{"id":6424,"date":"2014-07-08T03:26:21","date_gmt":"2014-07-08T03:26:21","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6424"},"modified":"2014-07-08T03:26:21","modified_gmt":"2014-07-08T03:26:21","slug":"politica-externa-dos-eua-rede-de-protecao-para-as-empresas-privadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6424","title":{"rendered":"Pol\u00edtica externa dos EUA: rede de prote\u00e7\u00e3o para as empresas privadas"},"content":{"rendered":"\n<p>H\u00e1 v\u00e1rios meios para avaliar-se essa doutrina. Pode-se come\u00e7ar por responder uma pergunta \u00f3bvia: O que aconteceu quando a amea\u00e7a russa desapareceu, em 1989? Resposta: nada aconteceu; tudo continuou como antes.<\/p>\n<p>Pouco depois, os EUA invadiram o Panam\u00e1, matando milhares provavelmente de pessoas e instalando ali um regime-cliente. Essa era pr\u00e1tica rotineira nos dom\u00ednios dominados pelos EUA. Mas esse caso n\u00e3o foi rotineiro: pela primeira vez, um grande ato de pol\u00edtica exterior n\u00e3o se explicava por qualquer tipo de suposta amea\u00e7a russa!<\/p>\n<p>Daquela vez, inventaram-se e foram distribu\u00eddos v\u00e1rios e v\u00e1rios pretextos fraudulentos para aquela invas\u00e3o, que se desmontaram instantaneamente, logo ao primeiro exame. A imprensa-empresa tudo louvava entusiasticamente, aquele grande feito de derrotar o Panam\u00e1. N\u00e3o se preocupava com a evid\u00eancia de que os pretextos eram rid\u00edculos, que o ato em si n\u00e3o passava de viola\u00e7\u00e3o grav\u00edssima da lei internacional, que estava sendo execrado em muitas partes do mundo, especialmente na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>A imprensa-empresa tamb\u00e9m ignorou o veto dos EUA contra proposta de Resolu\u00e7\u00e3o do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU que condenaria os crimes cometidos por soldados dos EUA durante a invas\u00e3o. Todos os demais votantes votaram unanimemente a favor da condena\u00e7\u00e3o aos EUA; a Gr\u00e3-Bretanha absteve-se; e os EUA vetaram. Rotina. E ficou tudo por isso mesmo (o que tamb\u00e9m \u00e9 rotina).<\/p>\n<p><strong>De El Salvador \u00e0 Fronteira Russa<\/strong><\/p>\n<p>O governo de George H.W. Bush lan\u00e7ou nova pol\u00edtica de seguran\u00e7a nacional e or\u00e7amento para a defesa, em rea\u00e7\u00e3o ao colapso do inimigo global. N\u00e3o fazia sentido algum. Como da primeira vez, mobilizaram-se falsos pretextos. Eram outros pretextos, mas eram igualmente falsos pretextos. \u00c9 que, como depois se viu, era necess\u00e1rio manter um <em>establishment<\/em> militar quase t\u00e3o grande quanto o do resto do mundo, tudo somado, e muito mais avan\u00e7ado na sofistica\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica \u2013, mas n\u00e3o para defender o pa\u00eds contra uma inexistente Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. A desculpa, dessa vez, foi a crescente \u201csofistica\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica\u201d de pot\u00eancias do 3\u00ba Mundo.<\/p>\n<p>Intelectuais disciplinados compreenderam que n\u00e3o se recomendava que se lan\u00e7assem em rid\u00edculo total, e, portanto, mantiveram-se em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Os EUA, insistiam os novos programas, tinham de manter sua \u201cbase industrial de defesa\u201d. A frase \u00e9 eufem\u00edstica, para falar em geral de ind\u00fastria <em>high-tech<\/em> que depende pesadamente de vasta interven\u00e7\u00e3o estatal para pesquisa e desenvolvimento, quase sempre mascarada como se fosse atividade a servi\u00e7o do Pent\u00e1gono. \u00c9 o que economistas continuam a chamar de \u201ceconomia de livre mercado\u201d dos EUA.