{"id":6398,"date":"2014-06-30T21:01:40","date_gmt":"2014-06-30T21:01:40","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6398"},"modified":"2014-07-01T13:20:44","modified_gmt":"2014-07-01T13:20:44","slug":"como-atua-a-contra-insurreicao-dos-estados-unidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6398","title":{"rendered":"Como atua a contra-insurrei\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos"},"content":{"rendered":"\n<p>Com base em dois manuais do Pent\u00e1gono e num \u00abguia cultural\u00bb das for\u00e7as especiais dos Estados Unidos, Gilberto L\u00f3pez y Rivas d\u00e1-nos uma obra [1] de grande actualidade que nos permite compreender, se tamb\u00e9m lermos as entrelinhas, o que se passou no quadro de uma falsa guerra \u00e0s drogas durante o mandato de Felipe Calder\u00f3n [N.do T.: presidente do M\u00e9xico de 2006 a 2012], e o que est\u00e1 agora a acontecer em termos de seguran\u00e7a e viol\u00eancia, no regime autorit\u00e1rio de Enrique Pe\u00f1a Nieto.<\/p>\n<p>O texto parte do conceito de \u00abterrorismo global de Estado\u00bb para caracterizar a violenta pol\u00edtica do capitalismo na sua actual fase, e mostra alguns tra\u00e7os neofascistas das guerras coloniais dos Estados Unidos e dos seus aliados europeus da OTAN (Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte) nos come\u00e7os do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Para isso, o autor recorre a uma defini\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica de fascismo formulada em 1935 pela Internacional Comunista, que coloca ser \u00abo fascismo no poder uma ditadura clara e terrorista dos elementos mais reaccion\u00e1rios, mais chauvinistas e mais imperialistas do capital financeiro\u00bb. Mas como o mundo mudou nos \u00faltimos 70 anos, e o nazi-fascismo correspondeu a realidades concretas que germinaram na Europa a partir do primeiro p\u00f3s-guerra do s\u00e9culo passado, adverte-nos que ainda n\u00e3o se criou uma defini\u00e7\u00e3o mais adequada ou uma categoria para caracterizar a viol\u00eancia terrorista do capital financeiro nos nossos dias.<\/p>\n<p>Entre as similitudes do fascismo cl\u00e1ssico com os regimes de George W. Bush e Barack Obama, L\u00f3pez y Rivas destaca a componente militarista das cruzadas neocoloniais actuais, a f\u00e9 cega na tecnologia b\u00e9lica, o favoritismo concedido \u00e0s grandes corpora\u00e7\u00f5es do chamado complexo militar-industrial (com epicentro no Pent\u00e1gono), o ultranacionalismo, o racismo genocida que aniquila povos inteiros e o social darwinismo resultante da imposi\u00e7\u00e3o a ferro e fogo das pol\u00edticas neoliberais. Elementos que, juntamente com a transgress\u00e3o dos quadros ideol\u00f3gicos e pol\u00edticos da repress\u00e3o \u00ablegal\u00bb (justificada pelo quadro jur\u00eddico tradicional), a aplica\u00e7\u00e3o de facto de medidas de excep\u00e7\u00e3o, bem como a utiliza\u00e7\u00e3o de m\u00e9todos belicistas \u00abn\u00e3o convencionais\u00bb para desestabilizar, invadir e ocupar territorialmente pa\u00edses, exterminar oposi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e o protesto social, configuram a base do novo colonialismo em curso de matriz estadunidense.