{"id":6331,"date":"2014-06-18T21:58:50","date_gmt":"2014-06-18T21:58:50","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6331"},"modified":"2014-06-18T21:58:50","modified_gmt":"2014-06-18T21:58:50","slug":"o-escravo-da-casa-grande-e-o-desprezo-pela-esquerda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6331","title":{"rendered":"O escravo da Casa Grande e o desprezo pela esquerda"},"content":{"rendered":"\n<p>Malcon X comparou, certa vez, os negros que defendiam a integra\u00e7\u00e3o na sociedade norte americana com escravos da casa. Para defender suas pequenas posi\u00e7\u00f5es de acomoda\u00e7\u00e3o na ordem escravista, buscavam imitar seus senhores, copiar seus maneirismos, usar suas roupas, sua linguagem, adotando o nome da fam\u00edlia de seus senhores, da\u00ed o X no lugar do sobrenome do revolucion\u00e1rio norte americano.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de se estranhar que os escravos da Casa Grande se incomodassem com as revoltas vindas da Senzala, pois poderiam atrapalhar sua inst\u00e1vel acomoda\u00e7\u00e3o, sua sobreviv\u00eancia subserviente.<\/p>\n<p>Dois textos recentes me chamam a aten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o sei se produzidos pela mesma pena, mas certamente movidos pelo mesmo \u00f3dio e desprezo contra a esquerda em nosso pa\u00eds. Um deles \u00e9 de autoria do soci\u00f3logo Emir Sader neste blog (N\u00e3o \u00e9 a Copa, imbecil, s\u00e3o as elei\u00e7\u00f5es), que recentemente comparou os manifestantes \u00e0 cachorros vira-lata, outro \u00e9 o editorial do Brasil de Fato (03\/06\/2014<em>)<\/em> que n\u00e3o contente em se aliar ao campo de apoio \u00e0 Dilma abriu as baterias contra a esquerda, aquela mesma que em muitas situa\u00e7\u00f5es apoiou este jornal, n\u00e3o apenas nas campanhas para sua sustenta\u00e7\u00e3o, mas participando de seu conselho editorial e apoiando nos momentos mais dif\u00edceis.<\/p>\n<p>Tanto o soci\u00f3logo como o jornal tem o direito de apoiar quem quiser, emitir suas opini\u00f5es, mas o que nos chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 a necessidade de atacar a esquerda e a forma deste ataque. Como em todo o debate que busca fugir do m\u00e9rito da quest\u00e3o, talvez pela dificuldade em realizar o debate neste campo, se lan\u00e7a m\u00e3o de estigmas. \u00c9 preciso caracterizar o oponente como \u201cesquerdista\u201d, \u201cminorias\u201d, \u201cintelectuais vacilantes da academia\u201d, ou mais diretamente: \u201cimbecis\u201d.<\/p>\n<p>Por vezes devemos aceitar o debate n\u00e3o pela qualidade dos argumentos ou a seriedade dos advers\u00e1rios, mas em respeito \u00e0queles que poderiam se beneficiar do bom debate. Para isso temos que supor que o debate \u00e9 s\u00e9rio e que h\u00e1 uma quest\u00e3o de fundo, ainda que para isso tenhamos que separar uma grossa camada de ret\u00f3rica que visa desqualificar o debate para n\u00e3o enfrent\u00e1-lo.<\/p>\n<p>O argumento central da posi\u00e7\u00e3o expressa nos textos citados, mas expl\u00edcita e de forma mais clara no editorial do Brasil de Fato, poderia ser assim resumida: os governistas teriam uma \u201cvis\u00e3o ampla da luta de classes\u201d, que articularia tr\u00eas dimens\u00f5es \u2013 a luta social, a ideol\u00f3gica e a institucional \u2013 atuando com \u201cfirmeza ideol\u00f3gica e flexibilidade t\u00e1tica\u201d; enquanto os supostos esquerdistas \u201cignoram a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as\u201d no Brasil e na America Latina e concentram muito mais nas criticas do que nas realiza\u00e7\u00f5es dos governos \u201cpopulares\u201d, isso porque subordinam suas posi\u00e7\u00f5es, como \u201cvacilantes intelectuais da academia\u201d ou partidos \u201csem o m\u00ednimo peso eleitoral\u201d, n\u00e3o a uma an\u00e1lise concreta de uma situa\u00e7\u00e3o concreta, mas a uma \u201cfidelidade\u201d ao marxismo ortodoxo.