{"id":6246,"date":"2014-05-18T02:34:47","date_gmt":"2014-05-18T02:34:47","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6246"},"modified":"2017-05-30T20:30:35","modified_gmt":"2017-05-30T23:30:35","slug":"farsa-eleitoral-ou-luta-eleitoral-a-prioridade-das-ruas-e-a-disputa-nas-urnas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6246","title":{"rendered":"Farsa eleitoral ou luta eleitoral: a prioridade das ruas e a disputa nas urnas"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" src=\"http:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2014\/05\/14-05-14_mauro-iasi_farsa-eleitoral-ou-luta-eleitoral_2.jpg?w=747&#038;h=500&#038;fit=500%2C500\" \/>O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), atrav\u00e9s de seu ministro, Marco Aur\u00e9lio, anunciou a campanha da institui\u00e7\u00e3o para tentar atrair os jovens para as elei\u00e7\u00f5es. Ao falar das motiva\u00e7\u00f5es da campanha o Ministro afirmou: \u201cVamos fazer uma propaganda institucional cujo mote ser\u00e1: <a href=\"http:\/\/www.tse.jus.br\/videos\/programa-eleicoes-2014-forca-das-ruas-x-forca-das-urnas-em-18-02-2014\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">N\u00c3O VEM PARA A RUA, VEM PARA A URNA<\/a>.\u201d A coordenadora de Comunica\u00e7\u00e3o do TSE, a \u201cjovem\u201d Ver\u00f4nica Tavares, foi ainda mais expl\u00edcita ao reafirmar que o mote principal ser\u00e1 convencer os jovens que \u201cao inv\u00e9s de ir \u00e0s ruas, t\u00eam que ir \u00e0s urnas\u201d e conclui dizendo que:<!--more--><\/p>\n<blockquote><p>\u201cO momento do jovem se expressar \u00e9 indo \u00e0s urnas, porque assim ele vai poder se manifestar realmente e fazer parte da decis\u00e3o\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>A boa not\u00edcia \u00e9 que, ao que parece, as manifesta\u00e7\u00f5es de massa assustaram o governo a ponto de ele ter que fazer uma campanha institucional com medo de uma juventude que redescobriu as ruas como espa\u00e7o da pol\u00edtica e a luta como meio de exigir aquilo que necessita, demonstrando, praticamente, os limites da chamada democracia representativa. A m\u00e1 not\u00edcia \u00e9 que a campanha institucional do TSE semeia confus\u00e3o e refor\u00e7a o que h\u00e1 de pior no conservadorismo pol\u00edtico que reina entre n\u00f3s. \u00c9, neste sentido, profundamente antidemocr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Os governos petistas produziram uma profunda despolitiza\u00e7\u00e3o com a inten\u00e7\u00e3o de manter sua governabilidade fundada em um pacto social com as classes dominantes, isto \u00e9, optaram por uma alian\u00e7a por cima que esvazia as formas aut\u00f4nomas e independentes pr\u00f3prias da classe trabalhadora que, em grande medida, est\u00e3o na base da mudan\u00e7a da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as que os levaram ao governo: as greves, as manifesta\u00e7\u00f5es de massa, as lutas populares, etc.<\/p>\n<p>Durante 12 anos de governo petista, n\u00e3o vimos, uma vez se quer, as massas trabalhadoras serem chamadas como ator pol\u00edtico importante para intervir num impasse no qual alguma demanda popular estivesse amea\u00e7ada por uma resist\u00eancia conservadora. Pelo contr\u00e1rio, era necess\u00e1rio desarm\u00e1-la e apassiv\u00e1-la, para passar sem problemas a reforma da previd\u00eancia, o c\u00f3digo florestal, a continuidade da pol\u00edtica de privatiza\u00e7\u00f5es, diretas ou indiretas, a prioridade para o agroneg\u00f3cio, a farra dos grandes eventos e o abandono da Reforma Agr\u00e1ria.