<\/p>\n<p>Com est\u00e1 anunciado no subt\u00edtulo da obra e dada a sua profiss\u00e3o [antrop\u00f3logo], Gilberto L\u00f3pez y Rivas d\u00e1 enfases \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o, pelo Pent\u00e1gono, de antrop\u00f3logos e outros cientistas sociais nas unidades de combate das tropas de ocupa\u00e7\u00e3o estadunidenses no Afeganist\u00e3o e no Iraque. O autor parte de um artigo de David Rohde no New York Times de Outubro de 2007, que define o envolvimento das ci\u00eancias sociais nos actos b\u00e9licos como uma \u00abnova arma crucial nas opera\u00e7\u00f5es contra-insurrecionais\u00bb no \u00e2mbito de um \u00abprograma experimental\u00bb do Departamento de Defesa, iniciado nesse mesmo ano.<\/p>\n<p>O dito programa, que tem os seus antecedentes no recurso a antrop\u00f3logos nas campanhas contra-insurrecionais dos Estados Unidos durante a guerra do Vietname e no Plano Camelot experimentado no Chile em meados dos anos sessenta, levou agora um importante sector da academia estadunidense a consider\u00e1-lo como uma \u00abprostitui\u00e7\u00e3o daquela disciplina\u00bb.<\/p>\n<p>Um ano antes, a Associa\u00e7\u00e3o Antropol\u00f3gica Americana tinha condenado por unanimidade \u00abo uso do conhecimento antropol\u00f3gico como elemento de tortura f\u00edsica e psicol\u00f3gica\u00bb na pris\u00e3o de Abu Ghraib, no Iraque. N\u00e3o obstante, a antrop\u00f3loga Montgomery McFate, criadora do programa Sistema Operativo de Investiga\u00e7\u00e3o Humana na ac\u00e7\u00e3o do Pent\u00e1gono \u2013 a quem, diz Gilberto, se imp\u00f4s a tarefa de \u00abeducar\u00bb os militares \u2013 dedicou-se a convencer os estrategos da contra-insurrei\u00e7\u00e3o que a \u00abantropologia social pode ser uma arma mais eficaz que a artilharia\u00bb. Uma vis\u00e3o c\u00ednica e beligerante que o autor n\u00e3o duvida em classificar como pr\u00f3pria de \u00abantropologia mercen\u00e1ria\u00bb.<\/p>\n<p>Como express\u00e3o desse envolvimento da alta burocracia acad\u00e9mica com a maquinaria de guerra dos Estados Unidos, cita a publica\u00e7\u00e3o, em Julho de 2007, do Manual de campo da contra-insurrei\u00e7\u00e3o 3-24, editado pela Universidade de Chicago, a mesma donde sa\u00edram Milton Friedman e os seus Chicago boys em 1973, ainda o Pal\u00e1cio de la Moneda fumegava, para experimentar a aterragem das pol\u00edticas neoliberais no Chile, depois do golpe militar de Richard Nixon, Henry Kissinger e o general Augusto Pinochet.<\/p>\n<p>Coordenado pelo general Augusto Petraeus, que esteve respons\u00e1vel das for\u00e7as expedicion\u00e1rias dos Estados Unidos no Iraque, o Manual mostra a falta de \u00e9tica daquele centro de ensino superior e dos seus \u00abintelectuais mercen\u00e1rios\u00bb, no que David Price, citado pelo autor, descreveu como uma \u00abprostitui\u00e7\u00e3o da antropologia ao servi\u00e7o das guerras do imp\u00e9rio\u00bb.<\/p>\n<p>No pref\u00e1cio do Manual, assinado por Petraeus e pelo general James Amos do corpo de Marines, avan\u00e7am-se alguns elementos e conceitos-chave para entender a renova\u00e7\u00e3o ou a actualiza\u00e7\u00e3o da contra-insurrei\u00e7\u00e3o. Entre eles o recurso \u00e1 ac\u00e7\u00e3o conjunta das for\u00e7as de combate (soldados e marines) com ac\u00e7\u00f5es frequentemente associadas a reparti\u00e7\u00f5es n\u00e3o-militares. Isto implica a coopera\u00e7\u00e3o e coordena\u00e7\u00e3o intergovernamental do Departamento de Defesa com os restantes servi\u00e7os da chamada \u00abcomunidade de intelig\u00eancia\u00bb (CIA, DEA, FBI, etc.) e, tamb\u00e9m, entre outras, da Ag\u00eancia para o Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos (USAID na sigla inglesa), dependente do Departamento de Estado.