<\/p>\n<p>O resultado desta premissa, segundo a posi\u00e7\u00e3o expressa, \u00e9 o seguinte:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\">Por isso, para serem condizentes com uma an\u00e1lise concreta de uma situa\u00e7\u00e3o concreta, os partidos de esquerda sem o m\u00ednimo de peso eleitoral, que n\u00e3o conseguem enraizar sua mensagem program\u00e1tica e nem contribuir para o avan\u00e7o da consci\u00eancia de classe das massas populares durante as elei\u00e7\u00f5es deveriam estar fortalecendo a candidatura de Dilma, <strong>mesmo sabendo que o neodesenvolvimentismo em curso n\u00e3o \u00e9 uma alternativa popular.<\/strong><\/p>\n<p>Mesmo na posi\u00e7\u00e3o de um \u201cvacilante intelectual do mundo acad\u00eamico, fiel ao marxismo e de um partido sem peso eleitoral\u201d, gostaria de iniciar o debate afirmando que nossos colegas deveriam seguir, antes de mais nada seus conselhos. Se n\u00e3o vejamos. O erro do \u201cesquerdismo\u201d, que o impediria de realizar uma an\u00e1lise concreta de uma situa\u00e7\u00e3o concreta, \u00e9 que \u201cn\u00e3o conseguem identificar fra\u00e7\u00f5es de classes e seus diversos interesses em torno do governo Dilma\u201d.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o vamos l\u00e1. Quais s\u00e3o as classes e fra\u00e7\u00f5es de classe que se somam aos governos do PT? O PT produziu-se como experi\u00eancia hist\u00f3rica da classe trabalhadora que acabou por projetar-se numa organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que, sem perder a referencia passiva desta classe, assumiu posturas pol\u00edticas que se distanciam dos objetivos hist\u00f3ricos dos trabalhadores. N\u00e3o se trata de uma quest\u00e3o de origem de classe, mas do car\u00e1ter de classe da proposta pol\u00edtica apresentada em nome dos trabalhadores.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso explicar aos leitores que n\u00f3s (intelectuais vacilantes fieis ao marxismo) n\u00e3o concebemos a classe social como mera posi\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o e formas de propriedade, mas como uma s\u00edntese de determina\u00e7\u00f5es que partindo da posi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, devem se somar a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, a consci\u00eancia de classe e outros aspectos. Dessa forma um setor da classe trabalhadora, ainda que partindo originalmente deste pertencimento, pode em sua a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e na sua intencionalidade, afirmar outro projeto societ\u00e1rio que n\u00e3o aquele que nossa experi\u00eancia hist\u00f3rica constitui como meta \u2013 o socialismo \u2013, sendo capturado pela hegemonia burguesa, naquilo que Gramsci chamou de \u201ctransformismo\u201d.<\/p>\n<p>No caso do PT acaba por se consolidar um projeto que tem por principal caracter\u00edstica quebrar as reivindica\u00e7\u00f5es sociais do proletariado e dar a elas uma fei\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica; despir as formas puramente pol\u00edticas das reivindica\u00e7\u00f5es da pequena burguesia e apresent\u00e1-las como socialistas, e tudo isso para exigir institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas republicanas como \u201cmeio n\u00e3o de acabar com os dois extremos, o capital e o trabalho assalariado, mas de enfraquecer seu antagonismo e transform\u00e1-lo em harmonia\u201d (Marx, 18 Brum\u00e1rio, p. 226-227).<\/p>\n<p>Assim o PT em seu projeto (e pr\u00e1tica) de governo apresenta em nome da classe trabalhadora um projeto pequeno burgu\u00eas. Mas o PT n\u00e3o governa sozinho, tem raz\u00e3o nossos colegas, \u00e9 necess\u00e1rio seguir nossa an\u00e1lise para responder quais classes e setores de classe comp\u00f5e o governo Dilma. Como o centro do projeto pol\u00edtico foi deslocado para chegar ao governo federal e l\u00e1 se manter, s\u00e3o necess\u00e1rias alian\u00e7as e at\u00e9 mesmo o programa de reformas democr\u00e1tico- populares \u00e9 por demais amplo (seria o que Andr\u00e9 Singer chama de \u201creformismo