{"id":628,"date":"2010-07-06T14:33:24","date_gmt":"2010-07-06T14:33:24","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=628"},"modified":"2010-07-06T14:33:24","modified_gmt":"2010-07-06T14:33:24","slug":"o-programa-racial-do-capital-e-do-trabalho-para-a-sociedade-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/628","title":{"rendered":"O Programa Racial do Capital e do Trabalho para a Sociedade Brasileira"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>A vanguarda da esquerda organizada aceitou as proposta de racializa\u00e7\u00e3o da sociedade nacional sem cr\u00edtica e reflex\u00e3o \u2013 afirma o historiador M\u00e1rio Maestri, em entrevista sobre a igualdade racial e o Estatuto que a regulamenta no Brasil.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>A vers\u00e3o do Estatuto da Igualdade Racial rec\u00e9m aprovada pelo Senado foi bastante discutida nas \u00faltimas semanas. Tratando-se de um daqueles temas amplamente abordados tanto pelos grandes ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o, como tamb\u00e9m por aqueles menores, nem por isso as opini\u00f5es suscitadas s\u00e3o capazes de consolidar um entendimento mais fundamentado de quest\u00e3o t\u00e3o complexa. O historiador M\u00e1rio Maestri amplifica os termos desse debate, tomando-o a partir da atual sociedade capitalista. O historiador alerta para que as discuss\u00f5es est\u00e3o deixando na \u2018penumbra a diferen\u00e7a de qualidade entre a luta anti-racista e a proposta da luta pela igualdade racial\u2019. <\/strong><\/p>\n<p><strong>P &#8211; Qual a import\u00e2ncia da discuss\u00e3o sobre a <em>igualdade racial<\/em> e do Estatuto da Igualdade Racial,<\/strong> <strong>para regulament\u00e1-la?<\/strong><\/p>\n<p>R &#8211; Trata-se de debate fundamental, at\u00e9 agora dominado pelas for\u00e7as do capital e sob sua influ\u00eancia, que tem mantido na penumbra a diferen\u00e7a de qualidade entre a <em>luta anti-racista<\/em> e a proposta da luta pela <em>igualdade racial.<\/em> O anti-racismo \u00e9 luta democr\u00e1tica contra a discrimina\u00e7\u00e3o na escola, no trabalho, na educa\u00e7\u00e3o, etc. \u00c9 parte da luta geral, <em>no aqui e no agora<\/em>, contra os exploradores, pela extin\u00e7\u00e3o da sociedade de classes, base das opress\u00f5es econ\u00f4mica, nacional, sexual, \u00e9tnica etc. A luta anti-racista \u00e9 parte do programa do mundo do trabalho, \u00e9 mobiliza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, progressista, revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>A proposta de <em>igualdade racial <\/em>prop\u00f5e a exist\u00eancia de ra\u00e7as diversas, que devem ser igualadas no que se refere ao <em>tratamento<\/em> e, sobretudo, \u00e0s <em>oportunidades<\/em>, no seio da sociedade atual. Por al\u00e9m de eventual ret\u00f3rica radical, apesar do indiscut\u00edvel unitarismo da esp\u00e9cie humana, recupera e trabalha com o conceito medonho de ra\u00e7a e reduz a opress\u00e3o social \u00e0 opress\u00e3o racial de negros por brancos. \u00c9 programa regressista e conservador, parte das estrat\u00e9gias do capital contra o mundo do trabalho e seu programa.