<\/p>\n<p>Uma das cl\u00e1usulas mais interessantes dos novos planos tinha a ver com o Oriente M\u00e9dio. Ali, ficava decidido, Washington tinha de manter for\u00e7as de interven\u00e7\u00e3o que tomariam como alvo uma regi\u00e3o crucial, cujos \u201cprincipais problemas n\u00e3o podem ser entregues \u00e0 porta do Kremlin.\u201d Ao contr\u00e1rio dos 50 anos de mentiras anteriores, confessava-se discretamente que a principal preocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o eram os russos, mas o que se chama \u201cnacionalismo radical\u201d, quer dizer: qualquer nacionalismo independente que os EUA n\u00e3o controlem completamente.<\/p>\n<p>Tudo isso tinha evidente conex\u00e3o com a vis\u00e3o padr\u00e3o, mas passou despercebido \u2013 ou, talvez: por isso mesmo, passou despercebido.<\/p>\n<p>Outros eventos importantes aconteceram imediatamente depois do fim do Muro de Berlim, fim da Guerra Fria. Um deles aconteceu em El Salvador, pa\u00eds que recebia a maior ajuda militar dos EUA em todo o mundo \u2013 exceto Israel-Egito, que s\u00e3o caso \u00e0 parte \u2013, e com os piores registros de desrespeito aos direitos humanos do planeta (essa correla\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 frequente e bem direta).<\/p>\n<p>O alto comando salvadorenho ordenou que a Brigada Atlacatl invadisse a Universidade Jesu\u00edta e assassinasse seis destacados intelectuais latino-americanos, todos eles jesu\u00edtas, inclusive o reitor, Fr. Ignacio Ellacur\u00eda, e testemunhas (a governanta da resid\u00eancia do reitor e a filha dela).<\/p>\n<p>A Brigada acabava de voltar de treinamento avan\u00e7ado contrainsurg\u00eancia no <em>John F. Kennedy Special Warfare Center and School<\/em> do Ex\u00e9rcito dos EUA, in Fort Bragg, North Carolina, e deixou um rastro de milhares das v\u00edtimas de sempre ao longo da campanha de terror liderada pelos EUA em El Salvador \u2013 parte de campanha de terror e tortura mais ampla, por toda a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Tudo, rotina. Tudo ignorado e virtualmente esquecido nos EUA e pelos aliados, tudo, como sempre, rotina. Mas isso nos diz muito sobre os fatores que dirigem a pol\u00edtica, se nos damos o trabalho de observar o mundo real.<\/p>\n<p>Outro evento importante aconteceu na Europa. O presidente sovi\u00e9tico Mikhail Gorbachev concordou com permitir a unifica\u00e7\u00e3o da Alemanha e que a Alemanha fosse integrada como membro \u00e0 OTAN \u2013 alian\u00e7a militar hostil. \u00c0 luz da hist\u00f3ria recente, foi a mais surpreendente das concess\u00f5es. Mas tinha havido uma troca: o presidente Bush e o secret\u00e1rio de Estado James Baker haviam concedido que a OTAN n\u00e3o seria expandida \u201cuma polegada, para o Oriente\u201d, falando da Alemanha Oriental. Imediatamente depois de firmado o acordo, os dois expandiram a OTAN para a Alemanha Oriental.<\/p>\n<p>Gorbachev ficou obviamente ultrajado. Mas quando reclamou, Washington explicou-lhe que a coisa n\u00e3o passara de compromisso verbal, acordo de cavalheiros, sem for\u00e7a alguma. Se fora suficientemente tolo a ponto de acreditar na palavra do presidente e do secret\u00e1rio de Estado dos EUA, problema dele.