{"id":6307,"date":"2014-06-09T03:37:33","date_gmt":"2014-06-09T03:37:33","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6307"},"modified":"2014-06-09T03:37:33","modified_gmt":"2014-06-09T03:37:33","slug":"dez-anos-da-ocupacao-militar-no-haiti-qo-povo-quer-que-as-tropas-saiam-jaq","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6307","title":{"rendered":"Dez anos da ocupa\u00e7\u00e3o militar no Haiti: &#8220;o povo quer que as tropas saiam j\u00e1&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p>Segundo o pesquisador haitiano Franck Seguy, o Brasil colabora com os EUA, que terceirizaram a invas\u00e3o militar no Haiti por interesses comerciais pr\u00f3prios<\/p>\n<p align=\"right\"><em>23\/05\/2014<\/em><\/p>\n<p><em>F\u00e1bio Nassif<\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Internacional\/Dez-anos-da-ocupacao-militar-no-Haiti-o-povo-quer-que-as-tropas-saiam-ja-\/6\/30985\" target=\"_blank\"><em>da Carta Maior<\/em><\/a><\/p>\n<p>A ocupa\u00e7\u00e3o militar no Haiti, comandada pelas tropas brasileiras do Ex\u00e9rcito, completa dez anos no dia 1 de junho. A Minustah (Miss\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a estabiliza\u00e7\u00e3o no Haiti) foi iniciada a partir de decis\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas em 2004, quando est\u00e1vamos sob o governo Lula (PT).<\/p>\n<p>O fato chama a aten\u00e7\u00e3o para uma reflex\u00e3o sobre o papel brasileiro em um pa\u00eds que conhecidamente foi espoliado durante sua hist\u00f3ria. A imagem muitas vezes transmitidas por ve\u00edculos de m\u00eddia oficiais e pela grande m\u00eddia empresarial \u00e9 de que os soldados brasileiros desempenham um papel de paz e de solidariedade. Essa n\u00e3o \u00e9 a opini\u00e3o do pesquisador haitiano Franck Seguy. Ele acompanhou de perto a atua\u00e7\u00e3o das tropas militares at\u00e9 vir em 2008 estudar no Brasil. Em 2011 voltou a morar l\u00e1 e acaba de concluir seu doutorado na Unicamp, com a tese &#8220;A cat\u00e1strofe de janeiro de 2010, a \u2018Internacional Comunit\u00e1ria\u2019 e a recoloniza\u00e7\u00e3o do Haiti\u201d. Orientado pelo soci\u00f3logo Ricardo Antunes, Franck pretende lan\u00e7ar a tese em livro.<\/p>\n<p>Na entrevista que nos concedeu, Franck ressalta os interesses do Brasil na miss\u00e3o militar, destacando a busca por uma cadeira no Conselho de Seguran\u00e7a da ONU e o aprofundamento de la\u00e7os comerciais. Em sua vis\u00e3o, o Brasil desempenha um papel subimperialista no pa\u00eds e colabora com os Estados Unidos \u2013 que passaram a terceirizar a invas\u00e3o militar no Haiti por interesses comerciais pr\u00f3prios.<\/p>\n<p>Ele destacou a atua\u00e7\u00e3o repressiva e violenta das tropas militares, rejeita o nome de \u201cmiss\u00e3o de paz\u201d e afirmou que o objetivo \u00e9 \u201cestablizar a ordem existente, que mant\u00e9m o haitiano na precariedade que ele est\u00e1 hoje\u201d. Sobre a retirada das tropas, Franck acredita que o cen\u00e1rio mais prov\u00e1vel \u00e9 que a Minustah saia do pa\u00eds \u201csomente quando eles tiveram garantia de que j\u00e1 existe uma for\u00e7a nacional capaz de garantir o mesmo papel da Minustah\u201d. Apesar disso, refor\u00e7a: o povo haitiano quer a sa\u00edda imediata. Leia a seguir a entrevista:<\/p>\n<p><strong>Carta Maior &#8211; Quais os principais interesses do Brasil no comando da Minustah?