{"id":6225,"date":"2014-05-14T03:38:17","date_gmt":"2014-05-14T03:38:17","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6225"},"modified":"2014-05-14T03:38:17","modified_gmt":"2014-05-14T03:38:17","slug":"o-golpe-de-kiev-trabalhadores-rebeldes-tomam-o-poder-no-leste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6225","title":{"rendered":"O golpe de Kiev: Trabalhadores rebeldes tomam o poder no leste"},"content":{"rendered":"\n<p>Nunca, desde que os EUA e a UE capturaram a Europa do Leste, incluindo os pa\u00edses b\u00e1lticos, a Alemanha oriental, a Pol\u00f4nia e os B\u00e1lc\u00e3s, e a converteram em postos avan\u00e7ados militares da NATO e em vassalos econ\u00f4micos, nunca os poderes ocidentais se movimentaram t\u00e3o agressivamente para se apoderarem dum pa\u00eds estrat\u00e9gico, como a Ucr\u00e2nia, amea\u00e7ando a exist\u00eancia da R\u00fassia.<\/p>\n<p>At\u00e9 2013, a Ucr\u00e2nia era um &#8216;estado almofada&#8217;, basicamente um pa\u00eds n\u00e3o-alinhado, com la\u00e7os econ\u00f4micos \u00e0 UE e \u00e0 R\u00fassia. Governado por um regime estreitamente ligado \u00e0 oligarquia local, ligada \u00e0 Europa, Israel e R\u00fassia, a elite pol\u00edtica foi um produto duma subleva\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em 2004 (a chamada &#8220;Revolu\u00e7\u00e3o Laranja&#8221;), financiada pelos EUA. Subsequentemente, durante a maior parte de uma d\u00e9cada, a Ucr\u00e2nia sofreu a experi\u00eancia fracassada de uma pol\u00edtica econ\u00f4mica &#8216;neoliberal&#8217; apoiada pelo ocidente. Depois de quase duas d\u00e9cadas de penetra\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, os EUA e a UE ficaram entrincheiradas profundamente no sistema pol\u00edtico, atrav\u00e9s do financiamento regular das alegadas organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-governamentais (ONG), partidos pol\u00edticos e grupos paramilitares.<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia dos EUA e da UE foi instalar um regime flex\u00edvel que levasse a Ucr\u00e2nia para o Mercado Comum Europeu e para a OTAN, como estado cliente subordinado. As negocia\u00e7\u00f5es entre a UE e o governo ucraniano decorreram vagarosamente. Acabaram por fracassar por causa das condi\u00e7\u00f5es onerosas exigidas pela UE e pelas concess\u00f5es econ\u00f4micas mais favor\u00e1veis e subs\u00eddios propostos pela R\u00fassia. Depois do fracasso em negociar a anexa\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia \u00e0 UE, e por n\u00e3o estarem dispostas a esperar pelas elei\u00e7\u00f5es constitucionais j\u00e1 marcadas, as pot\u00eancias da NATO ativaram as suas ONG, bem financiadas e organizadas, l\u00edderes pol\u00edticos seus clientes e grupos paramilitares armados para derrubarem pela viol\u00eancia o governo eleito. O golpe violento foi um \u00eaxito e a junta civil-militar nomeada pelos EUA assumiu o poder.<\/p>\n<p>A Junta foi formada por &#8216;ministros&#8217; neoliberais e chauvinistas submissos. Os primeiros foram escolhidos pelos EUA, para administrar e impor uma nova ordem pol\u00edtica e econ\u00f4mica, incluindo a privatiza\u00e7\u00e3o de empresas e de recursos p\u00fablicos, cortando os la\u00e7os comerciais e de investimento com a R\u00fassia, eliminando um tratado que permitia a base naval russa na Crimeia e acabando com as exporta\u00e7\u00f5es militar-industriais para a R\u00fassia. Foram nomeados para posi\u00e7\u00f5es ministeriais neofascistas e sectores das for\u00e7as militares e policiais, a fim de reprimir violentamente qualquer oposi\u00e7\u00e3o pr\u00f3-democracia no ocidente e no leste. Supervisionaram a repress\u00e3o dos bilingues (russos-ucranianos), de institui\u00e7\u00f5es e de pr\u00e1ticas \u2013 transformando a oposi\u00e7\u00e3o contra o golpe de estado apoiado pelos EUA-NATO numa oposi\u00e7\u00e3o \u00e9tnica. Fizeram uma limpeza em todos os detentores de cargos opositores no ocidente e no leste e nomearam governadores locais de confian\u00e7a \u2013 criando assim um regime de lei marcial.