{"id":631,"date":"2010-07-06T15:27:59","date_gmt":"2010-07-06T15:27:59","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=631"},"modified":"2010-07-06T15:27:59","modified_gmt":"2010-07-06T15:27:59","slug":"o-que-e-mesmo-tolerancia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/631","title":{"rendered":"O QUE \u00c9 MESMO TOLER\u00c2NCIA?"},"content":{"rendered":"\n<p align=\"justify\">Quarta-feira, 23 de junho de 2010. Acabo de chegar da IV.\u00aa Jornada Interdisciplinar que teve o tema \u201cIntoler\u00e2ncia e Holocausto: como estudar e ensinar na sala de aula\u201d organizado pelo Programa de Estudos Judaicos da UERJ, pela Associa\u00e7\u00e3o Cultural B\u2019nai B\u2019rith do Rio de Janeiro e contando com o apoio da Secretaria Municipal de Educa\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">Como professor de Hist\u00f3ria da Rede P\u00fablica de Ensino participo de tal evento cujo objetivo, descrito no material entregue aos participantes, pretende \u201coferecer a oportunidade de capacita\u00e7\u00e3o intensiva sobre o Holocausto cujo entendimento completo do autoritarismo e seu processo correlato \u2013 a Intoler\u00e2ncia \u2013 ser\u00e1 apreciada em todas as suas vertentes\u201d. (Caderno de textos, p. 4).<\/p>\n<p align=\"justify\">Infelizmente o que deveria ser um momento para a reflex\u00e3o cr\u00edtica de um dos processos mais tr\u00e1gicos cometidos contra a Humanidade, o holocausto nazista, transformou-se numa clara campanha de propaganda e obrigat\u00f3ria concord\u00e2ncia com a pol\u00edtica do Estado de Israel, visto como \u201cv\u00edtima\u201d de uma incessante campanha de \u201cpersegui\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cantissemitismo\u201d .<\/p>\n<p align=\"justify\">Isso me incomodou profundamente (acredito que tamb\u00e9m alguns professores) pois logo na mesa 2, \u201cA Forma\u00e7\u00e3o do pensamento antissemita atrav\u00e9s das imagens: do III Reich ao Ir\u00e3\u201d, ministrada pela Prof.\u00aa Silvia Rosa Nossek Lerner (UVA) ficou claro que qualquer possibilidade de cr\u00edtica a alguns aspectos de sua abordagem, seriam entendidos como \u201cantissemitismo\u201d ou \u201cnega\u00e7\u00e3o do holocausto nazista\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">Obviamente \u00e9 ahist\u00f3rico negar o holocausto nazista como fen\u00f4meno social, situado no contexto p\u00f3s-chegada de Adolf Hitler ao poder na Alemanha, em 1933 e todo o esfor\u00e7o de mobiliza\u00e7\u00e3o que os nazistas fizeram para humilhar, perseguir, escravizar e eliminar quase 6 milh\u00f5es de judeus, al\u00e9m de outros milhares de ciganos, testemunhas de jeov\u00e1, comunistas, dissidentes pol\u00edticos, deficientes f\u00edsicos e homossexuais. Isso foi uma trag\u00e9dia contra a Humanidade que nunca poder\u00e1 ser esquecida.<\/p>\n<p align=\"justify\">O que discordo da exposi\u00e7\u00e3o da Prof.\u00aa Silvia R. N. Lerner foi a intencionalidade de transformar o holocausto nazista (fato hist\u00f3rico real) em \u201cHolocausto\u201d, ou seja, sua representa\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica como diz Norman Finkelstein, professor da Universidade de Nova York, cuja conseq\u00fc\u00eancia serviu para legitimar \u2013 diante do sentimento de \u201cculpa europeu\u201d \u2013 a invas\u00e3o (ou como alguns queiram \u201cimigra\u00e7\u00e3o\u201d) de judeus para uma terra que j\u00e1 estava ocupada, em sua imensa maioria por palestinos.