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Franck Seguy &#8211; <\/strong>Essa ocupa\u00e7\u00e3o se deu em decorr\u00eancia de uma situa\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica haitiana na qual havia uma possibilidade de mudan\u00e7a social no pa\u00eds, impedida por uma interven\u00e7\u00e3o militar.<\/p>\n<p>O pa\u00eds estava passando por um processo, onde havia um movimento social plural mas significativo nas ruas: uma parte da burguesia na rua, os estudantes da principal universidade \u2013 que \u00e9 a Universidade do Estado do Haiti \u2013 muitos grupos organizados e alguns partidos pol\u00edticos. Era um movimento muito plural que n\u00e3o tinha uma \u00fanica dire\u00e7\u00e3o, mas que tinha tamb\u00e9m uma ala radical.<\/p>\n<p>Houve uma primeira interven\u00e7\u00e3o no dia 29 de fevereiro de 2004, realizada pelos Estados Unidos, apoiada pelo Canad\u00e1 e pela Fran\u00e7a. A interven\u00e7\u00e3o militar tomou o poder no pa\u00eds e mandou o presidente Jean-Bertrand Aristide embora \u2013 ou seja, foi um golpe de Estado. Ele foi exilado, e essa for\u00e7a multinacional composta pelos ex\u00e9rcitos norte-americano, franc\u00eas e canadense tomou conta do pa\u00eds do dia 29 de fevereiro at\u00e9 o dia 31 de maio. A partir de 1 de junho, depois de um voto do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU, uma for\u00e7a multinacional foi enviada ao Haiti para tomar conta da ocupa\u00e7\u00e3o. Assim foi criada a Minustah (Miss\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a estabiliza\u00e7\u00e3o no Haiti), liderada pelo Brasil.<\/p>\n<p>O primeiro interesse do Brasil \u00e9 o seguinte: com dois anos e pouco no primeiro mandato do Lula, ele queria conseguir o que nenhum presidente havia conseguido antes &#8211; uma cadeira permanente no Conselho de Seguran\u00e7a da ONU. <strong>Mas o imperialismo n\u00e3o d\u00e1 essa vaga de gra\u00e7a para ningu\u00e9m.<\/strong> Quer dizer, o governo brasileiro precisava comprovar ao mundo inteiro que tinha essa capacidade para lidar com essa vaga. O Haiti foi o laborat\u00f3rio oferecido para o Brasil comprovar isso. Em um artigo chamado <a href=\"http:\/\/www.mondialisation.ca\/haiti-premiere-victime-de-la-tentation-imperiale-du-bresil\/5337637\">\u201cHaiti: a primeira v\u00edtima da tenta\u00e7\u00e3o imperial do Brasil\u201d<\/a>, Jo\u00ebl L\u00e9on, da Anistia Internacional, est\u00e1 corret\u00edssimo em sua an\u00e1lise de que o Brasil est\u00e1 pagando por esta tenta\u00e7\u00e3o imperial. Na minha an\u00e1lise, o Brasil est\u00e1 desempenhando um papel subimperialista na Am\u00e9rica Latina e o Haiti est\u00e1 pagando por isso.<\/p>\n<p>O segundo ponto \u00e9 que o Haiti oferece uma extens\u00e3o para o mercado brasileiro em alguns sentidos, principalmente na \u00e1rea t\u00eaxtil. \u00c9 preciso lembrar que o Brasil tinha um dos maiores empres\u00e1rios do mundo na quest\u00e3o de vestu\u00e1rios, que era o Jos\u00e9 Alencar (ex-vice presidente no governo Lula). E o filho dele \u00e9 bastante ativo no Haiti. [<a href=\"http:\/\/wikileaks.ch\/cable\/2009\/06\/09BRASILIA836.html\">veja aqui documento do Wikileaks sobre o lobby de Josu\u00e9 Gomes da Silva, presidente da Coteminas, no Haiti<\/a>]. Ele j\u00e1 foi ao Haiti junto com Bill Clinton \u2013 que \u00e9 hoje o enviado especial do secret\u00e1rio-geral da ONU e leva regularmente empres\u00e1rios para fazer neg\u00f3cios no Haiti. Hoje o lema oficial do governo haitiano \u00e9: \u201co Haiti est\u00e1 aberto aos neg\u00f3cios\u201d e o principal deles \u00e9 com a ind\u00fastria t\u00eaxtil.