<\/p>\n<p><strong>Os alvos estrat\u00e9gicos da OTAN-Junta <\/strong><\/p>\n<p>A tomada de poder, violenta e de alto risco, da Ucr\u00e2nia pela OTAN foi motivada por diversos objetivos estrat\u00e9gico-militares, que inclu\u00edam:<\/p>\n<p>1) A expuls\u00e3o da R\u00fassia das suas bases militares da Crimeia \u2013 transformando-as em bases da OTAN \u00e0s portas da R\u00fassia.<\/p>\n<p>2) A transforma\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia num trampolim para a penetra\u00e7\u00e3o no sul da R\u00fassia e no C\u00e1ucaso; uma posi\u00e7\u00e3o avan\u00e7ada para gerir e apoiar politicamente os partidos liberais pr\u00f3-OTAN e as ONG no interior da R\u00fassia.<\/p>\n<p>3) A destrui\u00e7\u00e3o de sectores fundamentais da ind\u00fastria de defesa militar russa, ligados \u00e0s f\u00e1bricas ucranianas, acabando com a exporta\u00e7\u00e3o de maquinaria cr\u00edtica e sobressalentes para a R\u00fassia.<\/p>\n<p>A Ucr\u00e2nia foi durante muito tempo uma parte importante do complexo industrial militar da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Os estrategas da OTAN por detr\u00e1s do golpe sabiam muito bem que um ter\u00e7o da ind\u00fastria de defesa sovi\u00e9tica se manteve na Ucr\u00e2nia depois do desmantelamento da URSS e que quarenta por cento das exporta\u00e7\u00f5es da Ucr\u00e2nia para a R\u00fassia, at\u00e9 h\u00e1 bem pouco tempo, consistiam em armamentos e maquinaria com isso relacionada. Mais especificamente, a instala\u00e7\u00e3o Motor Sikh na Ucr\u00e2nia de leste fabricava a maior parte dos motores para os helic\u00f3pteros militares russos, incluindo um contrato em vigor para fornecer motores para mil helic\u00f3pteros de ataque. Os estrategas da OTAN orientaram imediatamente os seus lacaios em Kiev para suspender todas as entregas militares \u00e0 R\u00fassia, incluindo foguet\u00f5es de m\u00e9dio alcance ( <em>Financial Times, <\/em>4\/21\/14, p.3). Os estrategas militares dos EUA e da UE encararam o golpe em Kiev como uma forma de sabotar as defesas russas no ar, no mar e nas fronteiras. O presidente Putin acusou o golpe mas insiste que a R\u00fassia poder\u00e1 substituir internamente a produ\u00e7\u00e3o interna de pe\u00e7as cr\u00edticas dentro de dois anos. Isso significa a perda de milhares de postos de trabalho especializados na Ucr\u00e2nia de leste.<\/p>\n<p>4) O cerco militar da R\u00fassia com bases avan\u00e7adas da OTAN na Ucr\u00e2nia, equipar\u00e1veis \u00e0s do B\u00e1ltico, at\u00e9 aos B\u00e1lc\u00e3s, da Turquia at\u00e9 ao C\u00e1ucaso e depois a partir da Ge\u00f3rgia at\u00e9 \u00e0 Federa\u00e7\u00e3o Russa aut\u00f4noma.<\/p>\n<p>O cerco dos EUA-UE \u00e0 R\u00fassia destina-se a acabar com o acesso russo ao Mar do Norte, ao Mar Negro e ao Mediterr\u00e2neo. Cercando e confinando a R\u00fassia a uma massa continental isolada sem &#8216;sa\u00eddas para o mar&#8217;, os construtores do imp\u00e9rio EUA-UE procuram limitar o papel da R\u00fassia enquanto pot\u00eancia rival central e, possivelmente, contrabalan\u00e7ar as suas ambi\u00e7\u00f5es imperialistas no M\u00e9dio Oriente, norte de \u00c1frica, sudeste de \u00c1sia e Atl\u00e2ntico norte.