{"id":6360,"date":"2014-06-29T19:09:29","date_gmt":"2014-06-29T19:09:29","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6360"},"modified":"2014-07-01T13:20:46","modified_gmt":"2014-07-01T13:20:46","slug":"a-guerra-economica-na-venezuela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6360","title":{"rendered":"A guerra econ\u00f3mica na Venezuela"},"content":{"rendered":"\n<p>1<\/p>\n<p>Contra todo processo que inicie alguma modifica\u00e7\u00e3o progressista, seja reformista ou radical, desencadeia-se a guerra interna e externa, sucessivamente comunicacional, econ\u00f3mica, diplom\u00e1tica e estrat\u00e9gica. Assim aconteceu contra as revolu\u00e7\u00f5es burguesas da Inglaterra e de Fran\u00e7a, contra as Independ\u00eancias americanas, contra a revolu\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria mexicana, contra as socialistas sovi\u00e9tica, chinesa, cubana, nicaraguense e vietnamita: contra todas as que no mundo foram, s\u00e3o ou ser\u00e3o. Toda revolu\u00e7\u00e3o quer ser pac\u00edfica: seus inimigos a p\u00f5em no transe de defender-se ou morrer.<\/p>\n<p>2<\/p>\n<p>Todas as formas de guerra est\u00e3o intimamente relacionadas. Conhecemos de sobra as variantes de agress\u00e3o medi\u00e1tica contra a Venezuela: sistem\u00e1tica falsifica\u00e7\u00e3o de noticias, falsas acusa\u00e7\u00f5es de aus\u00eancia de liberdade de express\u00e3o, engana\u00e7\u00e3o informativa de oligop\u00f3lios externos e internos. Sabemos da guerra diplom\u00e1tica: rajadas de processos temer\u00e1rios no Centro Internacional de Acerto de Diferencias sobre os Investimentos (CIADI), perante a Comiss\u00e3o e o Tribunal Interamericano dos Direitos Humanos, diante de todos os organismos aos quais cedemos nossa soberania concedendo-lhes o poder de julgar-nos e condenar-nos, e dos quais n\u00e3o nos retir\u00e1mos a tempo. Tentativa de sabotar a Alba, Unasur, a Celac: todos os organismos de integra\u00e7\u00e3o latino-americana em parte animados pela Venezuela. Tentativa de extrair declara\u00e7\u00f5es condenat\u00f3rias de governos e organismos internacionais; adop\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas hostis de Estados vizinhos e de integrantes de blocos regionais, como a Alian\u00e7a do Pac\u00edfico.<\/p>\n<p>3<\/p>\n<p>O que podemos esperar da Guerra Econ\u00f3mica? A imperiosa procura de hidrocarbonetos no mundo impediu que a Venezuela fosse v\u00edtima de um bloqueio da forma como o que se armou contra o a\u00e7\u00facar cubano. Como a iniciada contra o Chile de Allende, a Guerra Econ\u00f3mica contra a Venezuela inclui a\u00e7ambarcamentos na distribui\u00e7\u00e3o de bens de primeira necessidade, escassezes estrat\u00e9gicas, p\u00e2nicos medi\u00e1ticos sobre o desabastecimento, sobrepre\u00e7os usur\u00e1rios e especulativos impostos premeditadamente pelo sector privado importados e distribuidor. Tamb\u00e9m incorpora escassez disparada pelo contrabando de extrac\u00e7\u00e3o. Bloqueios nas comunica\u00e7\u00f5es, como os empreendidos pelas companhias a\u00e9reas com bilhetes abusivamente caros e reclama\u00e7\u00f5es absurdas. Ataques inform\u00e1ticos contra as redes digitais e os sistemas de produ\u00e7\u00e3o das ind\u00fastrias b\u00e1sicas, como os perpetrados pela INTESA contra a PDVSA e por hackers desconhecidos contra o Conselho Supremo Eleitoral e outros organismos p\u00fablicos. Medidas de confisco contra as reservas internacionais, como as tentadas pela Exxon contra os fundos que a Venezuela n\u00e3o havia retirado de bancos internacionais. Congelamento de contas privadas no exterior. Financiamento Maci\u00e7o de ONGs que descaradamente actuam como agentes da USAID e da NED.