{"id":6363,"date":"2014-06-29T19:19:16","date_gmt":"2014-06-29T19:19:16","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6363"},"modified":"2014-07-01T13:20:45","modified_gmt":"2014-07-01T13:20:45","slug":"do-fim-do-comeco-ao-comeco-do-fim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6363","title":{"rendered":"Do fim do come\u00e7o ao come\u00e7o do fim"},"content":{"rendered":"<p>Estas interven\u00e7\u00f5es quando t\u00eam <em>&#8220;\u00eaxito&#8221;, <\/em>como na L\u00edbia ou no Iraque, n\u00e3o concluem com a instaura\u00e7\u00e3o de regimes coloniais <em>&#8220;pacificados&#8221;, <\/em>controlados por estruturas est\u00e1veis, como ocorria nas velhas conquistas perif\u00e9ricas do Ocidente, e sim com espa\u00e7os ca\u00f3ticos dilacerados por guerras internas. Trata-se da emerg\u00eancia induzida de sociedades-em-dissolu\u00e7\u00e3o, da configura\u00e7\u00e3o de desastres sociais como forma concreta de submetimento, o que coloca a d\u00favida acerca de se nos encontramos diante de uma diab\u00f3lica planifica\u00e7\u00e3o racional que pretende <em>&#8220;governar o caos&#8221;, <\/em>submergir as popula\u00e7\u00f5es numa esp\u00e9cie de indefens\u00e3o absoluta convertendo-as em <em>n\u00e3o-sociedades <\/em>para assim saquear seus recursos naturais e\/ou anular inimigos ou competidores&#8230; ou, ao contr\u00e1rio, trata-se de um resultado n\u00e3o necessariamente buscado pelos agressores, express\u00e3o do seu fracasso como amos coloniais, da sua alta capacidade destrutiva associada \u00e0 sua incapacidade para instaurar uma ordem colonial <em>(&#8220;incapacidade&#8221; <\/em>decorrente da sua decad\u00eancia econ\u00f3mica, cultural, institucional, militar). Provavelmente encontramo-nos diante da combina\u00e7\u00e3o de ambas as situa\u00e7\u00f5es.<!--more--><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel supor que o Imp\u00e9rio, na sua decad\u00eancia, se encontra prisioneiro de um emaranhado de interesses pol\u00edticos, financeiros, mafiosos&#8230; conformando uma din\u00e2mica auto-destrutiva impar\u00e1vel que o obriga a desenvolver opera\u00e7\u00f5es irracionais se observamos o fen\u00f3meno com um certo distanciamento hist\u00f3rico, mas completamente <em>racionais <\/em>se reduzimos a observa\u00e7\u00e3o ao espa\u00e7o da raz\u00e3o instrumental directa dos conspiradores, ao seu micromundo psicol\u00f3gico (a raz\u00e3o da loucura como raz\u00e3o de estado ou ast\u00facia mafiosa impondo-se \u00e0 racionalidade no seu sentido mais amplo, superior).<\/p>\n<p>Ainda que esses desastres n\u00e3o representem necessariamente ac\u00e7\u00f5es de verdugos impiedosos a destru\u00edrem para\u00edsos perif\u00e9ricos, o capitalismo \u00e9 uma totalidade global e o que aparece como a decad\u00eancia do centro imperial \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o decisiva mas parcial de um fen\u00f3meno planet\u00e1rio que inclui a periferia presa na armadilha da sobredetermina\u00e7\u00e3o burguesa universal (decadente) das suas sociedades. A opera\u00e7\u00e3o de destrui\u00e7\u00e3o da L\u00edbia lan\u00e7ando sobre o seu territ\u00f3rio ondas de mercen\u00e1rios e bombardeamentos p\u00f4de triunfar gra\u00e7as \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o do regime kadafista; o golpe neonazi de Fevereiro de 2014 na Ucr\u00e2nia capturou o governo de uma &#8220;rep\u00fablica&#8221; resultante do desastre sovi\u00e9tico que a havia submergido num gigantesco apodrecimento seguido pela instaura\u00e7\u00e3o de um capitalismo mafioso; a desestabiliza\u00e7\u00e3o da Venezuela orquestrada pelos Estados Unidos apoia-se em sectores das classes m\u00e9dias conduzidos pela velha burguesia local que n\u00e3o foi eliminada depois de quinze anos de <em>&#8220;revolu\u00e7\u00e3o&#8221; (&#8220;bolivariana&#8221; <\/em>autoproclamada <em>&#8220;socialista&#8221;) <\/em>eternamente a meio caminho&#8230; essas elites n\u00e3o foram varridas do cen\u00e1rio ainda que fossem irritadas, enfurecidas pela ascens\u00e3o social das classes baixas.<\/p>\n<p>Tudo isto nos conduz \u00e0 necessidade de estabelecer o momento da hist\u00f3ria do capitalismo em que nos encontramos. Trata-se do bordel sangrento global prel\u00fadio de uma nova acumula\u00e7\u00e3o primitiva ber\u00e7o de um futuro super-capitalismo ou dos golpes finais, desesperados, de uma civiliza\u00e7\u00e3o que entrou no ocaso?<\/p>\n<p>Proponho responder a essa pergunta utilizando aquela velha e t\u00e3o repetida frase de Churchill em plena Segunda Guerra Mundial quando, ao terminar a batalha de El Alamein, assinalou que esse facto era n\u00e3o <em>&#8220;o come\u00e7o do fim <\/em>(da guerra) <em>e sim o fim do come\u00e7o&#8221; <\/em>de um processo muito mais importante, decisivo. Encontramo-nos actualmente na presen\u00e7a do<strong><em>fim do come\u00e7o <\/em><\/strong>, vai-se concluindo a etapa preparat\u00f3ria do decl\u00ednio ocidental que se prolongou durante v\u00e1rias d\u00e9cadas e come\u00e7a a emergir o <strong><em>come\u00e7o do fim <\/em><\/strong>, o desmoronamento do capitalismo como civiliza\u00e7\u00e3o que, como outras civiliza\u00e7\u00f5es em decl\u00ednio, provavelmente percorrer\u00e1 uma traject\u00f3ria temporal complexa de dura\u00e7\u00e3o indetermin\u00e1vel de antem\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda que n\u00e3o possa deixar de assinalar diferen\u00e7as decisivas com as civiliza\u00e7\u00f5es anteriores, como seu car\u00e1cter planet\u00e1rio (n\u00e3o limitado a uma regi\u00e3o), a massa de popula\u00e7\u00e3o inclu\u00edda no processo (actualmente umas sete mil milh\u00f5es de pessoas e n\u00e3o apenas umas poucas dezenas ou centenas de milh\u00f5es) e o descomunal desenvolvimento das suas for\u00e7as produtivas, com capacidade industrial e militar para destruir totalmente a vida no planeta. O que coloca de maneira radicalmente distinta o op\u00e7\u00e3o que enfrentaram todas as decad\u00eancias de civiliza\u00e7\u00f5es: supera\u00e7\u00e3o ou afundamento num longo desastre do qual emergia mais adiante uma nova civiliza\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o anterior ou imposta por uma for\u00e7a externa. Isto n\u00e3o \u00e9 a decad\u00eancia da Babil\u00f3nia devastada pelos p\u00e2ntanos difusores de mal\u00e1ria gerados pelo seu pr\u00f3prio desenvolvimento, nem da Roma imperial esmagada pelo parasitismo e a hipertrofia militar, resultado da sua din\u00e2mica imperialista marchando em direc\u00e7\u00e3o ao abismo enquanto boa parte do resto da humanidade ignorava esses factos. <strong>[1]<\/strong><\/p>\n<p><strong>Viol\u00eancia e decad\u00eancia sist\u00e9mica <\/strong><\/p>\n<p>O fen\u00f3meno sobredeterminante \u00e9 a decad\u00eancia, demonstrada por numerosos indicadores como o decl\u00ednio a longo prazo (desde os anos 1970) da taxa de crescimento econ\u00f3mico global activada pelo arrefecimento tendencial do crescimento dos pa\u00edses centrais e a seguir pelo acompanhamento desta tend\u00eancia por um processo de hipertrofia financeira que se articula com um aparelho parasit\u00e1rio sem precedentes: consumista, militar e burocr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Encontramo-nos diante de sociedades imperiais t\u00e3o decadentes que j\u00e1 n\u00e3o podem mobilizar militarmente a sua juventude como no s\u00e9culo XX, ainda que a sua capacidade financeira e os seus avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos lhe permitam contratar mercen\u00e1rios em substitui\u00e7\u00e3o das for\u00e7as operativas tradicionais (a oferta de lumpens proveniente de todos os continentes \u00e9 directamente proporcional ao progresso da decad\u00eancia), utilizar armas como os <em>drones <\/em>e outros artefactos mort\u00edferos super refinados que estabelecem um fosso t\u00e9cnico descomunal entre agressores e agredidos e, finalmente, esmagar com manipula\u00e7\u00f5es medi\u00e1ticas suas v\u00edtimas directas e o resto do mundo.<\/p>\n<p>Estas <em>&#8220;vantagens&#8221; <\/em>s\u00e3o ao mesmo tempo express\u00f5es de poder e de fraqueza, de capacidade destrutiva mas tamb\u00e9m de descontrole ideol\u00f3gico das suas pr\u00f3prias sociedades, da ilegitimidade interna das suas opera\u00e7\u00f5es, o que somado \u00e0 sua deteriora\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica impede-os de passar da destrui\u00e7\u00e3o \u00e0 reconstru\u00e7\u00e3o colonial dos territ\u00f3rios conquistados.