<\/p>\n<p><strong>O golpe na Ucr\u00e2nia: da expans\u00e3o integral \u00e0 imperial <\/strong><\/p>\n<p>Os EUA e a UE pretendem destruir governos independentes, nacionalistas e n\u00e3o-alinhados em todo o mundo e transform\u00e1-los em sat\u00e9lites imperialistas sejam quais forem os meios. Por exemplo, a atual invas\u00e3o mercen\u00e1ria da S\u00edria, armada pela OTAN, \u00e9 dirigida para o derrube do governo nacionalista e laico de Assad e para o estabelecimento de um estado vassalo pr\u00f3-OTAN, independentemente das consequ\u00eancias sangrentas para os v\u00e1rios povos s\u00edrios.<\/p>\n<p>O ataque \u00e0 S\u00edria serve m\u00faltiplos fins. Eliminando um aliado russo e a sua base naval mediterr\u00e2nica; enfraquecendo um (fundamental &#8211; Blog.)apoiante da Palestina e um advers\u00e1rio de Israel; cercando a Rep\u00fablica Isl\u00e2mica do Ir\u00e3 e o poderoso Partido Hezbollah militante no L\u00edbano e estabelecendo novas bases militares em solo s\u00edrio.<\/p>\n<p>A conquista da Ucr\u00e2nia pela OTAN tem um efeito multiplicador que se estende &#8216;para cima&#8217; na dire\u00e7\u00e3o da R\u00fassia e &#8216;para baixo&#8217; na dire\u00e7\u00e3o do M\u00e9dio Oriente e consolida o controlo sobre a sua vasta riqueza petrol\u00edfera.<\/p>\n<p>As recentes guerras da OTAN contra os aliados russos ou seus parceiros comerciais confirmam este progn\u00f3stico. Na L\u00edbia, destacavam-se as pol\u00edticas independentes, n\u00e3o alinhadas do regime de Kadhafi em forte contraste com os servis sat\u00e9lites ocidentais como Marrocos, o Egito ou a Tun\u00edsia. Kadhafi foi derrubado e a L\u00edbia destru\u00edda atrav\u00e9s de um maci\u00e7o ataque a\u00e9reo da OTAN. A rebeli\u00e3o da massa popular do Egito contra Mubarak e a democracia emergente foram subvertidas por um golpe militar e acabaram por fazer regressar o pa\u00eds \u00e0 \u00f3rbita dos EUA-Israel-OTAN \u2013 sob um ditador brutal. Todas as incurs\u00f5es armadas de Israel, amigalha\u00e7o da OTAN, contra o Hamas em Gaza e contra o Hezbollah no L\u00edbano, assim como as san\u00e7\u00f5es EUA-UE contra o Ir\u00e3, s\u00e3o dirigidas contra potenciais aliados ou parceiros comerciais da R\u00fassia.<\/p>\n<p>Os EUA foram obrigados a desistir de cercar a R\u00fassia via &#8216;elei\u00e7\u00f5es e mercados livres&#8217; na Europa de Leste, e a confiar na for\u00e7a militar, nos esquadr\u00f5es da morte, no terrorismo e nas san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas na Ucr\u00e2nia, no C\u00e1ucaso, no M\u00e9dio Oriente e na \u00c1sia.<\/p>\n<p><strong>Mudan\u00e7a de regime na R\u00fassia: de pot\u00eancia global a estado vassalo <\/strong><\/p>\n<p>O objectivo estrat\u00e9gico de Washington \u00e9 isolar a R\u00fassia do exterior, sabotar a sua capacidade militar e corroer a sua economia, a fim de refor\u00e7ar os colaboradores pol\u00edticos e econ\u00f4micos da OTAN no interior da R\u00fassia \u2013 levando \u00e0 sua maior fragmenta\u00e7\u00e3o e ao regresso a um estatuto de semi-vassalo.