{"id":6316,"date":"2014-06-10T21:10:13","date_gmt":"2014-06-10T21:10:13","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6316"},"modified":"2014-06-10T21:10:13","modified_gmt":"2014-06-10T21:10:13","slug":"comecou-a-represssao-aberta-contra-a-esquerda-ucraniana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6316","title":{"rendered":"Come\u00e7ou a represss\u00e3o aberta contra a esquerda ucraniana"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>por Sergue\u00ef Kiritchouk [*]<\/strong><\/p>\n<p><img border=\"0\" alt=\".\" align=\"right\" \/> <strong>Pouco se fala, mas entre os ucranianos que se op\u00f5em a Kiev e ao movimento do Maidan h\u00e1, ao lado das popula\u00e7\u00f5es pr\u00f3 russas do Leste do pa\u00eds, muitos militantes de esquerda origin\u00e1rios de todas as regi\u00f5es. Os socialistas ucranianos denunciam os todo-poderosos oligarcas que Kiev recentemente nomeou governadores e testemunham as persegui\u00e7\u00f5es organizadas contra eles. Em Odessa, os activistas de esquerda estavam igualmente presentes nos movimentos de protesto anti-Maidan, cujos membros foram v\u00edtimas do inc\u00eandio assassino de 2 de Maio. A revista on line Svobodna\u00efa Pressa entrevistou Serguei Kiritchouk, l\u00edder do movimento socialista ucraniano <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Borotba\" target=\"_blank\">Borotba<\/a> , sobre a situa\u00e7\u00e3o na Ucr\u00e2nia de hoje.<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Svobodna\u00efa Pressa: Neste Inverno, as cadeias de TV do mundo inteiro mostraram os milhares de participantes nas manifesta\u00e7\u00f5es de Kiev. Era muito inspirador. Por que Borotba n\u00e3o aderiu ao movimento de protesto naquele momento? <\/strong><\/p>\n<p>Sergue\u00ef Kiritchouk: Desde o princ\u00edpio n\u00e3o tivemos qualquer ilus\u00e3o sobre o car\u00e1cter pol\u00edtico deste movimento. Ainda que milhares de pessoas tenham descido \u00e0 rua, Borotba nunca esqueceu que as manifesta\u00e7\u00f5es massa tamb\u00e9m podem reunir-se sob bandeiras reaccion\u00e1rias. J\u00e1 explic\u00e1mos amplamente naquela altura, nomeadamente aos camaradas europeus, que os neonazis constitu\u00edam uma parte importante deste movimento. Muitas pessoas diziam que n\u00e3o se tratava de um problema muito grave, porque os nazis n\u00e3o eram t\u00e3o numerosos, que constitu\u00edam apenas uma minoria. Mas era uma minoria activa e organizada. Uma minoria que imp\u00f4s sua ordem do dia ao conjunto do movimento.<\/p>\n<p>E aqueles militantes de esquerda que tentaram participar neste movimento sofreram imediatamente, desde o primeiro dia, ataques e agress\u00f5es no Maidan. Quando os membros da organiza\u00e7\u00e3o trotsquista Oposi\u00e7\u00e3o de esquerda desceram \u00e0 rua com exig\u00eancias sociais (n\u00e3o socialistas, sociais), eles foram imediatamente atacados. Foram insultados, acusados de serem pelo Gulag, pelo totalitarismo, etc.<\/p>\n<p>O Maidan, enquanto movimento, nunca formulou exig\u00eancias sociais. Ele jamais reclamou a redistribui\u00e7\u00e3o das riquezas nacionais em proveito da classe m\u00e9dia e das camadas mais pobres.<\/p>\n<p>Alguns dos nossos camaradas tentaram entretanto participar no Maidan. Os irm\u00e3os Levine, por exemplo, foram a uma rua vizinha da pra\u00e7a Maidan, a rua Krechtchatik, para distribuir panfletos sindicais e apelar ao desenvolvimento da classe trabalhadora. Sem ostentar a menor bandeira vermelha nem a sombra de uma tentativa de propaganda socialista. No fim, Anatoly Levine teve o quadril partido e Denis foi aspergido com g\u00e1s. O que para n\u00f3s fez com que a natureza deste movimento ficasse clara desde o princ\u00edpio.