<\/p>\n<p align=\"justify\">Concordando novamente com o Norman Finkelstein, o holocausto nazista tornou-se uma \u201cind\u00fastria que exibe como v\u00edtimas o grupo \u00e9tnico mais bem-sucedido dos Estados Unidos e apresenta como indefeso um pa\u00eds como Israel, uma das mais formid\u00e1veis pot\u00eancias militares do mundo, com horrenda reputa\u00e7\u00e3o em direitos humanos que oprime os n\u00e3o judeus em seu territ\u00f3rio e em sua \u00e1rea de influ\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">Esta ferida aberta em 1948 (e que segue sendo uma dos maiores dramas existentes da Humanidade), a \u201cquest\u00e3o palestina\u201d, come\u00e7ou a partir da cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel que se tornou uma for\u00e7a de ocupa\u00e7\u00e3o dentro do pr\u00f3prio territ\u00f3rio palestino.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mais uma vez dizer isso n\u00e3o \u00e9 ser um \u201cantissemita\u201d muito menos negar a pavorosa experi\u00eancia do holocausto nazista. Como professor n\u00e3o quero (e n\u00e3o posso) querer que a hist\u00f3ria de sofrimento de ningu\u00e9m seja ignorada e n\u00e3o registrada. Por outro lado, h\u00e1 uma grande diferen\u00e7a entre reconhecer a opress\u00e3o aos judeus e usar isso como pretexto para opress\u00e3o de outro povo. \u00c9 preciso ser capaz de distinguir entre o que aconteceu com os judeus na Segunda Guerra Mundial e na Europa nos s\u00e9culos de antissemitismo aberto e institucionalizado e o que as pessoas sentem sobre as terr\u00edveis pr\u00e1ticas de ocupa\u00e7\u00e3o militar e despojamento da Palestina. N\u00e3o nos esque\u00e7amos de que o que Israel faz \u00e9 feito abertamente em nome do povo judeu.<\/p>\n<p align=\"justify\">Era isso que eu imaginava colocar no espa\u00e7o reservado ao debate. Mas percebi que tais opini\u00f5es n\u00e3o seriam aceitas por tudo aquilo que li no caderno do evento e ouvi nas exposi\u00e7\u00f5es dos debatedores, principalmente o da j\u00e1 citada Prof.\u00aa Silvia R. N. Lerner .<\/p>\n<p align=\"justify\">Ent\u00e3o, um pouco antes do tempo para o debate, resolvi divulgar um pequeno texto aos professores participantes. N\u00e3o queria ser inconveniente e apenas entreguei algumas c\u00f3pias para que alguns passassem aos outros colegas. O texto mencionado n\u00e3o era de minha autoria. Tratava-se de um panfleto datado do in\u00edcio de 2009, assinado por v\u00e1rias entidades, das quais tive o cuidado de retir\u00e1-las nas c\u00f3pias que usei, para que n\u00e3o fosse entendido como propaganda de alguma delas. O texto intitulado \u201cChega de Matan\u00e7a\u201d foi um material divulgado durante um ato que ocorreu no Rio de Janeiro contra os bombardeios feitos a civis por Israel na Faixa de Gaza. (Se algu\u00e9m desejar posso passar na \u00edntegra o referido texto para que tenham sua pr\u00f3pria leitura).<\/p>\n<p align=\"justify\">Pretendia apenas contribuir para a reflex\u00e3o cr\u00edtica e, quem sabe, estimular os professores presentes com alguma quest\u00e3o para o debate posterior. Qual a minha surpresa quando as Prof.\u00aas Silvia R. N. Lerner, Maria Luiza Tucci Carneiro (USP) e tamb\u00e9m a Prof.\u00aa Regina L\u00facia Henriques (representante da Associa\u00e7\u00e3o Beneficente e Cultural B\u2019nai Brith do Rio de Janeiro) de forma a cercear o livre direito a expor id\u00e9ias me intimaram de forma truculenta a deixar o plen\u00e1rio, pois queriam ter uma \u201cconversa particular\u201d comigo.