<\/p>\n<p>O objectivo da estrat\u00e9gia imperialista \u00e9 colocar no poder em Moscovo amigos pol\u00edticos neoliberais, como os que dirigiram a pilhagem e a destrui\u00e7\u00e3o da R\u00fassia durante a vergonhosa d\u00e9cada de Yeltsin. A tomada do poder na Ucr\u00e2nia pelos EUA-EU \u00e9 um grande passo nessa dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Avaliar a estrat\u00e9gia do cerco e da conquista <\/strong><\/p>\n<p>At\u00e9 aqui, a conquista da Ucr\u00e2nia pela OTAN n\u00e3o tem avan\u00e7ado como planejado. Primeiro que tudo, a conquista violenta do poder pelas elites abertamente pr\u00f3-OTAN renegando abertamente os acordos e tratados militares com a R\u00fassia sobre as bases na Crimeia, for\u00e7aram a R\u00fassia a intervir em apoio da popula\u00e7\u00e3o local, de esmagadora etnia russa. Na sequ\u00eancia de um referendo livre e aberto, a R\u00fassia anexou a regi\u00e3o e assegurou a sua presen\u00e7a militar estrat\u00e9gica.<\/p>\n<p>Enquanto a R\u00fassia mantinha a presen\u00e7a naval no Mar Negro\u2026 a Junta da OTAN em Kiev desencadeou uma ofensiva militar de grande escala contra a maioria de l\u00edngua russa, a favor da democracia e anti-golpe, na metade oriental da Ucr\u00e2nia, que tem exigido uma forma de governo federal, refletindo a diversidade cultural da Ucr\u00e2nia. Os EUA-UE promoveram uma &#8220;resposta militar&#8221; \u00e0 dissid\u00eancia popular de massas e encorajaram o regime golpista a eliminar os direitos civis da maioria de l\u00edngua russa atrav\u00e9s de terrorismo neonazi e a for\u00e7ar a popula\u00e7\u00e3o a aceitar os dirigentes regionais nomeados pela Junta em vez dos seus l\u00edderes eleitos. Em resposta a esta repress\u00e3o, nasceram rapidamente comiss\u00f5es populares de autodefesa e mil\u00edcias locais e o ex\u00e9rcito ucraniano foi inicialmente for\u00e7ado a recuar com milhares de soldados a recusarem-se a disparar sobre os seus compatriotas por ordem do regime instalado em Kiev pelo ocidente. Durante algum tempo, a Junta de coliga\u00e7\u00e3o neoliberal e neofascista, apoiada pela OTAN, teve que lutar contra a desintegra\u00e7\u00e3o da sua &#8216;base de poder&#8217;. Ao mesmo tempo, a &#8216;ajuda&#8217; da UE, do FMI e dos EUA n\u00e3o conseguiu compensar o corte do com\u00e9rcio russo e dos subs\u00eddios \u00e0 energia. A conselho do diretor da CIA, Brenner, de visita, a Junta de Kiev enviou as suas &#8220;for\u00e7as especiais&#8221; de elite, treinadas pela CIA e pelo FBI para executar massacres contra civis pr\u00f3-democracia e mil\u00edcias populares. Enviaram criminosos armados para a cidade de Odessa que encenaram um massacre &#8220;exemplar&#8221;: Incendiaram a sede do principal sindicato da cidade e assassinaram 41 pessoas, na maioria civis desarmados que ficaram encurralados dentro do edif\u00edcio com as sa\u00eddas bloqueadas pelos neonazis. Os mortos inclu\u00edam muitas mulheres e adolescentes que tinham procurado abrigo dos ataques dos neonazis. Os sobreviventes foram brutalmente espancados e detidos pela &#8216;pol\u00edcia&#8217; que assistira impass\u00edvel enquanto o edif\u00edcio ardia.<\/p>\n<p><strong>O futuro colapso da junta golpista <\/strong><\/p>\n<p>A tomada do poder na Ucr\u00e2nia, por Obama, e os seus esfor\u00e7os para isolar a R\u00fassia provocaram alguma oposi\u00e7\u00e3o na UE. Nitidamente, as san\u00e7\u00f5es prejudicam grandes multinacionais europeias com profundas liga\u00e7\u00f5es \u00e0 R\u00fassia. O golpe militar dos EUA na Europa de Leste, nos B\u00e1lc\u00e3s e no Mar Negro desperta tens\u00f5es e amea\u00e7a uma conflagra\u00e7\u00e3o militar de grande escala, prejudicando importantes contratos econ\u00f4micos. As amea\u00e7as dos EUA-UE na fronteira da R\u00fassia aumentaram o apoio popular ao presidente Putin e refor\u00e7aram a lideran\u00e7a russa. A tomada estrat\u00e9gica do poder na Ucr\u00e2nia radicalizou e aprofundou a polariza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica ucraniana entre as for\u00e7as neofascistas e pr\u00f3-democracia.