tendo sido poss\u00edvel obstar que o Estado de exce\u00e7\u00e3o se instaurasse na Copa \u00e9 essencial, ao menos, n\u00e3o permitir que ele continue produzindo efeitos.<\/p>\n<p>O passo fundamental \u00e9 o de recuperar a consci\u00eancia, pois a porta aberta \u00e0s concess\u00f5es morais e \u00e9ticas para atender aos interesses econ\u00f4micos na realiza\u00e7\u00e3o da Copa tem deixado passar a pr\u00f3pria dignidade, o que resta demonstrado nas manifesta\u00e7\u00f5es que tentam justificar o injustific\u00e1vel apenas para n\u00e3o permitir qualquer abalo na \u201corganiza\u00e7\u00e3o\u201d do evento. Foi assim, por exemplo, que o maior atleta do s\u00e9culo XX e melhor jogador de futebol de todos os tempos, o eterno Pel\u00e9, chegou a sugerir, mesmo que n\u00e3o tenha tido uma inten\u00e7\u00e3o mal\u00e9vola, que mortes em obras s\u00e3o fatos que acontecem, \u201cs\u00e3o coisas da vida\u201d e que se preocupava mesmo era com o atraso nas obras dos aeroportos; que o competente e carism\u00e1tico t\u00e9cnico da sele\u00e7\u00e3o brasileira, Luiz Felipe Scolari, ainda que sem querer ofender, afirmou que a solu\u00e7\u00e3o para o problema do racismo no futebol \u00e9 ignorar os \u201cbabacas\u201d que cometem tais ofensas, pois puni-los n\u00e3o resolve nada; e que o Ministro de Minas e Energia, Edson Lob\u00e3o, cogitou pedir para que os cidad\u00e3os brasileiros economizassem energia a fim de que n\u00e3o faltasse luz na Copa.<\/p>\n<p>A postura subserviente, para satisfazer os interesses da FIFA, chegou ao ponto extremo de algumas cidades, como Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Cuiab\u00e1, Natal e Fortaleza, terem atendido pedido feito, com a maior cara de pau do mundo, pelo secret\u00e1rio-geral da Fifa, J\u00e9r\u00f4me Valcke, para que as cidades sedes de jogos da Copa concedessem transporte gratuito \u2013 algo que o Movimento Passe Livre est\u00e1 lutando, e sofrendo, para conseguir h\u00e1 anos \u2013, sendo que a concess\u00e3o, diversamente do que tem buscado o MPL, n\u00e3o se destina \u00e0s pessoas necessitadas, mas aos torcedores dos jogos da Copa, que possuem condi\u00e7\u00f5es financeiras para pagar os altos pre\u00e7os dos ingressos, que chegaram a ser vendidos, no paralelo, por at\u00e9 R$91 mil\u2026<\/p>\n<p>\u00c9 de suma import\u00e2ncia deixar claro, para a nossa compreens\u00e3o e para a nossa imagem no mundo, que temos a percep\u00e7\u00e3o de todos esses problemas, que n\u00e3o o aprovamos e que estamos dispostos a enfrent\u00e1-los e super\u00e1-los.<\/p>\n<p>O aut\u00eantico efeito positivo da Copa \u2013 realizada, ou n\u00e3o \u2013 ser\u00e1 a constata\u00e7\u00e3o de que a classe trabalhadora se encontra em um est\u00e1gio de consci\u00eancia que lhe permite compreender que a Copa refor\u00e7a e intensifica a l\u00f3gica da explora\u00e7\u00e3o do trabalho como fonte reprodutora do capital, favorecendo ao processo de acumula\u00e7\u00e3o da riqueza, ao mesmo tempo em que permite a institucionaliza\u00e7\u00e3o de uma evas\u00e3o oficial de divisas. A partir dessa compreens\u00e3o, a classe trabalhadora n\u00e3o se deixar\u00e1 levar pela ret\u00f3rica de que o dinheiro dos turistas vai estimular o crescimento e gerar empregos, at\u00e9 porque ao se inserir na mesma l\u00f3gica capitalista o dinheiro n\u00e3o \u00e9 revertido \u00e0 classe trabalhadora, \u00e0 qual apenas \u00e9 remunerada, sem o necess\u00e1rio equivalente, pelo trabalho prestado, direcionando-se, pois, a maior parcela do dinheiro em circula\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o da Copa \u00e0s multinacionais aqui instaladas, especialmente no setor hoteleiro e nas companhias a\u00e9reas.<\/p>\n<p>Cada trabalhador, pensando em sua atividade e em seu cotidiano de ganho e de trabalho durante a Copa, ou antes, que responda: teve ou ter\u00e1 algum ganho na Copa que n\u00e3o provenha do trabalho? Este trabalho \u00e9 prestado em que condi\u00e7\u00f5es? O eventual acr\u00e9scimo de ganho est\u00e1 ligado ao aumento da quantidade de trabalho prestado? Que o digam, sobretudo, os jornalistas!!!