{"id":6352,"date":"2014-06-24T20:30:29","date_gmt":"2014-06-24T20:30:29","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6352"},"modified":"2014-07-01T13:20:47","modified_gmt":"2014-07-01T13:20:47","slug":"algumas-consideracoes-sobre-as-posicoes-revisionistas-oportunistas-do-marxismo-no-brasil-de-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6352","title":{"rendered":"ALGUMAS CONSIDERA\u00c7\u00d5ES SOBRE AS POSI\u00c7\u00d5ES REVISIONISTAS (OPORTUNISTAS) DO MARXISMO NO BRASIL DE HOJE"},"content":{"rendered":"\n<p>V. I. Lenin, em sua \u00e9poca, mostrou que as tend\u00eancias revisionistas do marxismo, embora reconhecessem formalmente a teoria do socialismo cientifico, na realidade constitu\u00edam uma forma da luta da ideologia burguesa contra as ideias revolucion\u00e1rias. Segundo o grande art\u00edfice da Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917, isso revelava a for\u00e7a do marxismo. \u201cA dial\u00e9tica da hist\u00f3ria \u00e9 tal \u2013 escrevia Lenin \u2013 que o triunfo te\u00f3rico do marxismo obriga seus inimigos a <em>disfar\u00e7ar-se<\/em> de marxistas. O liberalismo apodrecido internamente, tenta renascer sob a forma de <em>oportunismo<\/em> socialista\u201d1.<\/p>\n<p>As palavras de Lenin revelam-se de uma atualidade surpreendente, quando se observa o panorama pol\u00edtico da sociedade brasileira de hoje. Uma sociedade, cujas classes dominantes, representadas pelas elites pol\u00edticas &#8211; ou seja, seus \u201cintelectuais org\u00e2nicos\u201d, segundo A. Gramsci2, &#8211; tiveram sempre sua atua\u00e7\u00e3o marcada pelas solu\u00e7\u00f5es de concilia\u00e7\u00e3o entre os distintos grupos de interesses dos setores privilegiados. As massas populares, os trabalhadores, os oprimidos e explorados permanecendo alijados dessas solu\u00e7\u00f5es de c\u00fapula. Ao referir-se ao \u201chomem cordial\u201d, S\u00e9rgio Buarque de Holanda3 registrou esse tra\u00e7o manifesto das elites brasileiras, heran\u00e7a da nossa forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, caracterizada pela perman\u00eancia de quatro s\u00e9culos de escravid\u00e3o e da grande propriedade territorial.<\/p>\n<p>Tais tradi\u00e7\u00f5es da vida pol\u00edtica brasileira, em que as solu\u00e7\u00f5es de compromisso entre grupos e\/ou partidos representativos de distintas fac\u00e7\u00f5es das classes dominantes constitu\u00edram uma forma de sobreviv\u00eancia diante do agu\u00e7amento da luta de classes, determinaram um constante afastamento das massas populares de qualquer atua\u00e7\u00e3o significativa na resolu\u00e7\u00e3o dos problemas nacionais. Condicionaram uma permanente impossibilidade de que protagonistas de perfil popular exercessem influ\u00eancia significativa nas decis\u00f5es pol\u00edticas adotadas pelos intelectuais org\u00e2nicos dos setores dominantes. Nesse sentido, tornou-se emblem\u00e1tica a frase pronunciada em 1930 por Ant\u00f4nio Carlos Ribeiro de Andrada, um dos grandes oligarcas de Minas Gerais: \u201cFa\u00e7amos a revolu\u00e7\u00e3o antes que o povo a fa\u00e7a\u201d.4<\/p>\n<p>Os antecedentes apontados, presentes no universo pol\u00edtico nacional, formaram o caldo de cultura prop\u00edcio ao advento no meio dos setores de esquerda e dos movimentos populares e dos trabalhadores de tend\u00eancias oportunistas, ou seja, revisionistas do marxismo \u2013 uma teoria revolucion\u00e1ria em sua ess\u00eancia, segundo a qual seus adeptos n\u00e3o devem apenas interpretar o mundo, mas transform\u00e1-lo.5<\/p>\n<p>Na medida em que as for\u00e7as revolucion\u00e1rias, no Brasil, foram constantemente perseguidas e derrotadas pelo poder do Estado a servi\u00e7o dos interesses das classes dominantes, na medida em que a debilidade org\u00e2nica e ideol\u00f3gica dos setores de esquerda e dos comunistas foi uma constante \u2013 em grande parte resultante dessa persegui\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel \u2013, tornou-se poss\u00edvel o predom\u00ednio em larga escala da ideologia burguesa nos movimentos populares e dos trabalhadores. Estava aberto o caminho para o avan\u00e7o do oportunismo no seio das esquerdas brasileiras, para as dificuldades de enfrent\u00e1-lo com \u00eaxito.