<\/p>\n<p align=\"justify\">Perplexo fui obrigado a me identificar (dizer meu nome, matr\u00edcula e coordenadoria). Indignei-me com a forma intimidadora, desrespeitosa e cerceadora que fui tratado. A Prof.\u00aa Silvia R. N. Lerner era a mais exaltada. Disse que eu estava agindo como \u201cantissemita\u201d e \u201cracista\u201d. Pior: queriam saber de que \u201corganiza\u00e7\u00e3o \u00e1rabe e terrorista\u201d eu fazia parte! Confesso que fiquei pasmo. Olhavam-me com raiva (para n\u00e3o dizer \u00f3dio) e me acusavam constantemente de estar \u201cintencionalmente disposto a acabar com o evento\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">Comecei a ficar mais e mais constrangido, principalmente por se tratar de professoras, colegas de profiss\u00e3o, cujo papel seria discutir, problematizar id\u00e9ias e n\u00e3o agir como agentes de seguran\u00e7a do Estado de Israel.<\/p>\n<p align=\"justify\">Respondi que como um evento que se propunha discutir as formas de \u201cIntoler\u00e2ncia\u201d e \u201cprinc\u00edpios de conviv\u00eancia, baseados no di\u00e1logo da diversidade e do multiculturalismo\u201d (cf. a p. 3 da apresenta\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica feita pela Prof.\u00aa Helena Lewin, no Cadernos de textos) era uma contradi\u00e7\u00e3o a maneira pela qual estavam me tratando, com ofensas morais. Uma das professoras lamentou inclusive o fato de ser professor da rede municipal de ensino. N\u00e3o me lembro qual delas chegou a dizer de forma desdenhosa \u201ccomo p\u00f4de ter estudado na UFF?\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">Cada vez mais irritado, disse a elas que estava me retirando do evento e que n\u00e3o se preocupassem com as minhas \u201camea\u00e7as\u201d. Novamente fui surpreendido quando a Prof.\u00aa Silvia R. N. Lerner disse que \u201cdevia esperar o debate e ter a coragem de expor minhas id\u00e9ias\u201d, pois segundo ela \u201cestava me escondendo\u201d ao \u201cdivulgar um texto racista sem identifica\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">Dessa maneira fui \u201cconvidado\u201d a entrar, esperar o fim de v\u00eddeo que estava passando e \u201cfalar\u201d para mostrar claramente as minhas id\u00e9ias. No momento em que come\u00e7ou o debate, j\u00e1 bem atrasado e perto do almo\u00e7o, fiquei na frente esperando a chance de expor e retirar a acusa\u00e7\u00e3o de \u201cantissemita\u201d ou \u201cnegador do holocausto nazista\u201d. Qual foi minha surpresa (pra dizer a verdade j\u00e1 esperava por isso) quando a Prof.\u00aa Silvia R. N. Lerner ignorou-me, mesmo tendo insistentemente levantado a m\u00e3o. J\u00e1 prevendo o que poderia acontecer disse que as perguntas deveriam ser feitas exclusivamente sobre o tema da jornada \u201cIntoler\u00e2ncia e Holocausto: como estudar e ensinar na sala de aula\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">Como j\u00e1 disse antes at\u00e9 formulei algumas quest\u00f5es que tinha interesse em problematizar sobre a referida tem\u00e1tica, dizendo que n\u00e3o me parecia correto trabalhar com os alunos em sala de aula esse fen\u00f4meno como acontecimento hist\u00f3rico \u00fanico, bem diferente da inten\u00e7\u00e3o dos organizadores em transformar o holocausto nazista em \u201cHolocausto\u201d. Assim \u00e9 poss\u00edvel do ponto de vista hist\u00f3rico dizer que ocorreram v\u00e1rios \u201cholocaustos\u201d (entendido como massacre, hecatombe, dizima\u00e7\u00e3o intencionada de um povo ou um grupo \u00e9tnico). Acaso o que ocorreu na Guerra de Conquista movida pelos colonizadores