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m necess\u00e1rio que as campanhas de contra-insurrei\u00e7\u00e3o disponham de \u00abfor\u00e7as flex\u00edveis\u00bb adapt\u00e1veis a circunst\u00e2ncias diversas num dado pa\u00eds, com l\u00edderes castrenses \u00ab\u00e1geis, bem informados e culturalmente astutos\u00bb Isto \u00e9, capazes de \u00abcompreender\u00bb as culturas dos \u00abnativos\u00bb que se rebelam contra a ordem estabelecida.<\/p>\n<p>Devido ao facto de desde h\u00e1 mais de meio s\u00e9culo os sucessivos inquilinos da Casa Branca se arrogarem o direito de intervir militarmente em qualquer parte do mundo, com a justifica\u00e7\u00e3o da extraterritorialidade das suas opera\u00e7\u00f5es de contra-insurrei\u00e7\u00e3o, os actuais estrategos do Pent\u00e1gono utilizam uma endromina\u00e7\u00e3o jur\u00eddica denominada \u00abna\u00e7\u00e3o hospedeira\u00bb, cujo governo \u00abconvida\u00bb os Estados Unidos a intervir no seu territ\u00f3rio contra o seu pr\u00f3prio povo. Por exemplo, para citar um caso pr\u00f3ximo, o M\u00e9xico de Filipe Calder\u00f3n.<\/p>\n<p>Mas devido ao facto de a nova modalidade b\u00e9lica do Pent\u00e1gono ser contra o que define como \u00abinimigos irregulares\u00bb ou \u00abassim\u00e9tricos\u00bb e n\u00e3o contra ex\u00e9rcitos profissionais, o Manual inclui uma s\u00e9rie de aspectos e tarefas \u00abn\u00e3o-militares\u00bb que devem fazer parte da contra-insurrei\u00e7\u00e3o na sua actual fase. Entre eles est\u00e3o mat\u00e9rias complexas como a governa\u00e7\u00e3o, o desenvolvimento econ\u00f3mico, a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica e o imp\u00e9rio da lei, tudo combinado com as formas mais conhecidas da \u00abguerra interna\u00bb, isto \u00e9, as ac\u00e7\u00f5es militares directas ou encapotadas, a guerra psicol\u00f3gica, a guerra suja, a ac\u00e7\u00e3o c\u00edvica, o controlo da popula\u00e7\u00e3o, o paramilitarismo, e mercenarismo e o uso da economia e dos meios de difus\u00e3o massiva como armas de guerra.<\/p>\n<p>Outros aspectos chave da contra-insurrei\u00e7\u00e3o s\u00e3o os trabalhos de intelig\u00eancia e a an\u00e1lise e aprendizagem da sociedade de um pa\u00eds objectivo, dos grupos \u00e9tnicos que o habitam, a forma de governo, as for\u00e7as coercivas do Estado, as suas institui\u00e7\u00f5es, cultura, linguagem, percep\u00e7\u00f5es, valores, redes, cren\u00e7as da popula\u00e7\u00e3o, para o que se recorre a peritos em antropologia, economia e ci\u00eancias pol\u00edticas, que t\u00eam um papel importante no que tecnicamente se conhece como \u00abPrepara\u00e7\u00e3o de Intelig\u00eancia no Campo de Batalha\u00bb.<\/p>\n<p>Tudo isto visa saber qual o apoio ou toler\u00e2ncia da popula\u00e7\u00e3o para com um grupo guerrilheiro, um governante ou dirigente pol\u00edtico, as suas capacidades e vulnerabilidades, as suas t\u00e1cticas, estrat\u00e9gias e formas de organiza\u00e7\u00e3o. Cada dirigente \u00e9 objecto de um escrut\u00ednio detalhado que inclui a sua vida pessoal, traject\u00f3ria, cren\u00e7a, ideologia, temperamento, educa\u00e7\u00e3o e um longo etecetera. Para recolher a informa\u00e7\u00e3o utilizam-se todos os tipos de intelig\u00eancia: humana (que inclui a obten\u00e7\u00e3o de dados de jornalistas, acad\u00e9micos, pol\u00edticos, empres\u00e1rios, empreiteiros, militares