<\/p>\n<p>Sangramento intenso da economia atrav\u00e9s dos inconstitucionais Tratados contra a Dupla Tributa\u00e7\u00e3o, em virtude dos quais as transnacionais n\u00e3o pagam impostos no pa\u00eds onde obt\u00eam seus lucros. Concess\u00e3o maci\u00e7a de d\u00f3lares preferenciais a empresas fantasmas que os investem em importa\u00e7\u00f5es fict\u00edcias.<\/p>\n<p>4<\/p>\n<p>A Guerra Econ\u00f3mica \u00e9 modalidade infal\u00edvel em todos os conflitos. O \u00fanico rem\u00e9dio contra ela \u00e9 a resposta adequada dos agredidos. A Revolu\u00e7\u00e3o Inglesa reagiu com medidas proteccionistas e a cria\u00e7\u00e3o de uma New Model Navy que converteu a Inglaterra na primeira pot\u00eancia do mundo at\u00e9 1939. A Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica planificou um crescimento econ\u00f3mico e cient\u00edfico que a levou a ser a segunda pot\u00eancia global at\u00e9 1990. A China implementou reformas revolucion\u00e1rias na agricultura e na ind\u00fastria que a p\u00f5em a caminho de ser a primeira pot\u00eancia do planeta. Cuba alcan\u00e7ou os maiores \u00eaxitos latino-americanos do s\u00e9culo passado em sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a social e aperfei\u00e7oou uma defesa que se verificou invulner\u00e1vel durante mais de meio s\u00e9culo. A Venezuela deve articular a sua pr\u00f3pria resposta, n\u00e3o s\u00f3 para sobreviver como tamb\u00e9m para prevalecer.<\/p>\n<p>5<\/p>\n<p>Na guerra, mais perigosas que a for\u00e7as do advers\u00e1rio s\u00e3o as debilidades internas. Duas doen\u00e7as fatais amea\u00e7am nossos processos econ\u00f3micos: o endividamento imprudente, que leva a crer que o emprestado nunca se vai pagar, e os jogos cambiais, que tentam multiplicar dinheiro cambiando-o categoria. N\u00e3o \u00e9 a primeira vez na Venezuela que uma desordem cambial desestabiliza um governo. Na minha juventude, quando governava o Lusinchi da <a href=\"http:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Acci%C3%B3n_Democr%C3%A1tica\" target=\"_blank\">Acci\u00f3n Dem\u00f3cratica<\/a> , tamb\u00e9m se estabeleceu para a venda de d\u00f3lares um Regime de C\u00e2mbio Diferencial (<a href=\"http:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Viernes_Negro_%28Venezuela%29\" target=\"_blank\">Recadi<\/a>) \u00e0 taxa preferencial de 7,50 para importar artigos de primeir\u00edssima necessidade, outra de 14,50 para artigos de necessidade m\u00e9dia e mercado negro para o resto. O governo publicava relat\u00f3rios pormenorizados sobre os d\u00f3lares que atribu\u00eda, os quais analisei na minha revista alternativa <em>Profetariado. <\/em>O resultado foi devastador. Em 1987 atribu\u00edam-se d\u00f3lares preferenciais para importar cal\u00e7ados italianos, gravatas de seda, whisky fino e produtos misteriosos como &#8220;raiz de Mandrake&#8221; (gengibre vulgar) e cloreto de s\u00f3dio (sal comum, que se produzia em Araya). Para a indispens\u00e1vel insulina, s\u00f3 havia mesquinhos d\u00f3lares a 14,50. A farra terminou em desastre, sem mais v\u00edtimas aparentes que o misterioso &#8220;Chinesinho do Recadi&#8221;. Mas o legend\u00e1rio partido Acci\u00f3n Democr\u00e1tica, contra o qual infrutiferamente se imolaram as esquerdas, encontrou no Recadi sua crist\u00e3 sepultura. Toda cat\u00e1strofe devora seus autores.<\/p>\n<p>6<\/p>\n<p>Nada t\u00e3o m\u00e1gico como o jogo cambial. Com uma roleta do estilo Carlos Andr\u00e9s P\u00e9rez estreou a sua segunda presid\u00eancia, em 1989. Ele convertia os bol\u00edvares de um fundo particular em d\u00f3lares \u00e0 taxa preferencial, os quais vendia a pre\u00e7o de mercado negro para obter bol\u00edvares que voltava a trocar em d\u00f3lares preferenciais. Com umas poucas voltas deste carrossel multiplicador podem imaginar os efeitos. Tudo acontecia enquanto se fuzilava o povo nas ruas por protestar contra o Pacote Neoliberal. Desta vez n\u00e3o foi suficiente um chinesinho do Recadi. Com todas as suas pretens\u00f5es de Grande