<\/p>\n<p>Existe um estudo realizado antes do terremoto de 2010 por um economista da Universidade de Oxford chamado Paul Collier que aponta a cria\u00e7\u00e3o de zonas francas no Haiti como \u00fanica sa\u00edda para explorar o que ele identifica como a m\u00e3o de obra mais barata existente hoje \u2013 ele diz que a m\u00e3o de obra haitiana \u00e9 mais barata que a chinesa.<\/p>\n<p>Esses dois fatores s\u00e3o fundamentais para explicar porque o Brasil est\u00e1 ocupando o Haiti hoje e prestando um servi\u00e7o ao imperialismo, que precisa do Haiti n\u00e3o somente para explorar essa m\u00e3o de obra mas tamb\u00e9m para produzir para um mercado norte-americano, muito pr\u00f3ximo ao Haiti.<\/p>\n<p>Para explicar um pouco melhor, existe entre o Haiti e os Estados Unidos um acordo, a partir de uma lei adotada pelo Congresso norte-americano, chamada HOPE. De acordo com essa lei o produto vestu\u00e1rio feito no Haiti \u00e9 comercializado nos Estados Unidos como sendo norte-americano. Ou seja, entra no mercado norte-americano sem pagar nenhuma taxa. O Paul Collier diz no relat\u00f3rio dele que o Haiti, localizado pr\u00f3ximo ao maior mercado mundial, tendo m\u00e3o de obra barata, n\u00e3o exigindo pagamento de taxas de acordo com a lei HOPE e sendo um pa\u00eds pouco regulamentado \u2013 com poucas leis que protegem direitos trabalhistas \u2013 \u00e9 o lugar mais seguro para produzir. Por isso o Brasil est\u00e1 desempenhando este papel.<\/p>\n<p><strong>Carta Maior &#8211; Por que voc\u00ea considera que o Brasil desempenha um papel subimperialista e qual a diferen\u00e7a com um imperialismo no sentido cl\u00e1ssico?<\/strong><\/p>\n<p>Vou responder a partir da realidade haitiana.<\/p>\n<p>Como o imperialismo cl\u00e1ssico costuma atuar no Haiti? Se voc\u00ea olhar para a hist\u00f3ria do Haiti, no final do s\u00e9culo XIX, a batalha era entre quatro pot\u00eancias: Fran\u00e7a, Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos. Cada um tinha um plano de controle. Eles precisavam controlar o Haiti porque o pa\u00eds estava em processo de liberaliza\u00e7\u00e3o e era necess\u00e1rio disputar quem financiaria isso. Em segundo lugar, pela localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica, pelo fato do Haiti estar no caminho do canal do Panam\u00e1. Quem controlasse o Haiti controlava quem ia passar no canal do Panam\u00e1. Terceiro que, pelo Haiti, era poss\u00edvel ter controle de Cuba tamb\u00e9m. E neste per\u00edodo era muito importante comprovar que o Haiti, por ser um pa\u00eds negro, era incapaz de ser governado por si mesmo.<\/p>\n<p>Na luta entre essas pot\u00eancias, os norte-americanos, prevalecendo-se da Doutrina Monroe \u2013 segundo a qual a Am\u00e9rica pertence aos Estados Unidos \u2013 decidiram que n\u00e3o deixariam um pa\u00eds europeu ocupar o Haiti. Por isso em 1915 o imperialismo norte-americano decidiu intervir no Haiti e ocupar o pa\u00eds militarmente durante 19 anos.