{"id":6349,"date":"2014-06-24T20:20:24","date_gmt":"2014-06-24T20:20:24","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6349"},"modified":"2014-07-01T13:20:47","modified_gmt":"2014-07-01T13:20:47","slug":"a-contra-cronica-da-copa-preludio-e-inauguracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6349","title":{"rendered":"A contra cr\u00f4nica da Copa: prel\u00fadio e inaugura\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>Rebeli\u00f3n<\/p>\n<p>Atmosfera estranha a que se respira no territ\u00f3rio carioca. A cidade do Rio de Janeiro, muitas vezes considerada a cidade-bandeira do Brasil, hoje monopoliza a aten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico internacional, por conta da Copa Mundial de futebol. Este fato por si s\u00f3 modifica substancialmente a temperatura social. Com mais de 11 milh\u00f5es de habitantes (inclu\u00edda a zona metropolitana), esta urbe de grandes contrastes ocupa o primeiro lugar em destino tur\u00edstico no pa\u00eds e \u00e9, por si s\u00f3, de acordo com as desonestas avalia\u00e7\u00f5es dos indicadores macroecon\u00f4micos, uma das economias em mais r\u00e1pido Ascenso. A microeconomia, essa que diz respeito aos que entendem pouco ou nada da ci\u00eancia econ\u00f4mica, \u00e9 igualmente ingrata como em qualquer outro pa\u00eds latino-americano. Ser pobre \u00e9 um calv\u00e1rio. O milagre brasileiro compartilha uma caracter\u00edstica com outros desses prod\u00edgios econ\u00f4micos que, de tanto em tanto tempo, irrompe em benef\u00edcio dos economistas Nobel e companheiros: finge dem\u00eancia para com os prejudicados pela bem-aventurada bonan\u00e7a.<\/p>\n<p>Aqui no Rio de Janeiro, a Copa \u00e9 um acontecimento que desperta pouco entusiasmo. A aten\u00e7\u00e3o est\u00e1 voltada para o que, muitas vezes, se conhece como a \u201canti-Copa\u201d. Quando o carioca aborda um \u201cgringo\u201d (para o fluminense todos os estrangeiros s\u00e3o merecedores deste adjetivo ofensivo), sem mais fingimentos introdut\u00f3rios, pergunta: \u201cVoc\u00ea veio ao Brasil para a Copa ou para a anti-Copa?\u201d. O curioso \u00e9 que as pessoas no Rio suspeitam que o interesse de n\u00e3o poucos estrangeiros gravita ao redor das mobiliza\u00e7\u00f5es e n\u00e3o das \u201cfan fest\u201d ou festivais para despreocupados aficionados em futebol. Naturalmente, a resposta dos questionados varia significativamente. Alguns, condenados a uma esp\u00e9cie de estado esquizofr\u00eanico, divididos entre uma simpatia irredut\u00edvel com as causas anti-Copa e uma paix\u00e3o, n\u00e3o menos incorrig\u00edvel, pelo esporte que mais devotos congrega, se veem obrigados a responder sem rodeios ainda que n\u00e3o sem uma cota de vergonha: \u201cviemos para a Copa e para a n\u00e3o Copa\u201d. O certo \u00e9 que uma porcentagem majorit\u00e1ria de brasileiros est\u00e1 inconformada com a celebra\u00e7\u00e3o do mundial em seu solo. E note que se trata do pa\u00eds do futebol. No Brasil, a Copa do Mundo \u00e9 uma esp\u00e9cie de intruso malquerido, um agregado que h\u00e1 algum tempo come\u00e7ou a incomodar. A Copa envolveu uma sorte de ocupa\u00e7\u00e3o territorial e, consequentemente, um momento de confisco de um patrim\u00f4nio nacional: o futebol. O movimento anti-Copa, vitoriosamente, evidenciou que esta expropria\u00e7\u00e3o conduz para o aumento de um invent\u00e1rio de viola\u00e7\u00f5es ainda mais graves ou socialmente nocivas: remo\u00e7\u00f5es de assentamentos, despojo de habita\u00e7\u00f5es, policiamento das ruas, reorienta\u00e7\u00f5es or\u00e7amentais claramente lesivas para as faixas populacionais mais desprotegidas, usufruto privado dos er\u00e1rios p\u00fablicos, etc. N\u00e3o surpreende que o clima que cerca o mundial seja de desconfian\u00e7a e indigna\u00e7\u00e3o. A pergunta que mais inquieta n\u00e3o est\u00e1 relacionada a quem ser\u00e1 campe\u00e3o da disputa, mas qual ser\u00e1 o alcance dos protestos. In\u00e9dito e ins\u00f3lito: n\u00e3o se recorda uma Copa t\u00e3o assinaladamente marcada por um assunto distante dos campos e num pa\u00eds onde o futebol \u00e9 mais que uma religi\u00e3o.