<\/p>\n<p>Claro que uma ou outra experi\u00eancia comercial exitosa, desvinculada da dos protegidos da FIFA, pode ocorrer, mas isso por exce\u00e7\u00e3o. E, cumpre repetir: mesmo que no geral a Copa produza resultados econ\u00f4micos satisfat\u00f3rios, n\u00e3o se ter\u00e3o, com isso, justificadas as supress\u00f5es da ordem jur\u00eddica constitucional, j\u00e1 havidas no per\u00edodo de prepara\u00e7\u00e3o para o evento, e as viol\u00eancias sofridas por diversas pessoas, e, em especial, a classe trabalhadora, no que tange aos seus direitos sociais e humanos.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o ponto fundamental: o de n\u00e3o permitir que a Copa e a viol\u00eancia institucional posta a seu servi\u00e7o furtem a nossa consci\u00eancia, que est\u00e1 sendo duramente constru\u00edda, vale lembrar, ap\u00f3s 21 anos de ditadura, seguida de 15 anos de propaganda neoliberal. A produ\u00e7\u00e3o dessa consci\u00eancia \u00e9 extremamente relevante para que o drama das diversas pessoas, vitimadas pela Copa, n\u00e3o se arraste por muito mais tempo, sofrimento que, ademais, s\u00f3 aumenta quando, buscando n\u00e3o abalar eventual euforia da Copa, se tenta desconsiderar a sua dor, ou quando, partindo de uma pervers\u00e3o da realidade, argumenta-se que as pessoas que s\u00e3o contra a Copa (mesmo se apoiadas nos motivos acima mencionados) fazem parte de uma conspira\u00e7\u00e3o para \u201ccontaminar\u201d a Copa, apontadas como adeptas da \u201cviol\u00eancia\u201d, sendo que para a a\u00e7\u00e3o dessas pessoas (que, de fato, carregam um dado de consci\u00eancia), o que se reserva \u00e9 o contra-argumento da \u201cseguran\u00e7a pesada\u201d.<\/p>\n<p>O desafio est\u00e1 lan\u00e7ado. O que vai acontecer nos jogos da Copa, se a \u201csele\u00e7\u00e3o canarinho\u201d vai se sagrar hexa campe\u00e3, ou n\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 decisivo para a hist\u00f3ria brasileira. J\u00e1 o tipo de racionalidade e de rea\u00e7\u00e3o que produzirmos diante dos fatos sociais e jur\u00eddicos extremamente graves relacionados ao evento vai, certamente, determinar qual o tipo de sociedade teremos na sequ\u00eancia. Boa ou ruim, a Copa acaba e a vida concreta continua e ser\u00e1 boa ou ruim na medida da nossa capacidade de compreend\u00ea-la e de interagir com ela, pois como j\u00e1 disse Drummond:<\/p>\n<p>Foi-se a Copa? N\u00e3o faz mal.<\/p>\n<p>Adeus chutes e sistemas.<\/p>\n<p>A gente pode, afinal,<\/p>\n<p>cuidar de nossos problemas.<\/p>\n<p>Faltou infla\u00e7\u00e3o de pontos?<\/p>\n<p>Perdura a infla\u00e7\u00e3o de fato.<\/p>\n<p>Deixaremos de ser tontos<\/p>\n<p>se chutarmos no alvo exato.<\/p>\n<p>O povo, noutro torneio,<\/p>\n<p>havendo tenacidade,<\/p>\n<p>ganhar\u00e1, rijo, e de cheio,<\/p>\n<p>A Copa da Liberdade.<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo, 21 de abril de 2014.<\/p>\n<p>*Jorge Luiz Souto Maior \u00e9 professor livre docente de direito do trabalho brasileiro na USP, Brasil desde 2001. \u00c9 juiz titular na 3\u00aa Vara do Trabalho de Jundia\u00ed desde 1998, palestrante e conferencista.<\/p>\n<blockquote data-secret=\"z2iSuXszAw\" class=\"wp-embedded-content\"><p><a href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1212\">O Povo do Egito derrubou Mubarak<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" src=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1212\/embed#?secret=z2iSuXszAw\" data-secret=\"z2iSuXszAw\" width=\"600\" height=\"338\" title=\"&#8220;O Povo do Egito derrubou Mubarak&#8221; &#8212; PCB - Partido Comunista Brasileiro\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nJorge Luiz Souto Maior*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6188\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[123],"tags":[],"class_list":["post-6188","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c136-copa-para-quem"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1BO","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6188","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6188"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6188\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6188"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6188"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6188"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}