<\/p>\n<p>Durante esta primeira ocupa\u00e7\u00e3o o que eles fizeram? Expropriaram, pegaram as terras do povo haitiano e mandaram os camponeses para Cuba nas planta\u00e7\u00f5es de cana e para o Panam\u00e1, terminar a constru\u00e7\u00e3o do canal. Nas serras implementaram algumas empresas, por exemplo de extra\u00e7\u00e3o de borracha, banana e algod\u00e3o, e depois continuaram tomando conta do pa\u00eds. Por exemplo, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 80 havia 164 empresas norte-americanas no Haiti. Na mesma \u00e9poca eles mataram parte da economia haitiana que era baseada no gado e no rebanho su\u00edno. Eles mataram os porcos para liberar uma m\u00e3o de obra que precisavam para trabalhar nas zonas francas e nos parques industriais. Estou falando isso para exemplificar que o imperialismo norte-americano sempre que precisava tomava conta do pa\u00eds, econ\u00f4mica, pol\u00edtica e militarmente. Ocuparam tamb\u00e9m em 1994.<\/p>\n<p>Mas o que aconteceu? A partir de 2004 os norte-americanos fizeram a escolha de terceirizar as ocupa\u00e7\u00f5es. Quer dizer, hoje eles n\u00e3o mais ocupam o Haiti militarmente. Eles fizeram isso por alguns dias s\u00f3 por ocasi\u00e3o do terremoto em 2010. Enquanto o Ex\u00e9rcito brasileiro j\u00e1 estava l\u00e1, eles intervieram com 15 mil soldados e o general brasileiro que comandava a Minustah amea\u00e7ou ir embora. O Ex\u00e9rcito brasileiro nestes dias distribu\u00eda \u00e1gua nas ruas e o general justificou a a\u00e7\u00e3o dizendo que era preciso marcar presen\u00e7a ali. Ou seja, a \u201cajuda\u201d ficou explicitamente em segundo plano.<\/p>\n<p>Hoje, a ocupa\u00e7\u00e3o do Haiti \u00e9 terceirizada. Os pa\u00edses que t\u00eam tropas l\u00e1 s\u00e3o todos perif\u00e9ricos em rela\u00e7\u00e3o aos Estados Unidos e ao imperialismo de um modo geral. Pa\u00edses como Argentina, Bol\u00edvia, Uruguai, Paraguai, Chile, Senegal, Burkina Faso, Bangladesh, I\u00eamen, etc. Essa terceiriza\u00e7\u00e3o acontece militarmente e economicamente porque as zonas francas que est\u00e3o sendo implementadas no Haiti s\u00e3o com empresas de pa\u00edses perif\u00e9ricos como Cor\u00e9ia do Sul e Rep\u00fablica Dominicana. A produ\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 destinada ao mercado norte-americano a favor do seu pr\u00f3prio capitalismo.<\/p>\n<p><strong>Carta Maior &#8211; Na vis\u00e3o do povo haitiano e dos movimentos sociais, a Minustah pode ser considerada uma miss\u00e3o de estabiliza\u00e7\u00e3o como o nome sugere?<\/strong><\/p>\n<p>O que \u00e9 uma miss\u00e3o de estabiliza\u00e7\u00e3o? Estabilizar o qu\u00ea? Establizar a ordem existente, que mant\u00e9m o haitiano na precariedade que ele est\u00e1 hoje. \u00c0s vezes eles a chamam de Miss\u00e3o de Paz, e eu acho que n\u00e3o s\u00e3o a mesma coisa. Uma miss\u00e3o de escraviza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma miss\u00e3o de paz e vice-versa. A Minustah n\u00e3o \u00e9 uma miss\u00e3o de paz e sim de estabiliza\u00e7\u00e3o. Estabilizar o pa\u00eds para que o trabalhador continue ganhando 4 d\u00f3lares por dia \u2013 que \u00e9 o salario no Haiti hoje \u2013 enquanto os capitalistas exploram a barata m\u00e3o de obra haitiana \u2013 e como se esse barateamento fosse uma coisa natural. O papel da Minustah \u00e9 exatamente esse: reprimir os movimentos sociais e oper\u00e1rios de um modo geral toda vez que eles procuram mudan\u00e7as na estrutura social do pa\u00eds.