<\/p>\n<p>A proposta de <em>igualdade racial<\/em> avan\u00e7a essencialmente o combate das <em>desigualdades<\/em> de <em>oportunidades<\/em>. Denuncia o tratamento, no melhor dos casos, <em>igual<\/em>, dos <em>desiguais<\/em>. Atrav\u00e9s da <em>descrimina\u00e7\u00e3o positiva<\/em>, os <em>descriminados negativamente<\/em> concorreriam em <em>igualdade<\/em> com os <em>privilegiados<\/em>, estabelecendo-se, assim, a <em>justi\u00e7a social<\/em>. Nos fatos, naturaliza e recupera positivamente a <em>competi\u00e7\u00e3o social<\/em>, pilar essencial da ret\u00f3rica capitalista. Para essa ideologia<em>, <\/em>n\u00e3o h\u00e1 mal em haver opressores e multid\u00f5es de oprimidos. Desde que exista equil\u00edbrio \u00e9tnico nos dois segmentos!<\/p>\n<p>A \u00c1frica do Sul \u00e9 exemplo pat\u00e9tico e cada vez mais gritante dessa pol\u00edtica. Durante d\u00e9cadas, o <em>apartheid <\/em>serviu para a dura explora\u00e7\u00e3o das terras e dos bra\u00e7os negro-africanos. Por isso, o movimento de liberta\u00e7\u00e3o articulava corretamente a luta contra o racismo e contra a explora\u00e7\u00e3o capitalista. Com a derrota mundial dos trabalhadores em fins dos anos 1980, a dire\u00e7\u00e3o do ANC terminou aceitando substituir a j\u00e1 superada <em>elite <\/em>racista na ger\u00eancia da explora\u00e7\u00e3o das massas negras sul-africanas.<\/p>\n<p>No governo <em>p\u00f3s-apartheid<\/em>, mantiveram-se as rela\u00e7\u00f5es de propriedade e de explora\u00e7\u00e3o, ou seja, econ\u00f4mico-sociais, sob a gest\u00e3o de classe pol\u00edtica e <em>l\u00fampen-burguesia<\/em> negro-africana, a servi\u00e7o do capital e do imperialismo. O fim do <em>apartheid<\/em> estabilizou a opress\u00e3o de classe, a tal ponto que o pa\u00eds acolhe hoje uma Copa do Mundo, e \u00e9 apresentado como exemplo a ser seguido! A mis\u00e9ria e a opress\u00e3o dos trabalhadores e populares sul-africanos seguiram aprofundando-se, sob a batuta de pol\u00edticos negro-africanos t\u00e3o corruptos e venais como os brasileiros. Atualmente, eles se preocupam, sobretudo, em formar uma <em>classe m\u00e9dia negra<\/em>, para maior estabiliza\u00e7\u00e3o da nova ordem!<\/p>\n<p><strong>P &#8211; Qual a sua opini\u00e3o sobre as cotas universit\u00e1rias, o principal e mais discutido t\u00f3pico de reivindica\u00e7\u00f5es do movimento negro? <\/strong><\/p>\n<p>R \u2013 A proposta de <em>igualdade racial<\/em> e <em>discrimina\u00e7\u00e3o positiva<\/em> [cotas estudantis] n\u00e3o se preocupa com as multid\u00f5es de jovens negros [pardos, brancos, etc.] marginalizados em diversos graus pelo capitalismo. Pretende, sobretudo, conquistar <em>equil\u00edbrio racial<\/em> entre os <em>privilegiados<\/em>. De certo modo, \u00e9 como se propusesse colocar pesos nos corredores <em>brancos<\/em>, esguios, para igual\u00e1-los aos <em>negros<\/em>, mais pesados, devido a <em>handicaps<\/em> sociais hist\u00f3ricos. Equilibrando-se as <em>desigualdades<\/em>, os vencedores ser\u00e3o os <em>mais capazes<\/em>.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que essa corrida premia os cem primeiros chegados e marginaliza os 9.900 perdedores, em diversos graus. O que importa \u00e9 conquistar equil\u00edbrio racial entre os cem <em>laureados<\/em>. Uma proposta que sequer vislumbra a possibilidade e necessidade de se p\u00f4r fim \u00e0 competi\u00e7\u00e3o canibal, para que todos sejam vencedores, segundo seus esfor\u00e7os, capacidades e necessidades. Trata-se de mobiliza\u00e7\u00e3o por um mundo de exploradores e de explorados <em>sem diferen\u00e7as raciais<\/em>, desde que no para\u00edso dos privilegiados e opressores haja vagas cativas para privilegiados e opressores negros!