e pol\u00edcias do governo fantoche ou a desestabilizar), a intelig\u00eancia militar, o interrogat\u00f3rio de presos e desertores muitas vezes atrav\u00e9s da tortura, a escuta telef\u00f3nica e a espionagem das redes da internet \u2013 como ficou evidenciado com as revela\u00e7\u00f5es de Edward Snowden sobre o papel da Ag\u00eancia Nacional de Seguran\u00e7a (NSA) \u2013, a que se somam as formas rotineiras de obten\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s do reconhecimento e da vigil\u00e2ncia, bem como o uso de sensores, c\u00e2maras, intelig\u00eancia espacial, an\u00e1lises de arquivos de propriedade, financeiros, conte\u00fado de celulares e computadores.<\/p>\n<p>L\u00f3pez y Rivas cita outro documento, o Manual de Equipamento Humano no Terreno, elaborado pelo militar Nathan Finney em 2008, que \u00e9 utilizado para preparar e treinar especialistas militares e acad\u00e9micos fornecidos por empresas fornecedoras do Pent\u00e1gono, que juntamente com soldados integram pequenas equipas compostas por cinco a nove pessoas, cuja tarefa \u00e9 apoiar os comandantes no teatro de guerra.<\/p>\n<p>Isto \u00e9, para al\u00e9m das mat\u00e9rias tradicionais que o comando deve ter em conta: miss\u00e3o, inimigo, terreno e condi\u00e7\u00f5es meteorol\u00f3gicas, tropas amigas e apoios dispon\u00edveis, s\u00e3o necess\u00e1rios outros dados sobre a cultura local e os factores pol\u00edticos, econ\u00f3micos e religiosos da popula\u00e7\u00e3o, que lhes s\u00e3o proporcionados por estas equipas mistas de soldados e civis. Isto porque, segundo o Manual, \u00aba dimens\u00e3o humana \u00e9 a pr\u00f3pria ess\u00eancia da guerra irregular\u00bb.<\/p>\n<p>Como aponta o autor, estas pequenas equipas constitu\u00eddas por 5 a 9 membros, contam com um l\u00edder, normalmente um oficial no activo ou na reserva, um cientista social, um processador de informa\u00e7\u00e3o e dois analistas, sendo \u00f3ptimo que haja uma mulher, algu\u00e9m que fale l\u00edngua local e uma outra pessoa que seja perita no pa\u00eds em quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Ambos os manuais s\u00e3o utilizados na chamada domina\u00e7\u00e3o do espectro completo (full spectrum), no\u00e7\u00e3o desenhada pelo Pent\u00e1gono antes do 11 de Setembro de 2001, que abarca uma pol\u00edtica combinada onde aspecto militares, econ\u00f3micos, medi\u00e1ticos e culturais t\u00eam objectivos comuns. Dado que o espectro \u00e9 geogr\u00e1fico, espacial, social e cultural, para impor a domina\u00e7\u00e3o \u00e9 preciso haver o consentimento. Isto \u00e9, inculcar na sociedade sensos \u00abcomuns\u00bb que atrav\u00e9s de imagens, e uma narrativa adequada provoquem o conformismo nas massas, levando-as a aceitar a vis\u00e3o do poder hegem\u00f3nico do mundo, o que cria massas conformistas que aceitem de forma acr\u00edtica e passiva a manuten\u00e7\u00e3o e a reprodu\u00e7\u00e3o da ordem estabelecida ou, no caso de um pa\u00eds e um governante considerado \u00abhostil\u00bb por Washington, criar um inimigo a derrotar atrav\u00e9s de meias verdades, mentiras e mitos, como parte da guerra psicol\u00f3gica e das opera\u00e7\u00f5es encapotadas.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a tarefa que o Pent\u00e1gono deixa para as grandes cadeias de multim\u00e9dia sob controlo de monop\u00f3lios privados que, por processos de desestabiliza\u00e7\u00e3o como os de Cuba e Venezuela recorrem ao terrorismo medi\u00e1tico, instigando magnic\u00eddios e golpes de Estado.