<\/p>\n<p>O Ex\u00e9rcito brasileiro j\u00e1 deu as provas sobre isso. Em 2009, quando houve um movimento a favor do reajuste do salario m\u00ednimo, as tropas brasileiras, principalmente em Porto Pr\u00edncipe, baixaram a mais tremenda repress\u00e3o no movimento. Quando o Ex\u00e9rcito brasileiro chegou no Haiti em 2004, foi aplaudido como her\u00f3i. Em agosto a sele\u00e7\u00e3o brasileira de futebol foi jogar no Haiti, ganhou de seis a zero, foi aplaudida pelos haitianos. Os haitianos s\u00e3o torcedores loucos por futebol, principalmente pelas sele\u00e7\u00f5es \u2013 muito mais do que no Brasil \u2013 e n\u00e3o seria exagero afirmar que 70% torce pela sele\u00e7\u00e3o brasileira. E gostam do Brasil porque a imprensa fora do seu territ\u00f3rio o apresenta como um pa\u00eds que n\u00e3o tem racismo, miscigenado e integrado.<\/p>\n<p>Em 2004 era muito f\u00e1cil o Ex\u00e9rcito brasileiro chegar no Haiti. Como eles come\u00e7aram a baixar a repress\u00e3o nos movimentos sociais e nos bairros populares, o povo haitiano passou a perceber que o papel da Minustah n\u00e3o era ajudar aquele povo mas ajudar a estabilizar o Haiti para o imperialismo. Os haitianos hoje n\u00e3o t\u00eam mais essa ilus\u00e3o. Eles sabem que \u00e9 uma miss\u00e3o para o que haitiano fique na dele e seja explorado. Quando n\u00e3o h\u00e1 lutas abertas para o Ex\u00e9rcito brasileiro, qual \u00e9 o papel do Brasil? O povo haitiano usa a palavra \u201cturistah\u201d. \u00c9 um jogo de palavras entre \u201cturista\u201d e \u201cMinustah\u201d. Ou seja, \u00e9 para o soldado que est\u00e1 fazendo turismo. Ele s\u00f3 tem duas coisas a fazer: repress\u00e3o em momentos de luta aberta e passeio nas belas praias quando n\u00e3o h\u00e1 luta. \u00c9 isso que faz o soldado brasileiro no Haiti.<\/p>\n<p>Claro que a grande m\u00eddia mostra um soldado brasileiro ajudando algu\u00e9m individualmente, chorando, para mostrar o soldado brasileiro como um sujeito simp\u00e1tico e sens\u00edvel \u00e0 mis\u00e9ria humana. Claro que a grande m\u00eddia faz isso, para enganar quem n\u00e3o vai analisar com profundidade. Mas quem convive com os haitianos sabe que o Ex\u00e9rcito est\u00e1 fazendo um papel muito repressivo em rela\u00e7\u00e3o ao povo.<\/p>\n<p><strong>Carta Maior &#8211; Como voc\u00ea enxerga a miss\u00e3o no Haiti sendo utilizada como argumento para as interven\u00e7\u00f5es das for\u00e7as armadas nas favelas brasileiras?<\/strong><\/p>\n<p>Os generais brasileiros no Haiti admitem isso, do Haiti como campo de treinamento. Um comandante de um contingente assumiu que o Haiti serve para treinar o Ex\u00e9rcito para atuar nos morros do Rio de Janeiro depois. E isso est\u00e1 sendo demonstrado agora porque boa parte dos soldados que j\u00e1 passaram pelo Haiti est\u00e3o no Rio.<\/p>\n<p><strong>Carta Maior &#8211; Qual o balan\u00e7o que voc\u00ea faz desses dez anos, do ponto de vista da viola\u00e7\u00e3o dos direitos do povo haitiano?