{"id":6356,"date":"2014-06-25T18:28:10","date_gmt":"2014-06-25T18:28:10","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6356"},"modified":"2014-07-01T13:20:46","modified_gmt":"2014-07-01T13:20:46","slug":"a-copa-como-metafora-e-a-metafora-da-copa-pela-rebeliao-do-valor-de-uso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6356","title":{"rendered":"A Copa como met\u00e1fora e a met\u00e1fora da Copa: pela rebeli\u00e3o do valor de uso"},"content":{"rendered":"\n<p>O capital se apropria de tudo, n\u00e3o seria diferente no caso do futebol. O destino daquilo que \u00e9 mercantilizado \u00e9 ver seu ser transformado em ve\u00edculo de valor de troca, forma de express\u00e3o do valor, que passa a ser primordial, relativizando seu valor de uso original.<\/p>\n<p>Como coisa de valor, sua vida passa a fluir no sentido da realiza\u00e7\u00e3o do valor e no caso da produ\u00e7\u00e3o capitalista de mercadorias, de mais valor. Quando era um valor de uso, a realiza\u00e7\u00e3o se dava na frui\u00e7\u00e3o, no consumo daquilo que se buscava para realizar o desejo do corpo ou do esp\u00edrito. No ato de se apropriar das propriedades da coisa para saciar nossa fome ou sede, ao ouvir a melodia que nos acalma a alma ou desperta o corpo. Como mercadoria, a realiza\u00e7\u00e3o se d\u00e1 no ato da troca, na transforma\u00e7\u00e3o da coisa em equivalente geral monet\u00e1rio, enquanto o valor de uso subsumido fica ali, relativizado, quando n\u00e3o esquecido.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que a propaganda seduz para o ato da compra, sem que necessariamente o consumo corresponda ao desejo ou a necessidade. Um comercial de refrigerante transpira gotinhas de coisas geladas, paisagens refrescantes, gente feliz em dias quentes, mas a coisa em si, pode ser um xarope adocicado que vai de dar mais sede e te levar a consumir outra vez o produto\u2026 que vai te dar mais sede ainda.<\/p>\n<p>No caso particular do futebol, a mercantiliza\u00e7\u00e3o ocorre n\u00e3o apenas pela venda do espet\u00e1culo esportivo em si mesmo, mas em v\u00e1rias dimens\u00f5es: no \u201cmercado de jogadores\u201d, na venda dos direitos de imagem, como ve\u00edculo de propaganda, como empreendimento milion\u00e1rio de empreiteiras, bancos e tantos outros. A velha arte de esfolar v\u00e1rias vezes o mesmo boi.<\/p>\n<p>O valor de uso origin\u00e1rio fica soterrado sob montanhas de formas mercantis que sobre ele buscam seu quinh\u00e3o da valoriza\u00e7\u00e3o, muitas vezes fict\u00edcia e parasit\u00e1ria. \u00c9 por isso que muitas vezes depois de realizada a farra do valor de troca, nossos est\u00f4magos e esp\u00edritos futebol\u00edsticos permanecem famintos e sedentos.<\/p>\n<p>No entanto, age sobre a forma mercadoria a maldi\u00e7\u00e3o do valor de uso. Isto \u00e9, mesmo relativizado e subsumido, o valor de uso \u00e9 incontorn\u00e1vel. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que haja uma mercadoria sem valor de uso \u2013 ainda que sob a luz de uma certa racionalidade esquecida ele seja uma \u201cutilidade in\u00fatil\u201d. Ningu\u00e9m vai \u00e0 padaria comprar cigarro almejando um c\u00e2ncer de traqu\u00e9ia. Mas, s\u00f3 quem j\u00e1 fumou sabe o valor de uso de uma boa baforada.<\/p>\n<p>O valor de uso subsumido (mas incontorn\u00e1vel) resiste ali onde n\u00e3o devia, mesmo que na subversiva sensa\u00e7\u00e3o de aus\u00eancia: na sede e fome n\u00e3o saciadas, na pobreza persistente no pa\u00eds que dizia t\u00ea-la abolida no marketing pol\u00edtico, na desigualdade da sociedade da igualdade, na falta do sinal na sociedade do acesso total \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o 4G\u2026 em noventa minutos de\u2026 nada.<\/p>\n<p>O futebol mercadoria e seu evento maior \u2013 a Copa \u2013 \u00e9 montado para a realiza\u00e7\u00e3o do lucro das grandes corpora\u00e7\u00f5es. Esta Copa j\u00e1 aconteceu e a FIFA S\/A, a maior das corpora\u00e7\u00f5es, j\u00e1 abocanhou seus lucros, assim como as empreiteiras, os bancos, as empresas publicit\u00e1rias, os empres\u00e1rios que escalam jogadores no lugar de t\u00e9cnicos, j\u00e1 contabilizam seus lucros. Se vai ter jogo ou n\u00e3o \u00e9 um detalhe.<\/p>\n<p>Mas esta montanha de valor de troca tem que encontrar um valor de uso sob o qual se agarrar. Assim como a abstra\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito precisa do corpo, o exu precisa do cavalo. Onze pessoas de cada lado e um apito do \u00e1rbitro, desperta o esporte e os garotos propaganda se esquecem, ou deveriam esquecer, de seus contratos, das bugigangas que vendem, e a adrenalina comanda os corpos no busca da bola, evitar o advers\u00e1rios, encontrar o caminho da meta.