forte\u201d), ent\u00e3o, rebaixa-se o programa (um \u201creformismo fraco\u201d) e amplia-se as alian\u00e7as. Para qual dire\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos confundir a sopa de letrinhas do leque de alternativas partid\u00e1rias com segmentos de classe, mas eles s\u00e3o um indicador das personifica\u00e7\u00f5es desses interesses. As alian\u00e7as inicialmente pensadas como um leque entorno da classe trabalhadora, setores m\u00e9dios e pequenos empres\u00e1rios, se amplia bastante agora no quadro de um Pacto Social. Vejamos:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\">Um novo contrato social, em defesa das mudan\u00e7as estruturais para o pa\u00eds, exige o apoio de amplas for\u00e7as sociais que d\u00eaem suporte ao Estado-na\u00e7\u00e3o. As mudan\u00e7as estruturais est\u00e3o todas dirigidas a promover uma ampla inclus\u00e3o social \u2013 portanto distribuir renda, riqueza, poder e cultura. Os grandes rentistas e especuladores ser\u00e3o atingidos diretamente pelas pol\u00edticas distributivistas e, nestas condi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o se beneficiar\u00e3o do novo contrato social. <em>J\u00e1 os <\/em><em><strong>empres\u00e1rios produtivos de qualquer porte<\/strong><\/em> estar\u00e3o contemplados com a amplia\u00e7\u00e3o do mercado de consumo de massas e com a desarticula\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica financeira e especulativa que caracteriza o atual modelo econ\u00f4mico. Crescer a partir do mercado interno significa dar previsibilidade para o capital produtivo.<a name=\"sdfootnote1anc\" href=\"#sdfootnote1sym\"><sup>1<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Este pacto social com \u201cempres\u00e1rios produtivos de qualquer porte\u201d n\u00e3o deixaria de fora nem mesmo os \u201crentistas\u201d, como se comprovou. A chamada governabilidade exigiria que as personifica\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias destes interesses estivessem na sustenta\u00e7\u00e3o do governo, de forma que o governo de \u201ccentro\u201d (pequeno burgu\u00eas) buscou e conseguiu se aliar com siglas da direita (PMDB, PTB, PP, PSC e outras). Na composi\u00e7\u00e3o f\u00edsica do governo vemos setores de classes diretamente representados, como o caso dos interesses dos grandes monop\u00f3lios no Minist\u00e9rios da Ind\u00fastria, dos bancos no Banco Central, do agroneg\u00f3gio no Minist\u00e9rio da Agricultura, assim como o controle das ag\u00eancias reguladores e outros espa\u00e7os formais e informais de defini\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica governamental.<\/p>\n<p>Evidente que haver\u00e1 participa\u00e7\u00e3o dos \u201ctrabalhadores\u201d, mas h\u00e1 aqui uma diferen\u00e7a essencial. Enquanto os setores do grande capital monopolistas levam suas demandas \u00e0 pol\u00edtica de governo e as efetivam, as demandas dos trabalhadores s\u00e3o, por assim dizer, filtradas. Enquanto a CUT defendia suas resolu\u00e7\u00f5es em defesa da previd\u00eancia p\u00fablica, um ex-presidente da entidade assume o minist\u00e9rio para implementar a reforma da previd\u00eancia, assim como a luta pela reforma agr\u00e1ria \u00e9 tolerada, mas filtrada e peneirada em espa\u00e7os intermedi\u00e1rios para que os militantes comprometidos n\u00e3o cheguem aos espa\u00e7os de decis\u00e3o sobre a quest\u00e3o fundi\u00e1ria e agr\u00e1ria, estes reservados aos representantes do agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Podemos ver militantes e personifica\u00e7\u00f5es de segmentos importantes da classe trabalhadora em \u00e1reas como a sa\u00fade, a assist\u00eancia social e outras, no entanto, o espa\u00e7o efetivo de implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas ficaria constrangida pelas \u00e1reas de planejamento e a l\u00f3gica da reforma do Estado para produzir a subservi\u00eancia \u00e0 lei de responsabilidade fiscal e a pol\u00edtica de super\u00e1vits prim\u00e1rias que tanto agrada aos banqueiros.