<\/strong><\/p>\n<p>Deixa eu te contar um evento. Havia um general brasileiro [Urano Teixeira da Mata Bacelar] no Haiti que foi morto, mas oficialmente foi considerado um suic\u00eddio. Disseram que ele cometeu suic\u00eddio e ponto. Mas as pessoas que t\u00eam mais conhecimento do que eu sobre per\u00edcia j\u00e1 disseram que n\u00e3o foi suic\u00eddio. Ele n\u00e3o era canhoto e recebeu a bala do lado esquerdo, abaixo da orelha, e uma s\u00e9rie de argumentos que pelo menos colocam em d\u00favida a tese do suic\u00eddio. \u00c9 porque naquele per\u00edodo esse general recebeu uma ordem para reprimir o povo que mora numa favela enorme, chamada Cit\u00e9 Soleil. O general brasileiro<a name=\"_GoBack\"><\/a> deve ter esquecido que era general, pensou que era soci\u00f3logo, e come\u00e7ou a dizer que aquele povo n\u00e3o precisava de repress\u00e3o e sim uma ajuda para sair da mis\u00e9ria. Um militar que pensa \u00e9 perigoso. [<a href=\"http:\/\/www.theguardian.com\/commentisfree\/cifamerica\/2011\/jan\/21\/haiti-wikileaks?INTCMP=SRCH\">Veja mat\u00e9ria do The Guardian, com documentos do Wikileaks, que aponta suspeitas sobre a morte de Bacelar.<\/a>]<\/p>\n<p>Eu conhe\u00e7o alguns soldados que foram pro Haiti e eles n\u00e3o voltam com o mesmo \u00e2nimo que foram pro Haiti. Alguns voltam e nunca mais falam no Haiti. Porque eles fazem coisas diferentes do que estavam esperando. Muitos deles v\u00e3o para o Haiti pensando que v\u00e3o pacificar um pa\u00eds em guerra e outros pensam que v\u00e3o ajudar um povo em dificuldade. Quando eles chegam n\u00e3o h\u00e1 nenhuma guerra para pacificar. E n\u00e3o h\u00e1 nenhuma ajuda a favor deste povo. Ent\u00e3o eles voltam muitas vezes desapontados em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 expectativa inicial.<\/p>\n<p><strong>Carta Maior &#8211; Sobre a retirada das tropas, voc\u00ea acredita que ela deva ser gradual ou imediata? O que ficar\u00e1 do Haiti depois dessa sa\u00edda?<\/strong><\/p>\n<p>O povo haitiano e os movimentos sociais querem que a Minustah saia do pa\u00eds. E n\u00e3o \u00e9 amanh\u00e3 ou depois de amanh\u00e3. \u00c9 sair agora. Esse \u00e9 o desejo e entre o desejo e a realidade a diferen\u00e7a \u00e9 grande. O povo haitiano n\u00e3o \u00e9 soberano hoje, n\u00e3o \u00e9 ele quem decide sobre isso. O Estado haitiano s\u00f3 existe no nome. \u00c9 a pr\u00f3pria ONU que vai decidir. Como a Minustah est\u00e1 l\u00e1 para desenvolver determinado papel, do ponto de vista do imperialismo, a Minustah vai sair somente quando eles tiverem garantia de que j\u00e1 existe uma for\u00e7a nacional capaz de garantir o mesmo papel da Minustah. Na minha an\u00e1lise, esse \u00e9 o cen\u00e1rio mais prov\u00e1vel no Haiti. Esse ano tem elei\u00e7\u00e3o legislativa e a presidencial \u00e9 no final de 2015 para tomar posse em 2016. Do ponto de vista do povo, \u00e9 sa\u00edda j\u00e1; do ponto de vista do imperialismo, sa\u00edda gradual \u2013 seja para colocar outra for\u00e7a ou para treinar as for\u00e7as haitianas at\u00e9 que seja t\u00e3o repressiva quanto a Minustah.