<\/p>\n<p><strong>Svobodna\u00efa Pressa: Diga-me, qual \u00e9 a tua l\u00edngua materna? Tu \u00e9s origin\u00e1rio de qual parte do pa\u00eds, oriental ou ocidental? <\/strong><\/p>\n<p>S.K.: Toda a gente sabe: venho do Oeste do pa\u00eds, meus pais s\u00e3o de Volhynie, minha l\u00edngua materna \u00e9 o ucraniano. E posso dizer com certeza que numerosos ucranianos, mesmo no Ocidente do pa\u00eds, simpatizam com o combate do Sudeste. No Oeste tamb\u00e9m h\u00e1 muitos descontentes com o regime de Kiev, mas ali reina uma tal atmosfera de terror que as pessoas simplesmente t\u00eam medo de exprimir sua opini\u00e3o, elas se calam. Ao mesmo tempo, olham com esperan\u00e7a o que se passa no Sudeste, este combate. E no Sudeste, os cidad\u00e3os de l\u00edngua ucraniana tamb\u00e9m t\u00eam participado no movimento de protesto. Seria perfeitamente errado reduzir o movimento a um factor \u00e9tnico, cultural ou nacional.<\/p>\n<p><strong>S.P.: E o que pensas do antigo presidente Ianoukovitch? \u00c9 vosso aliado? <\/strong><\/p>\n<p>S.K.: Toda a gente sabe que \u00e9ramos extremamente cr\u00edticos em rela\u00e7\u00e3o a Ianoukovitch e que sempre combatemos o seu regime. Mas evidentemente n\u00f3s o combat\u00edamos a partir de posi\u00e7\u00f5es totalmente diferentes daquelas que hoje formula o Maidan. \u00c9ramos por uma viragem socialista na Ucr\u00e2nia, contra o regime monstruoso da oligarquia que Ianoukovitch havia constru\u00eddo.<\/p>\n<p>H\u00e1 que recordar tamb\u00e9m que Ianoukovitch era um pol\u00edtico muito pr\u00f3 ocidental. Ele tentava agradar ao ocidente em tudo. Seu \u00fanico &#8220;erro&#8221;, do ponto de vista do ocidente, foi pedir um adiamento de seis meses para a assinatura da zona de livre interc\u00e2mbio com a UE. E foi imediatamente depois disso que come\u00e7ou o movimento de protesto conhecido com o nome de Maidan.<\/p>\n<p><strong>S.P.: O que se passa com o poder actual em Kiev? Por que n\u00e3o tenta estabelecer di\u00e1logo com eles? <\/strong><\/p>\n<p>S.K.: Acontece que o governo auto-proclamado n\u00e3o est\u00e1 absolutamente nada pronto para o di\u00e1logo. O \u00fanico argumento que eles utilizam \u00e9 a for\u00e7a das armas. E hoje pode-se ver que o movimento no Sudeste repetiu o caminho do Maidan do come\u00e7o ao fim. Ele come\u00e7ou, \u00e0 partida, por pequenas manifesta\u00e7\u00f5es, depois estas manifesta\u00e7\u00f5es cresceram, tornaram-se maci\u00e7as. Mas o poder permaneceu surdo \u00e0s exig\u00eancias do Sudeste. No entanto estas exig\u00eancias eram simples e compreens\u00edveis para qualquer uma. Tratava-se de uma grande autonomia para a regi\u00e3o, do reconhecimento dos seus direitos sociais, l\u00edngu\u00edsticos, culturais. Tratava-se da retirada da oligarquia do poder. Mas Kiev nomeou os homens mais ricos do pa\u00eds como governadores das regi\u00f5es do Sudeste. Ent\u00e3o as pessoas do Sudeste, exactamente do mesmo modo como no Maidan, come\u00e7aram a ocupar edif\u00edcios administrativos para exprimir o seu protesto. E quando se come\u00e7ou a lan\u00e7ar contra eles os batalh\u00f5es das for\u00e7as especiais, eles entraram pouco a pouco na clandestinidade \u2013 e foi precisamente assim que come\u00e7ou esta guerra de guerrilhas.