<\/p>\n<p>Isso tamb\u00e9m era rotina, como rotina eram tamb\u00e9m a silenciosa aceita\u00e7\u00e3o e a aprova\u00e7\u00e3o da expans\u00e3o da OTAN, nos EUA e, em geral, no ocidente. O presidente Bill Clinton ent\u00e3o expandiu ainda mais a OTAN, direto para junto das fronteiras da R\u00fassia. Hoje, o mundo encara grave crise que \u00e9, em medida n\u00e3o pequena, resultado dessas pol\u00edticas.<\/p>\n<p><strong>A sedu\u00e7\u00e3o de saquear os mais pobres<\/strong><\/p>\n<p>Outra fonte de provas s\u00e3o os registros hist\u00f3ricos que v\u00e3o chegando ao conhecimento p\u00fablico. Esses registros cont\u00eam dados reveladores dos reais motivos da pol\u00edtica de estado dos EUA. A hist\u00f3ria \u00e9 rica e complexa, mas alguns temas t\u00eam persistentemente o papel dominante. Um deles foi claramente articulado numa confer\u00eancia para o hemisf\u00e9rio ocidental que os EUA convocaram, no M\u00e9xico, em fevereiro de 1945, na qual Washington imp\u00f4s \u201cUma Carta Econ\u00f4mica para as Am\u00e9ricas\u201d [orig. \u201cAn Economic Charter of the Americas\u201d] que visava a eliminar o nacionalismo econ\u00f4mico \u201cem todas as suas formas\u201d. Havia uma condi\u00e7\u00e3o \u2018n\u00e3o dita\u2019: o nacionalismo econ\u00f4mico ficava aprovado, at\u00e9 recomendado, para os EUA, cuja economia depende vitalmente de massiva interven\u00e7\u00e3o do estado.<\/p>\n<p>A elimina\u00e7\u00e3o do nacionalismo econ\u00f4mico para os outros entrou em agudo conflito com a posi\u00e7\u00e3o dos latino-americanos naquele momento, posi\u00e7\u00e3o que funcion\u00e1rios do Departamento de Estado descreveram como \u201ca filosofia do Novo Nacionalismo [o qual] abra\u00e7a pol\u00edticas que visam a assegurar melhor distribui\u00e7\u00e3o de riqueza e a melhorar os padr\u00f5es de vida das massas.\u201d<\/p>\n<p>Como outros analistas pol\u00edticos norte-americanos acrescentaram, \u201cos latino-americanos est\u00e3o convencidos de que os primeiros benefici\u00e1rios do desenvolvimento dos recursos de um pa\u00eds deve ser o povo daquele pa\u00eds.\u201d<\/p>\n<p>Claro que n\u00e3o podia ser. Para Washington, os \u201cprimeiros benefici\u00e1rios\u201d t\u00eam de ser os investidores norte-americanos, com a Am\u00e9rica Latina preenchendo a fun\u00e7\u00e3o de dar-lhes os meios. N\u00e3o poderia haver, como os governos Truman e Eisenhower deixariam bem claro, \u201cdesenvolvimento industrial excessivo\u201d que viesse a abalar os interesses dos EUA.<\/p>\n<p>O Brasil, por exemplo, poderia produzir a\u00e7o de baixa qualidade com o qual as empresas norte-americanas n\u00e3o precisavam preocupar-se; mas a produ\u00e7\u00e3o seria considerada \u201cexcessiva\u201d, se entrasse em concorr\u00eancia com as empresas norte-americanas.<\/p>\n<p>Preocupa\u00e7\u00f5es semelhantes ressoaram no per\u00edodo do p\u00f3s 2\u00aa Guerra Mundial. O sistema global que era dominado pelos EUA estava amea\u00e7ado por o que documentos internos chamam de \u201cregimes radicais e nacionalistas\u201d que respondem a press\u00f5es populares por desenvolvimento independente. Essa foi a preocupa\u00e7\u00e3o que motivou os golpes que derrubaram os governos parlamentaristas do Ir\u00e3 e da Guatemala em 1953 e 1954, al\u00e9m de v\u00e1rios outros golpes.