<\/p>\n<p><strong>Carta Maior &#8211; Acredita que existe rela\u00e7\u00e3o entre a presen\u00e7a das tropas brasileiras no Haiti e a vinda de haitianos para o Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>Eu vejo rela\u00e7\u00e3o mas tem mais do que isso. H\u00e1 rela\u00e7\u00e3o no sentido que o projeto de zonas francas que est\u00e1 sendo implementado no Haiti hoje \u2013 que prev\u00ea a constru\u00e7\u00e3o de 42 delas \u2013 e a mais recente inaugurada pretende fornecer entre 65 e 75 mil empregos. Mas o sal\u00e1rio vai ser de 4 d\u00f3lares por dia. Quer dizer, o imperialismo diz que quer criar emprego como forma de reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, mas \u00e9 um emprego que n\u00e3o garante a sobreviv\u00eancia do haitiano. Assim, o haitiano procura sa\u00eddas e uma delas \u00e9 a migra\u00e7\u00e3o. Portanto, a rela\u00e7\u00e3o se d\u00e1 porque o Ex\u00e9rcito brasileiro est\u00e1 l\u00e1 para garantir essa estabiliza\u00e7\u00e3o com um sal\u00e1rio de mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 muito mais do que isso, no sentido de que esta obriga\u00e7\u00e3o pela migra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o que vem de 2004. \u00c9 de antes porque o pa\u00eds foi destru\u00eddo sistematicamente do s\u00e9culo XIX pra c\u00e1. Em todos os sentidos. As finan\u00e7as do pa\u00eds foram roubadas \u2013 como verdadeiros assaltos principalmente pela Fran\u00e7a, Alemanha e Estados Unidos. Ali\u00e1s, a primeira medida da ocupa\u00e7\u00e3o norte-americana em 1915 foi pegar a reserva do Banco Central do Haiti para levar a Washington. O imperialismo destruiu sistematicamente o meio ambiente haitiano fragilizando cada vez mais o pa\u00eds em rela\u00e7\u00e3o a qualquer fen\u00f4meno da natureza. Por isso um terremoto t\u00e3o fraco de 7.2 matou 300 mil pessoas no Haiti enquanto a gente v\u00ea um terremoto de 8.9 no Chile matar aproximadamente 100 pessoas. E o pa\u00eds foi fragilizado tamb\u00e9m pela migra\u00e7\u00e3o de sua for\u00e7a de trabalho mais qualificada. Hoje, mais de 80% dos haitianos com diploma de ensino superior est\u00e3o fora do Haiti. No Canad\u00e1, somente no Quebec, existem mais m\u00e9dicos haitianos, formados no seu pa\u00eds, do que no pr\u00f3prio Haiti.<\/p>\n<p>A trag\u00e9dia do Haiti n\u00e3o \u00e9 o terremoto de 2010. \u00c9 essa situa\u00e7\u00e3o que evolui ano a ano at\u00e9 hoje. A migra\u00e7\u00e3o do haitiano se coloca como necessidade que n\u00e3o \u00e9 do s\u00e9culo XXI e \u00e9 feita em v\u00e1rios sentidos. Mas a migra\u00e7\u00e3o para o Brasil \u00e9 da chamada m\u00e3o de obra menos qualificada. A mais qualificada tamb\u00e9m est\u00e1 migrando mas n\u00e3o para o Brasil. Porque hoje a precariedade \u00e9 a norma do cotidiano no Haiti.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6307\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-6307","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1DJ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6307","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6307"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6307\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6307"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6307"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6307"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}