<\/p>\n<p>Na atual estrat\u00e9gia pol\u00edtica em curso n\u00e3o h\u00e1 lugar para as lutas de massa e movimentos independentes da classe trabalhadora. Pelo contr\u00e1rio, quando eles emergem atrapalham a governabilidade costurada por cima, via alian\u00e7as com bancadas de sustenta\u00e7\u00e3o parlamentar, poderosos <em>lobbies<\/em> que representam os interesses do grande capital monopolista (como empreiteiras, bancos, grandes empresas, etc.). \u00c9 natural que diante da explos\u00e3o social que estamos vendo no Brasil, as institui\u00e7\u00f5es se preocupem em dizer aos jovens que o espa\u00e7o para \u201cse manifestar realmente e fazer parte da decis\u00e3o\u201d esta nas urnas e n\u00e3o nas ruas.<\/p>\n<p>Ora, este argumento \u00e9 falho por in\u00fameros motivos, mas vamos ao essencial. Nenhum cent\u00edmetro de direito, nenhum mil\u00edmetro de conquista, veio pelas urnas. A pr\u00f3pria crise da ditadura e o processo de democratiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o veio simplesmente porque o MDB cresceu nas elei\u00e7\u00f5es de 1974, mas, fundamentalmente, pelas lutas de massas e pelas greves oper\u00e1rias no final dos anos 1970. Nenhum cent\u00edmetro de terra foi desapropriada para a reforma agr\u00e1ria sem que tivesse mobiliza\u00e7\u00e3o, luta e, n\u00e3o raro, mortes para que cercas dessem lugar a assentamentos, nenhum direito surgiu do \u201cauto-aperfei\u00e7oamento das institui\u00e7\u00f5es\u201d, como esperava Marshall e sua famosa \u201cevolu\u00e7\u00e3o do quadro institucional\u201d, mas da luta, como \u00e9 o caso exemplar da luta das mulheres, para n\u00e3o falar de direitos dos trabalhadores que agora s\u00e3o flexibilizados.<\/p>\n<p>Todo Direito nasce fora do direito estabelecido e, muitas vezes, contra ele. Menosprezar o papel das lutas sociais e das mobiliza\u00e7\u00f5es como fonte de resist\u00eancia e defesa de direitos e luta por demandas populares n\u00e3o \u00e9 apenas uma bobagem, \u00e9 perigoso. Mesmo o direito ao voto s\u00f3 existe por conta de muita luta, no mundo e aqui no Brasil. O que o TSE, como instrumento do Estado burgu\u00eas sob dire\u00e7\u00e3o do governo petista, est\u00e1 dizendo, em poucas palavras \u00e9: a \u00daNICA forma de participar e expressar a indigna\u00e7\u00e3o, o protesto e buscar outros caminhos s\u00e3o as elei\u00e7\u00f5es, \u00e9 a URNA e n\u00e3o a rua.<\/p>\n<p>Regressamos a Hobbes. O voto n\u00e3o \u00e9 poder soberano, \u00e9 transfer\u00eancia de poder soberano. Dizia o pensador ingl\u00eas do s\u00e9culo XVII que o Estado \u00e9 institu\u00eddo quando as pessoas concordam e pactual em transferir seu direito de governar-se a si mesmo \u00e0 um homem ou uma assembl\u00e9ia de homens, de forma que \u201cdever\u00e3o autorizar todos seus atos e decis\u00f5es desse homem ou assembl\u00e9ia de homens, tais como se fossem seus pr\u00f3prios atos e decis\u00f5es\u201d (Thomas Hobbes, <em>Leviat\u00e3<\/em>, cap\u00edtulo XXI).<\/p>\n<p>Segundo o TSE, os jovens devem preferir as urnas \u00e0s ruas porque nelas eles podem de fato \u201cfazer parte da decis\u00e3o\u201d. Ser\u00e1? N\u00e3o ficou demonstrado pela hist\u00f3ria recente o enorme poder que os grupos econ\u00f4micos burgueses t\u00eam de intervir na decis\u00e3o pol\u00edtica dos ditos representantes, sejam eles parlamentares ou do poder executivo? Ao transferirmos o poder para esta \u201cassembl\u00e9ia de homens\u201d, ou para determinado homem ou mulher, aceitamos que depois de trabalhar toda uma vida devemos nos aposentar ganhando menos e termos nossa pens\u00e3o reajustada de forma diferente daqueles que est\u00e3o na ativa? Aceitamos que quase 50% do fundo p\u00fablico seja sangrado para banqueiros enquanto \u00e1reas essenciais como sa\u00fade ou educa\u00e7\u00e3o fiquem com o que sobra, concordamos como uma pol\u00edtica tribut\u00e1ria na qual s\u00e3o os pobres que mais pagam imposto e os ricos gozem de uma infinidade de isen\u00e7\u00f5es e \u201cincentivos\u201d?