<\/p>\n<p>Estudar nas melhores universidades, em geral p\u00fablicas, \u00e9 privil\u00e9gio de pequena minoria de jovens, sobretudo <em>brancos<\/em> ou <em>quase brancos. <\/em>A pol\u00edtica cotista promete que, um dia, nessa minoria de felizardos, haver\u00e1 um n\u00famero proporcional de <em>negros<\/em>. O que j\u00e1 \u00e9 uma fal\u00e1cia, pois a base da desigualdade social ap\u00f3ia-se essencialmente na posse e no dom\u00ednio da <em>propriedade<\/em>. A proposta cotista despreocupa-se com as multid\u00f5es de jovens marginalizados \u2013 em forte propor\u00e7\u00e3o, negros. O fundamental \u00e9 mais generais, advogados, m\u00e9dicos, engenheiros, farmac\u00eauticos, capitalistas negros. Todos ferrando a popula\u00e7\u00e3o trabalhadora, branca e negra, como fazem normalmente os cong\u00eaneres brancos.<\/p>\n<p>As principais justificativas dessa proposta s\u00e3o duas. A primeira \u00e9 que, enquanto n\u00e3o chegamos a uma sociedade justa [<em>socialismo<\/em>] h\u00e1 que melhorar a realidade na sociedade capitalista. O problema \u00e9 que essa proposta correta justifica o incorreto abandono da luta, no aqui e no agora, do ensino universal, gratuito e de qualidade, parte do programa democr\u00e1tico \u2013 e n\u00e3o socialista. Esse programa inarred\u00e1vel das classes populares foi imposto, substancialmente, pelo mundo da democracia e do trabalho, em pa\u00edses como a Alemanha, a Fran\u00e7a, a B\u00e9lgica, a It\u00e1lia, a Su\u00e9cia, etc., todas sociedades capitalistas!<\/p>\n<p>A segunda justificativa \u00e9 que o Brasil n\u00e3o teria recursos para garantir esse <em>privil\u00e9gio<\/em> para todos. Defendendo o programa cotista, Val\u00e9rio Arcary, intelectual pr\u00f3-cotista, afirmou, sem enrubescer, que sequer um \u201cgoverno dos trabalhadores, pelo menos nas fases iniciais da transi\u00e7\u00e3o ao socialismo, num pa\u00eds como o Brasil, poderia garantir acesso irrestrito ao ensino superior para todos [&#8230;]\u201d! O governo brasileiro entrega bilh\u00f5es a banqueiros e capitalistas, nacionais e internacionais, mas n\u00e3o tem os meios para implementar programa cumprido por Cuba, um pa\u00eds pobre, literalmente desprovido de recursos naturais e de capitais!<\/p>\n<p><strong>P \u2013 Ent\u00e3o, a quem interessa a pol\u00edtica de <em>igualdade racial <\/em>e as propostasde <em>descrimina\u00e7\u00e3o positiva<\/em> na escola, partidos, servi\u00e7o p\u00fablico etc., apenas rejeitadas pelo Senado, quando da aprova\u00e7\u00e3o do Estatuto da Igualdade Racial? <\/strong><\/p>\n<p>R \u2013 Por primeiro, interessa ao capital, grande respons\u00e1vel pela defesa, propaganda e impuls\u00e3o dessa pol\u00edtica nos EUA, em fins dos anos 1950. Ela foi consolidada, como pol\u00edtica de manipula\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o racial, ap\u00f3s a repress\u00e3o geral e n\u00e3o raro massacre f\u00edsico da vanguarda negra classista e revolucion\u00e1ria estadunidense, nos anos 1960 e 1970. Ela come\u00e7ou a ser introduzida no Brasil, pela Funda\u00e7\u00e3o Ford, entre intelectuais negros, nos anos 1980. N\u00e3o \u00e9 por nada que a senhora Hillary Clinton, em recente viagem ao Brasil, na \u00fanica atividade n\u00e3o oficial, foi prestigiar essas pol\u00edticas, em faculdade brasileira organizada a partir de crit\u00e9rios raciais.