<\/p>\n<p><strong>S.P.: Qual deve ser a reac\u00e7\u00e3o da Europa democr\u00e1tica, da sociedade civil, dos partidos democr\u00e1ticos face ao que se passa na Ucr\u00e2nia? <\/strong><\/p>\n<p>SK: Eu disse h\u00e1 dois dias no Bundestag que deviam fazer press\u00e3o sobre seus governos para levar Kiev \u00e0 raz\u00e3o. \u00c9 preciso por fim a este terror sanguin\u00e1rio, a esta &#8220;opera\u00e7\u00e3o anti-terrorista&#8221;. Porque eles est\u00e3o muito simplesmente em vias de atirar sobre pessoas sem armas. Nossos colegas ocidentais dos partidos de esquerda n\u00e3o podem fazer press\u00e3o sobre os media mas, pelo menos, est\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es de informar a sociedade sobre o que na realidade se passa hoje na Ucr\u00e2nia, de fornecer uma an\u00e1lise independente dos acontecimentos e de exigir o respeito dos direitos e liberdades humanas elementares na Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p><strong>S.P.: A maioria dos media ocidentais descrevem os protestos no Sudeste do pa\u00eds como um movimento inspirado e apoiado pela R\u00fassia. Em que medida isto corresponde \u00e0 realidade? <\/strong><\/p>\n<p>S.K.: Esta histeria raivosa evidentemente n\u00e3o corresponde \u00e0 realidade. As pessoas aqui, no Sudeste, levantam-se pelos seus direitos sociais e econ\u00f3micos. H\u00e1 uma componente anti-olig\u00e1rquica, anti-capitalista muito forte nestes protestos. Todas as actividades de oposi\u00e7\u00e3o, todos os protestos s\u00e3o descritos pelos media de Kiev como devendo-se a agentes de Putin. Se fossemos acreditar nisso, absolutamente todo o mundo \u00e9 um agente de Putin. Se tu criticas o poder de Kiev, tu \u00e9s um agente de Putin. Se tu participas em manifesta\u00e7\u00f5es de massa pelos direitos s\u00f3cio-econ\u00f3micos, tu \u00e9s um agente de Putin. Se um pol\u00edtico qualquer no parlamento europeu ou num dos parlamentos nacionais da Europa se permite observa\u00e7\u00f5es cr\u00edticas contra o novo poder de Kiev, ele \u00e9 imediatamente acusado de ser um agente de Putin. Al\u00e9m disso, mesmo se neo-nazis, em Kiev, fazem um assalto armado ou atacam civis, eles s\u00e3o tamb\u00e9m designados como sendo agentes de Putin, procurando criar imagens negativas para a televis\u00e3o russa. Assim, seja o que for que possa acontecer de negativo ou de aborrecido para o governo de Kiev, s\u00e3o sempre os &#8220;agentes de Putin&#8221; os culpados. Porque para Kiev, Putin controla absolutamente tudo e todos \u2013 e na Ucr\u00e2nia, na Europa, por toda a parte.<\/p>\n<p><strong>S.P.: H\u00e1 um financiamento proveniente de Moscovo? <\/strong><\/p>\n<p>S.K.: N\u00e3o. O movimento no Sudeste, em termos de equipamento, de apoio t\u00e9cnico e financeiro, \u00e9 incompar\u00e1vel a Maidan. Victoria Nuland disse que os EUA haviam consagrado 5 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da democracia na Ucr\u00e2nia. Mas no Leste da Ucr\u00e2nia, \u00e9 vis\u00edvel que o movimento de protesto n\u00e3o disp\u00f5e de apoio financeiro. Pelos menos nas cidades onde temos estado activos \u2013 em Kharkov e Odessa \u2013 n\u00e3o vi nenhum financiamento da parte da R\u00fassia ou da administra\u00e7\u00e3o de Putin.