<\/p>\n<p>C\u00e9rebro, nervos, m\u00fasculos\u2026 uma coisa chamada ser humano, que j\u00e1 foi um sonho, que j\u00e1 foi sacrif\u00edcio, que foi entrega e dor, que quer ser conquista, emerge dali de onde foi soterrado pela mercadoria. Um ser composto, uma equipe, um time, se funde com milhares de pessoas que se desviam da bola, tencionam seu m\u00fasculo antes do chute no exato instante que o jogador vai chutar a bola e em un\u00edssono gritam, abra\u00e7am estranhos, choram\u2026<\/p>\n<p>Marx em sua monumental obra se refere a uma ci\u00eancia que se chamaria \u201cmerceologia\u201d, que teria a tarefa de listar todas as formas poss\u00edveis de mercadoria. N\u00e3o sei se existe essa que descrevemos, n\u00e3o sei que valor de uso \u00e9 esse que consiste o ser do futebol. Posso apenas falar como viciado desta subst\u00e2ncia. Ela leva um menino de seis ou sete anos a colecionar bot\u00f5es com times de futebol para imitar o jogo sobre uma mesa. Em est\u00e1gios mais s\u00e9rios de cont\u00e1gio, o mo\u00e7o passa a organizar campeonatos e a registr\u00e1-los em livros. Grita, sozinho ou com amigos, em certames disputad\u00edssimos. Chega at\u00e9 a guardar os times de bot\u00e3o \u2013 inclusive as caixas de f\u00f3sforos encapadas com fita isolante, que serviam de goleiros \u2013, e os registros de anos de campeonato para tentar infectar seus filhos.<\/p>\n<p>Quanto mais amo o futebol, mais odeio o capitalismo.<\/p>\n<p>A Copa deles j\u00e1 ocorreu. Foi contra n\u00f3s e eles venceram. Alguns desavisados ou mal intencionados festejam. Mas est\u00e1 em curso uma vingan\u00e7a, uma rebeli\u00e3o. Talvez v\u00e1rias. Uma nas ruas, onde exercemos o sagrado direito de n\u00e3o sermos tratados como imbecis (alguns, \u00e9 verdade, se orgulham em ser imbecis e n\u00e3o foram \u00e0s ruas \u2013 \u00e9 um direito deles). Ela continua e espero que um dia possamos vencer. Mas existe outra rebeli\u00e3o. Neste tempo em que muita coisa anda despertando, acredito que podemos estar vendo o despertar de um velho e t\u00e3o maltratado conhecido: o futebol.<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode at\u00e9 tentar produzir futebol em s\u00e9rie, futebol fordista, ou como disse <a href=\"http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2014\/06\/20\/o-gol-fatal\/\" target=\"_blank\">em seu maravilhoso texto<\/a>, nosso querido Pasolini, o \u201cfutebol prosa\u201d. Mas o \u201cfutebol poesia\u201d, resiste, surpreende, desperta. Monarquias futebol\u00edsticas (e infelizmente algumas reais) eliminadas e zebras pastando alegremente.<\/p>\n<p>Enquanto alguns correm para abra\u00e7ar o valor de troca, a forma fetichizada e desumana, prefiro beijar a face do valor de uso que renasce. \u00c9 a rebeli\u00e3o do valor de uso\u2026 preparem-se, pode n\u00e3o ser s\u00f3 no futebol.<\/p>\n<p><strong><em>Na primeira foto: Manifestantes organizam uma partida de futebol de rua em ato pela Tarifa Zero convocado pelo <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/authors\/view\/634\" target=\"_blank\">MPL<\/a> em S\u00e3o Paulo no dia 19 de junho de 2014.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>Mauro Iasi <\/strong>\u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/48#.Ul8Kh1Csh8E\" target=\"_blank\"><em>O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia<\/em><\/a> (Boitempo, 2002) e colabora com os livros <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/cidades-rebeldes\" target=\"_blank\"><em>Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil<\/em><\/a> e <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/gy%C3%B6rgy-lukacs-e-a-emancipacao-humana\" target=\"_blank\"><em>Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana<\/em><\/a> (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o <strong>Blog da Boitempo <\/strong>mensalmente, \u00e0s quartas.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2014\/06\/25\/a-copa-como-metafora-e-a-metafora-da-copa-pela-rebeliao-do-valor-de-uso\/\">A Copa como met\u00e1fora e a met\u00e1fora da Copa: pela rebeli\u00e3o do valor de&nbsp;uso<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nMauro Iasi\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6356\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[123],"tags":[],"class_list":["post-6356","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c136-copa-para-quem"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1Ew","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6356","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6356"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6356\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6356"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6356"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6356"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}