<\/p>\n<p>No caso do Ir\u00e3, uma preocupa\u00e7\u00e3o principal foi o impacto potencial da independ\u00eancia iraniana sobre o Egito, ent\u00e3o em torvelinho contra a pr\u00e1tica colonial brit\u00e2nica. Na Guatemala, al\u00e9m do crime da nova democracia que dava poder \u00e0 maioria camponesa e invadia possess\u00f5es da United Fruit Company \u2014 o que j\u00e1 seria ofensa suficiente \u2013, Washington preocupava-se com a agita\u00e7\u00e3o nos meios trabalhistas e a mobiliza\u00e7\u00e3o popular em ditaduras apoiadas pelos EUA nos arredores.<\/p>\n<p>Nos dois casos, as consequ\u00eancias chegam at\u00e9 os nossos dias.<\/p>\n<p>Literalmente, n\u00e3o houve um dia, desde 1953, em que os EUA n\u00e3o tenham torturado o povo do Ir\u00e3. E a Guatemala ainda \u00e9 uma das c\u00e2maras de horror do mundo. At\u00e9 hoje h\u00e1 maias que fogem dos efeitos das campanhas militares quase-genocidas no pa\u00eds, patrocinadas pelo presidente Ronald Reagan e seus mais altos representantes. Como um diretor da Oxfam, m\u00e9dico guatemalteco, relatou recentemente:<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 deteriora\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica do contexto pol\u00edtico, social e econ\u00f4mico. Ataques contra defensores de Direitos Humanos aumentaram 300% no \u00faltimo ano. H\u00e1 clara evid\u00eancia de que \u00e9 estrat\u00e9gia bem organizada pelo ex\u00e9rcito e pelo setor privado. Ambos capturaram o estado, para manter o <em>status quo<\/em> e impor o modelo econ\u00f4mico extrativista, empurrando os povos nativos dramaticamente para fora de suas terras, que v\u00e3o sendo ocupadas pela grande ind\u00fastria de minera\u00e7\u00e3o, African Palm e fazendas de cana-de-a\u00e7\u00facar. Al\u00e9m disso, o movimento social, que defende as terras e os direitos dos nativos foi criminalizado, muitos l\u00edderes est\u00e3o presos e muitos outros foram assassinados.\u201d<\/p>\n<p>Nada se sabe sobre isso nos EUA, e at\u00e9 a causa \u00f3bvia desses fatos tamb\u00e9m \u00e9 mantida ocultada.<\/p>\n<p>Nos anos 1950s, o presidente Eisenhower e o secret\u00e1rio de Estado John Foster Dulles explicaram claramente o dilema que os EUA enfrentavam. Reclamaram de que os comunistas gozavam de vantagem injusta. Os comunistas podiam \u201capelar diretamente \u00e0s massas\u201d e \u201cobter o controle dos movimentos de massa, coisa que n\u00f3s n\u00e3o podemos fazer. Eles falam diretamente aos pobres e sempre querem saquear os ricos.\u201d<\/p>\n<p>Isso, sim, \u00e9 problema. Os EUA sempre encontraram dificuldades para falar diretamente aos pobres e mostrar aos pobres sua doutrina segundo a qual os ricos podem saquear os pobres.<\/p>\n<p><strong>O exemplo cubano <\/strong><\/p>\n<p>Exemplo claro do padr\u00e3o geral foi Cuba, quando afinal se tornou independente em 1959. Em poucos meses come\u00e7aram os ataques militares contra a ilha. Pouco depois, o governo de Eisenhower decidiu, secretamente, mudar o regime em Cuba. Em seguida, John F. Kennedy tornou-se presidente. Queria dedicar mais aten\u00e7\u00e3o \u00e0 Am\u00e9rica Latina. Ent\u00e3o, logo no in\u00edcio do governo, criou um grupo para desenvolver pol\u00edticas, sob a coordena\u00e7\u00e3o do historiador Arthur Schlesinger, que resumiu suas conclus\u00f5es para apresentar ao presidente que chegava.