<\/p>\n<p><strong>S.P.: Muitas vezes vos qualificam de separatistas ou de &#8220;activistas pr\u00f3 russos&#8221;. O que pensa da ideia de uma reagrega\u00e7\u00e3o das regi\u00f5es do Sudeste do pa\u00eds \u00e0 R\u00fassia? <\/strong><\/p>\n<p>S.K.: O movimento Borotba sempre se pronunciou pela integridade territorial da Ucr\u00e2nia. Mas por uma integridade territorial implicando o respeito dos direitos do povo do Sudeste. Falamos de autonomia or\u00e7amental, social, cultural. Mas infelizmente o poder de Kiev faz tudo para dividir o pa\u00eds. Eles tomam permanentemente decis\u00f5es escandalosas e acusam todos os que n\u00e3o est\u00e3o de acordo com eles de serem separatistas. Para n\u00f3s, o verdadeiro separatista \u00e9 o governo de Kiev. Ele desencadeou uma luta contra o povo.<\/p>\n<p>Sempre sem reconhecer a ideia da federaliza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, os oligarcas, por exemplo, criam ex\u00e9rcitos privados. Deste modo, eles tomam a via feudal, quando cada suserano possu\u00eda seu pr\u00f3prio destacamento. Eles criam estas forma\u00e7\u00f5es armadas com fontes de financiamento obscuras e sem o menor controle cidad\u00e3o. Ou seja, ao posicionarem-se contra a <em>federaliza\u00e7\u00e3o <\/em>eles posicionam-se pela <em>feudaliza\u00e7\u00e3o <\/em>do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Se a R\u00fassia n\u00e3o estivesse sob um regime dirigido pelos oligarcas, se fossem efectuadas reformas na R\u00fassia, mesmo n\u00e3o socialistas, mas sociais, que fossem do interesse de camadas amplas de trabalhadores, ent\u00e3o muitas pessoas na Ucr\u00e2nia estariam interessadas numa alian\u00e7as estreita com a R\u00fassia. E mesmo assim, numerosos cidad\u00e3os ucranianos hoje olham com esperan\u00e7a para a R\u00fassia. Mas n\u00e3o se trata aqui de &#8220;tend\u00eancias pr\u00f3 russas&#8221; \u2013 simplesmente de proteger a sua vida, a estabilidade, a paz sobre o territ\u00f3rio das regi\u00f5es Sudeste.<\/p>\n<p><strong>S.P.: O que \u00e9 que pensam do presidente Vladimir Putin? Consideram-no como um aliado? O que pensa da oposi\u00e7\u00e3o russa? <\/strong><\/p>\n<p>S.K.: Sempre fomos opositores a Putin. Sabe que temos la\u00e7os estreitos com a organiza\u00e7\u00e3o russa Frente de esquerda, que se acha na oposi\u00e7\u00e3o radical ao presidente Putin. E sempre apoi\u00e1mos nossos camaradas quando sofriam repress\u00f5es. Fizemos piquete diante da embaixada da R\u00fassia e organiz\u00e1mos outras ac\u00e7\u00f5es de solidariedade. Apoi\u00e1mos os prisioneiros do caso Bolotnaia, ajud\u00e1mos activistas russos a se esconderem na Ucr\u00e2nia para fugir \u00e0s repress\u00f5es pol\u00edticas. Ningu\u00e9m nos pode acusar de sermos aliados de Putin.<\/p>\n<p><strong>S.P.: Pode nos dizer a que se parece, do interior, o movimento de protesto de massa no Sudeste? O que o aproxima do Maidan e o que o distingue? <\/strong><\/p>\n<p>S.K.: As ac\u00e7\u00f5es de massa j\u00e1 s\u00e3o do passado. O governo de Kiev criou uma tal atmosfera de medo e terror que muitos j\u00e1 n\u00e3o se decidem a vir \u00e0 rua. Mas quando o faziam, podia-se observar dois grandes componentes. O primeiro, s\u00e3o cidad\u00e3os que queriam uma colabora\u00e7\u00e3o e uma uni\u00e3o m\u00e1ximas com a R\u00fassia. O segundo, era um movimento de tend\u00eancia anti-capitalista, anti-olig\u00e1rquica. Pessoas revoltadas pelo facto de o governo de Kiev n\u00e3o ter a menor inten\u00e7\u00e3o de efectuar reformas no interesse do povo.<\/p>\n<p>Mas mesmo entre o que se chama o componente &#8220;pr\u00f3 russo&#8221;, havia pessoas muito diversas. Havia quem insistisse sobre nossa comunidade hist\u00f3rica e cultural com o povo da R\u00fassia. Mas havia outros que defendiam uma vis\u00e3o mais pragm\u00e1tica. S\u00e3o jovens trabalhadores, engenheiros, que querem trabalhar nas empresas de ponta, hoje orientadas para o mercado russo. Pessoas que n\u00e3o querem tornar-se &#8220;trabalhadores migrantes&#8221;, constrangidos a percorrer o mundo em busca de infelizes ganhos.