<\/p>\n<p>Mas qual foi e \u00e9 o resultado das cotas nos EUA? No frigir dos ovos, maio s\u00e9culo ap\u00f3s a implanta\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica cotista, a droga e, sobretudo o c\u00e1rcere s\u00e3o a solu\u00e7\u00e3o priorit\u00e1ria para a <em>quest\u00e3o negra <\/em>estadunidense. Os EUA, com 5% da popula\u00e7\u00e3o mundial, possui 20% dos prisioneiros. Deles, 50% negros! No pa\u00eds mais rico do mundo, com recursos inimagin\u00e1veis, o jovem negro acaba normalmente nos bra\u00e7os da droga e da pris\u00e3o e raramente em universidade e emprego razo\u00e1vel.<\/p>\n<p>E, apesar disto, o Estatuto da Igualdade Racial prop\u00f5e nada menos que o \u201cBrasil\u201d esteja \u201cno m\u00ednimo, meio s\u00e9culo atr\u00e1s dos Estados Unidos em mat\u00e9ria de cidadania para o povo negro\u201d! Isso porqu\u00ea, ali, o fundamental para essa pol\u00edtica foi atingido \u2013 temos presidente, alguns generais, m\u00e9dicos, diplomatas, capitalistas, etc. negros!<\/p>\n<p>A pol\u00edtica cotista \u00e9 estrat\u00e9gia do grande capital pois prestigia e naturaliza a ordem capitalista; nega a luta social e de classes; procura dividir os trabalhadores e oprimidos por <em>cor<\/em> e <em>ra\u00e7a<\/em>; fortalece a base social da sociedade opressora. E tudo isso, em geral, sem custos para ao Estado!<\/p>\n<p>A pol\u00edtica de escola p\u00fablica, gratuita e de qualidade exige investimentos, que s\u00e3o feitos ali onde ainda domina os princ\u00edpios democr\u00e1ticos e republicanos dos servi\u00e7os p\u00fablicos b\u00e1sicos universais. Ao contr\u00e1rio, a pol\u00edtica cotista n\u00e3o exige que o Estado gaste um real, ao destinar 30%, 60% ou 90% das vagas das universidades p\u00fablicas \u2013 dos cargos federais, postos de trabalho, etc. \u2013 para negros, \u00edndios, mulheres, etc. O Estado n\u00e3o gasta nada, pois s\u00e3o investimentos j\u00e1 feitos. S\u00f3 redistribui os <em>privil\u00e9gios<\/em> e as <em>descrimina\u00e7\u00f5es<\/em>.<\/p>\n<p>E, com as pol\u00edticas cotistas, al\u00e9m dos dividendos pol\u00edtico-ideol\u00f3gicos, o Estado classista, prestigiado, v\u00ea cair a luta e a press\u00e3o popular pela extens\u00e3o desses servi\u00e7os. Ao igual que nos EUA. N\u00e3o \u00e9 por nada, portanto, que as atuais lideran\u00e7as do movimento negro cotista n\u00e3o exigem ensino p\u00fablico, livre e gratuito universal. E, imaginem s\u00f3 a <em>saia justa<\/em> do governo, do Estado e do capital, se a juventude popular e trabalhadora, como um todo, tomasse as ruas, exigindo ensino universal, p\u00fablico e de qualidade! Se n\u00e3o obtivessem tudo que pedissem, na primeira vez, levariam certamente muito!<\/p>\n<p>As propostas de <em>igualdade entre as ra\u00e7as<\/em>,na ordem capitalista, interessam tamb\u00e9m a certo tipo de <em>lideran\u00e7a negra<\/em>. Defendendo as pol\u00edticas do capital de <em>racializa\u00e7\u00e3o<\/em> da sociedade, inserem-se no jogo da representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e institucional, sendo por isso gratificada econ\u00f4mica, social, simbolicamente. N\u00e3o creio que tenha sido estudada a g\u00eanese-consolida\u00e7\u00e3o dessa representa\u00e7\u00e3o \u00e9tnica nascida \u00e0 sombra do Estado, fortemente impulsionado durante os governos Lula da Silva. Por\u00e9m, <em>mutatis mutandis<\/em>, n\u00e3o parece ser processo diverso do ocorrido com as representa\u00e7\u00f5es sindicais e populares cooptadas pelo Estado, ap\u00f3s a enorme derrota dos trabalhadores de fins dos anos 1980.