<\/p>\n<p>Por tudo isso \u00e9 natural que haja descontentamento com a democracia representativa e com as formas institucionais de uma pol\u00edtica \u201cbem comportada\u201d que quer democratizar o Estado burgu\u00eas e humanizar o capitalismo. O que explodiu na cara destes senhores (e senhoras) amantes da lei e da ordem \u00e9 o limite de sua pr\u00f3pria estrat\u00e9gia gradualista e antipopular, que de fato expressa o limite da ordem capitalista burguesa \u2013 que n\u00e3o pode ser reformada. Temos mais que ir para as ruas, ir em maior n\u00famero e mais incisivamente, porque \u00e9 l\u00e1 que se joga a parte essencial do jogo pol\u00edtico e onde os interesses da maioria podem emergir.<\/p>\n<p>O crescimento deste descontentamento aparece de duas maneiras: pelo crescimento do voto nulo e a rejei\u00e7\u00e3o aos processos eleitorais, ou pela busca de alternativas pol\u00edticas na disputa eleitoral.<\/p>\n<p>A defesa do voto nulo cresceu e deve crescer ainda mais e devemos respeitar esta posi\u00e7\u00e3o. Ela expressa n\u00e3o apenas descontentamento, mas a compreens\u00e3o dos limites da farsa eleitoral e da possibilidade de alcan\u00e7ar mudan\u00e7as profundas pela reforma do Estado, como se fosse poss\u00edvel usar o Estado burgu\u00eas para iniciar uma transi\u00e7\u00e3o que nos levasse para al\u00e9m da ordem da mercadoria e do capital. Mas n\u00e3o apenas. O problema do voto nulo \u00e9 que ele abriga conte\u00fados muito distintos que s\u00e3o dif\u00edceis de separar. Parte do conte\u00fado do voto nulo \u00e9 um descontentamento conservador, que culpa a democracia pelo risco da ordem que lhes interessa manter, que generaliza a culpa da pol\u00edtica como atividade corrupta e degenerada e clama pela volta da autocracia burguesa sem disfarces.<\/p>\n<p>No campo da busca de alternativas pol\u00edticas o cen\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 menos complicado. O maior risco \u00e9 o velho discurso do voto \u00fatil. O debate sobre as alternativas reais e necess\u00e1rias se esconde por de tr\u00e1s do mando enganoso do \u201cmenos pior\u201d ou das falsas dicotomias (neoliberalismo ou neo-desenvolvimentismo?). H\u00e1, ainda, as alternativas artificiais, aquelas que aproveitam do desgaste do governo para se beneficiar da l\u00f3gica da altern\u00e2ncia, tentando esconder o fato que at\u00e9 ontem estavam todos l\u00e1 e que no fundo defendem o mesmo conte\u00fado sob outras formas.<\/p>\n<p>H\u00e1 as alternativas \u00e0 esquerda e entre elas, sem d\u00favida, os que ainda padecem da cren\u00e7a na possibilidade de um gradualismo reformista que possa democratizar a sociedade capitalista e o Estado burgu\u00eas (ainda que reafirmando a necessidade de uma meta socialista), ou que, mesmo taticamente, cr\u00eaem na possibilidade de ocupar pequenos espa\u00e7os no jogo parlamentar como ac\u00famulo pol\u00edtico para projetos futuros de transforma\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Diante desse cen\u00e1rio, muitos acreditam que a possibilidade do voto nulo se apresenta como uma alternativa necess\u00e1ria, como \u00e9 o caso de meu querido camarada G\u00e1s PA, combativo militante do <em>hip hop<\/em> revolucion\u00e1rio, e meu amigo <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/authors\/view\/676\">Ivo Tonet<\/a>, intelectual e militante de primeira ordem. Ivo Tonet, que fez uma instigante contribui\u00e7\u00e3o ao debate, depois de algumas considera\u00e7\u00f5es sobre o car\u00e1ter da sociedade capitalista e a necessidade de supera\u00e7\u00e3o estado burgu\u00eas (que concordamos), afirma que:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cEm consequ\u00eancia disto, s\u00f3 faz sentido a classe trabalhadora participar do processo pol\u00edtico-eleitoral se ela puder controlar os seus representantes. Mas, ela s\u00f3 poder\u00e1 control\u00e1-los se estiver consciente dos seus interesses e organizada para defend\u00ea-los. Este controle n\u00e3o \u00e9, de modo nenhum, uma quest\u00e3o jur\u00eddica, mas pol\u00edtica. Ele mesmo s\u00f3 teria sentido em um momento em que a luta extraparlamentar, contra o capital e contra o pr\u00f3prio Estado, fosse o eixo da luta, o que caracterizaria, j\u00e1, um processo revolucion\u00e1rio.