<\/p>\n<p>Outro documento citado pelo autor que se soma aos anteriores \u00e9 o Guia para o assessor das for\u00e7as especiais que, segundo o antrop\u00f3logo David Price \u2013 parafraseando Emily Post \u2013 \u00e9 \u00abum manual de etiqueta da contra-insurrei\u00e7\u00e3o\u00bb. Para Price, o principal prop\u00f3sito do Guia \u00e9 instruir e treinar os militares para interagirem melhor com outras culturas. O documento foi elaborado para evitar o choque cultural dos fr\u00e1geis boinas verdes (como se denominam agora os soldados das for\u00e7as armadas da Marinha estadunidense).<\/p>\n<p>Um quarto documento utilizado por L\u00f3pez y Rivas para estruturar a obra que apresentamos \u00e9 o Manual de campo 31-20-3, t\u00e1cticas, t\u00e9cnicas e procedimentos de defesa interna para as For\u00e7as Especiais no estrangeiro, terceiro de uma s\u00e9rie produzida pelo Departamento de Defesa, cujo prop\u00f3sito pol\u00edtico-militar \u00e9 a defesa dos interesses nacionais estadunidenses (entenda-se, os interesses das corpora\u00e7\u00f5es e o acesso a territ\u00f3rios com valor geopol\u00edtico e a recursos geoestrat\u00e9gicos como o petr\u00f3leo, a \u00e1gua doce, a biodiversidade e outros), atrav\u00e9s da assessoria e treino contra-insurrecional de tropas de \u00absipaios\u00bb na na\u00e7\u00e3o h\u00f3spede x\u00bb. O que nos remete, no caso de M\u00e9xico de Calder\u00f3n e do actual, aos cursos e assessorias militares recebidos por membros da Secretaria da Defesa Nacional e da Secretaria da Marinha.<\/p>\n<p>Sobre isto, o Manual esclarece uma s\u00e9rie de facetas sobre a guerra de contra-insurrei\u00e7\u00e3o, entre elas as ac\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias a uma miss\u00e3o de interven\u00e7\u00e3o, as autoriza\u00e7\u00f5es de treino, o desenvolvimento de tropas de elite (aberto ou encapotado) na na\u00e7\u00e3o h\u00f3spede, os programas de instru\u00e7\u00e3o de tropas, as opera\u00e7\u00f5es t\u00e1cticas, o controlo da popula\u00e7\u00e3o, as opera\u00e7\u00f5es conjuntas, tal como os anexos que incluem opera\u00e7\u00f5es de intelig\u00eancia, for\u00e7as de autodefesa civil (paramilitares), estabelecimento de bases e um etecetera que inclui os meios de difus\u00e3o massiva (a imprensa, escrita, radiof\u00f3nica e televisiva) e, naturalmente, o Servi\u00e7o de Informa\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos (USIA) adstrito a cada embaixada de Washington no mundo. O que reporta a tarefas de propaganda, desinforma\u00e7\u00e3o e terrorismo medi\u00e1tico, em coordena\u00e7\u00e3o com as opera\u00e7\u00f5es de guerra psicol\u00f3gica do Pent\u00e1gono.<\/p>\n<p>Cabe destacar, como sublinha L\u00f3pez Y Rivas no seu texto, a import\u00e2ncia que o Manual atribui ao recrutamento e integra\u00e7\u00e3o de for\u00e7as paramilitares ou irregulares e esquadr\u00f5es da morte, como parte integrante das actividades de contra-insurrei\u00e7\u00e3o. A sua miss\u00e3o \u00e9 a guerra suja e\/ou o chamado \u00abca\u00e7ar-matar\u00bb utilizado por \u00abfor\u00e7as amigas\u00bb como uma \u00abt\u00e9cnica\u00bb (sic) em opera\u00e7\u00f5es de consolida\u00e7\u00e3o. Isto \u00e9, ca\u00e7ar e destruir ou exterminar inimigos isolados.