<\/p>\n<p>Finalmente, essas pol\u00edticas interessam a segmentos m\u00e9dios e m\u00e9dio-baixos negros. \u00c9 segredo de Polichinelo que as pol\u00edticas de cotas privilegiam, sobretudo, os segmentos negros relativamente mais favorecidos, em detrimento dos trabalhadores e marginalizados de mesma origem. O filho do professor negro vence o filho do pedreiro negro, na disputa de uma cota. Ao igual do que ocorrem com filho do engenheiro branco, ao disputar com o do zelador de mesma cor, no vestibular. Ainda que, em bem da verdade, os filhos dos zeladores e dos pedreiros sequer sonhem com um curso universit\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>P &#8211; E quem est\u00e1 contra o Estatuto da Igualdade Racial? O que pensas da participa\u00e7\u00e3o do senador Dem\u00f3stenes Torres na relatoria desse projeto, ap\u00f3s declara\u00e7\u00f5es preconceituosas sobre a escravid\u00e3o e a opress\u00e3o aos negros? <\/strong><\/p>\n<p>R \u2013 No Brasil, a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s pol\u00edticas de <em>igualdade racial <\/em>tem duas grandes vertentes, essencialmente opostas [com <em>posi\u00e7\u00f5es<\/em> intermedi\u00e1rias, \u00e9 claro]. A vertente minorit\u00e1ria, com escasso espa\u00e7o na m\u00eddia e no debate, \u00e9 formada por um punhado de intelectuais, ativistas, sindicalistas, lideran\u00e7as sociais etc. negros e brancos, de tradi\u00e7\u00e3o republicana, democr\u00e1tica, socialista e revolucion\u00e1ria. Em geral, ela expressa, direta ou indiretamente, os interesses do mundo do trabalho e, portanto, da grande popula\u00e7\u00e3o trabalhadora e marginalizada negra, discriminada e esquecida pelas propostas ret\u00f3ricas de <em>igualdade racial. <\/em>Essa vertente mobiliza-se pela luta anti-racista e pelos direitos democr\u00e1ticos gerais, no aqui e no agora, sem qualquer exce\u00e7\u00e3o e privil\u00e9gios.<\/p>\n<p>A vertente majorit\u00e1ria, com grande presen\u00e7a na m\u00eddia, formada, em especial, por pol\u00edticos, jornalistas, intelectuais, etc., \u00e9 impulsionada por preconceitos elitistas, racistas e corporativistas. \u00c9 formada, sobretudo, por brancos e alguns oportunistas n\u00e3o-brancos. O senador Dem\u00f3stenes Torres \u00e9 representante ex\u00f3tico desta corrente, assim como, por exemplo, o jornalista Ali Kamel, constitui defensor refinado das mesmas vis\u00f5es.<\/p>\n<p>A primeira vertente, ao refletir, direta ou indiretamente, o mundo do trabalho e seu programa, tem consci\u00eancia das consequ\u00eancias dram\u00e1ticas das propostas de racializa\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira para a luta e as conquistas sociais e para a pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o e conviv\u00eancia nacional. A segunda, representa, sobretudo, os setores sociais <em>m\u00e9dios brancos <\/em>em parte deslocados por essas pol\u00edticas, em favor dos setores da <em>classe m\u00e9dia e m\u00e9dio-baixa negra<\/em>, como proposto.<\/p>\n<p>No \u00faltimo caso, trata-se de defesa conservadora de privil\u00e9gios das <em>classes m\u00e9dias brancas<\/em>, contra as pol\u00edticas raciais conservadoras do grande capital, despreocupado no geral com aqueles segmentos. Trata-se de um movimento em algo semelhante \u00e0 resist\u00eancia final dos racistas sul-africanos, quando o capital decidira a entroniza\u00e7\u00e3o da nova classe pol\u00edtica negro-africana. Resist\u00eancia que se mant\u00e9m at\u00e9 hoje em forma j\u00e1 residual, na \u00c1frica do Sul. N\u00e3o devemos esquecer que o capital n\u00e3o tem cor. Historicamente, ele se serve do racismo para impor sua domina\u00e7\u00e3o e obter super-explora\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, quando necess\u00e1rio, <em>ferra<\/em> sem d\u00f3 os segmentos racistas.