<\/p>\n<p>Recentemente a presidente Dilma, atrav\u00e9s da deputada K\u00e1tia Abreu (aquela mesmo!!!) da bancada ruralista, garimpava apoio para Dilma entre os diferentes setores do agroneg\u00f3cio (gado, soja, milho, etc.), enquanto Paulo Maluf posava sorridente ao lado do candidato do PT ao governo de S\u00e3o Paulo em troca de alguns minutos no tempo de TV.<\/p>\n<p>O governo de pacto social com os setores da grande burguesia monopolista e a pequena burguesia que seq\u00fcestrou a representa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora, implica nos limites da a\u00e7\u00e3o de governo, isto \u00e9, impedem o \u201creformismo forte\u201d e imp\u00f5e um \u201creformismo fraco\u201d. Para atender as exig\u00eancias da acumula\u00e7\u00e3o de capitais dos diversos segmentos da burguesia monopolista as demandas dos trabalhadores tem que ser contingenciadas, focalizadas, gotejadas, compensat\u00f3rias.<\/p>\n<p>Queria-se acabar com a fome e a mis\u00e9ria, mas devemos nos contentar em combater as manifesta\u00e7\u00f5es mais agudas da mis\u00e9ria absoluta. Quer\u00edamos uma reforma agr\u00e1ria (e mais que isso, n\u00e3o \u00e9, uma nova pol\u00edtica agr\u00edcola e de abastecimento, etc.), mas devemos nos contentar com cr\u00e9dito para assentamentos competirem com o agroneg\u00f3cio e assist\u00eancia para os que n\u00e3o conseguem. N\u00e3o se revertem as privatiza\u00e7\u00f5es realizadas e cresce a l\u00f3gica privatista com as funda\u00e7\u00f5es p\u00fablico privadas, as OSs e outras formas diretas ou indiretas de privatiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que, mesmo assim, dando tanto \u00e0 burguesia monopolista e t\u00e3o pouco aos trabalhadores, a burguesia sempre vai jogar com v\u00e1rias alternativas, e, na \u00e9poca das elei\u00e7\u00f5es, vai amea\u00e7ar, chantagear e negociar melhores condi\u00e7\u00f5es para dar sua sustenta\u00e7\u00e3o. O leque de alian\u00e7as da governabilidade petista n\u00e3o implica fidelidade dos setores do capital monopolista, adeptos do amor livre, entendem o apoio ao governo do PT como uma rela\u00e7\u00e3o aberta. Por isso aparecem na \u00e9poca das elei\u00e7\u00f5es na forma de suas personifica\u00e7\u00f5es como partidos de \u201coposi\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Tal din\u00e2mica produz um movimento interessante. Amor e uni\u00e3o com a burguesia monopolista durante o governo e pau na classe trabalhadora (combinada com apassivamento via pol\u00edticas focalizadas e inser\u00e7\u00e3o como consumidores); e briga com a burguesia e promessas de amor com os trabalhadores na \u00e9poca de elei\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>A abertura da Copa e a hostiliza\u00e7\u00e3o vinda da \u00e1rea VIP contra a presidente funciona aqui como uma met\u00e1fora perfeita: eles fazem a festa para os ricos, enchem o est\u00e1dio com a elite branca e rica, esperando gratid\u00e3o, mas a elite xinga a presidente.<\/p>\n<p>A artimanha governista \u00e9 circunscrever a propalada an\u00e1lise concreta de uma situa\u00e7\u00e3o concreta \u00e0 conjuntura da elei\u00e7\u00e3o e n\u00e3o do per\u00edodo hist\u00f3rico em que esta conjuntura se insere. Gra\u00e7as a esta m\u00e1gica, desaparece o governo real entre no lugar um mito que resiste ao neoliberalismo contra as for\u00e7as do mal igualmente mitificadas e descarnadas de sua corporalidade real. \u00c9 o odioso \u201cneoliberalismo\u201d, que vai retroceder nos incr\u00edveis ganhos sociais alcan\u00e7ados e desestabilizar os governos progressistas na America Latina. Vejam, nos dizem, como s\u00e3o piores que nosso governo, precisamos derrot\u00e1-los para evitar o retrocesso e as privatiza\u00e7\u00f5es. Mas uma vez derrotados eleitoralmente os advers\u00e1rios de direita&#8230; quem privatizou o Campo de Libra? Colocando ex\u00e9rcito para bater em manifestantes? Quem aprovou a lei das funda\u00e7\u00f5es p\u00fablico-privadas que abriu caminho para a privatiza\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e outras? Quem aprovou a lei dos transg\u00eanicos, o c\u00f3digo florestal e de minera\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o iguais, \u00e9 verdade. S\u00e3o duas vers\u00f5es distintas disputando a dire\u00e7\u00e3o do projeto burgu\u00eas no Brasil. Um o capitalismo com mais mercado e menos Estado, outro o capitalismo com mais Estado para garantir a economia de mercado.