<\/p>\n<p>As transforma\u00e7\u00f5es burguesas das sociedades europeias haviam gerado, desde os fins do s\u00e9culo XVIII, a possibilidade de integrar o conjunto da popula\u00e7\u00e3o \u00e0s suas diferentes aventuras militares. Desse modo, o cidad\u00e3o-soldado e a guerra de massas substitu\u00edram o mercen\u00e1rio e os ex\u00e9rcitos das aristocracias. Os assassinos a soldo cederam lugar aos assassinos volunt\u00e1rios ou for\u00e7ados que entregavam a sua vida n\u00e3o por dinheiro e sim pela defesa da <em>&#8220;p\u00e1tria&#8221;, <\/em>da <em>&#8220;liberdade&#8221;, <\/em>etc.<\/p>\n<p>Mas a decad\u00eancia do capitalismo e a sua transforma\u00e7\u00e3o, depois do <em>aggiornamento <\/em>burgu\u00eas da China e do derrube da URSS, em sistema \u00fanico (ou seja, em domina\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria, visivelmente amoral das elites parasit\u00e1rias) deitou abaixo os mitos, as legitima\u00e7\u00f5es que permitiam aos estados fabricar causas nobres para enviar \u00e0 morte o cidad\u00e3o comum.<\/p>\n<p>A perda de legitimidade do aparelho militar ocidental surge como um tra\u00e7o decisivo da decad\u00eancia, mas a reprodu\u00e7\u00e3o imperialista continua e o exerc\u00edcio da viol\u00eancia contra a periferia retoma a velha tradi\u00e7\u00e3o dos ex\u00e9rcitos mercen\u00e1rios.<\/p>\n<p>Agora a propaganda do poder junto \u00e0s suas popula\u00e7\u00f5es n\u00e3o tem como objectivo arrast\u00e1-las ao campo de batalha (opera\u00e7\u00e3o invi\u00e1vel) e sim, antes, obter a sua aprova\u00e7\u00e3o passiva ou diluir a sua recusa diante de aventuras fisicamente distantes apresentadas como fen\u00f3meno virtual, como um elemento mais do entretenimento brindado pela televis\u00e3o e outros meios de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O desdobramento b\u00e9lico foi teorizado pela chamada <a href=\"https:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Guerra_de_cuarta_generaci%C3%B3n\" target=\"_blank\"><em>Guerra de Quarta Gera\u00e7\u00e3o<\/em><\/a> , resultado das reflex\u00f5es no alto n\u00edvel militar dos Estados Unidos posteriores \u00e0 derrota do Vietname, visualizada como <em>&#8220;guerra assim\u00e9trica&#8221; <\/em>onde a for\u00e7a inimiga com baixo n\u00edvel tecnol\u00f3gico e reduzida pot\u00eancia de fogo, mas bem integrada \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, p\u00f4de derrotar o ex\u00e9rcito imperial possuidor de um elevado n\u00edvel tecnol\u00f3gico e um gigantesco poder de fogo.<\/p>\n<p>A nova doutrina militar aponta n\u00e3o para a simples destrui\u00e7\u00e3o da for\u00e7a militar inimiga e sim, principalmente, para o conjunto da sociedade que a sustenta. A desintegra\u00e7\u00e3o social (econ\u00f3mica, moral, cultural, institucional) passa a ser o objectivo procurado e esse processo pode-se dar ou n\u00e3o com interven\u00e7\u00f5es directas e sim, antes, com combina\u00e7\u00f5es vari\u00e1veis de interven\u00e7\u00f5es externas (militares, medi\u00e1ticas, econ\u00f3micas, etc) e ac\u00e7\u00f5es de desestabiliza\u00e7\u00e3o interna.<\/p>\n<p>Estabelece-se assim uma ampla variedade de cen\u00e1rios de agress\u00e3o. Num extremo podemos localizar as guerras do Afeganist\u00e3o e Iraque, numa zona interm\u00e9dia a L\u00edbia, a S\u00edria ou a Jugosl\u00e1via e, no outro extremo, as chamadas interven\u00e7\u00f5es suaves ou revolu\u00e7\u00f5es coloridas como no Paraguai, Honduras ou Ucr\u00e2nia. Todas elas implicam o desenvolvimento intenso de ac\u00e7\u00f5es violentas no come\u00e7o da opera\u00e7\u00e3o, em algum momento da mesma ou como resultado da vit\u00f3ria imperialista. Mas estas guerras de configura\u00e7\u00e3o vari\u00e1vel n\u00e3o resolvem o problema da domina\u00e7\u00e3o colonial da periferia, o caos instalado entorpece, encarece ou por vezes torna imposs\u00edveis os saqueios sistem\u00e1ticos.<\/p>\n<p>O atalho da <em>Guerra de Quarta Gera\u00e7\u00e3o <\/em>aparece como o que realmente \u00e9: o m\u00e1ximo poss\u00edvel de agress\u00e3o num contexto de debilidade estrat\u00e9gica do agressor cujo resultado \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 a caotiza\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica como tamb\u00e9m a degrada\u00e7\u00e3o interna. As opera\u00e7\u00f5es mafiosas em direc\u00e7\u00e3o ao exterior acabam por consolidar pr\u00e1ticas mafiosas dentro do aparelho dominante do Imp\u00e9rio, onde se propagam as camarilhas parasit\u00e1rias, as tend\u00eancias irracionais, as loucuras elitistas, as rupturas das regras de jogo institucionais.<\/p>\n<p><strong>Come\u00e7o do fim: o mundo depois de 2008-2013 <\/strong><\/p>\n<p>O sex\u00e9nio 2008-2013 marca a transi\u00e7\u00e3o entre o decl\u00ednio relativamente suave e controlado do sistema, iniciado no princ\u00edpio dos anos 1970, e a sua degrada\u00e7\u00e3o geral de que estamos a presenciar os primeiros passos.<\/p>\n<p>A crise desencadeada entre fins dos anos 1960 e princ\u00edpios dos anos 1970 n\u00e3o foi superada como as anteriores, atrav\u00e9s de uma grande onda depressiva destruidora de empregos e empresas que, reduzindo sal\u00e1rios e concentrando a produ\u00e7\u00e3o e a procura solvente, disparava um novo ciclo ascendente da economia. A era das <em>&#8220;crises c\u00edclicas&#8221;, <\/em>descritas por Marx, havia conclu\u00eddo. Ainda que Marx explicasse que essas crises recorrentes iriam acumulando desordem no sistema \u2013 at\u00e9 que as for\u00e7as entr\u00f3picas adquirissem uma dimens\u00e3o tal que j\u00e1 nenhuma reconstru\u00e7\u00e3o capitalista seria poss\u00edvel. Ficava assim prognosticada a crise geral do capitalismo, o esquema te\u00f3rico decorrente da l\u00f3gica da sua din\u00e2mica de acumula\u00e7\u00e3o O que de modo algum podia ser prognosticado era o seu desenvolvimento hist\u00f3rico concreto, seus tempos, seus protagonistas de carne e osso, os atalhos e inova\u00e7\u00f5es sociais que permitiram adiar ou precipitar o desenlace.<\/p>\n<p>A avalia\u00e7\u00e3o prospectiva de Marx era um cen\u00e1rio muito geral que dava cabimento a uma ampla gama de futuros poss\u00edveis. N\u00e3o se tratava de uma profecia apocal\u00edptica na qual se estabelece uma data ou como calcul\u00e1-la, descri\u00e7\u00f5es precisas de actores e coreografia, etc. Mas esse esquema te\u00f3rico permitia a Marx e Engels explicar, por exemplo, que <em>&#8220;dado um certo n\u00edvel de desenvolvimento das for\u00e7as produtiva, surgem for\u00e7as de produ\u00e7\u00e3o e de meios de produ\u00e7\u00e3o tais que nas condi\u00e7\u00f5es existentes provocam cat\u00e1strofes, j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o mais for\u00e7as de produ\u00e7\u00e3o e sim e destrui\u00e7\u00e3o&#8221; <\/em><strong>[2]<\/strong> , o que abria a reflex\u00e3o acerca do car\u00e1cter auto-destrutivo da civiliza\u00e7\u00e3o burguesa na sua etapa decadente mais avan\u00e7ada.<\/p>\n<p>E isso come\u00e7ou a ser ineg\u00e1vel em torno de 2008-2013, ainda que muito antes desse per\u00edodo fossem aparecendo sinais de alerta a respeito \u2013 quase sempre ignorados pelos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o e pelas ci\u00eancias sociais. Quando se referiam a poss\u00edveis desastres ambientais, sanit\u00e1rios ou pol\u00edticos atribu\u00edam-nos a manejos irracionais corrig\u00edveis no interior do sistema. A isso apegaram-se &#8220;a partir da esquerda&#8221; alguns adoradores masoquistas do capitalismo, propondo uma esp\u00e9cie de eterniza\u00e7\u00e3o dos seus ciclos, tentando destacar na crise em curso os <em>sinais <\/em>da pr\u00f3xima recupera\u00e7\u00e3o do sistema. Mas esses sinais eram puras fantasias ou ent\u00e3o ladainhas conservadoras baseadas em que <em>&#8220;sempre&#8221; <\/em>o capitalismo havia conseguido superar suas crises, naturalmente \u00e0 custa dos trabalhadores \u2013 o que normalmente entristecia o audit\u00f3rio (e n\u00e3o muito o orador).<\/p>\n<p>Dentre os variados factores da decad\u00eancia destacam-se dois que s\u00e3o decisivos: a degrada\u00e7\u00e3o (e hipertrofia) financeira e a degrada\u00e7\u00e3o (e hipertrofia) militar.<\/p>\n<p>A partir de 1990 (aproximadamente), enquanto o <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Produto_mundial_bruto\" target=\"_blank\">Produto Mundial Bruto<\/a> vinha decrescendo suavemente em progress\u00e3o aritm\u00e9tica (desde os anos 1970), a massa financeira come\u00e7ou a crescer em progress\u00e3o geom\u00e9trica. Os produtos financeiros derivados, sua espinha dorsal, que nos fins dos anos 1990 representavam umas duas vezes o PBM, em 2008 passaram a representar umas 12 vezes o PBM \u2013 mas a partir da\u00ed a expans\u00e3o estancou e tendeu a decrescer pouco a pouco.