<\/p>\n<p><strong>P \u2013 O Senado retirou do projeto a obrigatoriedade do registro da cor das pessoas nos formul\u00e1rios de atendimento do SUS, considerado por muitos como o retrocesso maior, j\u00e1 que os \u00edndices referentes \u00e0 sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o negra denunciariam fortemente a discrimina\u00e7\u00e3o racial.<\/strong><\/p>\n<p>R \u2013 \u00c9 <em>enrola\u00e7\u00e3o<\/em> estat\u00edstica dizer que os <em>negros<\/em>, por serem <em>negros<\/em>, s\u00e3o mais desfavorecidos que os <em>brancos<\/em>, por serem <em>brancos<\/em>, por exemplo, no relativo \u00e0 sa\u00fade. Comparemos os <em>engenheiros negros<\/em> e os <em>pedreiros brancos<\/em>. Nesse caso, a sa\u00fade dos <em>brancos<\/em> \u00e9 certamente pior do que a dos <em>negros<\/em>. E se cotejarmos a sa\u00fade dos <em>m\u00e9dicos brancos<\/em> \u00e0 dos <em>m\u00e9dicos negros<\/em> certamente ela ser\u00e1, no geral, id\u00eantica!<\/p>\n<p>O fato de que h\u00e1 maioria de negros entre as classes exploradas e maior n\u00famero de brancos entre os privilegiados determina diferen\u00e7a social que pode ser percebida <em>artificialmente<\/em> como <em>racial, <\/em>e n\u00e3o social. Seria estatisticamente mais interessante registrar e tornar p\u00fablica a situa\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-profissional dos atendidos pelo SUS, registrando a enorme insufici\u00eancia das classes trabalhadoras e marginalizadas, brancas, negras e pardas, quanto \u00e0 sa\u00fade e \u00e0 esperan\u00e7a de vida. Realidade n\u00e3o retida, como devia ser, no relativo \u00e0 remunera\u00e7\u00e3o e \u00e0 idade de aposentadoria.<\/p>\n<p>No essencial, as propostas da obriga\u00e7\u00e3o da defini\u00e7\u00e3o da cor [no fato, da pretensa <em>ra\u00e7a<\/em>] quando de registros p\u00fablicos procuram impor literalmente racializa\u00e7\u00e3o artificial do pa\u00eds. Para essa proposta, voc\u00ea n\u00e3o seria mais simplesmente brasileiro. Mas, obrigatoriamente, <em>brasileiro branco<\/em> ou <em>brasileiro negro<\/em>.<\/p>\n<p>Trata-se de proposta anti-republicana, anti-democr\u00e1tica e profundamente racista determinar pela lei que todo o cidad\u00e3o assuma uma identidade racial aleat\u00f3ria ou oportunista. Uma identidade racial que, no novo mundo proposto, poderia ensejar privil\u00e9gios em rela\u00e7\u00e3o ao resto da popula\u00e7\u00e3o. Esta proposta se ap\u00f3ia igualmente na concep\u00e7\u00e3o da necessidade da defini\u00e7\u00e3o da <em>ra\u00e7a<\/em> quando do atendimento m\u00e9dico, pois, segundo ela, negros e brancos, de <em>ra\u00e7as diversas<\/em>, exigiriam tratamentos e procedimentos m\u00e9dicos diversos! Ou seja, que <em>brancos<\/em> e <em>negros<\/em> seriam biologicamente diversos, como defendiam j\u00e1, os escravistas e seus ide\u00f3logos racistas, como o celerado e farsante <em>conde <\/em>de Gobineau [1816-1882].<\/p>\n<p>Proposta racista, de car\u00e1ter a-cient\u00edfico, que demonstra sua enorme obtusidade, ainda mais no Brasil, onde a auto-defini\u00e7\u00e3o racial tende no geral sequer possui uma correspond\u00eancia gen\u00e9tica mais precisa. Os estudos cient\u00edficos apontam para que, em uma enorme quantidade, os brasileiros s\u00e3o produtos de um forte mescla gen\u00e9tica de popula\u00e7\u00e3o das mais diversas origens europ\u00e9ias, americanas, africanas, asi\u00e1ticas, etc. E n\u00e3o devemos lembrar que aquelas popula\u00e7\u00f5es j\u00e1 resultavam de enormes intera\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas.<\/p>\n<p><strong>P \u2013 Como voc\u00ea enxerga as lamenta\u00e7\u00f5es do movimento negro, que definiu a aprova\u00e7\u00e3o dessa vers\u00e3o do Estatuto como trai\u00e7\u00e3o \u00e0s lutas hist\u00f3ricas e que seria melhor brigar mais dez anos pela aprova\u00e7\u00e3o de vers\u00e3o satisfat\u00f3ria? Voc\u00ea incluiria o projeto aprovado no rol de recuos do governo Lula da Silva, em praticamente todas as pautas de car\u00e1ter mais progressista? <\/strong><\/p>\n<p>R \u2013 Foi enorme a coopta\u00e7\u00e3o pelo Estado de dirigentes populares no governo Lula da Silva. Hoje, enorme parte das <em>dire\u00e7\u00f5es negras<\/em> tem liga\u00e7\u00f5es diretas ou indiretas com o lulismo, com o petismo, com o Estado, com os quais n\u00e3o arriscam oposi\u00e7\u00e3o e dissid\u00eancias. Ao igual que as dire\u00e7\u00f5es sindicalistas, camponesas, populares, etc. tamb\u00e9m cooptadas. Jamais vimos essas <em>lideran\u00e7as<\/em> do movimento negro mobilizando-se contra a ocupa\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito brasileiro do Haiti. Ou levantando-se contra o tratamento bestial do sistema prisional brasileiro, habitado por enorme popula\u00e7\u00e3o negra. Ou denunciando o quase total abandono das popula\u00e7\u00f5es flageladas dos \u00faltimos tempos. Sil\u00eancio de t\u00famulo.<\/p>\n<p>A reprova\u00e7\u00e3o do Estatuto no Senado parece ter causado apenas as assinaladas lamenta\u00e7\u00f5es das lideran\u00e7as respons\u00e1veis por sua apresenta\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o interpretava as necessidades da popula\u00e7\u00e3o negra pobre e explorada, que continua abandonada a sua sorte, sem conseguir construir suas verdadeiras lideran\u00e7as e programas, ao igual que a maioria dos trabalhadores e oprimidos dos campos e das cidades do Brasil.<\/p>\n<p><strong>P \u2013 Acredita que se realizou um debate p\u00fablico a contento, com a participa\u00e7\u00e3o efetiva da sociedade, na discuss\u00e3o das pol\u00edticas de descrimina\u00e7\u00e3o racial positiva, em geral, e do Estatuto, em particular?<\/strong><\/p>\n<p>R \u2013 Houve debate, super-estrutural e institucional: programas de r\u00e1dio e de televis\u00e3o; artigos e livros jornal\u00edsticos e acad\u00eamicos; alguns editorias. Por\u00e9m, o debate jamais alcan\u00e7ou a popula\u00e7\u00e3o nacional, a ser enquadrada pelo Estatuto, seja qual seja sua cor. Se fiz\u00e9ssemos um levantamento, a imensa maioria dos brasileiros n\u00e3o sabe o que seja o Estatuto e a quase totalidade n\u00e3o sabe realmente o que ele prop\u00f5e.<\/p>\n<p>O debate jamais foi realmente enfrentado, mesmo pela esquerda, que, paradoxalmente, no passado, destacou-se pela \u00eanfase da import\u00e2ncia da escravid\u00e3o e do racismo na sociedade de classes no Brasil. No s\u00e9culo 20, foram efetivamente militantes marxistas e comunistas que contribu\u00edram fortemente para que a quest\u00e3o negra se transformasse no Brasil em problema hist\u00f3rico e te\u00f3rico de larga discuss\u00e3o \u2013 Astrogildo Pereira, Edison Carneiro, Benjamin Per\u00e9t, Cl\u00f3vis Moura, D\u00e9cio Freitas, etc.