<\/p>\n<p><strong>S.P.: No princ\u00edpio de Maio, o mundo inteiro foi abalado pela trag\u00e9dia em Odessa&#8230; <\/strong><\/p>\n<p>S.K.: Penso que o massacre de Odessa \u00e9 uma quest\u00e3o que deve estar no centro da pol\u00edtica europeia e mundial. A trag\u00e9dia de Odessa \u00e9 a quinta-ess\u00eancia do que se passa na Ucr\u00e2nia. Muitos pol\u00edticos europeus limitam-se a dizer: &#8220;\u00c9 uma quest\u00e3o muito complexa e muito embrulhada&#8221;. Mas isto n\u00e3o \u00e9 uma resposta. Do mesmo modo que n\u00e3o basta dizer que os dois lados s\u00e3o culpados, como asseguram certos media ucranianos.<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, \u00e9 preciso compreender que o conflito n\u00e3o se limitava ao afrontamento dos dois campos. Havia no local neo-nazis e apoiantes de futebol, e pessoas que protestavam contra o regime de Kiev. Mas havia ainda a pol\u00edcia, que \u00e9 controlada pelo governo. Ou seja, pelo menos tr\u00eas partes participavam no conflito.<\/p>\n<p>Em 2 de Maio, apoiantes de futebol e destacamentos das for\u00e7as de auto-defesa de Maidan come\u00e7aram a chegar a Odessa. Eles queriam organizar o que chamam a Marcha pela unidade da Ucr\u00e2nia, que em outras cidades terminou por tumultos sangrentos. Da\u00ed uma primeira quest\u00e3o muito s\u00e9ria ao governo de Kiev: porque, nas condi\u00e7\u00f5es de guerra civil, n\u00e3o proibiram os nacionalistas de desfilarem?<\/p>\n<p>Duas mil pessoas foram levadas a Odessa desde diferentes cidades da Ucr\u00e2nia. Algumas estavam armadas. Outra quest\u00e3o ao governo: por que deixaram passar uma tal concentra\u00e7\u00e3o de pessoas armadas na cidade?<\/p>\n<p>Em seguida, houve o ataque contra os activistas da <em>Marcha pela unidade da Ucr\u00e2nia. <\/em>Eles foram agredidos por desconhecidos, mascarados e ostentando fitas scotch vermelhas no bra\u00e7o. Estes homens agiram com a coniv\u00eancia da pol\u00edcia, que est\u00e1 sob o controle de Kiev. Consequentemente, nova pergunta: e que dirige a pol\u00edcia? Evidentemente n\u00e3o os activistas do movimento anti governamental.<\/p>\n<p>No acampamento da oposi\u00e7\u00e3o, no polo Koulikovo, havia principalmente pessoas idosas, mulheres, protestat\u00e1rios pac\u00edficos que n\u00e3o tinham armas. Eles refugiaram-se na Casa do Sindicatos. Os neo-nazis atearam fogo a este edif\u00edcio, muitos foram queimados vivos, muitos morreram ao saltarem pelas janelas e muitos foram mortos a golpes quando j\u00e1 estavam em terra.<\/p>\n<p>Na Casa dos Sindicatos perdemos um camarada, Andre\u00ef Brajevsky. Ele saltou do segundo andar do edif\u00edcio em chamas e ainda estava vivo, mas os fascistas bateram-no at\u00e9 \u00e0 morte com bast\u00f5es. Sua m\u00e3e encontrava-se no local naquele momento. Ela viu outro dos rapazes lan\u00e7ar-se pela janela, depois os fascistas bateram-no em terra. Ent\u00e3o ela lan\u00e7ou-se sobre ele e cobriu-o com o seu corpo \u2013 e salvou-o. Ela n\u00e3o sabia que naquele mesmo minuto seu filho tamb\u00e9m era espancado pelos fascistas e que n\u00e3o escaparia.