<\/p>\n<p>Durante a sua ascens\u00e3o a especula\u00e7\u00e3o financeira foi a muleta parasit\u00e1ria que permitiu aos consumidores, empresas e estados do Primeiro Mundo continuarem a gastar e investir apesar de os rendimentos marginais da avalanche financeira serem decrescentes em termos de crescimento do produto bruto dos pa\u00edses centrais. Cada vez era precisa mais droga financeira para obter cada vez menos expans\u00e3o econ\u00f3mica \u2013 at\u00e9 que finalmente, em 2008, o mecanismo quebrou: o peso financeiro tornou-se insustent\u00e1vel e desencadeou-se um rodopio de aux\u00edlios estatais ao sistema financeiro a fim de impedir a sua derrocada.<\/p>\n<p>Mas estes aux\u00edlios n\u00e3o reactivavam a economia. Apenas travavam a derrocada financeira, fazendo aumentar as d\u00edvidas p\u00fablicas at\u00e9 o ponto de o estado norte-americano ter estado duas vezes \u00e0 beira do incumprimento <em>(default), <\/em>enquanto as d\u00edvidas p\u00fablicas mais as privadas do Jap\u00e3o chegaram em 2013 a 520% do PIB, a 510% na Gr\u00e3-Bretanha, etc. A partir da\u00ed, os aux\u00edlios esgotaram-se e o Primeiro Mundo entrou no que, no melhor dos casos para ele, poderia ser descrito como um longo per\u00edodo de estancamento, recess\u00f5es e crescimentos an\u00e9micos que n\u00e3o devem ser pensados como um planalto de arrefecimento est\u00e1vel da produ\u00e7\u00e3o, do consumo e do emprego e sim como um tobog\u00e3 descendente.<\/p>\n<p>O crescimento zero ou o decl\u00ednio, ainda que suave, significam o aumento tendencial do desemprego e em consequ\u00eancia a entrada num complexo fen\u00f3meno de desintegra\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Por sua vez, a militariza\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos n\u00e3o terminou com o fim da guerra fria. Ap\u00f3s um breve estancamento em fins dos anos 1990 recome\u00e7ou a expans\u00e3o das despesas militares. Foi de tal modo que em 2012 o seu volume real (somando todas as verbas com finalidade militar do estado, n\u00e3o apenas as do Departamento da Defesa) chegou a um n\u00famero equivalente a cerca de 9% do Produto Interno Bruto <strong>[3]<\/strong> . Aquilo que poder\u00edamos considerar como \u00e1rea militar e de seguran\u00e7a deslizou do passado &#8220;cl\u00e1ssico&#8221;, povoado por militares e agentes profissionais de tipo tradicional adstritos directamente \u00e0 administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, para uma nova etapa com participa\u00e7\u00e3o crescente de mercen\u00e1rios, estruturas privadas contratadas pelo estado e uma multid\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e privadas informais oscilando entre a legalidade e a ilegalidade, misturadas com neg\u00f3cios clandestinos (drogas, prostitui\u00e7\u00e3o, tr\u00e1fico de armas, etc). Guerra de Quarta Gera\u00e7\u00e3o, lumpen-burguesia financeira e lumpen-militarismo converteram-se no n\u00facleo duro ideol\u00f3gico f\u00edsico de uma elite imperial degradada que alguns autores assinalam como lumpen-imperialista <strong>[4]<\/strong> .<\/p>\n<p>Mas assim como a mega bolha financeira primeiro escorou o funcionamento do sistema e a seguir converteu-se num salva-vidas de chumbo, a degenera\u00e7\u00e3o militarista-mafiosa e sua doutrina nova surgiram como a t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o de estruturas militares e de intelig\u00eancia ineficazes diante de uma periferia aparentemente pronta a ser devorada mas que lhes escapava das m\u00e3os. Contudo, essas esperan\u00e7as eram ilus\u00f3rias. A \u00fanica coisa que conseguiram foi destruir pa\u00edses, fracassar na tentativa ou ambas as coisas ao mesmo tempo, acumulando despesas e d\u00e9fices fiscais: a criminalidade converge com a estupidez.<\/p>\n<p>A &#8220;transi\u00e7\u00e3o 2008-2013&#8221; significou uma mudan\u00e7a fundamental nas formas da guerra (sua degrada\u00e7\u00e3o radical) que deixou a descoberto o car\u00e1cter da muta\u00e7\u00e3o em curso do conjunto do capitalismo. Em meados dos anos 1950 e fazendo refer\u00eancia \u00e0 ent\u00e3o recente pr\u00e1tica b\u00e9lica nazi, <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Johan_Huizinga\" target=\"_blank\">Johan Huizinga<\/a> assinalava que historicamente a guerra sempre havia feito parte das civiliza\u00e7\u00f5es ou culturas <em>&#8220;uma vez que uma comunidade <\/em>(em guerra) <em>reconhecia a outra <\/em>(contra a qual fazia a guerra) <em>como humana&#8230; e separava claramente e de maneira expressa a guerra da paz, por um lado, e da viol\u00eancia criminosa, por outro. A teoria da guerra total \u2013 destacava o historiador \u2013 renunciou ao \u00faltimo resto l\u00fadico da guerra (ou seja, a toda regra de jogo) e com isso \u00e0 cultura, ao direito e \u00e0 humanidade em geral&#8221; <\/em><strong>[5]<\/strong> .<\/p>\n<p>No meu entender, a ruptura hitleriana em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00e1tica e \u00e0 teoria da guerra, ou seja, a &#8220;guerra total&#8221; e seus genoc\u00eddios, foi uma antecipa\u00e7\u00e3o, um primeiro ensaio em plena crise capitalista do que actualmente surge como <em>Guerra de Quarta Gera\u00e7\u00e3o. <\/em>No primeiro caso tratou-se de uma monstruosidade precoce, pioneirismo &#8220;alem\u00e3o&#8221; mas com antecedentes na cultura mais reaccion\u00e1ria dos Estados Unidos. Autores como Domenico Losurdo estabeleceram de maneira rigorosa as evidentes <a href=\"http:\/\/resistir.info\/eua\/raizes_nazismo_eua.html\" target=\"_blank\">ra\u00edzes ideol\u00f3gicas estado-unidenses do nazismo<\/a> <strong>[6]<\/strong> . Esse desastre exprimia a doen\u00e7a de uma civiliza\u00e7\u00e3o que ainda dispunha de reservas sist\u00e9micas (morais, produtivas, institucionais, etc) para recompor-se e que ainda n\u00e3o havia sofrido uma met\u00e1stase geral. O tumor hitleriano foi extirpado parcialmente e o mal p\u00f4de sobreviver ocultando-se nas sombras \u00e0 espera de uma nova oportunidade. Nos julgamentos de Nuremberga, os crimes de guerra (a viola\u00e7\u00e3o das regras do jogo da guerra moderna) foram condenados selectivamente da maneira difusamente contida.<\/p>\n<p>Em fins dos anos 1930 <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Hermann_Rauschning\" target=\"_blank\">Hermann Rauschning<\/a> escreveu uma obra essencial para entender o funcionamento do fen\u00f3meno: <em>&#8220;La revoluci\u00f3n del nihilismo&#8221;. <\/em>O autor acertou ao assinalar que<em>&#8220;a ess\u00eancia da domina\u00e7\u00e3o nazi \u00e9 o niilismo&#8221;, <\/em>a nega\u00e7\u00e3o simultaneamente criminosa e suicida da realidade humana, mas equivocou-se completamente quando prognosticou que <em>&#8220;esse fanatismo produzido e difundido pela maquinaria do poder \u00e9 t\u00e3o vazio, t\u00e3o artificial e inaut\u00eantico que todo esse gigantesco aparelho poderia ruir de um dia para o outro por causa de um s\u00f3 acontecimento sem deixar qualquer rastro de vida aut\u00f3noma&#8221; <\/em><strong>[7]<\/strong> . Rauschning n\u00e3o soube (ou n\u00e3o quis) aprofundar o bisturi at\u00e9 o fundo, se o fizesse teria sido obrigado a colocar no banco dos r\u00e9us o conservadorismo burgu\u00eas no seu conjunto e, a partir da\u00ed, os aspectos destrutivos (e auto-destrutivos) da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental \u00e0 qual se orgulhava de pertencer.<\/p>\n<p>Agora, quando vemos o cancro fascista propagar-se tranquilamente por toda a Europa ao ritmo da crise, desde o avan\u00e7o irresist\u00edvel da Frente Nacional em Fran\u00e7a at\u00e9 a vit\u00f3ria neonazi na Ucr\u00e2nia, passando pela Holanda, B\u00e9lgica, Cro\u00e1cia, Hungria, os pa\u00edses b\u00e1lticos, Gr\u00e9cia, etc, n\u00e3o podemos deixar de constatar o enraizamento profundo do mesmo n\u00e3o s\u00f3 na trag\u00e9dia dos anos 1920-1930-1950 como tamb\u00e9m em hist\u00f3rias muito mais antigas, em fanatismos religiosos, em genoc\u00eddios coloniais e outras pr\u00e1ticas sociais de grande crueldade (o nazismo cl\u00e1ssico n\u00e3o era superficial nem inaut\u00eantico, fundia suas ra\u00edzes na longa traject\u00f3ria criminal do Ocidente).