{"id":62,"date":"2010-01-07T01:49:55","date_gmt":"2010-01-07T01:49:55","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=62"},"modified":"2010-01-07T01:49:55","modified_gmt":"2010-01-07T01:49:55","slug":"adeus-ao-comunista-jose-peba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/62","title":{"rendered":"Adeus ao comunista Jos\u00e9 Peba"},"content":{"rendered":"\n<p>Jos\u00e9 Peba viveu da atividade de sapateiro assalariado combinada com a atividade pol\u00edtica. Por aderir ao comunismo, e por isso pagou um pre\u00e7o. In\u00fameros desaparecimentos tempor\u00e1rios motivados pela milit\u00e2ncia, a fuga da pol\u00edcia e as pris\u00f5es deixaram marcas indel\u00e9veis e um rastro de fome e dor. A dor que causou a seus familiares n\u00e3o tem origem nos gestos ditos impensados de Jos\u00e9, mas decorre da sociedade em que vive. \u00c9, assim, uma dor social. Certa vez, perguntei a Jos\u00e9 se viveria tudo outra vez, se pudesse. Respondeu que tinha plena consci\u00eancia da dor causada aos outros, mas n\u00e3o tinha alternativa. Era viver e sangrar ou n\u00e3o viver. Explicou-me que viver \u00e9 como fazer sapato: \u201c<em>para faz\u00ea-lo \u00e9 preciso uma f\u00f4rma para moldar o couro do sapato, que pressup\u00f5e o corte, a prensa, a colagem e a costura<\/em>.\u201d<\/p>\n<p>O sapateiro Jos\u00e9 trabalhou desde a mais tenra inf\u00e2ncia, muito embora n\u00e3o tivesse, na \u00e9poca, estatura f\u00edsica de trabalhador. As evid\u00eancias de trabalho remontam aos seis anos, quando foi ajudante do seu pr\u00f3prio pai em diversas tarefas rurais. O menino Jos\u00e9 pouco frequentou a escola, somente o fez durante os primeiros anos do prim\u00e1rio. A evoca\u00e7\u00e3o sobre a lembran\u00e7a do tempo de escola e da primeira professora, Albertina Amorim, foi recorda\u00e7\u00e3o n\u00e3o do tempo em que estudava, mas do tempo em que carregava a cal para construir a escola. Nesses tra\u00e7os, ele n\u00e3o foi nada original; tamb\u00e9m em quase nada se diferenciou de muitas crian\u00e7as brasileiras de sua \u00e9poca, assim como tamb\u00e9m das atuais. Em 1933, ap\u00f3s a incapacita\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria de seu pai, por doen\u00e7a, Jos\u00e9 passou a sustentar, quase sozinho, os 10 irm\u00e3os. Trabalhou duro, como ele pr\u00f3prio diz: \u201c<em>aos dezesseis anos, trabalhava tanto que j\u00e1 estava at\u00e9 cansado de trabalhar. Tudo o que consegui foi escapar da fome com muito sacrif\u00edcio\u201d. <\/em>Em seguida e de forma indissociada desempenha a profiss\u00e3o de sapateiro, inconceb\u00edvel sem a pol\u00edtica. Em termos cronol\u00f3gicos, este per\u00edodo dura aproximadamente de 1940 at\u00e9 1964, sendo interrompido abruptamente pelo golpe civil-militar. \u00c9 tamb\u00e9m o tempo de irrever\u00eancia e de descoberta. Migra para a cidade de Campina Grande. Ousado, inquieto, atrevido e, \u00e0s vezes, at\u00e9 abusado, Jos\u00e9 emerge contra lideran\u00e7as tradicionais, tanto no sindicato como no partido pol\u00edtico. Na gera\u00e7\u00e3o dos pais e irm\u00e3os de Jos\u00e9 evidenciou-se a presen\u00e7a do poder em condi\u00e7\u00f5es muito peculiares. Tanto o pai de Jos\u00e9, como, principalmente, sua tia Honorina, <em>\u201ctinham a pol\u00edtica no sangue<\/em>\u201d e atuaram do lado do canga\u00e7o, ou melhor, daquilo que lembrava como canga\u00e7o. Tia Honorina protegeu uma pessoa \u2013 identificada como \u201cZ\u00e9 do Tot\u00f4\u201d \u2013, que entrou para o canga\u00e7o por ter \u201cfeito justi\u00e7a\u201d com suas pr\u00f3prias m\u00e3os. Com isso, envolveu-se nas lutas da \u00e9poca, legando a Jos\u00e9 a \u201cpol\u00edtica no sangue\u201d.