<\/p>\n<p>Cito textualmente: \u00abA equipa de ca\u00e7ar-matar consiste em duas sec\u00e7\u00f5es: os ca\u00e7adores e os assassinos. Os ca\u00e7adores devem estar levemente equipados e ser extremamente m\u00f3veis. A sua miss\u00e3o \u00e9 localizar as for\u00e7as inimigas enquanto mant\u00eam comunica\u00e7\u00e3o permanente com os executores, que est\u00e3o alerta e prontos para entrar em ac\u00e7\u00e3o. Quando os ca\u00e7adores fazem o contacto, notificam os assassinos\u00bb.<\/p>\n<p>Destaque-se o \u00eanfase do Manual sobre a miss\u00e3o principal das for\u00e7as especiais num pa\u00eds h\u00f3spede: organizar, treinar, aconselhar e desenvolver a capacidade t\u00e1ctica e t\u00e9cnica das for\u00e7as militares locais, para que possam derrotar a insurrei\u00e7\u00e3o ou o \u00abinimigo interno\u00bb sem o envolvimento directo dos Estados Unidos, e recorrendo, se necess\u00e1rio, \u00e0 ac\u00e7\u00e3o clandestina de organiza\u00e7\u00f5es de civis armados, seja sob a forma de paramilitares, de mercenarismo ou de grupos de autodefesa.<\/p>\n<p>No caso do M\u00e9xico, atrav\u00e9s da Iniciativa M\u00e9rida (2007), sob a cortina da guerra \u00e0s drogas, e com a aquiesc\u00eancia servil de Felipe Calder\u00f3n que subordinou a Sedena, a Semar, a Pol\u00edcia Federal, o Cisen e outras estruturas do aparelho de seguran\u00e7a do Estado \u00e0s correspondentes estruturas estadunidenses, o esquema teve um saldo conhecido: uma cat\u00e1strofe humanit\u00e1ria. Mais de 150 mil mortos, muitos assass\u00ednios de forma sum\u00e1ria e extrajudicial (alguns provavelmente v\u00edtimas do \u00abca\u00e7ar-matar\u00bb do manual norte-americano), 30 mil detidos-desaparecidos e 250 mil deslocados \u00e0 for\u00e7a. Com a agravante de a guerra de contra-insurrei\u00e7\u00e3o estadunidense ser instrumental \u00e0 estrat\u00e9gia de assumir o controlo da \u00abna\u00e7\u00e3o h\u00f3spede\u00bb, o que efectivamente ocorreu em mat\u00e9ria de seguran\u00e7a e intelig\u00eancia sob o regime genocida de Calder\u00f3n.<\/p>\n<p>Referimos acima a import\u00e2ncia que o Pent\u00e1gono d\u00e1 \u00e0 luta ideol\u00f3gica no campo da informa\u00e7\u00e3o; o papel dos meios de difus\u00e3o massiva como arma estrat\u00e9gica e pol\u00edtica. Um par\u00e1grafo citado por L\u00f3pez y Rivas \u00e9, s\u00f3 por si, eloquente:<\/p>\n<p>\u00abAs guerras modernas t\u00eam lugar em espa\u00e7os para l\u00e1 dos elementos simplesmente f\u00edsicos do campo de batalha. Um dos mais importantes s\u00e3o os meios de comunica\u00e7\u00e3o, nos quais (\u2026) a \u201cbatalha da narrativa\u201d se dar\u00e1. Os nossos inimigos reconheceram que para o \u00eaxito a percep\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o importante como o pr\u00f3prio facto (\u2026). Ao fim do dia, a percep\u00e7\u00e3o do que se passou importa mais do que o que realmente se passou. Dominar a narrativa de qualquer opera\u00e7\u00e3o, seja ela militar ou de outro tipo rende enormes dividendos. Fracassos no terreno minam o apoio \u00e0s nossas pol\u00edticas e opera\u00e7\u00f5es, e actualmente podem arruinar a reputa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e a sua posi\u00e7\u00e3o no mundo\u00bb.