<\/p>\n<p>Mas o mais significativo e terr\u00edvel foi a reinstala\u00e7\u00e3o sem maiores esc\u00e2ndalos da doutrina hitleriana da guerra total, rebaptizada <em>Guerra de Quarta Gera\u00e7\u00e3o <\/em>e por vezes adocicada como &#8220;golpes gentis&#8221; ou &#8220;suaves&#8221; ou sob a delirante apresenta\u00e7\u00e3o de guerras ou bombardeamentos &#8220;humanit\u00e1rios&#8221;. Agora j\u00e1 n\u00e3o se trata de uma experi\u00eancia pioneira e em certo sentido menos surpreendente, &#8220;anormal&#8221;, e sim de um vale-tudo aceite pelo conjunto das elites imperialistas. O facto de que a forma capitalista de fazer a guerra haja sofrido tal transforma\u00e7\u00e3o est\u00e1 estreitamente vinculado \u00e0 (faz parte da) transforma\u00e7\u00e3o do capitalismo num sistema destruidor de for\u00e7as produtivas estendendo-se ao contexto ambiental com suas terras, mares, montanhas, animais, etc a apontarem para a aniquila\u00e7\u00e3o de todo o patrim\u00f3nio hist\u00f3rico da humanidade, de toda a acumula\u00e7\u00e3o de civiliza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Retorno \u00e0 origem? <\/strong><\/p>\n<p>Poder\u00edamos estabelecer paralelos entre a conjuntura actual e as origens da modernidade. Robert Kurz p\u00f4s em evid\u00eancia as origens militares do capitalismo. Por volta do s\u00e9culo XVI, segundo Kurz, <em>&#8220;n\u00e3o foi a for\u00e7a produtiva e sim, pelo contr\u00e1rio, uma contundente for\u00e7a destrutiva que abriu o caminho \u00e0 moderniza\u00e7\u00e3o, a saber, a inven\u00e7\u00e3o das armas de fogo. A produ\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o dos novos sistemas de armas n\u00e3o eram poss\u00edveis no plano de estruturas locais e descentralizadas que at\u00e9 ent\u00e3o haviam marcado a reprodu\u00e7\u00e3o social, requeriam sim, em diversos planos, uma organiza\u00e7\u00e3o completamente nova da sociedade. As armas de fogo, sobretudo os grandes canh\u00f5es, j\u00e1 n\u00e3o podiam ser produzidas em pequenas oficinas, como as pr\u00e9-modernas armas de ponta e gume. Por isso desenvolveu-se uma ind\u00fastria de armamentos espec\u00edfica, que produzia canh\u00f5es e mosquetes em grandes f\u00e1bricas&#8221; <\/em><strong>[8]<\/strong> .<\/p>\n<p>Um bom exemplo disso \u00e9 a presen\u00e7a em pleno s\u00e9culo XVI do c\u00e9lebre <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Arsenal_de_Veneza\" target=\"_blank\">Arsenal de Veneza<\/a> , f\u00e1brica militar muito admirada na sua \u00e9poca, provavelmente a primeira ind\u00fastria moderna, que inspirou muitos empreendimentos militares e civis posteriores e cuja organiza\u00e7\u00e3o produtiva baseada numa divis\u00e3o eficaz de tarefas esbo\u00e7ava o modelo que v\u00e1rios s\u00e9culos depois, no in\u00edcio da revolu\u00e7\u00e3o industrial, foi descrito por Adam Smith.<\/p>\n<p>Foi efectivamente em torno dos desenvolvimentos militares que se foram gerando redes comerciais e financeiras que permitiam aos pr\u00edncipes e demais senhores da guerra lan\u00e7arem suas aventuras.<\/p>\n<p>As mesmas estavam destinadas \u00e0s lutas intestinas das aristocracias e \u00e0 repress\u00e3o das massas camponesas. Contudo, o seu objectivo principal era a pilhagem da periferia, o que disparou decisivamente e alimentou durante s\u00e9culos a emerg\u00eancia e consolida\u00e7\u00e3o do capitalismo, seus mercados centrais, sua ci\u00eancia, sua arte e sua expans\u00e3o industrial e tecnol\u00f3gica (existe, por exemplo, uma abundante literatura quanto \u00e0 incid\u00eancia da inunda\u00e7\u00e3o de ouro e prata proveniente das col\u00f3nias americanas na transforma\u00e7\u00e3o burguesa da Europa) <strong>[9]<\/strong> .<\/p>\n<p>Foi a alian\u00e7a militar-parasit\u00e1ria, entremeada de mercen\u00e1rios, aristocracia militarizada, comerciantes-bandidos, usur\u00e1rios de alto n\u00edvel, etc que constituiu a plataforma de lan\u00e7amento da conquista da periferia, permitindo que uma relativamente pequena economia guerreira realizasse uma pilhagem desmesurada em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua dimens\u00e3o inicial. No s\u00e9culo XVI o produto bruto do Ocidente apenas superava os 10% do que poder\u00edamos considerar como produto bruto mundial, contra 23%-24% para a China ou 27%-28% para a \u00cdndia <strong>[10]<\/strong> .<\/p>\n<p>Houve uma primeira tentativa: as Cruzadas, quando aproximadamente nos s\u00e9culos XII e XIII os ocidentais lan\u00e7aram uma sucess\u00e3o de invas\u00f5es ao rico Oriente Pr\u00f3ximo, ocupando parte do seu territ\u00f3rio <strong>[11]<\/strong> .<\/p>\n<p>Mas essa coloniza\u00e7\u00e3o fracassou apesar da enorme crueldade aplicada. Os povos invadidos dispunham de uma capacidade militar que lhes permitiu expulsar o invasor por meio do que poder\u00edamos chamar guerra de longa dura\u00e7\u00e3o. A disparidade militar entre invasores e invadidos n\u00e3o foi suficientemente grande para garantir a derrota definitiva das v\u00edtimas.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o foi-se alterando a partir do s\u00e9culo XV e experimentou uma grande viragem no s\u00e9culo XVI, quando o Ocidente adquiriu uma superioridade t\u00e9cnico-militar decisiva sobre o resto do mundo.<\/p>\n<p>A <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Batalha_de_Lepanto\" target=\"_blank\">batalha de Lepanto<\/a> (1571) provou a superioridade t\u00e9cnica ocidental sobre o Imp\u00e9rio Otomano. A efic\u00e1cia do <em>Arsenal de Veneza <\/em>esteve por tr\u00e1s dessa vit\u00f3ria<strong>[12]<\/strong> . Meio s\u00e9culo antes os espanh\u00f3is haviam utilizado sua esmagadora superioridade t\u00e9cnica para arrasar o Imp\u00e9rio Asteca, que n\u00e3o conhecia a p\u00f3lvora nem as armas met\u00e1licas.<\/p>\n<p>Essa superioridade militar do Ocidente n\u00e3o foi produto do acaso, apoiou-se no vertiginoso desenvolvimento da sua ci\u00eancia militar. Durante os s\u00e9culos XV e XVI, a engenharia militar esteve no centro no <em>Renascimento <\/em>europeu, herdava a engenharia militar medieval que por sua vez mantinha v\u00ednculos com a ci\u00eancia militar da antiguidade greco-romana. <a href=\"http:\/\/fr.wikipedia.org\/wiki\/Bertrand_Gille_%28historien%29\" target=\"_blank\">Bertrand Gille<\/a> relata que <em>&#8220;quando em 1328 Felipe V de Valois concebeu o projecto de partir para as cruzadas, Guy de Vigevano converteu-se no seu conselheiro militar e escreveu para o rei um tratado sobre m\u00e1quinas de guerra &#8230; que pode ser considerado como um dos principais antecedentes da ci\u00eancia militar posterior&#8221;. <\/em>Gille destaca que <em>&#8220;certas ilustra\u00e7\u00f5es do tratado apresentam analogias surpreendentes com algumas imagens de antigos manuscritos gregos e romanos&#8221; <\/em>que, junto com outros desenvolvimentos medievais, demonstram segundo o autor uma clara continuidade cient\u00edfico-t\u00e9cnica no tema militar desde a Gr\u00e9cia e Roma at\u00e9 chegar aos s\u00e9culos XV e XVI <strong>[13]<\/strong> .<\/p>\n<p>A continuidade hist\u00f3rica da &#8220;procura&#8221; (o militarismo) para essa ci\u00eancia remonta primeiro \u00e0 Idade M\u00e9dia europeia. Uma das suas caracter\u00edsticas principais foi o sobredimensionamento dos seus dispositivos b\u00e9licos, a excessiva prolifera\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es militares conduzidas por pr\u00edncipes aspirantes a imperadores e titulares de &#8220;imp\u00e9rios&#8221; como Carlos Magno, passando por senhores da guerra de toda dimens\u00e3o, bandos de mercen\u00e1rios, etc. Militarismo feudal entrela\u00e7ado historicamente com a Antiguidade europeia guerreira e imperialista, constatemos s\u00f3 que, como observa James O&#8217;Donnell em rela\u00e7\u00e3o ao imp\u00e9rio romano j\u00e1 em decad\u00eancia: <em>&#8220;depois de chegar ao trono no ano 284 o imperador Diocleciano e seus sucessores puderam restaurar as fronteiras romanas e a ordem romana multiplicando por cinco ou dez o n\u00famero de soldados e funcion\u00e1rios. Diocleciano aumentou o n\u00famero de soldados para 400 mil e mais tarde chegou a alcan\u00e7ar os 650 mil&#8221; <\/em><strong>[14]<\/strong> .