<\/p>\n<p>N\u00e3o basta constatar que houve uma &#8220;trag\u00e9dia&#8221;. Do que se trata \u00e9 de um massacre planeado, muito bem pensado e organizado, em pleno centro de uma das maiores cidades da Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p><strong>S.P.: No dia 7 de Maio, em Moscovo, o presidente su\u00ed\u00e7o e Vladimir Putin anunciaram um novo plano de pacifica\u00e7\u00e3o na Ucr\u00e2nia. Ele tem futuro? <\/strong><\/p>\n<p>S.K.: Antes disso houve os acordos de Genebra, com conte\u00fado semelhante. Mas era evidente que o poder de Kiev n\u00e3o tinha inten\u00e7\u00e3o de respeit\u00e1-lo e, mesmo se tivesse tido a inten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tinham absolutamente for\u00e7a. Porque \u00e9 preciso saber uma coisa: quando se fala da necessidade de desarmar todos estes bandos neo-nazis deve-se compreender que o governo de Kiev n\u00e3o tem nenhum controle sobre a maior parte deles e n\u00e3o disp\u00f5e de tropas fieis que poderiam se encarregar disso. O governo de Kiev \u00e9, ele pr\u00f3prio, ref\u00e9m destes bandos e nada pode fazer.<\/p>\n<p><strong>S.P.: Que pensas da elei\u00e7\u00e3o presidencial de 25 maio? <\/strong><\/p>\n<p>S.K.: N\u00e3o reconhecemos esta elei\u00e7\u00e3o, uma vez que foi organizada por um governo autoproclamado, que pisoteia os direitos e os procedimentos. Este governo iniciou e introduziu altera\u00e7\u00f5es \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o, segundo as quais esta elei\u00e7\u00e3o poder\u00e1 ser considerada como tendo-se verificado mesmo que decorresse num \u00fanico gabinete de vota\u00e7\u00e3o! Pode-se considerar uma tal abordagem como democr\u00e1tica? Em numerosas ocasi\u00f5es apel\u00e1mos aos candidatos para que se retirassem da elei\u00e7\u00e3o. Infelizmente, o Partido Comunista da Ucr\u00e2nia considera que deve dela participar, o seu candidato apresenta-se. Mas n\u00f3s n\u00e3o queremos tomar parte nesta farsa.<\/p>\n<p><strong>S.P.: E que pensas dos referendos de Donetsk e de Lougansk? <\/strong><\/p>\n<p>S.K.: \u00c0 partida, \u00e9ramos bastante cr\u00edticos em rela\u00e7\u00e3o a estes referendos, consider\u00e1vamos que era preciso, antes de organiz\u00e1-los, esperar uma certa estabiliza\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o. Mas nas condi\u00e7\u00f5es actuais de viol\u00eancia e de terror, compreendemos aqueles que organizaram e participaram nestes referendos. A proclama\u00e7\u00e3o de uma rep\u00fablica no Donbasse n\u00e3o \u00e9 o resultado de qualquer ac\u00e7\u00e3o de Putin \u2013 mas a consequ\u00eancia directa das opera\u00e7\u00f5es do governo de Kiev que, pelas suas mentiras e seu cinismo, ultrapassam todos os piores esp\u00e9cimes de propaganda fascista.<\/p>\n<p><strong>S.P.: Que erros cometeu na luta pol\u00edtica? <\/strong><\/p>\n<p>S.K.: O movimento Borotba, que sempre esteve orientado para a mobiliza\u00e7\u00e3o maci\u00e7a da classe trabalhadora e da juventude, supunha que ainda t\u00ednhamos, no futuro, alguns anos de democracia relativa, que nos encontrar\u00edamos em condi\u00e7\u00f5es, de um modo ou de outro, em que os direitos de reuni\u00e3o pac\u00edfica, de liberdade de imprensa seriam respeitados. Infelizmente, este c\u00e1lculo verificou-se ser um erro. N\u00e3o est\u00e1vamos preparados para o terror directo. E nosso erro \u00e9 provavelmente de teremos ficado, nestas condi\u00e7\u00f5es, sem armas. Na pr\u00e1tica, nossa organiza\u00e7\u00e3o est\u00e1 hoje derrotada em todo o pa\u00eds. Nestes \u00faltimos dias, come\u00e7aram repress\u00f5es abertas contra as for\u00e7as de esquerda. No escrit\u00f3rio de Kharkiv foi atacado por desconhecidos em uniformes negros, que levaram