<\/p>\n<p>Deve dizer-se que Calder\u00f3n conseguiu impor nas manchetes dos meios de comunica\u00e7\u00e3o a \u00absua\u00bb narrativa sobre a \u00abguerra\u00bb das drogas. Por sua vez, os seus patrocinadores em Washington conseguiram por vezes fabricar a imagem do M\u00e9xico como um \u00abEstado falhado\u00bb (perda de controlo f\u00edsico do territ\u00f3rio nacional, eros\u00e3o da autoridade governamental, crise econ\u00f3mica aguda, corrup\u00e7\u00e3o grave, incapacidade de prestar servi\u00e7os p\u00fablicos e cobrar impostos), o que lhes permitiu desencadear no M\u00e9xico um processo acelerado que, centrado numa viol\u00eancia ca\u00f3tica e de apar\u00eancia demencial \u2013 dado que foi uma viol\u00eancia friamente calculada \u2013 derivou na militariza\u00e7\u00e3o, na paramilitariza\u00e7\u00e3o e na mercenariza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Tal como antes j\u00e1 acontecera na Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p>No final do texto, num par\u00e1grafo sobre \u00abo narcotr\u00e1fico como arma do imp\u00e9rio\u00bb, o nosso autor apoia-se no argentino Marcelo Colussi ao assinalar que os Estados Unidos encontraram nesse campo de batalha (o da falsa guerra \u00e0s drogas), um terreno f\u00e9rtil para prolongar e readequar a sua estrat\u00e9gia de controlo social universal.<\/p>\n<p>Uma popula\u00e7\u00e3o assustada \u00e9 muito mais manej\u00e1vel. \u00c9 por isso que em regi\u00f5es e pa\u00edses onde existem recursos geoestrat\u00e9gicos como petr\u00f3leo, g\u00e1s natural, \u00e1gua doce, biodiversidade, etc., e\/ou focos de resist\u00eancia popular, aparece o \u00abdem\u00f3nio\u00bb do narcotr\u00e1fico e das respostas pol\u00edtico-militares de Washington.<\/p>\n<p>Em rigor, e independentemente de na Col\u00f4mbia e no M\u00e9xico haver traficantes de drogas il\u00edcitas, os dois pa\u00edses foram escolhidos como plataforma da guerra de contra-insurrei\u00e7\u00e3o e de guerra social desencadeada contra as diferentes formas de resist\u00eancias e oposi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Tenho algumas d\u00favidas sobre as afirma\u00e7\u00f5es de L\u00f3pez y Rivas de que os grupos da economia criminosa tenham recursos materiais superiores aos das For\u00e7as Armadas mexicanas, pelo menos no que respeita a armamento e equipas de intelig\u00eancia. Mas concordamos com ele e com Pablo Gonz\u00e1lez Casanova quanto \u00e0 chamada globaliza\u00e7\u00e3o ser um processo de domina\u00e7\u00e3o e apropria\u00e7\u00e3o do mundo, no quadro de uma reconvers\u00e3o transnacional do sistema capitalista.<\/p>\n<p>No quadro de uma guerra de amplo espectro ou espectro completo, a \u00abterritorialidade da domina\u00e7\u00e3o\u00bb \u2013 de acordo com a express\u00e3o estabelecida por Ana Esther Cece\u00f1a h\u00e1 mais de um lustre \u2013 combina interesses de seguran\u00e7a e econ\u00f3micos relacionados com o acesso a zonas privilegiadas pelas suas mat\u00e9rias-primas e recursos estrat\u00e9gicos, com uma ac\u00e7\u00e3o de controlo directo sobre as popula\u00e7\u00f5es e pontos geogr\u00e1ficos determinantes, para os quais foram desenhados mega projectos de infra-estruturas (redes multimodais de estradas, portos, aeroportos, vias f\u00e9rreas, canais, cabos de fibra \u00f3ptica). Como resumiu em 2007 o Observat\u00f3rio Latino-americano de Geopol\u00edtica, \u00abtrata-se de transformar o territ\u00f3rio; de o adequar \u00e0s novas mercadorias, \u00e0s novas tecnologias e aos novos neg\u00f3cios. Quadricul\u00e1-lo, orden\u00e1-lo, torn\u00e1-lo funcional e\u2026 produtivo\u00bb.<\/p>\n<p>Esse \u00e9, a meu ver, o que est\u00e1 a acontecer e a consolidar-se de uma forma acelerada no M\u00e9xico desde 2007 at\u00e9 ao presente, e esta obra de L\u00f3pez y Rivas \u00e9 essencial para ver como actua a contra-insurrei\u00e7\u00e3o do Pent\u00e1gono na prossecu\u00e7\u00e3o dos seus fins.