<\/p>\n<p>Se lan\u00e7armos um olhar retrospectivo sobre a hist\u00f3ria do Brasil a partir da independ\u00eancia de Portugal, verificaremos que as situa\u00e7\u00f5es de crise vividas pelo pa\u00eds foram sempre solucionadas atrav\u00e9s de compromissos estabelecidos entre fac\u00e7\u00f5es das classes dominantes. Os setores populares ficaram de fora, reprimidos com viol\u00eancia quando tentaram conquistar posi\u00e7\u00f5es que lhes fossem prop\u00edcias dentro dos novos esquemas de poder.<\/p>\n<p>A independ\u00eancia brasileira resultou de um arranjo entre os senhores de escravos e de terras e a Coroa portuguesa, enquanto os radicais da \u00e9poca foram alijados e derrotados. Diferentemente do processo de liberta\u00e7\u00e3o das col\u00f4nias espanholas liderado por revolucion\u00e1rios como Simon Bol\u00edvar e San Martin, que, ainda no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, decretaram a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o negra e da servid\u00e3o ind\u00edgena, juntamente com o estabelecimento de regimes republicanos, no Brasil, com a independ\u00eancia, se constituiu uma monarquia, que assegurou a manuten\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o negra at\u00e9 o final desse s\u00e9culo e a proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica apenas em 1889. Processos estes conduzidos de maneira a impedir qualquer mudan\u00e7a de car\u00e1ter revolucion\u00e1rio. No Brasil, n\u00e3o tivemos lutas revolucion\u00e1rias vitoriosas; pelo contr\u00e1rio, quando ocorreram, foram derrotadas com viol\u00eancia pelas classes dominantes do pa\u00eds. A t\u00e3o celebrada op\u00e7\u00e3o por transi\u00e7\u00f5es incruentas, proclamada com insist\u00eancia pelos intelectuais org\u00e2nicos a servi\u00e7o dos interesses dominantes, reflete a debilidade dos movimentos populares no Brasil \u2013 fruto das condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas a que foram condenados -, incapazes de impor suas aspira\u00e7\u00f5es aos donos do poder.<\/p>\n<p>Se dirigirmos nosso olhar para as vicissitudes do processo de transi\u00e7\u00e3o do regime ditatorial implantando no Brasil em 1964 para a democracia hoje existente no pa\u00eds, verificaremos que, mais uma vez em nossa hist\u00f3ria, tivemos uma solu\u00e7\u00e3o de compromisso entre fac\u00e7\u00f5es das classes dominantes, entre os generais ent\u00e3o \u00e0 frente do Poder Executivo e os representantes da burguesia liberal (Ulisses Guimar\u00e3es, Tancredo Neves, etc.). Em 1979, mais uma vez em nossa hist\u00f3ria, os setores populares n\u00e3o tiveram for\u00e7a pol\u00edtica para impor uma \u201canistia ampla, geral e irrestrita\u201d, como tamb\u00e9m, em 1984, n\u00e3o puderam conquistar as \u201cdiretas j\u00e1\u201d. Do pacto estabelecido entre as elites burguesas resultaram uma anistia restrita, extensiva aos torturadores, e elei\u00e7\u00f5es indiretas para a presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Apenas em 1989, garantidos os interesses do grande capital nacional e internacional pela realiza\u00e7\u00e3o de uma transi\u00e7\u00e3o \u201csegura\u201d, as elei\u00e7\u00f5es diretas para presidente da Rep\u00fablica foram permitidas.