<\/p>\n<p>Em Campina Grande, Jos\u00e9 passa a ter outra viv\u00eancia de poder pol\u00edtico, uma vez conhece quadros do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e, a seguir, torna-se membro, de 1937 a 1963. Iniciado nessa forma de poder, procura dar vida org\u00e2nica ao partido a que pertenceu, vinculando-se a uma c\u00e9lula de f\u00e1brica. Lutador incans\u00e1vel Jos\u00e9 sonha alto com uma sociedade comunista.<\/p>\n<p>O momento do golpe civil-militar, em 1964, \u00e9 perpassado por medo, clandestinidade, pris\u00f5es, persegui\u00e7\u00e3o e tortura. Jos\u00e9 vive momentos duros em todos os sentidos: perde a sua forma de sobreviver como militante profissional e o suporte resultante dos la\u00e7os partid\u00e1rios do Partid\u00e3o. De fato, ele j\u00e1 estava afastado do PCB antes do golpe, mas depois, este partido \u00e9 particularmente esfacelado e a sua infra-estrutura \u00e9 desmontada. Em 1964, Jos\u00e9 Peba estava com 47 anos. Isso quer dizer que ele pertence \u00e0 \u00faltima gera\u00e7\u00e3o de sindicalistas que se forjam nos anos de desenvolvimentismo industrializante, especialmente na fase radical do governo de Jo\u00e3o Goulart, quando os comunistas, dizendo-se no poder, tudo faziam para ampliar a participa\u00e7\u00e3o popular pela via das Reformas de Base. Ilus\u00f3rias ou n\u00e3o, as aspira\u00e7\u00f5es daquele momento deram subst\u00e2ncia cr\u00edtica e subversiva \u00e0 vida de muitos trabalhadores. Jos\u00e9 Peba \u00e9 um deles. Em todo local em que trabalhava, procurava dar vida org\u00e2nica ao PCB, vinculando-se a uma c\u00e9lula. A clandestinidade, a repress\u00e3o, nada disso apaga a sua chama de oper\u00e1rio da constru\u00e7\u00e3o da sociedade socialista.<\/p>\n<p>Nos anos sessenta, devido a diverg\u00eancias internas, foi afastado do PCB, mas como ele fazia quest\u00e3o de assegurar muitos anos depois, seu cora\u00e7\u00e3o continuava comunista. Dizia mais ainda, que n\u00e3o deveria ter enfrentado sozinho a dire\u00e7\u00e3o do Partido. Ao inv\u00e9s de acertar sozinho, disse que seria mais interessante errar juntamente com o coletivo.<\/p>\n<p>Nos anos 1970 inicia-se um processo de distens\u00e3o pol\u00edtica que resulta em anistia pol\u00edtica e a retomada de elei\u00e7\u00f5es. Jos\u00e9 Peba que tinha se calado, praticamente, desde 1964 ressurge como f\u00eanix, das cinzas, juntamente com muitos outros l\u00edderes comunistas. Reencontra-se com Luis Carlos Prestes e Greg\u00f3rio Bezerra, dois comunistas de &#8220;carteirinha&#8221; que estavam no exterior havia muito tempo. Eles se abra\u00e7am e Jos\u00e9 Peba abra\u00e7a novamente a causa comunista. No entanto, os tempos eram outros: a quest\u00e3o era ser comunista sem estar no PCB.<\/p>\n<p>Neste \u00ednterim, ocorreu a sua candidatura a vereador do munic\u00edpio de Campina Grande apoiado por diversas for\u00e7as comunistas e de oposi\u00e7\u00e3o. Foi eleito com 1.713 votos para o mandato 1983 -1988.