<\/p>\n<p>No seu livro &#8220;Matan\u00e7a e cultura&#8221; <strong>[15]<\/strong> <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Victor_davis_hanson\" target=\"_blank\">Victor Hanson<\/a> desenvolve a longa traject\u00f3ria belicista do Ocidente e, ao referir-se \u00e0s suas vit\u00f3rias militares do s\u00e9culo XVI, assinala que <em>&#8220;o dinamismo militar europeu era um cont\u00ednuo da Antiguidade cl\u00e1ssica, n\u00e3o uma consequ\u00eancia casual da idade da p\u00f3lvora e do descobrimento do Novo Mundo&#8230; desde a Gr\u00e9cia at\u00e9 o presente&#8230; as afinidades demonstradas pelas sociedades ocidentais na sua <strong>forma de fazer a guerra <\/strong>tornam-se assombrosamente duradouras&#8221; <\/em>e acrescenta a seguir: <em>&#8220;as falanges maced\u00f3nias, tal como o ex\u00e9rcito de Cortes, a frota crist\u00e3 que combateu em Lepanto e a companhia de fuzileiros brit\u00e2nicos que defendeu <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Battle_of_Rorke%27s_Drift\" target=\"_blank\">Rorque&#8217;s Drift<\/a> <\/em>(1879, \u00c1frica, as tropas coloniais foram derrotadas pelos zulus) <em>dispunham de um armamento muito superior ao dos seus advers\u00e1rios&#8221;. <\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o se trata s\u00f3 de superioridade t\u00e9cnica e sim da extrema crueldade na sua <em>&#8220;forma de fazer a guerra&#8221;, <\/em>o que leva o autor (apesar da sua admira\u00e7\u00e3o para com o Ocidente) a assinalar que: <em>&#8220;alguns estudiosos equiparam Alexandre Magno a C\u00e9sar&#8230; ou a Napole\u00e3o, com os quais compartilhava sua vontade de ferro, seu g\u00e9nio militar inato e a busca de um imp\u00e9rio mais poderoso do que os recursos naturais da sua terra nativa permitia. Alexandre, com efeito, mant\u00e9m afinidades com eles, mas com ningu\u00e9m se parece mais que com Adolf Hitler&#8221;. <\/em>O paralelo inevit\u00e1vel entre as falanges gregas, as legi\u00f5es romanas, os cruzados, as tropas coloniais espanholas, inglesas, francesas e os ex\u00e9rcitos hitlerianos estabelece o fio condutor &#8220;ocidental&#8221; de uma longa sucess\u00e3o de guerras, conquistas e matan\u00e7as.<\/p>\n<p>A acumula\u00e7\u00e3o primitiva do capitalismo baseou-se, com \u00eaxito, no saqueio desmesurado da periferia e com recursos naturais gigantescos, relativamente <em>&#8220;infinitos&#8221; <\/em>dado o n\u00edvel t\u00e9cnico e a capacidade de rapina dos imperialistas europeus daquele tempo. Mas essa desmesura \u00e9 imposs\u00edvel actualmente, o planeta \u00e9 demasiado pequeno para as necessidades do que seria um novo processo de acumula\u00e7\u00e3o capaz de potenciar o parasitismo ocidental at\u00e9 gerar uma esp\u00e9cie de super-capitalismo global.<\/p>\n<p>As pot\u00eancias centrais s\u00e3o suficientemente grandes para destruir o planeta (o que significaria sua auto-destrui\u00e7\u00e3o) e \u00e9 por isso, por causa do seu gigantismo, que n\u00e3o se podem salvar, iniciar um novo ciclo ascendente devorando recursos humanos e naturais, ainda que para sobreviver como imp\u00e9rio precisem alimentar-se das suas v\u00edtimas. Isto assinala uma diferen\u00e7a qualitativa essencial com o que ocorreu h\u00e1 cinco s\u00e9culos. Agora a viol\u00eancia imperialista n\u00e3o \u00e9 a de um monstro vigoroso, na sua inf\u00e2ncia ou juventude, e sim a de um monstro velho e obeso.<\/p>\n<p><strong>Ocidente <\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 preciso associar conceitos artificialmente dissociados como <em>&#8220;civiliza\u00e7\u00e3o ocidental&#8221;, &#8220;civiliza\u00e7\u00e3o burguesa&#8221;, &#8220;Imp\u00e9rio&#8221; <\/em>(ocidental) e <em>&#8220;capitalismo&#8221;. <\/em>O capitalismo surge como um fen\u00f3meno hist\u00f3rico com ra\u00edzes geogr\u00e1ficas ocidentais bem delimitadas que carregavam uma pesada heran\u00e7a cultural espec\u00edfica. O Ocidente emergiu como um empreendimento imperialista colectivo, agrupando v\u00e1rios estados, expandindo-os globalmente e ao mesmo tempo envolvidos em ferozes disputas intestinas. A unifica\u00e7\u00e3o chegou, ap\u00f3s um longo percurso de muitos s\u00e9culos, no final da Segunda Guerra Mundial sob o comando de uma super-pot\u00eancia n\u00e3o europeia: os Estados Unidos.<\/p>\n<p>O irromper da guerra de 1914, mas especialmente a ruptura russa de 1917, assinalou o in\u00edcio do decl\u00ednio ocidental \u2013 ainda que a tend\u00eancia tenha parecido reverter-se nos anos 1990 com o derrube da URSS e em certo sentido, antes, a partir da reconvers\u00e3o capitalista da China. Mas n\u00e3o foi assim, da desintegra\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica ap\u00f3s uma d\u00e9cada de desastres surgiu a R\u00fassia como pot\u00eancia militar-energ\u00e9tica cada vez mais aut\u00f3noma ainda que mantendo la\u00e7os comerciais e financeiros estreitos com o Ocidente e do aburguesamente chin\u00eas n\u00e3o nasceu um pa\u00eds subdesenvolvido d\u00f3cil aos interesses norte-americanos como a \u00cdndia ou o M\u00e9xico e sim uma pot\u00eancia perif\u00e9rica tamb\u00e9m com importantes margens de autonomia.<\/p>\n<p>A deteriora\u00e7\u00e3o geral da domina\u00e7\u00e3o ocidental, da sua hierarquia imperialista, ou seja, do capitalismo como sistema mundial, engendrou o fen\u00f3meno da <em>despolariza\u00e7\u00e3o, <\/em>do descontrole perif\u00e9rico. A China e a R\u00fassia mas tamb\u00e9m o Ir\u00e3o, e os jogos mais ou menos independentes de alguns estados <em>&#8220;progressistas&#8221; <\/em>da Am\u00e9rica Latina ilustram o processo. Os b\u00e1rbaros do s\u00e9culo XXI organizam-se sem tutela romana ou a negociarem com a Roma moderna j\u00e1 n\u00e3o como simples vassalos, mas essa Roma n\u00e3o pode reproduzir-se como tal, seu parasitismo n\u00e3o pode sobreviver sem os tributos crescentes dos seus s\u00fabditos perif\u00e9ricos, necessita cada vez mais sangue das suas v\u00edtimas (petr\u00f3leo barato, l\u00edtio, ouro, cobre, sal\u00e1rios miser\u00e1veis, maiores vantagens comerciais, mega-transfer\u00eancias financeiras, etc) enquanto as v\u00edtimas v\u00e3o encontrando caminhos para reduzir a pilhagem gra\u00e7as precisamente ao enfraquecimento do parasita (o que n\u00e3o impede em certos casos que b\u00e1rbaros pilhem-se entre si).<\/p>\n<p>Algumas precis\u00f5es podem nos ajudar a entender melhor o que est\u00e1 a ocorrer.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, o facto de que a consolida\u00e7\u00e3o dos estados burgueses centrais tem estado (e continua a estar) estreitamente associada \u00e0 expans\u00e3o e consolida\u00e7\u00e3o colonial, \u00e0 extrac\u00e7\u00e3o maci\u00e7a de riquezas da periferia, permitiu e continua a permitir a integra\u00e7\u00e3o das sociedades centrais e a perman\u00eancia do seu guardi\u00e3o estatal-militar. O fim ou o enfraquecimento grave da referida explora\u00e7\u00e3o assinalaria o eclipse desses estados e das suas bases sociais.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, a comprova\u00e7\u00e3o de que o capitalismo \u00e9 um sistema baseado num encadeamento de hierarquias fortemente autorit\u00e1rias, desde a empresa em ascens\u00e3o at\u00e9 chegar ao centro do poder mundial atrav\u00e9s de uma complexa articula\u00e7\u00e3o de estados, grupos econ\u00f3micos, institui\u00e7\u00f5es internacionais, meios de comunica\u00e7\u00e3o, etc. A hierarquia imperialista do capitalismo \u00e9 inerente ao mesmo, \u00e9 a sua forma hist\u00f3rica, concreta, de reprodu\u00e7\u00e3o. Nunca foi uma articula\u00e7\u00e3o pac\u00edfica e sim um conjunto violento e inst\u00e1vel onde a autoridade \u00e9 ganha e conservada com guerra, press\u00f5es, armadilhas, etc. Mas at\u00e9 ao fim da Segunda Guerra Mundial essa hierarquia jamais p\u00f4de estruturar-se em torno de um \u00fanico centro estatal, super-imperialista, de poder. Desde o in\u00edcio da moderniza\u00e7\u00e3o e sua sombra colonial encontramo-nos perante sucessivas rivalidades e guerras inter-imperialistas.<\/p>\n<p>A fantasia da globaliza\u00e7\u00e3o regida por uma s\u00f3 pot\u00eancia mundial, apesar de insinuar concretizar-se nos long\u00ednquos anos 1990, foi-se desvanecendo na d\u00e9cada seguinte. A submiss\u00e3o da Europa e do Jap\u00e3o \u00e0 chefia estado-unidense continua a basear-se na degrada\u00e7\u00e3o de ambos os s\u00f3cios menores; factos recentes como os da L\u00edbia, S\u00edria e Ucr\u00e2nia s\u00e3o bons exemplos disso. Mas acontece que o chefe imperial tamb\u00e9m se degrada, o que introduz a incerteza quanto ao futuro dessa converg\u00eancia central. Pelo seu lado, a periferia vai-se descontrolando precisamente quando mais necess\u00e1rio \u00e9 o seu controle (super-explora\u00e7\u00e3o) para a reprodu\u00e7\u00e3o do parasita. Em consequ\u00eancia o imp\u00e9rio enfurece-se, desespera-se, resgata toda a sua mem\u00f3ria racista n\u00e3o s\u00f3 para expulsar ou reduzir \u00e0 escravid\u00e3o os <em>intrusos perif\u00e9ricos <\/em>que se instalam nos territ\u00f3rios imperiais como tamb\u00e9m para converter seus pa\u00edses de origem em zonas de ca\u00e7a livre.