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m o processo constituinte que se seguiu ficou marcado pela concilia\u00e7\u00e3o entre o \u201cpoder militar\u201d e os representantes burgueses com acento na Assembleia Constituinte de 1988, cujo resultado foi a tutela militar sobre os tr\u00eas Poderes do Estado, de acordo com o artigo 142 da Constitui\u00e7\u00e3o ent\u00e3o promulgada, conforme denunciado \u00e0 \u00e9poca por Luiz Carlos Prestes:<\/p>\n<p>Em nome da salvaguarda da lei e da ordem p\u00fablica, ou de sua \u201cgarantia\u201d, estar\u00e3o as For\u00e7as Armadas colocadas acima dos tr\u00eas Poderes do Estado. Com a nova Constitui\u00e7\u00e3o, prosseguir\u00e1, assim, o predom\u00ednio das For\u00e7as Armadas na dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da Na\u00e7\u00e3o, podendo, constitucionalmente, tanto depor o presidente da Rep\u00fablica quanto os tr\u00eas Poderes do Estado, como tamb\u00e9m intervir no movimento sindical, destituindo seus dirigentes, ou intervindo abertamente em qualquer movimento grevista (&#8230;)6<\/p>\n<p>A funda\u00e7\u00e3o do PT, no in\u00edcio dos anos 1980, alimentou a esperan\u00e7a de que afinal fora criada uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica capaz de conduzir os trabalhadores pelo caminho da sua emancipa\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica. Sem confiar nas lideran\u00e7as oper\u00e1rias surgidas das grandes greves de 1978\/79 no ABCD paulista, a burguesia mobilizou recursos poderosos para derrotar Lu\u00eds In\u00e1cio da Silva, o Lula, em tr\u00eas elei\u00e7\u00f5es presidenciais consecutivas (1989, 1994 e 1998).<\/p>\n<p>No decorrer desses anos, tornou-se evidente que inexistiam no Brasil for\u00e7as sociais e pol\u00edticas &#8211; o \u201cbloco hist\u00f3rico\u201d gramsciano7 -, capazes de respaldar a elei\u00e7\u00e3o de um candidato \u00e0 presid\u00eancia efetivamente comprometido com os anseios populares e disposto a liderar um processo de transforma\u00e7\u00f5es profundas da sociedade brasileira.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, tanto Lula quanto a dire\u00e7\u00e3o do PT enveredavam pelo caminho da concilia\u00e7\u00e3o com setores da burguesia. Sem jamais terem adotado a teoria marxista como orienta\u00e7\u00e3o ou considerado a realiza\u00e7\u00e3o de reformas sociais como caminho para a revolu\u00e7\u00e3o, os l\u00edderes do PT optaram pelo reformismo. Diante da tradicional alternativa \u2013 reforma ou revolu\u00e7\u00e3o -, a escolha foi clara. Tratou-se de buscar a reforma do capitalismo, de alcan\u00e7ar um capitalismo \u201cs\u00e9rio\u201d e distribuidor de benesses aos desassistidos, abandonando definitivamente qualquer proposta de mudan\u00e7a de car\u00e1ter revolucion\u00e1rio e anticapitalista.<\/p>\n<p>Contrariando o que haviam imaginado e proposto pensadores marxistas como Florestan Fernandes, o PT transformou-se numa vers\u00e3o brasileira da social-democracia europeia, com a diferen\u00e7a de que os conflitos sociais no Brasil, resultado de desigualdades extremas, n\u00e3o t\u00eam solu\u00e7\u00e3o, mesmo que tempor\u00e1ria, nos marcos do capitalismo, como aconteceu com o \u201cestado do bem-estar social\u201d, cria\u00e7\u00e3o dos partidos social-democratas na Europa. Experi\u00eancia esta hoje falida, como \u00e9 do conhecimento geral.<\/p>\n<p>Em 2002, ao candidatar-se pela quarta vez \u00e0 presid\u00eancia da Rep\u00fablica, Lula e as tend\u00eancias que o apoiavam dentro do PT compreenderam que para assegurar sua elei\u00e7\u00e3o seria necess\u00e1rio fazer concess\u00f5es ao grande capital internacionalizado, ou seja, aos setores da burguesia monopolista brasileira e internacional. A \u201cCarta aos brasileiros\u201d selou esse acordo. Lula e o PT tornaram-se confi\u00e1veis para a continuidade do sistema capitalista no Brasil, contribuindo para tal a nomea\u00e7\u00e3o de Henrique Meirelles para o Banco Central, o \u00fanico gerente n\u00e3o estadunidense do ent\u00e3o Banco de Boston, homem de confian\u00e7a das multinacionais.8 Jamais no pa\u00eds os grandes empres\u00e1rios e banqueiros ficariam t\u00e3o satisfeitos com um governo quanto com os dois quadri\u00eanios de Lula e, logo a seguir, com a elei\u00e7\u00e3o de sua \u201ccria\u00e7\u00e3o\u201d, a presidente Dilma.