Democrata Latino-Americano, o inquieto rapaz foi parar num calabou\u00e7o do pres\u00eddio de Los Teques e o seu partido no caixote do lixo da Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>7<\/p>\n<p>No nosso blog <a href=\"http:\/\/luisbrittogarcia.blogspot.com\/\" target=\"_blank\">http:\/\/luisbrittogarcia.blogspot.com<\/a> escrevemos no domingo, 15 de Junho: &#8220;O sector privado opositor culpa o governo pela Escassez, apesar de os negociantes terem obtido do Estado, segundo o presidente Maduro, cerca de 60 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares preferenciais para importar bens essenciais e os terem extraviado aplicando-os em importa\u00e7\u00f5es fantasmas de empresas fict\u00edcias. No jogo da Escassez h\u00e1 compras nervosas incentivadas pelos media, desaparecimentos estrat\u00e9gicos e reaparecimentos de produtos, especula\u00e7\u00f5es ultra usur\u00e1rias com os pre\u00e7os. N\u00e3o parece t\u00e3o pouco que o sector p\u00fablico tenha desenvolvido uma campanha para apurar os verdadeiros culpados da escassez. Dentre eles, aqueles que alegremente concederam essa catarata de d\u00f3lares preferenciais sem exigir garantias de fiel cumprimento das importa\u00e7\u00f5es oferecidas nem prova da solv\u00eancia dos favorecidos, aqueles que retardam as san\u00e7\u00f5es e confiscos do caso, aqueles que adiam o passo transcendente de assumir directamente as importa\u00e7\u00f5es para n\u00e3o depender de uma oligarquia que as utiliza para assassinar o projecto socialista&#8221;.<\/p>\n<p>8<\/p>\n<p>O Cavalo de Troia da Guerra Econ\u00f3mica entra ent\u00e3o por um buraco em parte aberto pelos pr\u00f3prios troianos. Os erros ocorrem, mas quem os oculta compartilha-os. Como cidad\u00e3o, pergunto-me: &#8220;Quem entregou 60 mil ou 25 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares, conforme a fonte, a empresas fict\u00edcias? Quem omitiu a comprova\u00e7\u00e3o da exist\u00eancias real e a solv\u00eancia das mesmas? Quem recebeu quantias destas grandezas sem prestar garantias de fiel cumprimento? Quem prop\u00f5e como rem\u00e9dio para tantos males continuar a proporcionar d\u00f3lares preferenciais a um sector privado parasit\u00e1rio que continuar\u00e1 a extravi\u00e1-los em importa\u00e7\u00f5es fict\u00edcias? Quem ret\u00e9m as listas de funcion\u00e1rios e empresas (ao que parece, algumas p\u00fablicas) respons\u00e1veis? Quem deixa de empreender ac\u00e7\u00f5es contra tantos quens?<\/p>\n<p>9<\/p>\n<p>Uma crise explode quando aparecem os &#8220;N\u00e3o-fui-eu&#8221; <em>(Yonofuis) <\/em>despedidos lan\u00e7ando a culpa a outros. A crise termina quando algu\u00e9m proclama: &#8220;Sou respons\u00e1vel&#8221;.<\/p>\n<p>22\/Junho\/2014<\/p>\n<p><strong>O original encontra-se em <a href=\"http:\/\/ecopopularve.wordpress.com\/2014\/06\/22\/opinion-luis-britto-garcia-guerra-economica\/\" target=\"_blank\">ecopopularve.wordpress.com\/&#8230;<\/a> <\/strong><\/p>\n<p><strong>Este artigo encontra-se em <a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\">http:\/\/resistir.info\/<\/a> .<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\npor Luis Britto Garcia\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6360\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[45],"tags":[],"class_list":["post-6360","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c54-venezuela"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1EA","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6360","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6360"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6360\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6360"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6360"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6360"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}