<\/p>\n<p>O que come\u00e7a mal, acaba mal. T\u00e3o somente dois anos depois da nomea\u00e7\u00e3o do Brasil como anfitri\u00e3o da Copa do Mundo, o pr\u00f3prio presidente Lula se encarregou de assinalar os atrasos nas obras de urbaniza\u00e7\u00e3o e infraestrutura previstas para o mundial. O que n\u00e3o acrescentou \u2013 por raz\u00f5es pol\u00edticas facciosas \u2013 \u00e9 que essas demoras eram resultado das recompensas dos operadores pol\u00edticos da FIFA, saldadas com base no mau uso dos fluxos p\u00fablicos. Com o mundial j\u00e1 em marcha, as obras permanecem inconclusas. E \u00e9 praticamente um fato que continuar\u00e3o inacabadas. Um carioca resume o sentimento dos brasileiros em torno desta piada: \u201co pior que pode acontecer \u00e9 que n\u00e3o acabaram as obras antes do inicio do mundial; porque se n\u00e3o estiveram prontas para a Copa, n\u00e3o estar\u00e3o prontas nunca\u201d. Sem a investiga\u00e7\u00e3o internacional, as obras est\u00e3o condenadas \u00e0 suspens\u00e3o indefinida ou definitiva.<\/p>\n<p>A semana que precedeu o come\u00e7o da Copa foi uma mistura oscilante de nervosismo das autoridades p\u00fablicas, desinteresse da popula\u00e7\u00e3o, descontentamento social e pouco ou nenhum fluxo de turistas. As pessoas no Brasil sem escr\u00fapulos admitem que a expectativa \u00e9 mais alta quando o mundial de futebol se celebra em outro pa\u00eds. No Rio, as bandeirinhas apenas tribulam nas favelas e em um ou outro estabelecimento comercial. O grafite anti-Copa tem predom\u00ednio na decora\u00e7\u00e3o popular da cidade. E muitos dos panfletos que circulam nas ruas anunciam convocat\u00f3rias para os protestos, congressos e manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas contr\u00e1rias \u00e0 Copa do Mundo. Os microeventos pol\u00edticos ofuscam o megaevento esportivo.<\/p>\n<p>O mal estar social n\u00e3o \u00e9 simplesmente uma reivindica\u00e7\u00e3o contra o desperd\u00edcio monet\u00e1rio gerado pela organiza\u00e7\u00e3o do mundial de futebol. \u00c9 mais complexo, profundo e indeterminado o fundo da agita\u00e7\u00e3o. Envolve a omiss\u00e3o de demandas sociais largamente ignoradas; o abuso met\u00f3dico em grande escala; a viol\u00eancia efetuada contra os grupos favelados ou mais vulner\u00e1veis; a obscena manipula\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o; o aumento astron\u00f4mico do custo de vida, etc. O Brasil \u00e9 um comp\u00eandio de contrastes indesculp\u00e1veis: os setores m\u00e9dio-altos vivem mais ou menos comodamente (ainda que envoltos em extraordin\u00e1ria inseguran\u00e7a); os pobres n\u00e3o vivem apenas de forma penosa, mas tamb\u00e9m apertados. E, ainda que as manifesta\u00e7\u00f5es n\u00e3o sejam conduzidas pelos sujeitos favelados (curiosamente \u00e9 mais destacada a presen\u00e7a ind\u00edgena), o fato \u00e9 que a reivindica\u00e7\u00e3o geral tem um alto conte\u00fado popular. O protesto \u00e9 um gesto de cansa\u00e7o socialmente transversal. E um sinal de uma consci\u00eancia pol\u00edtica que avan\u00e7a em sintonia com a crescente complexidade dos povos latino-americanos, inscritos no marco de uma globalidade desfavor\u00e1vel para a regi\u00e3o. Num pa\u00eds que j\u00e1 conhece o que \u00e9 mudar a pol\u00edtica atrav\u00e9s da mobiliza\u00e7\u00e3o (v\u00ea-se a origem do PT), \u00e9 natural que as pessoas com mais consci\u00eancia pol\u00edtica lutem pela prote\u00e7\u00e3o de seus direitos b\u00e1sicos. A mobiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 fruto de uma raz\u00e3o cr\u00edtica apreciavelmente estendida no Brasil. \u00c9 uma supera\u00e7\u00e3o pela esquerda dessa esquerda partid\u00e1ria, que em algum momento tra\u00e7ou e inaugurou nas ruas a tomada do poder pelo povo, e que agora al\u00e7ada ao poder, pretende frear este processo, em conluio com as transnacionais intrusas. No contexto da inoportuna Copa do Mundo, as palavras de ordem pol\u00edticas no Brasil est\u00e3o em sintonia com esta vergonhosa realidade: \u201cOcupa Copa\u201d ou \u201cFIFA go home\u201d.