<\/p>\n<p>Uma vez no governo, os dirigentes do PT inclu\u00edram em sua base aliada partidos e agrupamentos pol\u00edticos comprometidos com a continuidade das pol\u00edticas neoliberais, que haviam constitu\u00eddo a ess\u00eancia dos compromissos assumidos com a \u201cCarta aos brasileiros\u201d. Estava fora de cogita\u00e7\u00e3o qualquer possibilidade de os novos governantes desenvolverem esfor\u00e7os voltados para a organiza\u00e7\u00e3o e a mobiliza\u00e7\u00e3o populares, tendo em vista a implanta\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas favor\u00e1veis aos interesses dos trabalhadores e das grandes massas vitimadas pela exclus\u00e3o social.<\/p>\n<p>De acordo com a cartilha neoliberal, formulada pelas ag\u00eancias ligadas aos grupos monopolistas internacionais, aos setores populares seria destinada uma parte dos recursos provenientes dos lucros espetaculares desses grupos, atrav\u00e9s de pol\u00edticas assistencialistas promovidas pelo Estado brasileiro, cujo objetivo principal nunca deixou de ser a garantia da paz social. Dessa forma, tentava-se evitar as convuls\u00f5es sociais e garantir o apoio popular aos governos do PT e de seus aliados, assegurando a sucess\u00e3o tranquila desses governantes a cada elei\u00e7\u00e3o. S\u00e3o distribu\u00eddas migalhas ao povo, enquanto as multinacionais obt\u00eam lucros fabulosos e os dirigentes do PT e seus aliados garantem a reelei\u00e7\u00e3o para os principais cargos dos governos da Rep\u00fablica. At\u00e9 agora esse esquema tem funcionado, embora, a partir de junho de 2013, haja come\u00e7ado a ser questionado pelas manifesta\u00e7\u00f5es populares que se espalharam por todo o Brasil.<\/p>\n<p>Embora o assistencialismo seja bastante eficaz na garantia da continuidade das pol\u00edticas neoliberais e da manuten\u00e7\u00e3o do sistema capitalista, a orienta\u00e7\u00e3o reformista dos governos de Lula e Dilma n\u00e3o pode prescindir do discurso ideol\u00f3gico para justificar sua atua\u00e7\u00e3o. N\u00e3o basta apelar para a simbologia de um oper\u00e1rio metal\u00fargico e de uma mulher na presid\u00eancia da Rep\u00fablica pela primeira vez na hist\u00f3ria do Brasil.<\/p>\n<p>Torna-se necess\u00e1rio justificar o presente apelando para o passado e falsificando a hist\u00f3ria. Busca-se no passado a justificativa para o presente. Tenta-se apresentar os atuais governantes como continuadores das grandiosas lutas do passado, como herdeiros dos l\u00edderes revolucion\u00e1rios do passado, como paladinos de ideias avan\u00e7adas e progressistas. Torna-se conveniente disfar\u00e7ar-se de marxistas para melhor encobrir a orienta\u00e7\u00e3o antipopular da pol\u00edtica dos atuais governantes.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que intelectuais e dirigentes tanto do PT quanto do PCdoB, disfar\u00e7ados de marxistas, \u201cinventam\u201d uma hist\u00f3ria das lutas do povo brasileiro conforme seus des\u00edgnios inconfess\u00e1veis. Segundo a propaganda amplamente difundida pelo PCdoB, estamos diante do \u201cpartido do socialismo\u201d, que, entretanto, realiza pol\u00edticas que favorecem o agroneg\u00f3cio e a entrega do petr\u00f3leo brasileiro \u00e0s multinacionais. Um partido que falsifica sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, ao negar seu surgimento, em 1962, resultado de uma cis\u00e3o do PCB, e dat\u00e1-lo de 1922, quando foi fundado o Partido Comunista (Se\u00e7\u00e3o Brasileira da Internacional Comunista). Em 2012, o PCdoB comemorou os 90 anos de um partido que n\u00e3o \u00e9 o seu.