<\/p>\n<p>Esta \u00faltima etapa ilumina toda a hist\u00f3ria anterior do sistema, destr\u00f3i seus mitos decisivos, deixa a descoberto sua falsidade essencial. Sobretudo o mito do capitalismo como progresso, como etapa superior na sucess\u00e3o de civiliza\u00e7\u00f5es, ou seja, como a mais potente nega\u00e7\u00e3o da barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>Boa parte das ideologias anti-capitalistas dos s\u00e9culos XIX e XX apresentavam a supera\u00e7\u00e3o do capitalismo como uma esp\u00e9cie de continuidade a um n\u00edvel superior, de nega\u00e7\u00e3o inicial, revolucion\u00e1ria, apoiada nos \u00eaxitos <em>&#8220;positivos&#8221; <\/em>do velho mundo (o projecto de ruptura albergava condicionamentos culturais que asseguravam a reprodu\u00e7\u00e3o de aspectos decisivos da civiliza\u00e7\u00e3o burguesa).<\/p>\n<p>Mas a degenera\u00e7\u00e3o em curso desse sistema retira o v\u00e9u ideol\u00f3gico e mostra o seu verdadeiro rosto. Os feitos aparentemente positivos da sua tecnologia (em que o cap\u00edtulo militar \u00e9 decisivo) surgem inscritos num contexto de conquistas coloniais com centenas de milh\u00f5es de assassinatos, com liquida\u00e7\u00f5es de cria\u00e7\u00f5es culturais, qualificadas com desprezo como atraso ou subdesenvolvimento, depredando at\u00e9 \u00e0 extin\u00e7\u00e3o uma ampla variedade de recursos naturais.<\/p>\n<p>Podemos incluir um pequeno acrescento entre par\u00eanteses \u00e0 c\u00e9lebre express\u00e3o de Voltaire para afirmar que a civiliza\u00e7\u00e3o (burguesa) n\u00e3o suprimiu a barb\u00e1rie e sim que a aperfei\u00e7oou. O capitalismo n\u00e3o deve ser assumido como uma etapa em \u00faltima inst\u00e2ncia positiva na marcha do progresso humano e sim como uma desgra\u00e7a, como um desastre, uma degenera\u00e7\u00e3o cuja n\u00e3o exist\u00eancia teria evitado numerosas trag\u00e9dias. O balan\u00e7o hist\u00f3rico da sua evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 globalmente negativo, muitos dos seus progressos cient\u00edficos e tecnol\u00f3gicos teriam sido obtidos seguindo provavelmente outros ritmos e caminhos mas em contextos sociais menos terr\u00edveis.<\/p>\n<p>Hegel, nas suas li\u00e7\u00f5es de filosofia da hist\u00f3ria, estabelecia que o desenvolvimento da liberdade, componente da marcha da <em>Civiliza\u00e7\u00e3o <\/em>entendida como encadeamento de civiliza\u00e7\u00f5es, como a evolu\u00e7\u00e3o do progresso universal, nascia penosamente no Oriente (ou seja, na periferia) para realizar-se integralmente no Ocidente com a vit\u00f3ria mundial da sua civiliza\u00e7\u00e3o, da modernidade burguesa <strong>[16]<\/strong> . A soberba euroc\u00eantrica impedia-o de perceber que a liberdade perif\u00e9rica (embrion\u00e1ria, em desenvolvimento) havia sido arrasada, abortada, liquidada por um Ocidente parasit\u00e1rio e depredador concretizando a maior matan\u00e7a da hist\u00f3ria humana e sua civiliza\u00e7\u00e3o sanguin\u00e1ria s\u00f3 podia afirmar-se repetidamente por meio da for\u00e7a bruta, dos seus dispositivos militares contra os povos oprimidos da periferia (e quando foi necess\u00e1rio tamb\u00e9m contra suas pr\u00f3prias popula\u00e7\u00f5es como o demonstrou o fascismo europeu do s\u00e9culo XX, agora em pleno renascimento).<\/p>\n<p>A subestima\u00e7\u00e3o, o desprezo ocidental, sua vis\u00e3o desumanizante das culturas perif\u00e9ricas, constitui uma pe\u00e7a chave da sua ideologia imperial estruturada durante muitos s\u00e9culos de saqueio. A animaliza\u00e7\u00e3o da imagem do homem do &#8220;resto do mundo&#8221; fez parte da constru\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica que facilitou ao colonizador do Ocidente a realiza\u00e7\u00e3o dos grandes genoc\u00eddios legitimados como obra civilizadora. A ignor\u00e2ncia ou desprezo das riquezas culturais da periferia, da criatividade das suas bases sociais, do potencial de autonomia das suas comunidades camponesas n\u00e3o s\u00f3 armadilhou o c\u00e9rebros das elites ocidentais como tamb\u00e9m uma boa parte dos seus inimigos internos. Foi assim que Gramsci p\u00f4de chegar a afirmar que na velha periferia pr\u00e9 capitalista <em>&#8220;o Estado era tudo, a sociedade civil era primitiva e gelatinosa&#8221; <\/em>ao passo que no Ocidente existia uma robusta sociedade civil <strong>[17]<\/strong> o que n\u00e3o permite explicar como fizeram, por exemplo, as popula\u00e7\u00f5es andinas da Am\u00e9rica para sobreviver culturalmente ao genoc\u00eddio inicial da conquista seguido por mais de cinco s\u00e9culos de opress\u00e3o e pilhagem ocidental, ou outras proezas culturais dos perif\u00e9ricos da \u00c1sia e da \u00c1frica.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio entender que o decl\u00ednio em curso do mundo ocidental se converte em degenera\u00e7\u00e3o do seu tecido ideol\u00f3gico e econ\u00f3mico planet\u00e1rio, ou seja, do capitalismo como totalidade universal. Desde os anos 1970 sucederam-se as ilus\u00f5es quanto \u00e0s emerg\u00eancias capitalistas n\u00e3o ocidentais, desde o milagre japon\u00eas, passando pelos tigres e drag\u00f5es da \u00c1sia (Coreia do Sul, Formosa, etc) at\u00e9 chegar \u00e0 China. Em todos esses casos era evidente que as expans\u00f5es industriais exportadoras que lideravam os desenvolvimentos <em>&#8220;milagrosos&#8221;<\/em>se apoiavam nas necessidades dos mercados ocidentais ou de mercados perif\u00e9ricos fortemente dependentes dessas procuras. Em consequ\u00eancia, a deteriora\u00e7\u00e3o dos referidos mercado golpeia os capitalismos n\u00e3o ocidentais. Al\u00e9m disso, factos como a hipertrofia globalizada das redes financeiras estabeleciam um s\u00f3 espa\u00e7o mundial estreitamente intercomunicado. Portanto, a imposs\u00edvel desfinanciariza\u00e7\u00e3o do capitalismo constitui um bloqueio comum do qual n\u00e3o podem escapar nem o centro nem a periferia. Esta \u00faltima, al\u00e9m disso, quando embarca na prosperidade burguesa fica submetida ao modelo consumista, \u00e0s pautas ideol\u00f3gicas ocidentais que t\u00eam efeito destrutivo devastador (familiar, comunit\u00e1rio, ambiental).<\/p>\n<p>Em meados de 2008, em plena explos\u00e3o financeira, <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Richard_N._Haass\" target=\"_blank\">Richard Haass<\/a> , presidente do Council on Foreign Relations dos Estados Unidos, publicou um artigo onde lan\u00e7ava o sinal de alarme: a unipolaridade estava condenada \u00e0 morte e n\u00e3o tendia a ser substitu\u00edda pela multipolaridade, estava come\u00e7ando a emergir um mundo n\u00e3o polarizado que o autor carregava de imagens ca\u00f3ticas <strong>[18]<\/strong> . Haass percebia que o fim da hierarquia imperialista, unipolar desde 1991 e multipolar em toda a hist\u00f3ria anterior do sistema (inclu\u00eddo o per\u00edodo de auge do imp\u00e9rio brit\u00e2nico) podia chegar a ser uma esp\u00e9cie de <em>&#8220;fim do mundo&#8221;, <\/em>de ruir da &#8220;civiliza\u00e7\u00e3o&#8221;, ou seja, de desarticula\u00e7\u00e3o do capitalismo como cultura universal e naturalmente adiantava algumas medidas correctivas que permitiriam atenuar o suposto desastre.<\/p>\n<p>Haass tinha raz\u00e3o quando advertia que a n\u00e3o polaridade albergava o fantasma do fim da <em>&#8220;civiliza\u00e7\u00e3o&#8221; <\/em>(burguesa). George W. Bush e depois Barack Obama tentaram impedir esse futuro introduzindo correctivos militares que acabaram por agravar a enfermidade do imp\u00e9rio propagando o caos onde lhes foi poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Por sua vez, pot\u00eancias perif\u00e9ricas como a R\u00fassia e a China n\u00e3o est\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es de reordenar, no sentido burgu\u00eas do termo, a desordem causada pela decad\u00eancia ocidental atrav\u00e9s do desenvolvimento de novos espa\u00e7os capitalistas hierarquizado em substitui\u00e7\u00e3o dos velhos espa\u00e7os agonizantes. N\u00e3o s\u00e3o for\u00e7as <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Sintropia\" target=\"_blank\">negentr\u00f3picas<\/a> do sistema e sim zonas capitalistas resistentes submersas, tamb\u00e9m elas, na decad\u00eancia global. Tentam travar as bofetadas do imp\u00e9rio contra os seus interesses, mas ao resistir, revidar ou avan\u00e7ar sobre os flancos d\u00e9beis do advers\u00e1rio contribuem para a <em>&#8220;desordem&#8221; <\/em>geral, bloqueiam as tentativas de recomposi\u00e7\u00e3o do dom\u00ednio ocidental do mundo e desse modo agravam a degenera\u00e7\u00e3o global do capitalismo.