<\/p>\n<p>A vanguarda da esquerda organizada aceitou as proposta de <em>racializa\u00e7\u00e3o <\/em>da sociedade nacional sem cr\u00edtica e reflex\u00e3o, como parte das novas e antigas <em>sensibilidades<\/em> ambientalistas, feministas, anti-racistas, etc. Contribu\u00edram nessa aceita\u00e7\u00e3o a-cr\u00edtica e passiva a escassa forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e, sobretudo, os fr\u00e1geis v\u00ednculos com o operariado nacional. Operariado em franca regress\u00e3o, no Brasil e no mundo, especialmente ap\u00f3s a derrota hist\u00f3rica de fins de 1980, que ensejou depress\u00e3o dos valores universalistas, racionalistas, socialistas, etc. Ou seja, com a crescente fragilidade do programa dos trabalhadores, fortaleceram-se a influ\u00eancia das propostas ideol\u00f3gicas e conservadoras do capital, tamb\u00e9m entre a pr\u00f3pria esquerda, como no caso das vis\u00f5es raciais da sociedade.<\/p>\n<p>Nas raz\u00f5es dessa ren\u00fancia passiva ao programa socialista ajuntar\u00edamos uma esp\u00e9cie de <em>consci\u00eancia culpada<\/em>, por parte de militantes em geral com origem na classe m\u00e9dia e m\u00e9dio-baixa branca, no contexto de escassa import\u00e2ncia dada \u00e0 quest\u00e3o, vista tradicionalmente como perif\u00e9rica aos problemas centrais da revolu\u00e7\u00e3o. Mesmo quando seja destacada nos programas pol\u00edticos. Foram tamb\u00e9m importante \u00e0s press\u00f5es da juventude negra estudantil radicalizada, conquistada para essas propostos, no processo de <em>flexibiliza\u00e7\u00e3o<\/em> de organiza\u00e7\u00f5es de esquerda, como o PSTU, de fr\u00e1geis v\u00ednculos sociais e pol\u00edticos com os trabalhadores.<\/p>\n<p><strong>3\/7\/2010<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fonte: ViaPol\u00edtica\/Correio da Cidadania<\/strong><\/p>\n<p><strong>URL: <\/strong><a href=\"http:\/\/www.correiocidadania.com.br\/content\/view\/4797\/9\/\" target=\"_blank\"><strong>http:\/\/www.correiocidadania.com.br<\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong>Val\u00e9ria Nader \u00e9 editora do Correio da Cidadania<\/strong><\/p>\n<p><strong>M\u00e1rio Maestri, 62, \u00e9 historiador marxista, tento estudado sistematicamente a escravid\u00e3o colonial e da \u00c1frica Negra. Publicou, entre outros trabalhos, <em>O escravismo brasileiro <\/em>S\u00e3o Paulo, Atual]; <em>Cisnes negros<\/em>: uma hist\u00f3ria da revolta da Chibata [S\u00e3o Paulo, Moderna]; <em>A linguagem escravizada<\/em>, com a ling\u00fcista Florence Carboni [S\u00e3o Paulo, Moderna]. <\/strong><\/p>\n<p><strong>E-mail:<\/strong> <a href=\"mailto:maestri@via-rs.net\" target=\"_blank\">maestri@via-rs.net<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\n\nCr\u00e9dito: correiocidadania.com.br\n\n\n\n\n\n\n\n\nM\u00e1rio Maestri\nEntrevista de Val\u00e9ria Nader, Correio da Cidadania \n\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/628\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[66],"tags":[],"class_list":["post-628","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c79-nacional"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-a8","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/628","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=628"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/628\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=628"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=628"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=628"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}