<\/p>\n<p>Enquanto os estrategas imperialistas alargam e aumentam a sua posi\u00e7\u00e3o militar na Est\u00f4nia e na Pol\u00f4nia e despejam armas na Ucr\u00e2nia, toda a tomada de poder assenta em bases pol\u00edticas e econ\u00f4micas muito prec\u00e1rias \u2013 que podem desabar dentro de um ano \u2013 no meio duma guerra civil sangrenta e\/ou massacre inter\u00e9tnico.<\/p>\n<p>A Junta da Ucr\u00e2nia j\u00e1 perdeu o controlo pol\u00edtico em mais de um ter\u00e7o do pa\u00eds, para movimentos pr\u00f3-democracia e anti-golpe e mil\u00edcias de autodefesa. Ao cortar exporta\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas para a R\u00fassia para servir os interesses militares dos EUA, a Ucr\u00e2nia perdeu um dos seus mercados mais importantes, que n\u00e3o pode ser substitu\u00eddo. Sob o controlo da OTAN, a Ucr\u00e2nia vai ter que comprar &#8220;hardware&#8221; militar especificado pela OTAN, o que levar\u00e1 ao fecho das suas f\u00e1bricas, viradas para o mercado russo. A perda do com\u00e9rcio russo j\u00e1 est\u00e1 a levar ao desemprego em massa, principalmente entre oper\u00e1rios industriais especializados no leste que podem ser for\u00e7ados a imigrar para a R\u00fassia. O grande aumento dos d\u00e9fices comerciais e a eros\u00e3o das receitas do estado conduzir\u00e3o a um colapso econ\u00f4mico total. Em terceiro lugar, em consequ\u00eancia da submiss\u00e3o da Junta de Kiev \u00e0 OTAN, a Ucr\u00e2nia perdeu milhares de milh\u00f5es de d\u00f3lares em energia subsidiada da R\u00fassia. Os altos custos de energia retiram competitividade \u00e0s ind\u00fastrias ucranianas nos mercados globais. Em quarto lugar, a fim de assegurar empr\u00e9stimos do FMI e da UE, a Junta concordou em eliminar os subs\u00eddios aos pre\u00e7os dos alimentos e da energia, afetando gravemente os rendimentos familiares e mergulhando os pensionistas na pobreza. Cada vez h\u00e1 mais fal\u00eancias, \u00e0 medida que as importa\u00e7\u00f5es da UE e de outros locais desalojam as ind\u00fastrias locais anteriormente protegidas.<\/p>\n<p>N\u00e3o se verificam novos investimentos, por causa da viol\u00eancia, da instabilidade e dos conflitos entre neofascistas e neoliberais no seio da Junta. S\u00f3 para estabilizar as opera\u00e7\u00f5es correntes do governo, a junta precisa rapidamente de um refor\u00e7o de 30 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares, sem juros, dos seus patr\u00f5es da OTAN, uma quantia que n\u00e3o vai aparecer nem agora nem no futuro imediato.<\/p>\n<p>\u00c9 \u00f3bvio que os &#8216;estrategas&#8217; da OTAN que planejaram o golpe estavam apenas a pensar em enfraquecer militarmente a R\u00fassia e n\u00e3o se preocuparam com os custos pol\u00edticos, econ\u00f4micos e sociais de sustentar um regime fantoche em Kiev quando a Ucr\u00e2nia estava t\u00e3o dependente dos mercados, empr\u00e9stimos e energia subsidiada da R\u00fassia. Al\u00e9m disso, parece terem menosprezado a din\u00e2mica pol\u00edtica, industrial e agr\u00edcola das regi\u00f5es do leste do pa\u00eds, previsivelmente hostis. Em alternativa, os estrategas de Washington podem ter baseado os seus c\u00e1lculos na instiga\u00e7\u00e3o \u00e0 divis\u00e3o, ao estilo da Jugosl\u00e1via, acompanhada por uma maci\u00e7a limpeza \u00e9tnica no meio das desloca\u00e7\u00f5es e massacres das popula\u00e7\u00f5es. Sem se impressionar com os milh\u00f5es de baixas civis, Washington considera que a sua pol\u00edtica de desmantelamento da Jugosl\u00e1via, do Iraque e da L\u00edbia foram grandes \u00eaxitos pol\u00edtico-militares.