<\/p>\n<p>Da mesma forma, deputados, senadores, prefeitos e governadores, assim como dirigentes dos partidos governistas, se apropriam da mem\u00f3ria de lideran\u00e7as revolucion\u00e1rias como Luiz Carlos Prestes, Olga Benario Prestes, Greg\u00f3rio Bezerra, etc, para tentar melhorar sua imagem desgastada e seu crescente desprest\u00edgio diante das novas gera\u00e7\u00f5es. Para faz\u00ea-lo com algum sucesso precisam falsificar a hist\u00f3ria de luta desses homens e mulheres, admirados por seu heroismo, distorcendo sua atua\u00e7\u00e3o e esvaziando-a de qualquer conte\u00fado revolucion\u00e1rio. Tratam de transformar esses lutadores admir\u00e1veis em figuras aceit\u00e1veis at\u00e9 mesmo pelas classes dominantes, que eles sempre combateram.<\/p>\n<p>Pudemos assistir recentemente \u00e0 demag\u00f3gica devolu\u00e7\u00e3o do mandato de senador a Luiz Carlos Prestes, promovida pelos parlamentares dos atuais partidos governistas, assim como dos mandatos dos deputados comunistas cassados em 1948. Se Prestes estivesse vivo, jamais aceitaria as homenagens hip\u00f3critas desses senhores, cuja atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica foi por ele combatida severamente at\u00e9 falecer em 1990. Outros exemplos desse tipo poderiam ser citados.<\/p>\n<p>Neste ano, em que se completam 90 anos do in\u00edcio da Coluna Prestes, dirigentes dos partidos governistas \u201cdescobriram\u201d nesse epis\u00f3dio glorioso das lutas do nosso povo um valioso fil\u00e3o a ser explorado para melhor se disfar\u00e7arem de avan\u00e7ados, de progressistas ou at\u00e9 mesmo de marxistas, como \u00e9 o caso dos pol\u00edticos do PCdoB. Organizam homenagens no Congresso Nacional, em assembleias estaduais e c\u00e2maras municipais, assim como caravanas pelo pa\u00eds, com o objetivo de manipular a hist\u00f3ria dessa epopeia brasileira, cujos feitos mal conhecem, difundido vers\u00f5es falsas a seu respeito e retirando desse movimento o seu conte\u00fado de luta revolucion\u00e1ria contra o poder olig\u00e1rquico ent\u00e3o existente.<\/p>\n<p>A Coluna Invicta, como tamb\u00e9m ficou conhecida na \u00e9poca, \u00e9 apresentada como um epis\u00f3dio que merece a unanimidade da aprova\u00e7\u00e3o nacional. Fala-se, inclusive, na sua \u201cinstitucionaliza\u00e7\u00e3o\u201d, o que significa torn\u00e1-lo mais uma data a ser inclu\u00edda no calend\u00e1rio de festejos nacionais. Um epis\u00f3dio transformado em celebra\u00e7\u00e3o, desprovida de qualquer car\u00e1ter de luta, e aplaudido por todos os brasileiros, indistintamente da posi\u00e7\u00e3o de classe. Estamos diante de uma nova tentativa da transformar Luiz Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperan\u00e7a, numa lideran\u00e7a de todos os brasileiros, falsificando sua mem\u00f3ria de l\u00edder dos trabalhadores, dos explorados e dos oprimidos; jamais dos exploradores e dos donos do capital.<\/p>\n<p>Diante da atua\u00e7\u00e3o oportunista (revisionista do marxismo), dirigida no sentido de reformar o capitalismo em vez de liquid\u00e1-lo, diante da falsifica\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria das lutas e da mem\u00f3ria das lideran\u00e7as revolucion\u00e1rias do passado, com o objetivo de justificar tal pol\u00edtica reformista, o legado de Luiz Carlos Prestes adquire indiscut\u00edvel atualidade.<\/p>\n<p>Para Prestes, a emancipa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, social e pol\u00edtica dos trabalhadores brasileiros deveria ser obra deles pr\u00f3prios. Para que isso se tornasse poss\u00edvel, considerava que os verdadeiros revolucion\u00e1rios teriam que contribuir para a mobiliza\u00e7\u00e3o, a organiza\u00e7\u00e3o e a conscientiza\u00e7\u00e3o dos diferentes setores populares, assim como para o surgimento de novas lideran\u00e7as e novas organiza\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias efetivamente comprometidas com a solu\u00e7\u00e3o radical dos graves problemas nacionais.