<\/p>\n<p>Deixei para o final as palavras de um veterano da guerra do Iraque:<\/p>\n<p>\u00abFui um assassino psicopata porque me treinaram para matar. N\u00e3o nasci com essa mentalidade. Foi o Corpo de Infantaria da Marinha quem me educou para ser um gangster das corpora\u00e7\u00f5es estadunidenses, um delinquente. Treinaram-me para cumprir cegamente a ordem do Presidente dos Estados Unidos e trazer-lhe para casa o que ele pedisse, sem qualquer problema de ordem moral. Eu era um psicopata porque nos ensinaram a disparar primeiro e a perguntar depois, como o faria um doente e n\u00e3o um soldado profissional que s\u00f3 deve enfrentar-se com outro soldado. Se havia que matar mulheres e crian\u00e7as, faz\u00edamo-lo. Portanto n\u00e3o eramos soldados mas mercen\u00e1rios\u00bb.<\/p>\n<p>Creio que esta confiss\u00e3o poder\u00e1 reflectir um pouco o que se est\u00e1 a passar no M\u00e9xico, consequ\u00eancia do treino militar do Pent\u00e1gono aos corpos de elite do Ex\u00e9rcito, da Marinha de Guerra e da Pol\u00edcia Federal. Muitas mortes poder\u00e3o atribu\u00eddas a assassinos profissionais que est\u00e3o a actuar como mercen\u00e1rios de uma pot\u00eancia estrangeira em territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<p>Parab\u00e9ns ao autor, cuja longa e comprometida traject\u00f3ria permite constatar que o campo popular conta com acad\u00e9micos e antrop\u00f3logos que com a sua obra e a sua milit\u00e2ncia enfrentam decididamente o Pent\u00e1gono e o poder capitalista transnacional.<\/p>\n<p><em>Nota do tradutor:<\/em><\/p>\n<p><em>[1] Estudiando la contrainsurgencia de Estados Unidos &#8211; Manuales, mentalidades y uso de la antropologia, de Gilberto L\u00f3pez y Rivas, Editorial Ocean Sur]<\/em><\/p>\n<p><em>* Jornalista uruguaio radicado no M\u00e9xico do quadro redactorial do di\u00e1rio mexicano La Jornada<\/em><\/p>\n<p><em> <\/p>\n<p>Este texto foi publicado em <a href=\"http:\/\/www.rebelion.org\/noticia.php?id=185704\" target=\"_blank\">http:\/\/www.rebelion.org\/noticia.php?id=185704<\/a><\/p>\n<p> <\/em><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Paulo Gasc\u00e3o<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nCarlos Fazio*\nEntre as similitudes do fascismo cl\u00e1ssico com os regimes de George W. Bush e Barack Obama, L\u00f3pez y Rivas destaca a componente militarista das cruzadas neocoloniais actuais, a f\u00e9 cega na tecnologia b\u00e9lica, o favoritismo concedido \u00e0s grandes corpora\u00e7\u00f5es do chamado complexo militar-industrial, o ultranacionalismo, o racismo genocida que aniquila povos inteiros e o social darwinismo resultante da imposi\u00e7\u00e3o a ferro e fogo das pol\u00edticas neoliberais.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6398\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-6398","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1Fc","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6398","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6398"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6398\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6398"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6398"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6398"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}