<\/p>\n<p><strong>A insurg\u00eancia global como necessidade hist\u00f3rica <\/strong><\/p>\n<p>As elites dominantes da China e da R\u00fassia, tamb\u00e9m as do Brasil, \u00cdndia ou Ir\u00e3o, acreditam na possibilidade de desenvolverem seus capitalismos nacionais, fazem o que podem para n\u00e3o afundarem no desastre ao qual o Ocidente as quer condenar. Mas o car\u00e1cter global, profundamente inter-relacionado do sistema de que fazem parte, condiciona suas ast\u00facias.<\/p>\n<p>Todos esses trope\u00e7\u00f5es e empurr\u00f5es entre o centro e a periferia contribuem para criar um panorama global rarefeito que a qualquer momento pode redundar em guerras e situa\u00e7\u00f5es pr\u00e9 b\u00e9licas a n\u00edvel regional, amea\u00e7ando por vezes transformar-se em confronta\u00e7\u00f5es mundiais como ocorreu em 2013 devido \u00e0 situa\u00e7\u00e3o s\u00edria e em 2014 com a ucraniana.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Karl_Polanyi\" target=\"_blank\">Karl Polanyi<\/a> descrevia a longa <em>&#8220;pax europea&#8221; <\/em>(salpicada de conflictos menores) que vigorou desde o fim das guerras napole\u00f3nicas at\u00e9 1914, resultado segundo ele do papel harmonizador, apaziguador de conflitos, cumprido por alguns factores ocultos dentre os quais destacava a <em>&#8220;haute finance&#8221;, <\/em>os c\u00edrculos financeiros europeus mais elevados que, pondo-se acima dos interesses pol\u00edticos e nacionais, amarravam compromissos, neg\u00f3cios atravessando pa\u00edses e consequentemente acalmando as disputas inter-imperialistas <strong>[19]<\/strong> .<\/p>\n<p>Mas Polanyi s\u00f3 olhava a superf\u00edcie do fen\u00f3meno. Na realidade os neg\u00f3cios da &#8220;haute finance&#8221; fundavam-se na vertiginosa acumula\u00e7\u00e3o de capitais proveniente principalmente da rapina imperialista do mundo, um de cujos pilares essenciais era a ac\u00e7\u00e3o dos estados ocidentais, o desenvolvimento dos seus aparelhos militares (fonte decisiva de neg\u00f3cios) e da consequentes megalomanias &#8220;patri\u00f3ticas&#8221; das respectivas burguesias nacionais rivais. Polanyi assinala que <em>&#8220;os Rothschild n\u00e3o estavam sujeitos a um governo; como uma fam\u00edlia, incorporavam o princ\u00edpio abstracto do internacionalismo; sua lealdade era entregue a uma firma, cujo cr\u00e9dito se havia convertido na \u00fanica conex\u00e3o supranacional entre o governo pol\u00edtico e o esfor\u00e7o industrial numa economia mundial que crescia com rapidez&#8221; <\/em><strong>[20]<\/strong> . Na realidade o papel <em>&#8220;pacificador&#8221; <\/em>dos Rothschild fazia parte de um jogo duplo perigoso mas muito rent\u00e1vel. Por um lado excitavam as bestas alentando suas ambi\u00e7\u00f5es (e de imediato entregavam-lhes a conta) e por outro acalmavam-nos quando amea\u00e7avam fazer um desastre. Mas essa sucess\u00e3o de excitantes e calmantes aplicadas a bestas que absorviam drogas cada vez mais fortes terminou como tinha que terminar: com uma gigantesca explos\u00e3o (Agosto de 1914).<\/p>\n<p>Transferindo-nos para o mundo actual \u00e9 necess\u00e1rio afirmar que a globaliza\u00e7\u00e3o dos neg\u00f3cios n\u00e3o estabelece um manto transnacional pacificador e sim exactamente o contr\u00e1rio, sobretudo nos centros globais de poder pol\u00edtico-militar incentivando megalomanias criminosas.<\/p>\n<p>\u00c9 no interior do sistema global decadente que se desenvolvem as ilus\u00f5es, esperan\u00e7as e rebeldias da periferia. A ilus\u00e3o de assegurar capitalismos aut\u00f3nomos sob as bandeiras da restaura\u00e7\u00e3o da &#8220;identidade russa&#8221; ou do &#8220;socialismo de mercado&#8221; chin\u00eas ou de um socialismo a meias como na Venezuela ou de uma sociedade baseada no isl\u00e3o como no Ir\u00e3o ou de capitalismos &#8220;progressistas&#8221; como no Brasil, Argentina ou Equador. Mas tamb\u00e9m a resist\u00eancia ao invasor no Afeganist\u00e3o ou na L\u00edbia at\u00e9 chegar \u00e0 guerra prolongada pelo socialismo das FARC na Col\u00f4mbia, aos protestos sociais na Europa, etc. Esse grande quebra-cabe\u00e7as n\u00e3o constitui uma insurg\u00eancia global nem muito menos um movimento em vias de articula\u00e7\u00e3o e sim um processo sumamente heterog\u00e9neo onde se apresentam erup\u00e7\u00f5es ef\u00e9meras, ciclos de longa dura\u00e7\u00e3o, tentativas de desenvolvimento capitalista relativamente aut\u00f3nomo, rebeli\u00f5es anti-capitalistas, etc que podem ser vistos de diferentes maneiras. Uma delas \u00e9 a de uma grande turbul\u00eancia perif\u00e9rica que se vai expandindo em meio a contradi\u00e7\u00f5es de todo tipo a anunciarem ao mesmo tempo cen\u00e1rios futuros de insurg\u00eancia popular contra o sistema e o seu contr\u00e1rio: o afundamento em degrada\u00e7\u00f5es prolongadas.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse espa\u00e7o complexo no qual as pot\u00eancias ocidentais tentam arrasar, isolar, demonizar, triturar, que se reproduz um gigantesco proletariado universal, v\u00e1rios milhares de milh\u00f5es de camponeses, oper\u00e1rios, marginais, comerciantes miser\u00e1veis, etc condenados \u00e0 morte ou \u00e0 sobreviv\u00eancia infra-humana pela din\u00e2mica decadente do sistema. Constituem uma realidade plural que se op\u00f5e naturalmente \u00e0 homogeneiza\u00e7\u00e3o escravizante do Ocidente tentando preservar e\/ou construir identidades, espa\u00e7os de liberdade, sobreviver, viver dignamente.<\/p>\n<p>Os pr\u00f3ximos anos dir\u00e3o se a partir dessa massa prolet\u00e1ria irrompe a insurg\u00eancia global que desdobrando-se na sua pluralidade ir\u00e1 convergindo na segunda ofensiva contra o imp\u00e9rio. A primeira ocorreu no s\u00e9culo XX a partir da Revolu\u00e7\u00e3o Russa, convertendo-se numa rebeli\u00e3o global que se prolongou durante cerca de seis d\u00e9cadas abarcando desde a China at\u00e9 Cuba, passando pela Arg\u00e9lia, Vietname, Nicar\u00e1gua.<\/p>\n<p>H\u00e1 meio s\u00e9culo estavam na moda na Europa ocidental autores que denunciavam a perda de hegemonia da regi\u00e3o, superada por superpot\u00eancias extra-regionais como a URSS, os Estados Unidos ou o Jap\u00e3o. Um desses textos, de grande \u00eaxito editorial, foi <em>&#8220;El rapto de Europa&#8221; <\/em><strong>[21]<\/strong> de Luis Diez del Corral. Sua tese era que na\u00e7\u00f5es extra europeias estavam a roubar \u00e0 Europa, ou j\u00e1 haviam roubado, sua maior cria\u00e7\u00e3o cultural: a modernidade.<\/p>\n<p>Deslumbrado pelo mito grego, o autor n\u00e3o reflectiu o suficiente acerca do seu significado hist\u00f3rico: Zeus rapta Europa, princesa do Oriente Pr\u00f3ximo enganada pelo deus que mimetizado como touro a induz a mont\u00e1-lo, do que se aproveita para sequestr\u00e1-la e lev\u00e1-la \u00e0 sua ilha. A origem do Ocidente hist\u00f3rico \u00e9 o engano e o roubo. Seu pr\u00f3prio nome, Europa, \u00e9 o de trof\u00e9u, produto do roubo. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, se o mundo n\u00e3o ocidental se apropriasse da modernidade ocidental n\u00e3o estaria a fazer outra coisa sen\u00e3o recuperar o capital mais os juros das riquezas que o ladr\u00e3o lhe havia sacado durante s\u00e9culos: ouro, prata, petr\u00f3leo, cereais, centenas de milh\u00f5es de vidas humanas. Na realidade, o planeta hoje est\u00e1 completamente modernizado. Para uns (o centro do mundo) isso significa desenvolvimento capitalista, poder, privil\u00e9gios, ao passo que para o resto do mundo quer dizer subdesenvolvimento capitalista, mis\u00e9ria, frustra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>De qualquer forma, a <em>&#8220;apropria\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica da modernidade&#8221; <\/em>\u00e9 um anzol envenenado, \u00e9 a ilus\u00e3o de reproduzir os supostos \u00eaxitos culturais da civiliza\u00e7\u00e3o burguesa de modo independente ou a enfrentar o Ocidente. Quando o escravo imita o amo ou pretende regenerar sua comunidade adoptado-adaptando seus fundamentos ideol\u00f3gicos, o que consegue \u00e9 bloquear a criatividade revolucion\u00e1ria da sua base social. Como o demonstra a experi\u00eancia hist\u00f3rica do s\u00e9culo XX <strong>[22]<\/strong> , quando acredita ter encontrado o fio de Ariadne que lhe permitir\u00e1 sair do labirinto, aferra-se ao mesmo e marcha triunfalmente rumo \u00e0 sa\u00edda&#8230; Na realidade agarrou a cauda do diabo o qual, astutamente, o conduz rumo a paragens ainda mais sinistras.