<\/p>\n<p>O legado de Luiz Carlos Prestes, ao apontar para a necessidade de considerar diferentes formas de aproxima\u00e7\u00e3o da conquista de um poder revolucion\u00e1rio9, que venha a abrir caminho para a revolu\u00e7\u00e3o socialista, constitui uma contribui\u00e7\u00e3o valiosa para as for\u00e7as de esquerda que hoje est\u00e3o empenhadas na luta por transforma\u00e7\u00f5es profundas da sociedade brasileira, na luta por mudan\u00e7as que n\u00e3o sirvam aos des\u00edgnios dos pol\u00edticos das classes dominantes e dos seus aliados oportunistas, interessados em que \u201ctudo mude para que tudo permane\u00e7a como est\u00e1\u201d.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica das posi\u00e7\u00f5es revisionistas do marxismo e das falsifica\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria dos revolucion\u00e1rios brasileiros constitui aspecto fundamental da luta geral contra o sistema capitalista e a favor da revolu\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n<p><strong>JUNHO DE 2014<\/strong><\/p>\n<p><em>Foto: Clara Grivicich<\/em><\/p>\n<p><strong>*Anita Leocadia Prestes \u00e9 doutora em Hist\u00f3ria Social pela Universidade Federal Fluminense, professora do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria Comparada de UFRJ e presidente do Instituto Luiz Carlos Prestes www.ilcp.org.br.<\/strong><\/p>\n<p>1 &#8211; LENIN, V. I. \u201cLas vicisitudes hist\u00f3ricas de la doctrina de Carlos Marx\u201d (publicado con la firma de V.I. el 1 de marzo de 1913 em el num. 50 de <em>Pravda<\/em>), <em>in<\/em> LENIN, V. I. <em>Contra el revisionismo<\/em>. Moscu, Ed. en Lenguas Extranjeras, 1959, p. 158; destaques do autor. (Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol para o portugu\u00eas de PRESTES, A.L.).<\/p>\n<p>2 &#8211; GRAMSCI, Antonio. <em>Cadernos do c\u00e1rcere<\/em>. 2\u00aa ed. Rio de Janeiro, Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, Vol. 2, 2001, p.15-25.<\/p>\n<p>3 &#8211; HOLANDA, S\u00e9rgio Buarque de. <em>Ra\u00edzes do Brasil.<\/em> 14\u00aa ed. Rio de Janeiro, J. Olympio, 1981.<\/p>\n<p>4 &#8211; ABREU, Alzira Alves de e BELOCH, Israel et al. (coord). <em>Dicion\u00e1rio hist\u00f3rico-biogr\u00e1fico brasileiro p\u00f3s-1930<\/em>. 2\u00aa ed. V. I. Rio de Janeiro, Ed. FGV, 2001, p. 1115<\/p>\n<p>5 &#8211; MARX, C. \u201cTesis sobre Feuerbach\u201d, <em>in<\/em> C. MARX &amp; F. ENGELS. <em>Obras Escogidas en tres tomos<\/em>. T. I, Mosc\u00fa, Ed. Progreso, 1976, p. 7-10.<\/p>\n<p>6 &#8211; PRESTES, Luiz Carlos, \u201cUm \u2018poder\u2019 acima dos outros\u201d, <em>Tribuna da Imprensa<\/em>, RJ, 28\/9\/1988.<\/p>\n<p>7 &#8211; Cf. GRAMSCI, Ant\u00f4nio. <em>Cadernos do C\u00e1rcere<\/em>. 2\u00aa ed. V. 1. Rio de Janeiro, Civ. Brasileira, 2001, p. 238.<\/p>\n<p>8 &#8211; Henrique Meirelles permaneceu \u00e0 frente do Banco Central durante os dois quadri\u00eanios dos governos Lula.<\/p>\n<p>9 &#8211; Cf. PRESTES, Anita Leocadia, \u201cO legado de Luiz Carlos Prestes e os caminhos da revolu\u00e7\u00e3o socialista no Brasil\u201d, <em>in<\/em> <a href=\"http:\/\/www.ilcp.org.br\">www.ilcp.org.br<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nAnita Leocadia Prestes*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6352\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-6352","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1Es","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6352","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6352"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6352\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6352"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6352"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6352"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}