<\/p>\n<p>Precisamos circunscrever a an\u00e1lise da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as ao momento eleitoral para evitar a derrota do governo Dilma, vejam, \u201cmesmo sabendo que o neodesenvolvimentismo em curso n\u00e3o \u00e9 uma alternativa popular\u201d!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, comecemos por a\u00ed: o atual governo N\u00c3O \u00c9 UM ALTERNATIVA POPULAR! J\u00e1 \u00e9 um bom come\u00e7o. Mas tenho uma p\u00e9ssima not\u00edcia&#8230; tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 neodesenvolvimentista, seja l\u00e1 o que isso queira dizer. \u00c9 um governo de pacto social que, partindo de um programa e uma concep\u00e7\u00e3o pequeno burguesa, cr\u00ea ser poss\u00edvel manter as condi\u00e7\u00f5es para a acumula\u00e7\u00e3o de capitais o que leva a uma brutal concentra\u00e7\u00e3o de renda e riqueza nas m\u00e3os de um pequeno grupo, ao mesmo tempo em que, pouco a pouco e muito lentamente, apresenta a limitada inten\u00e7\u00e3o de diminuir a pobreza absoluta e incluir os trabalhadores na sociedade via capacidade de consumo (bolsas, sal\u00e1rios e cr\u00e9dito, etc.).<\/p>\n<p>Ora, o que deve fazer a esquerda \u201csem o m\u00ednimo de peso eleitoral, que n\u00e3o conseguem enraizar sua mensagem program\u00e1tica e nem contribuir para o avan\u00e7o da consci\u00eancia de classe das massas populares\u201d? Dizem os governistas: votar na Dilma. No entanto, desculpe a insist\u00eancia de quem faz an\u00e1lise concreta de situa\u00e7\u00e3o concreta n\u00e3o s\u00f3 quando chegam as elei\u00e7\u00f5es e \u00e1gua bate na bunda; mas, e se for exatamente este processo de pacto social e de implementa\u00e7\u00e3o de um socialiberalismo que est\u00e1 impedindo o \u201cavan\u00e7o da consci\u00eancia de classe\u201d? Depois de 12 anos de governos desta natureza a consci\u00eancia de classe est\u00e1 mais avan\u00e7ada que estava nos anos 80 e 90? Nos parece que n\u00e3o.<\/p>\n<p>Se somos t\u00e3o insignificantes, irrelevantes e idiotas&#8230; porque \u00e9 necess\u00e1rio bater desta forma na esquerda? Pelo simples fato que nossa exist\u00eancia, de uma ESQUERDA, n\u00e3o a pecha de esquerdismo que tenta se impor contra n\u00f3s como estigma, \u00e9 a denuncia expl\u00edcita dos limites e contradi\u00e7\u00f5es que o governismo e seus lacaios querem jogar para debaixo do tapete.<\/p>\n<p>Para manter a \u201cimagem\u201d do governo petista (Sader est\u00e1 preocupado com a imagem) \u00e9 preciso uma opera\u00e7\u00e3o perversa: atacar quem denuncia os limites desta experi\u00eancia, n\u00e3o importando o quanto desqualificado e hip\u00f3crita seja o ataque, estigmatizando, despolitizando o debate. Primeiro foi necess\u00e1rio destruir a esquerda dentro do PT e sabemos os m\u00e9todos que foram usados nesta guerra suja. Na verdade o que vemos agora contra a esquerda fora do PT \u00e9 uma proje\u00e7\u00e3o do ataque vil e brutal que companheiros da esquerda petista sofreram e (aqueles que ainda resistem l\u00e1 no PT) ainda sofrem (esquerdistas, isolados das massas, sem express\u00e3o eleitoral, irrespons\u00e1veis, etc.). E depois que conseguirem isolar, estigmatizar e satanizar a critica de esquerda a esta experi\u00eancia centrista e rebaixada de governo? Quando forem atacados pela direita que n\u00e3o guarda nada a n\u00e3o ser desprezo para com os escravos da casa grande?