<\/p>\n<p>Como Schlesinger explicou, o mais amea\u00e7ador, de haver uma Cuba independente, era \u201ca ideia de Castro de o pa\u00eds tomar as quest\u00f5es nas pr\u00f3prias m\u00e3os\u201d. Desgra\u00e7adamente, era ideia que muito atra\u00eda as massas na Am\u00e9rica Latina, onde \u201ca distribui\u00e7\u00e3o de terra e de outras modalidades de riqueza nacional favorecem muito as classes propriet\u00e1rias, e onde os pobres e oprimidos, estimulados pelo exemplo da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, j\u00e1 come\u00e7am a exigir oportunidades para uma vida decente.\u201d Para Washington, s\u00f3 problemas. E o dilema de sempre.<\/p>\n<p>Como a CIA explicou, \u201cA extensiva influ\u00eancia do \u2018Castrismo\u2019 n\u00e3o \u00e9 fun\u00e7\u00e3o do poder cubano (&#8230;) a sombra de Castro mostra-se grande porque as condi\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas na Am\u00e9rica Latina convidam a fazer oposi\u00e7\u00e3o a qualquer autoridade e encorajam a agita\u00e7\u00e3o para mudan\u00e7a radical\u201d \u2013 e a Cuba de Castro oferece modelo para isso. Kennedy temia que a ajuda russa pudesse fazer de Cuba uma \u201cvitrine\u201d do desenvolvimento, o que daria vantagem aos sovi\u00e9ticos em toda a Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>O Conselho de Planejamento Pol\u00edtico do Departamento de Estado alertou que \u201co perigo b\u00e1sico que enfrentamos com Castro est\u00e1 (&#8230;) no impacto que a simples exist\u00eancia de seu governo tem sobre o movimento esquerdista em muitos pa\u00edses latino-americanos (&#8230;) O simples fato \u00e9 que Castro representa desafio bem-sucedido aos EUA, nega\u00e7\u00e3o de toda nossa pol\u00edtica hemisf\u00e9rica de quase um s\u00e9culo e meio\u201d \u2013 queria dizer: desde a Doutrina Monroe de 1823, quando os EUA declararam sua inten\u00e7\u00e3o de dominar o hemisf\u00e9rio.<\/p>\n<p>Naquele momento, o objetivo imediato era conquistar Cuba, mas n\u00e3o era poss\u00edvel por causa do poder do inimigo brit\u00e2nico. Ainda assim, o grande estrategista John Quincy Adams, pai intelectual da Doutrina Monroe e do Destino Manifesto, informou aos seus colegas que, com o tempo, Cuba lhes cairia no colo, pelas \u201cleis da gravita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d, como a ma\u00e7\u00e3 cai da \u00e1rvore. Em resumo: o poder dos EUA aumentaria e o da Gr\u00e3-Bretanha encolheria.<\/p>\n<p>Em 1898, o progn\u00f3stico de Adams se realizou. Os EUA invadiram Cuba, sob o disfarce de \u2018libertadores\u2019. Na verdade, impediram que a ilha se tornasse independente da Espanha e a converteram em \u201ccol\u00f4nia virtual\u201d, como disseram os historiadores Ernest May e Philip Zelikow. Cuba permaneceu nessa situa\u00e7\u00e3o at\u00e9 janeiro de 1959, quando se tornou independente. Desde ent\u00e3o, \u00e9 alvo de guerras terroristas movidas pelos EUA, e que come\u00e7aram nos anos Kennedy, e de tentativas de estrangulamento econ\u00f4mico. N\u00e3o por causa dos russos.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica dos EUA para Cuba tornou-se cada vez mais dura; e ainda mais sob governo Democrata, inclusive sob Bill Clinton, que conseguiu ultrapassar Bush pela direita, nas elei\u00e7\u00f5es de 1992. Nesse quadro, os eventos acima listados deveriam ter afetado a validade da doutrina, na discuss\u00e3o da pol\u00edtica externa e dos fatores que incidem sobre ela. Mas, n\u00e3o. Nada disso. Outra vez, o impacto dos fatos sobre a teoria foi m\u00ednimo.