<\/p>\n<p>A Ucr\u00e2nia, quase com certeza, vai entrar numa depress\u00e3o prolongada e profunda, incluindo um decl\u00ednio precipitado nas exporta\u00e7\u00f5es, no emprego e na produ\u00e7\u00e3o. Possivelmente, o colapso econ\u00f4mico levar\u00e1 a protestos e desassossego social por todo o pa\u00eds: espalhando-se de leste para oeste, de sul para norte. Motins sociais e mis\u00e9ria generalizada podem aprofundar ainda mais a corros\u00e3o da moral das for\u00e7as armadas ucranianas. Kiev j\u00e1 tem dificuldade em alimentar os seus soldados e tem que confiar nas mil\u00edcias de volunt\u00e1rios neofascistas que podem ser dif\u00edceis de controlar. Os EUA-UE n\u00e3o dever\u00e3o intervir diretamente com uma campanha de bombardeamentos ao estilo da L\u00edbia, dado que iriam enfrentar uma guerra prolongada na fronteira da R\u00fassia numa altura em que a opini\u00e3o p\u00fablica nos EUA est\u00e1 a sofrer com a exaust\u00e3o da guerra imperialista, e os interesses empresariais europeus com liga\u00e7\u00f5es a empresas de recursos russos est\u00e3o a resistir \u00e0s san\u00e7\u00f5es em consequ\u00eancia.<\/p>\n<p>O golpe dos EUA-UE deu origem a um regime fracassado e a uma sociedade minada por violentos conflitos \u2013 em espiral para uma viol\u00eancia \u00e9tnica aberta. O que de fato se tem seguido \u00e9 um sistema de poder dual em que os contendores s\u00e3o transversais \u00e0s fronteiras regionais A Junta de Kiev n\u00e3o tem coer\u00eancia nem estabilidade para servir de elo militar fi\u00e1vel da OTAN no cerco \u00e0 R\u00fassia. Pelo contr\u00e1rio, as san\u00e7\u00f5es dos EUA-UE, as amea\u00e7as militares e a ret\u00f3rica belicosa est\u00e3o a for\u00e7ar os russos a repensar rapidamente a sua &#8216;abertura&#8217; ao ocidente. As amea\u00e7as estrat\u00e9gicas \u00e0 sua seguran\u00e7a nacional est\u00e3o a levar a R\u00fassia a rever os seus la\u00e7os com bancos e empresas ocidentais. A R\u00fassia pode ter que recorrer a uma pol\u00edtica de expans\u00e3o da industrializa\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s de investimentos p\u00fablicos e de substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es. Os oligarcas russos, depois de perderem as suas posi\u00e7\u00f5es al\u00e9m-mar, podem tornar-se menos centrais para a pol\u00edtica econ\u00f4mica russa.<\/p>\n<p>O que \u00e9 claro \u00e9 que a tomada de poder em Kiev n\u00e3o resultar\u00e1 numa &#8216;faca apontada ao cora\u00e7\u00e3o da R\u00fassia&#8217;. A derrota final e o derrube da Junta de Kiev podem levar a uma Ucr\u00e2nia aut\u00f4noma radicalizada, baseada nos crescentes movimentos democr\u00e1ticos e na crescente consci\u00eancia de classe dos trabalhadores. Isso ter\u00e1 que surgir da sua luta contra os programas de austeridade do FMI e contra a espolia\u00e7\u00e3o de recursos e empresas da Ucr\u00e2nia, feita pelo ocidente. Os oper\u00e1rios industriais da Ucr\u00e2nia que conseguirem libertar-se do jugo dos vassalos ocidentais em Kiev n\u00e3o t\u00eam inten\u00e7\u00e3o de se submeterem ao jugo dos oligarcas russos. A sua luta \u00e9 por um estado democr\u00e1tico, capaz de desenvolver uma pol\u00edtica econ\u00f4mica independente, livre de alian\u00e7as militares imperialistas.