\u201d (Ivo Tonet, \u201c<a href=\"http:\/\/www.ivotonet.xpg.com.br\/arquivos\/ELEICOES_REPENSANDO_CAMINHOS.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Elei\u00e7\u00f5es: repensando caminhos<\/a>\u201d)<\/p><\/blockquote>\n<p>Concordamos que n\u00e3o se trata de uma quest\u00e3o jur\u00eddica, mas pol\u00edtica, isto \u00e9, n\u00e3o se trata de uma engenharia institucional ou uma reforma pol\u00edtica qualquer que poderia reverter o car\u00e1ter de classe do Estado burgu\u00eas, pois este \u00e9 determinado pelas rela\u00e7\u00f5es sociais, formas de propriedade, a forma mercadoria subssumida ao capital. No entanto, quando Tonet afirma que s\u00f3 faria sentido a participa\u00e7\u00e3o nos processos eleitorais quando os trabalhadores puderem \u201ccontrolar seus representantes\u201d, quando a luta extraparlamentar j\u00e1 atingiu a temperatura de um \u201cprocesso revolucion\u00e1rio\u201d, cai num paradoxo, pois desta forma a luta eleitoral s\u00f3 seria um meio v\u00e1lido se j\u00e1 estiv\u00e9ssemos chegado ao fim.<\/p>\n<p>Afinal, para aqueles que tem uma posi\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, n\u00e3o acreditam na reforma da sociedade burguesa\/capitalista e defendem uma alternativa socialista e comunista, ou seja, uma sociedade fundada na livre associa\u00e7\u00e3o dos produtores, com o fim das classes e, portanto, do Estado, que tem convic\u00e7\u00e3o que ser\u00e1 necess\u00e1rio, portanto, uma ruptura; tem algum sentido participar das elei\u00e7\u00f5es? A resposta de Tonet \u00e9, neste caso, simplista, contrapondo de um lado a posi\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria e de outra a op\u00e7\u00e3o por participar das elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O que nos chama a aten\u00e7\u00e3o no texto de nosso companheiro Ivo Tonet \u00e9 que ele, frequentemente indica textos de marxistas ou do pr\u00f3prio Marx para respaldar sua posi\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o tr\u00e1s nenhuma cita\u00e7\u00e3o. Creio que por um motivo evidente, se \u00e9 verdade que encontraria v\u00e1rias passagens destes cl\u00e1ssicos revolucion\u00e1rios alertando para os limites da luta eleitoral ou, mais explicitamente, sobre o equ\u00edvoco de pensar na possibilidade de um gradualismo sem rupturas, o autor n\u00e3o encontraria uma passagem sequer destes revolucion\u00e1rios negando a possibilidade de participar das elei\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o somente em momentos revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Isso por um simples motivo: todos eles, TODOS, (Marx, Engels, L\u00eanin, Troski, Luk\u00e1cs, Gramsci, Rosa, Che, etc.) defendiam a t\u00e1tica de participar de elei\u00e7\u00f5es, sem perder de vista os objetivos estrat\u00e9gicos. Vamos a alguns exemplos:<\/p>\n<p>Marx e Engels na <em>Mensagem do Comit\u00ea Central \u00e0 liga dos comunistas<\/em>, ao tratar da possibilidade, na Alemanha, de no curso da luta ser chamada a elei\u00e7\u00e3opara uma assembl\u00e9ia nacional representativa, defendem que<em>:<\/em><\/p>\n<blockquote><p>\u201cI. Nenhum n\u00facleo oper\u00e1rio seja privado de voto, a pretexto algum, [&#8230;] II. Ao lado dos candidatos burgueses democr\u00e1ticos figurem em toda parte candidatos oper\u00e1rios escolhidos na medida do poss\u00edvel entre os membros da Liga [Liga dos Comunistas], e que para seu triunfo se ponham em jogo todos os meios dispon\u00edveis. Mesmo que n\u00e3o exista esperan\u00e7a alguma de triunfo, os oper\u00e1rios devem apresentar candidatos pr\u00f3prios para conservar sua independ\u00eancia [&#8230;].