<\/p>\n<p>As manifesta\u00e7\u00f5es seriam, segundo os governistas, uma ofensiva da direita para sujar a imagem bela e idealizada do governo e o esquerdismo joga \u00e1gua neste moinho. Interessante que a necessidade de uma an\u00e1lise concreta de uma situa\u00e7\u00e3o concreta, da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as e das classes n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria quando se trata das manifesta\u00e7\u00f5es. MTST, garis, metrovi\u00e1rios, professores, s\u00e3o todos imbecis marionetes da direita, manipulados por ela e quando pensam lutar por seus direitos e demandas est\u00e3o fazendo o jogo da direita. Somos n\u00f3s que fazemos o jogo da direita&#8230; tem certeza?<\/p>\n<p>De nossa parte, n\u00e3o nos incomodamos, porque n\u00e3o esperamos nada mais que isso como conseq\u00fc\u00eancia do progressivo, e triste, processo de descaracteriza\u00e7\u00e3o e rebaixamento pol\u00edtico. N\u00e3o ser\u00e1 a primeira vez que a pol\u00edtica pequeno burguesa, que se diz representante de todo o povo, se alia ao trabalho sujo da direita para combater a esquerda.<\/p>\n<p>Respondemos \u00e0queles que acreditam que estamos isolados com as palavras de L\u00eanin, com quem aprendemos a fazer an\u00e1lise concreta de uma situa\u00e7\u00e3o concreta:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\">Pequeno grupo compacto, seguimos por uma estrada escarpada e dif\u00edcil, segurando-nos fortemente pela m\u00e3o. De todos os lados, estamos cercados de inimigos, e \u00e9 preciso marchar quase constantemente debaixo de fogo. Estamos unidos por uma decis\u00e3o livremente tomada, precisamente a fim de combater o inimigo e n\u00e3o cair no p\u00e2ntano ao lado, cujos habitantes desde o in\u00edcio nos culpam de termos formado um grupo \u00e0 parte, e <strong>preferido o caminho da luta ao caminho da concilia\u00e7\u00e3o<\/strong>. Alguns dos nossos gritam: Vamos para o p\u00e2ntano! E quando lhes mostramos a vergonha de tal ato, replicam: Como voc\u00eas s\u00e3o atrasados! N\u00e3o se envergonham de nos negar a liberdade de convid\u00e1-los a seguir um caminho melhor? Sim, senhores, s\u00e3o livres n\u00e3o somente para convidar, mas de ir para onde bem lhes aprouver, at\u00e9 para o p\u00e2ntano; <strong>achamos, inclusive, que seu lugar verdadeiro \u00e9 precisamente no p\u00e2ntano<\/strong>, e, na medida de nossas for\u00e7as, estamos prontos a ajud\u00e1-los a transportar para l\u00e1 os seus lares. Por\u00e9m, nesse caso, larguem-nos a m\u00e3o, n\u00e3o nos agarrem e n\u00e3o manchem a grande palavra liberdade, porque tamb\u00e9m n\u00f3s somos &#8220;livres&#8221; para ir aonde nos aprouver, livres para combater n\u00e3o s\u00f3 o p\u00e2ntano, como tamb\u00e9m aqueles que para l\u00e1 se dirigem! (Lenin, Que fazer?, S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 62).<\/p>\n<p><strong>Publicado no Blog da Boitempo em 16\/06\/2014<\/strong><\/p>\n<p><strong>http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p>1. Resolu\u00e7\u00f5es do 12<sup>o<\/sup> Encontro Nacional (2001). Diret\u00f3rio Nacional \tdo Partido dos Trabalhadores, S\u00e3o Paulo, 2001, p. 38.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2014\/06\/16\/o-escravo-da-casa-grande-e-o-desprezo-pela-esquerda\/\">O escravo da Casa Grande e o desprezo pela&nbsp;esquerda<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nMauro Luis Iasi\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6331\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[54],"tags":[],"class_list":["post-6331","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c65-lulismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1E7","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6331","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6331"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6331\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6331"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6331"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6331"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}