<\/p>\n<p><strong>Ep\u00edlogo:<\/strong><\/p>\n<p><strong>1\u00ba de Maio de 2014: Poder popular dual no leste, fascismo em ascens\u00e3o no ocidente <\/strong><\/p>\n<p>O previs\u00edvel falhan\u00e7o entre os parceiros neofascistas e neoliberais na Junta de Kiev ficou evidenciado por motins de grande escala, entre gangues de rua rivais e a pol\u00edcia no 1\u00ba de Maio. A estrat\u00e9gia dos EUA-UE pretendia usar os neofascistas como &#8216;tropa de choque&#8217; e os combatentes de rua para derrubar o regime eleito de Yankovich e depois verem-se livres deles. Como exemplificado pela famosa conversa gravada entre a secret\u00e1ria de Estado adjunta, Victoria Nuland, e o embaixador americano em Kiev, os estrategas da UE-EUA promovem os seus amigalha\u00e7os neoliberais escolhidos a dedo para representar o capital estrangeiro, impor pol\u00edticas de austeridade e assinar tratados para bases militares estrangeiras. Em contraste, as mil\u00edcias e partidos neofascistas favorecem as pol\u00edticas econ\u00f4micas nacionalistas, conservando as empresas estatais e provavelmente ser\u00e3o hostis a oligarcas, especialmente os de cidadania dupla &#8220;Israel-Ucr\u00e2nia&#8221;.<\/p>\n<p>A incapacidade da Junta de Kiev para desenvolver uma estrat\u00e9gia econ\u00f4mica, a tomada violenta do poder e a repress\u00e3o de dissidentes pr\u00f3-democracia no leste levou a uma situa\u00e7\u00e3o de &#8216;poder dual&#8217;. Em muitos casos, as tropas enviadas para reprimir os movimentos pr\u00f3-democracia abandonaram as armas, abandonaram a Junta de Kiev e juntaram-se aos movimentos de emancipa\u00e7\u00e3o no leste.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m dos seus padrinhos no exterior \u2013 a Casa Branca, Bruxelas e o FMI \u2013 a Junta de Kiev foi abandonada pelos seus pr\u00f3prios aliados de direita por ser demasiado subserviente \u00e0 OTAN e sofre a resist\u00eancia do movimento pr\u00f3-democracia no leste por ser autorit\u00e1ria e centralista. A Junta de Kiev est\u00e1 entre a espada e a parede: falta-lhe legitimidade entre a maior parte dos ucranianos e perdeu o controlo de tudo, com excep\u00e7\u00e3o duma pequena faixa de terreno ocupada pelos gabinetes governamentais em Kiev e mesmos esses est\u00e3o cercados pela direita neofascista que aumenta \u00e0 custa dos seus antigos apoiantes agora desiludidos.<\/p>\n<p>Sejamos claros, a luta na Ucr\u00e2nia n\u00e3o \u00e9 entre os EUA e a R\u00fassia, \u00e9 entre a Junta imposta pela OTAN, formada por oligarcas neoliberais e fascistas de um lado e os oper\u00e1rios industriais e as suas mil\u00edcias locais e conselhos democr\u00e1ticos por outro. Os primeiros defendem e obedecem ao FMI e a Washington; os \u00faltimos baseiam-se na capacidade produtiva da ind\u00fastria local e refletem a maioria.<\/p>\n<p>07\/Maio\/2014 <strong>O original encontra-se em <a href=\"http:\/\/www.globalresearch.ca\/the-kiev-putsch-rebel-workers-take-power-in-the-east\/5380866\" target=\"_blank\">www.globalresearch.ca\/&#8230;<\/a> . Tradu\u00e7\u00e3o de Margarida Ferreira. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Este artigo encontra-se em <a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\">http:\/\/resistir.info\/<\/a> .<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\npor James Petras\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6225\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-6225","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1Cp","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6225","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6225"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6225\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6225"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6225"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6225"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}