tudo o que ali se encontrava: bandeiras vermelhas, projector, todo nosso equipamento de agita\u00e7\u00e3o. O trabalho da organiza\u00e7\u00e3o na cidade est\u00e1 bloqueado. Em Odessa, fomos informados da pris\u00e3o iminente do l\u00edder local do Borotba, Alekse\u00ef Albou, que se apresenta na municipalidade. Ele foi constrangido a deixar a cidade. Em Kiev, foi efectuada uma busca ao apartamento de Andre\u00ef Mantchouk, que \u00e9 o mais c\u00e9lebre jornalista de esquerda na Ucr\u00e2nia. Homens armados com fuzis autom\u00e1ticos irromperam na casa dele. Na generalidade, hoje encontramo-nos todos em situa\u00e7\u00e3o ilegal. Uma parte dos nossos camaradas deixou temporariamente a Ucr\u00e2nia. Aqueles que permaneceram vivem na ilegalidade e n\u00f3s lhes temos pedido para evitar toda actividade p\u00fablica e concentrarem-se no trabalho ilegal.<\/p>\n<p>Eu pr\u00f3prio estou actualmente em Atenas, onde participei numa confer\u00eancia sobre as &#8220;Amea\u00e7as do fascismo na Europa&#8221;. Eu n\u00e3o previa deixar a Ucr\u00e2nia por longo tempo. Mas a 9 de Maio aterrei em Berlim para tomar parte numa confer\u00eancia na Alemanha. E na Ucr\u00e2nia fui informado da minha poss\u00edvel pris\u00e3o e, portanto, decidi ficar aqui um momento.<\/p>\n<p>Os nazis j\u00e1 fizeram listas dos &#8220;inimigos da na\u00e7\u00e3o ucraniana&#8221; e preparam-se para fazer com que sofram repress\u00e3o todos os que nelas figuram. E estas listas mencionam quase todos os militantes do Borotba, mesmo que pouco activos e referenciados. Mas elas mencionam tamb\u00e9m pessoas que ali figuram por acaso. Ou seja, centenas e centenas de pessoas que est\u00e3o amea\u00e7adas, em perigo&#8230; Hoje, as autoridades tamb\u00e9m est\u00e3o em vias de estabelecer suas listas de suspeitos e portanto penso que no decorrer dos pr\u00f3ximos meses a Ucr\u00e2nia vai viver numa atmosfera de terror de direita. Mas devemos atravessar isso e enfrent\u00e1-la. N\u00e3o temos outra escolha.<\/p>\n<p>31\/Maio\/2014<\/p>\n<p><strong>[*] Dirigente do <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Borotba\" target=\"_blank\">Borotba<\/a> . <\/strong><\/p>\n<p><strong>O original encontra-se em <a href=\"http:\/\/svpressa.ru\/society\/article\/87307\/?rss=1\" target=\"_blank\">svpressa.ru\/society\/article\/87307\/?rss=1<\/a> e a vers\u00e3o em franc\u00eas em <a href=\"http:\/\/www.lecourrierderussie.com\/2014\/05\/ukraine-repressions-ouvertes-commence-contre-les-forces-gauche\/\" target=\"_blank\">www.lecourrierderussie.com\/&#8230;<\/a> <\/strong><\/p>\n<p><strong>Esta entrevista encontra-se em <a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\">http:\/\/resistir.info\/<\/a> .<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\u2013 Mas os media corporativos silenciam os crimes do regime de Kiev\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6316\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[125],"tags":[],"class_list":["post-6316","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c138-ucrania"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1DS","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6316","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6316"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6316\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6316"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6316"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6316"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}