<\/p>\n<p>A nota em destaque na inaugura\u00e7\u00e3o foi o confronto. O argentino, Jorge Valdano, homem de letras e inteligente, ainda que exageradamente apelidado de \u201cfil\u00f3sofo de futebol\u201d, declarou em alguma ocasi\u00e3o que este esporte se converteu em algo suficientemente importante como para demandar um pouco de responsabilidade social. Muito no Brasil parecem concordar com o ex-futebolista argentino. Outros diferem e separam o futebol de seu momento sociopol\u00edtico. Estas duas posi\u00e7\u00f5es se enfrentaram f\u00edsica e verbalmente em Copacabana, o \u201cprimeiro dia\u201d do campeonato mundial. Os brasileiros pr\u00f3-Copa e anti-Copa se enfrentaram nas imedia\u00e7\u00f5es da emblem\u00e1tica praia carioca. O encontro n\u00e3o nada suave. Golpes, empurr\u00f5es e xingamentos. Os menos ferozes buscaram os microfones e c\u00e2meras para expressar, conforme o caso, sua simpatia ou inconformidade com a Copa. A Pol\u00edcia Militar reprimiu sigilosa e seletivamente. N\u00e3o obstante, nesse mesmo dia pela manh\u00e3, no folcl\u00f3rico bairro da Lapa, os chamados \u201cRobocops\u201d dissolveram a primeira manifesta\u00e7\u00e3o da jornada de inaugura\u00e7\u00e3o com golpes e explosivos lacrimog\u00eaneos. Mais de um manifestante foi detido sem que os meios de comunica\u00e7\u00e3o pudessem saber seu nome ou paradeiro. Ao final, tudo caminhou sem contratempos e com singular festividade&#8230; de acordo com as informa\u00e7\u00f5es da imprensa oficial.<\/p>\n<p>Com frequ\u00eancia se escuta dizer, numa clara evoca\u00e7\u00e3o daquele emotivo discurso de Diego Armando Maradona, que a bola n\u00e3o se mancha. Ao menos essa \u00e9 a experi\u00eancia dos esquizofr\u00eanicos incur\u00e1veis que, por um lado, denunciam a cole\u00e7\u00e3o de agravos que traz consigo a organiza\u00e7\u00e3o da Copa e, por outro, professam, de forma incorrig\u00edvel, um culto aos dias redondos: o futebol.<\/p>\n<p>Bola dividida, p\u00fablico dividido. Esta contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 a figura dominante do Brasil 2014.<\/p>\n<p>Coment\u00e1rio marginal: um grupo de colegas chilenos-brasileiros documentou a primeira jornada de atividades do Congresso Intercultural de Resist\u00eancia dos Povos Ind\u00edgenas e Tradicionais Marak\u00e1 an\u00e1, celebrado em Serop\u00e9dica, Rio de Janeiro, de 4 a 8 de junho. As origens desta mo\u00e7\u00e3o se remetem \u00e0 remo\u00e7\u00e3o, em 2013, de fam\u00edlias ind\u00edgenas que habitavam a Aldeia Maracan\u00e3, um antigo edif\u00edcio adjacente ao m\u00edtico est\u00e1dio de futebol. A expuls\u00e3o dos ind\u00edgenas e a posterior ocupa\u00e7\u00e3o policial das instala\u00e7\u00f5es deixaram claros os violentos processos de aristocratiza\u00e7\u00e3o socioespacial que escoltam a prepara\u00e7\u00e3o dos megaeventos esportivos. Este \u00e9 o testemunho audiovisual dos companheiros da Memoria Latina:<\/p>\n<p><span class=\"embed-youtube\" style=\"text-align:center; display: block;\"><iframe loading=\"lazy\" class=\"youtube-player\" width=\"747\" height=\"421\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/1wzxivHaX9U?version=3&#038;rel=1&#038;showsearch=0&#038;showinfo=1&#038;iv_load_policy=1&#038;fs=1&#038;hl=pt-BR&#038;autohide=2&#038;wmode=transparent\" allowfullscreen=\"true\" style=\"border:0;\" sandbox=\"allow-scripts allow-same-origin allow-popups allow-presentation allow-popups-to-escape-sandbox\"><\/iframe><\/span><\/p>\n<p>Blog do autor: http:\/\/lavoznet.blogspot.com.br\/2014\/06\/la-contracronica-de-la-copa-preludio-e.html<\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/www.rebelion.org\/noticia.php?id=186132&amp;titular=la-contracr%F3nica-de-la-copa:-preludio-e-inauguraci%F3n-<\/p>\n<p>Foto: Pablo Vergara_ https:\/\/www.facebook.com\/PVCfotografia<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n<p> <object class=\"imagem100\"><param name=\"movie\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/1wzxivHaX9U\" \/><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\" \/><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\" \/><\/object> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nArsino\u00e9 Orihuela\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6349\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[123],"tags":[],"class_list":["post-6349","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c136-copa-para-quem"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1Ep","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6349","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6349"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6349\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6349"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6349"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6349"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}