<\/p>\n<p>H\u00e1, portanto grandes tra\u00e7os constitutivos de seu retrato: lutador indom\u00e1vel, sapateiro militante, e por fim pesquisador. O lutador incans\u00e1vel, combatente sens\u00edvel defendeu a vida e a humanidade. O sapateiro militante \u00e9 destemido batalhador de sua profiss\u00e3o que jamais descola sapato de pol\u00edtica e assim se faz pesquisador entusiasta da vida. O pesquisador Jos\u00e9 Peba surge dentro da milit\u00e2ncia rompendo a barreira de uma escolariza\u00e7\u00e3o precocemente interrompida. Como se tivesse uma j\u00f3ia rara guardou alguns cadernos de cursos organizados pelo PCB, desde o in\u00edcio dos anos 1950. Olga Benario, filha de Peba me disse, em 1998, que um dia sua filha havia pedido aten\u00e7\u00e3o do av\u00f4 e ele lhe respondeu: &#8220;n\u00e3o v\u00ea que n\u00e3o posso falar com voc\u00ea, pois estou estudando<em>?&#8221;<\/em> Jos\u00e9 Peba se fez pesquisador aos 83 anos. A compreens\u00e3o da necessidade do estudo e da pesquisa se refor\u00e7a na maturidade de sua vida, quando transforma a mesa da cozinha em mesa de estudos, forjando, com t\u00eampera de a\u00e7o, sua <em>performance<\/em> de sapateiro que discute com entusiasmo an\u00e1lise de conjuntura.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Peba viveu da condi\u00e7\u00e3o de ser sapateiro e dela aposentou-se. Ao final da vida, j\u00e1 quase cego, a seu lado ningu\u00e9m ficava sem prosa. Quem disse que para olhar o mundo s\u00e3o necess\u00e1rios olhos?<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Peba entra no cen\u00e1rio de Campina Grande, amplia-o para o Brasil e para o mundo e desvela o que n\u00e3o quer (e n\u00e3o vai) calar: o sapateiro militante Jos\u00e9 lutou muito e tudo fez para que a bandeira da foice e do martelo tremulasse no ch\u00e3o que pisava.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Peba Pereira do Santos? Presente!<\/p>\n<p><em>*Professora da UFSC<\/em><\/p>\n<p><em><\/p>\n<p><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: www.iparaiba.com.br\n\n\n\n\nBernardete Wrublevski Aued*\nJos\u00e9 Peba Pereira dos Santos nasceu em S\u00e3o Jo\u00e3o do Cariri, Para\u00edba, em 21 de janeiro de 1917 e o seu cora\u00e7\u00e3o de militante comunista deixou de bater no \u00faltimo dia do ano de 2009, na cidade de Campina Grande, Para\u00edba. De profiss\u00e3o sapateiro, foi dirigente sindical, militante do Partido Comunista Brasileiro. Diferentemente dos comunistas de grandes cidades como Rio de Janeiro ou S\u00e3o Paulo, cujo anonimato resulta em certas garantias de vida, Jos\u00e9 Peba torna-se comunista num contexto onde os dirigentes pol\u00edticos estavam pouco ou nada habituados com a conviv\u00eancia de sindicato, greves e lideran\u00e7a de trabalhador. Nesta situa\u00e7\u00e3o, Jos\u00e9 fez pol\u00edtica pelo avesso e, muitas vezes escapou por pouco de perder a vida. Veio deste per\u00edodo o apelido Peba, uma met\u00e1fora ao tatu Peba, um animal h\u00e1bil cavador nas entranhas da terra. Jos\u00e9 escava as entranhas do poder constitu\u00eddo, questionando-o dentro do trabalho e fora dele.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/62\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-62","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c56-memoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-10","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=62"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=62"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=62"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=62"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}