\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>L\u00eanin e Trostki na dire\u00e7\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o Russa passaram, no momento mais agudo da crise, por duas situa\u00e7\u00f5es nas quais tiveram que decidir participar ou n\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es, uma antes da tomada do poder quando o Governo Provis\u00f3rio chamou elei\u00e7\u00f5es para uma Conferencia Nacional e outro depois de outubro\/novembro quando se deu as elei\u00e7\u00f5es para a Constituinte. Nas duas situa\u00e7\u00f5es os bolcheviques participaram das elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Rosa de Luxemburgo, que por desconhecimento ou interesse \u00e9 evocada na defesa de um espontane\u00edsmo absoluto, afirmava, exatamente no texto em que defende a import\u00e2ncia da greve de massas e a necessidade de pensar a a\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea no conjunto da estrat\u00e9gia revolucion\u00e1ria, que:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cO perigo mais iminente que espia h\u00e1 anos o movimento oper\u00e1rio alem\u00e3o \u00e9 o golpe de Estado da rea\u00e7\u00e3o que pretendesse privar as mais largas camadas populares do seu mais importante direito pol\u00edtico: o sufr\u00e1gio universal.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Gramsci que foi deformado at\u00e9 parecer um reformista socialdemocrata ou liberal, mas que, ao nosso ju\u00edzo, manteve-se coerentemente marxista, se perguntava em um texto do jornal <em>L\u2019OrdineNuovo<\/em> de 1919, intitulado <em>Os revolucion\u00e1rios e as elei\u00e7\u00f5es<\/em>, o que deveriam esperar das elei\u00e7\u00f5es os revolucion\u00e1rios conscientes\u201d que escolheria por sufr\u00e1gio universal o Parlamento e seus deputados, como \u201cm\u00e1scara da ditadura burguesa\u201d. E respondia:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cN\u00e3o esperam decerto a conquista de metade mais um dos lugares e uma legislatura, [&#8230;] [para] tornar mais f\u00e1cil e c\u00f4moda a conviv\u00eancia das duas classes, a dos explorados e dos exploradores. Esperam, pelo contr\u00e1rio, que o esfor\u00e7o eleitoral do proletariado consiga fazer entrar no Parlamento um bom nervo de militantes [&#8230;] para tornar imposs\u00edvel [&#8230;] um governo est\u00e1vel e forte, para obrigar a burguesia a sair do equ\u00edvoco democr\u00e1tico, a sair da legalidade, e determinar uma subleva\u00e7\u00e3o dos estratos mais profundos e vastos da classe trabalhadora [&#8230;].<\/p><\/blockquote>\n<p>Por fim, o insuspeit\u00e1vel Comandante Che Guevara em sua critica \u00e0 via pac\u00edfica, depois de considerar que em certos pa\u00edses da America Latina, por conta de um certo desenvolvimento do capitalismo industrial, prevalecia uma vis\u00e3o institucionalista que chegava a acreditar no aumento quantitativo de representantes revolucion\u00e1rios no parlamento, perguntasse se esta via poderia ser uma caminho para o socialismo em nossas terras. Logo depois de afirmar que n\u00e3o cr\u00ea que isso seja poss\u00edvel, o Comandante alerta que n\u00e3o devemos \u201cdescartar a possibilidade que em algum pa\u00eds a mudan\u00e7a se inicie pela via eleitoral\u201d. E conclui que \u201cseria um erro imperdo\u00e1vel descartar por princ\u00edpio a participa\u00e7\u00e3o em algum processo eleitoral\u201d, pois poderia, em um determinado momento, \u201csignificar um avan\u00e7o do programa revolucion\u00e1rio\u201d. Evidente que, segundo Che, seria igualmente errado limitar-se a esta forma de luta.<\/p>\n<p>Como vemos, ainda que a experi\u00eancia hist\u00f3rica nos alerte sobre os riscos deste terreno perigoso (e nisso estamos de acordo com Tonet, G\u00e1s PA e outros), n\u00e3o h\u00e1 uma conex\u00e3o direta entre o uso da luta eleitoral e o car\u00e1ter irremediavemente reformista ou conciliador de uma estrat\u00e9gia.