espanh\u00f3is ao chegarem na \u201cAm\u00e9rica pr\u00e9-colombiana\u201d n\u00e3o foi isso? E o massacre de arm\u00eanios pelos turcos na primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XX? E os palestinos? Por que \u00e9 um tabu dizer que o que Estado de Israel fez e continua fazendo a eles, desde 1948 \u00e9 algo diferente, na utiliza\u00e7\u00e3o dos mesmos m\u00e9todos de viol\u00eancia, tortura, cerceamento, humilha\u00e7\u00e3o e assassinatos de civis? Afirmar isso \u00e9 \u201cantissemitismo\u201d ou negar o \u201cholocausto nazista\u201d?<\/p>\n<p align=\"justify\">Com isso n\u00e3o quero e tamb\u00e9m sei da impossibilidade e da ofensa em comparar sofrimentos. O que os judeus passaram \u00e9 horr\u00edvel e realmente sem precedentes. Mas por outro lado, isso n\u00e3o pode ser usado como forma de diminuir a terr\u00edvel puni\u00e7\u00e3o que os palestinos tem sofrido nas m\u00e3os do Estado de Israel. N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de compara\u00e7\u00f5es. \u00c9 uma quest\u00e3o de dizer que ambos s\u00e3o inaceit\u00e1veis.<\/p>\n<p align=\"justify\">Enfim, o que mais me chateou profundamente a ponto de n\u00e3o ficar para a parte da tarde dos debates (continuava perplexo com tudo o que aconteceu) foi essa intoler\u00e2ncia em tratar opini\u00f5es contr\u00e1rias. Imaginava que num espa\u00e7o p\u00fablico como a Universidade, isso houvesse sido superado e ficasse restrito aos \u201cAnos de Chumbo\u201d de triste mem\u00f3ria para todos n\u00f3s.<\/p>\n<p align=\"justify\">O pior ainda estava por vir. Mais uma vez a Prof.\u00aa Silvia R. N. Lerner dirigiu-se a mim, me pegando pelo bra\u00e7o e disse \u201cFora do meu debate! Fa\u00e7a o seu sobre os palestinos!\u201d Esse comportamento me levou \u2013 j\u00e1 profundamente irritado \u2013 a dizer em tom alto que me retiraria imediatamente do evento pois n\u00e3o se tratava de um debate acad\u00eamico, mas de uma tentativa de malversar a Hist\u00f3ria, ainda mais pelo fato do referido evento ser organizado por um n\u00facleo de pesquisadores de uma Universidade p\u00fablica.<\/p>\n<p align=\"justify\">Por fim registro minha preocupa\u00e7\u00e3o com os eventos organizados ou apoiados pela Secretaria Municipal de Educa\u00e7\u00e3o. Ela deveria ser mais cuidadosa nas parcerias feitas cujo objetivo \u00e9 a reuni\u00e3o de um grande n\u00famero de professores. Verifiquei e sofri exemplos de intoler\u00e2ncia em um espa\u00e7o p\u00fablico, acad\u00eamico, logo, de debate. N\u00e3o \u00e9 essa vis\u00e3o de hist\u00f3ria intolerante, monol\u00edtica e reducionista que tento construir com meus alunos diariamente. Lament\u00e1vel!<\/p>\n<p align=\"justify\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\n \nCr\u00e9dito: Somos Todos Palestinos\n\n\n\n\n\n\n\n\n\nPor Roberto Mansilla\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/631\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[78],"tags":[],"class_list":["post-631","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c91-solidariedade-a-palestina"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-ab","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/631","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=631"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/631\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=631"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=631"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=631"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}