<\/p>\n<p>Mas a modernidade entrou no estado de decrepitude e a liberta\u00e7\u00e3o das suas v\u00edtimas centrais e perif\u00e9ricas s\u00f3 pode ser alcan\u00e7ada por meio da nega\u00e7\u00e3o absoluta do capitalismo, sua completa destrui\u00e7\u00e3o, para a partir das suas cinzas construir um mundo novo. Nada autoriza a supor que essa proeza \u2013 a maior da hist\u00f3ria humana \u2013 seja inevit\u00e1vel. A regenera\u00e7\u00e3o p\u00f3s capitalista \u00e9 historicamente necess\u00e1ria ainda que n\u00e3o constitua um fen\u00f3meno inexor\u00e1vel imposto por supostas leis da hist\u00f3ria. Trata-se de uma tarefa que exige um gigantesco esfor\u00e7o voluntarista animado por ideias resultantes de pr\u00e1ticas insurgentes, rebeldias mais ou menos radicalizadas, ensaios, erros, fracassos, \u00eaxitos ef\u00e9meros ou duradouros.<\/p>\n<p><strong>Notas <\/strong><\/p>\n<p>[1] As decad\u00eancias de civiliza\u00e7\u00f5es anteriores e as reflex\u00f5es contempor\u00e2neas sobre as mesmas, na medida em que conseguiam uma vis\u00e3o de certa amplitude associavam as referidas decad\u00eancias com futuras renova\u00e7\u00f5es ou instala\u00e7\u00f5es de novas civiliza\u00e7\u00f5es no mesmo territ\u00f3rio. A n\u00edvel mundial, enquanto uma civiliza\u00e7\u00e3o deca\u00eda outras permaneciam ou emergiam. Agora, dado o potencial auto-destrutivo do capitalismo global, surge a possibilidade hist\u00f3rica do <em>&#8220;fim da hist\u00f3ria&#8221; <\/em>n\u00e3o no sentido id\u00edlico (sinistro) do mundo liberal feliz que Francis Fukuyama nos propunha h\u00e1 algumas d\u00e9cadas e sim como desastre universal.<\/p>\n<p>[2] Marx e Engels, &#8220;La ideolog\u00eda alemana&#8221;, Ediciones Progreso, Mosc\u00fa, 1974.<\/p>\n<p>[3] Em 2012 as despesas do Departamento da Defesa chegaram a cerca de US%700 mil milh\u00f5es. Se \u00e0s mesmas forem adicionadas as despesas militares que aparecem integradas (dilu\u00eddas ou ocultas) em outras \u00e1reas do Or\u00e7amento (Departamento de Estado, USAID, Departamento da Energia, CIA e outras ag\u00eancias de seguran\u00e7a, pagamentos de juros, etc) alcan\u00e7ar-se-ia um n\u00famero pr\u00f3ximo dos US$1,3 milh\u00f5es de milh\u00f5es. Esse n\u00famero equivale a 50% das receitas or\u00e7amentais previstas ou 100% do d\u00e9fice or\u00e7amental. Essas despesas representaram quase 60% das despesas militares globais e se lhes somarmos as dos seus s\u00f3cios da NATO e de alguns pa\u00edses vassalos extra-NATO como a Ar\u00e1bia Saudita, Israel, Col\u00f4mbia ou Austr\u00e1lia estar\u00edamos entre 75% e 80% da despesa global (Ref: Jorge Beinstein, &#8220;Capitalismo del Siglo XXI. Militarizaci\u00f3n y decadencia&#8221;, Ed. Cartago, Buenos Aires 2013).<\/p>\n<p>[4] Narciso Isa Conde, <a href=\"http:\/\/www.aporrea.org\/a49620.html\" target=\"_blank\">Estados neoliberales y delincuentes<\/a> , Aporrea, 20\/01\/2008,<\/p>\n<p>(5) Johan Huizinga, &#8220;Homo ludens&#8221; (1954), Emec\u00e9 Editores, Buenos Aires, 1968.<\/p>\n<p>[6] Domenico Losurdo, &#8220;Las raices norteamericanas del nazismo&#8221;, Enfoques Alternativos, n\u00ba 27, Octubre de 2006, Buenos Aires.<\/p>\n<p>[7] Hermann Rauschning, &#8220;La r\u00e9volution du nihilisme&#8221;, Gallimard, Paris, 1980.<\/p>\n<p>[8] Robert Kurz, <em><a href=\"http:\/\/www.oocities.org\/pimientanegra2000\/kurz_origen_destructivo_capitalismo.htm\" target=\"_blank\">Los or\u00edgenes destructivos del capitalismo<\/a> <\/em>, 1997,<\/p>\n<p>[9] Em outros textos apresentei um conceito de Anouar Abdel Malek, no meu entender essencial para compreender o fen\u00f3meno. Trata-se do <strong>&#8220;excedente hist\u00f3rico&#8221; <\/strong>acumulado durante s\u00e9culos pelo Ocidente em resultado de um saqueio universal sem precedentes, um patrim\u00f3nio imperialista baseado na destrui\u00e7\u00e3o do contexto ambiental e de civiliza\u00e7\u00f5es de todos os continentes (Anouar Abdel Malek, &#8220;Political Islam&#8221;, Socialism in the World, Number 2, Beograd 1978.<\/p>\n<p>[10] Angus Maddison,&#8221;The World Economy: Historical Statistics&#8221;, OECD 2003.<\/p>\n<p>[11] Ren\u00e9 Grousset qualificou-a como &#8220;a primeira expans\u00e3on colonial do Ocidente&#8221;. Ren\u00e9e Grousset, &#8220;Las cruzadas&#8221;, EUDEBA, Buenos Aires, 1965.<\/p>\n<p>[12] <em>&#8220;O poder veneziano baseava-se na sua capacidade para fabricar armas de acordo com os modernos princ\u00edpios da especializa\u00e7\u00e3o e da produ\u00e7\u00e3o capitalista&#8221;, <\/em>assinala Victor Davis Hanson. E acrescenta que <em>&#8220;tr\u00eas anos depois de Lepanto o monarca franc\u00eas Henrique III, que se encontrava em Veneza, visitou o Arsenal que, para seu assombro, montou, equipou e lan\u00e7ou uma galera em uma hora! <\/em><\/p>\n<p><em> Em condi\u00e7\u00f5es normais, recorrendo a princ\u00edpios de constru\u00e7\u00e3o naval, financiamento e produ\u00e7\u00e3o em massa compar\u00e1veis unicamente aos do s\u00e9culo XX, o Arsenal era capaz de lan\u00e7ar uma frota inteira de galeras no espa\u00e7o de uns poucos dias&#8221;, <\/em>Victor Davis Hanson, &#8220;Matanza y cultura. Batallas decisivas en el auge de la civlizaci\u00f3n occidental&#8221;, Fondo de Cultura Econ\u00f3mica-Turner, M\u00e9xico D.F. \/ Madrid 2006.<\/p>\n<p>[13] Bertrand Gille, <em>&#8220;Les ing\u00e9nieurs de la Renaissance&#8221;, <\/em>Herman, Paris 1964.<\/p>\n<p>[14] James O&#8217;Donnell, <em>&#8220;La ruina del imperio romano&#8221;, <\/em>Ediciones B, Barcelona 2010.<\/p>\n<p>[15] Victor Davis Hanson, op cit.<\/p>\n<p>[16] G.W.F Hegel, &#8220;La Raison dans l`Histoire&#8221;, Union G\u00e9n\u00e9rale d`Editions, 10\/18, Paris 1965.<\/p>\n<p>[17] Antonio Gramsci, &#8220;Cuadernos de la c\u00e1rcel&#8221;, Ed. Era, M\u00e9xico, 1999.<\/p>\n<p>[18] Richard N. Haass, &#8220;The Age of Nonpolarity. What Will Folow U.S. Dominance&#8221;, Foreign Affairs, Mai\/June 2008.<\/p>\n<p>[19] Karl Polanyi, &#8220;The Great Transformation.The Political and Economic Origins of Our Time&#8221;, Bacon Press, Boston, Massachusetts, 2001.<\/p>\n<p>[20] K. Polanyi, op. cit.<\/p>\n<p>[21] Luis Diez del Corral, &#8220;El rapto de Europa&#8221;, Alianza Editorial, Madrid 1974.<\/p>\n<p>[22] Desde os fantasmas burocr\u00e1ticos da hist\u00f3ria sovi\u00e9tica at\u00e9 chegar ao realismo burgu\u00eas dos dirigentes chineses passando pelos diversos nacionalismos mais ou menos &#8220;socialistas&#8221; ou capitalistas do Terceiro Mundo.<\/p>\n<p><strong>Textos do Jorge Beinstein em <a href=\"http:\/\/resistir.info\" target=\"_blank\">resistir.info<\/a>:<\/strong><\/p>\n<p><strong>*Economista, professor na Universidade de Buenos Aires. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Este ensaio encontra-se em <a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\">http:\/\/resistir.info\/<\/a> .<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nCapitalismo, viol\u00eancia e decad\u00eancia sist\u00e9mica\npor Jorge Beinstein*\nDa L\u00edbia \u00e0 Venezuela, passando pela S\u00edria, M\u00e9xico, Ucr\u00e2nia, Afeganist\u00e3o ou Iraque, no que j\u00e1 decorreu da d\u00e9cada actual presenci\u00e1mos o desdobramento planet\u00e1rio permanente da viol\u00eancia directa ou indirecta (terciarizada) dos Estados Unidos e dos seus s\u00f3cios-vassalos da NATO. Toda a periferia foi convertida no seu mega objectivo militar. A onda agressiva n\u00e3o se acalma, em alguns casos combina-se com press\u00f5es e negocia\u00e7\u00f5es mas a experi\u00eancia indica que o Imp\u00e9rio n\u00e3o agride para se posicionar melhor em futuras negocia\u00e7\u00f5es e sim que negoceia, pressiona, com o fim de conseguir melhores condi\u00e7\u00f5es para a agress\u00e3o.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6363\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-6363","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1ED","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6363","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6363"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6363\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6363"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6363"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6363"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}