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o, ent\u00e3o, \u00e9: se n\u00e3o devemos descartar por princ\u00edpio (coisa que Tonet concorda), seria no quadro atual da situa\u00e7\u00e3o brasileira uma alternativa v\u00e1lida?<\/p>\n<p>Acreditamos que sim e mais que isso, necess\u00e1ria. Ao contrapor as ruas e as manifesta\u00e7\u00f5es, assim como as lutas dos trabalhadores, \u00e0s urnas, o TSE quer expulsar do debate eleitoral a posi\u00e7\u00e3o da esquerda socialista e comunista que v\u00ea nas demandas que emergiram das manifesta\u00e7\u00f5es o germe de um programa pol\u00edtico anticapitalista e revolucion\u00e1rio para o Brasil, que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma alternativa poss\u00edvel, mas urgente e necess\u00e1ria. Desta forma espera restringir o debate eleitoral \u00e0s alternativas no campo da ordem (Continua o PT, volta para o PSDB ou tenta o PSB que caiu na Rede).<\/p>\n<p>Neste cen\u00e1rio, a nega\u00e7\u00e3o em participar das elei\u00e7\u00f5es pode referendar exatamente o que se deseja negar, isto \u00e9, que as alternativas est\u00e3o restritas ao bloco dominante e n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel uma alternativa anticapitalista. Colocar este tema no debate \u00e9 estragar a festa do aparente consenso, n\u00e3o como alternativa \u00e0s ruas, mas para trazer o que explodiu nas ruas para dentro do debate eleitoral.<\/p>\n<p>Evidente que o centro s\u00e3o as ruas, as lutas dos trabalhadores, as greves e necessidade de constru\u00e7\u00e3o de uma alternativa real de poder, um poder popular, anticapitalista e socialista. Alguns estar\u00e3o l\u00e1, nas ruas, e v\u00e3o defender o voto nulo, outros estar\u00e3o l\u00e1 tamb\u00e9m, nas ruas, e v\u00e3o tentar meter o p\u00e9 na porta no espa\u00e7o privativo das elei\u00e7\u00f5es no qual n\u00e3o nos querem (como mostra as cl\u00e1usulas de barreira e a restri\u00e7\u00e3o ao amplo debate de projetos) para defender uma alternativa socialista e revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Em s\u00edntese: anule seu voto, vote na esquerda revolucion\u00e1ria\u2026 mas, n\u00e3o saia das ruas! \u00c9 por l\u00e1 que passa a mudan\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Mauro Iasi <\/strong>\u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/48#.Ul8Kh1Csh8E\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia<\/em><\/a> (Boitempo, 2002) e colabora com os livros <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/cidades-rebeldes\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil<\/em><\/a> e <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/gy%C3%B6rgy-lukacs-e-a-emancipacao-humana\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana<\/em><\/a> (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o <strong>Blog da Boitempo <\/strong>mensalmente, \u00e0s quartas.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2014\/05\/14\/farsa-eleitoral-ou-luta-eleitoral-a-prioridade-das-ruas-e-a-disputa-nas-urnas\/\">Farsa eleitoral ou luta eleitoral: a prioridade das ruas e a disputa nas&nbsp;urnas<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":" Mauro Iasi.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6246\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[121],"tags":[],"class_list":["post-6246","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c134-eleicoes-2014"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1CK","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6246","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6246"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6246\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6246"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6246"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6246"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}