<\/p>\n<p><strong>O v\u00edrus do nacionalismo <\/strong><\/p>\n<p>Tomando emprestada a terminologia de Henry Kissinger, o nacionalismo \u00e9 \u201cum v\u00edrus\u201d cujo \u201ccont\u00e1gio pode disparar\u201d. Kissinger, a\u00ed, falava do Chile de Salvador Allende. O v\u00edrus, no caso, era a ideia de que podia haver via parlamentar para algum tipo de democracia socialista. O modo de enfrentar tamanha amea\u00e7a foi destruir o v\u00edrus e vacinar todos que pudessem ter sido contaminados; a solu\u00e7\u00e3o t\u00edpica foi impor em todos os casos os mais mort\u00edferos estados de seguran\u00e7a nacional. Foi feito assim no Chile. Mas \u00e9 importante perceber que esse tipo de pensamento permanece vivo em todo o mundo.<\/p>\n<p>Foi esse, por exemplo, o pensamento que havia por tr\u00e1s da decis\u00e3o de opor-se ao nacionalismo vietnamita no in\u00edcio da d\u00e9cada dos 1950s e apoiar o esfor\u00e7o da Fran\u00e7a para reconquistar sua ex-col\u00f4nia. Temia-se que o nacionalismo vietnamita independente pudesse ser um v\u00edrus que contaminaria as regi\u00f5es circundantes, inclusive a Indon\u00e9sia, riqu\u00edssima em recursos.<\/p>\n<p>Poderia at\u00e9 levar o Jap\u00e3o \u2013 chamado de \u201csuperdomin\u00f3\u201d, por John Dower, especialista em \u00c1sia \u2013 a tornar-se o centro de uma nova ordem industrial e comercial independente do tipo que o Jap\u00e3o imperial havia lutado ent\u00e3o recentemente para estabelecer.<\/p>\n<p>Tudo isso, por sua vez, significaria que os EUA teriam perdido a guerra pelo Pac\u00edfico, op\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se considerava em 1950. O rem\u00e9dio era claro \u2013 e foi usado com bastante sucesso: o Vietn\u00e3 foi virtualmente destru\u00eddo e foi cercado por ditaduras militares que mantiveram o \u201cv\u00edrus\u201d cercado e contiveram o cont\u00e1gio.<\/p>\n<p>Em retrospecto, McGeorge Bundy, Conselheiro de Seguran\u00e7a Nacional de Kennedy-Johnson, considerou que Washington deveria ter terminado a Guerra do Vietn\u00e3 em 1965, quando a ditadura de Suharto foi instalada na Indon\u00e9sia, com massacres terr\u00edveis, que a <em>CIA<\/em> comparou aos crimes de Hitler, St\u00e1lin e Mao. Mas o massacre para empossar Suharto foi saudado com incontida euforia nos EUA e no ocidente em geral, porque o \u201cespantoso banho de sangue\u201d, como a imprensa-empresa o comemorava euf\u00f3rica, p\u00f4s fim a qualquer amea\u00e7a de cont\u00e1gio e abriu os ricos recursos da Indon\u00e9sia aos exploradores ocidentais. Depois de isso estar feito, a guerra para destruir o Vietn\u00e3 j\u00e1 foi sup\u00e9rflua, como Bundy reconheceu, retrospectivamente.<\/p>\n<p>O mesmo \u00e9 verdade na Am\u00e9rica Latina, nos mesmos anos: um \u201cv\u00edrus\u201d depois do outro foi viciosamente atacado e destru\u00eddo ou enfraquecido a ponto de mal sobreviver. A partir do in\u00edcio dos anos 1960s, uma praga de repress\u00e3o foi imposta em todo o continente, uma hist\u00f3ria de viol\u00eancia sem precedentes no hemisf\u00e9rio, que se estendeu tamb\u00e9m para a Am\u00e9rica Central nos anos 1980s, no governo de Ronald Reagan, assunto ainda vivo na mem\u00f3ria que n\u00e3o \u00e9 preciso rememorar aqui.<\/p>\n<p>Muito disso tudo foi assim tamb\u00e9m no Oriente M\u00e9dio. As rela\u00e7\u00f5es especial\u00edssimas entre EUA e Israel ganharam a forma que hoje t\u00eam em 1967, quando Israel aplicou golpe violent\u00edssimo contra o Egito, o centro do nacionalismo \u00e1rabe secular. Ao faz\u00ea-lo, Israel protegeu a Ar\u00e1bia Saudita, aliada dos EUA, ent\u00e3o engajada em conflito militar contra o Egito, no I\u00eamen.<\/p>\n<p>A Ar\u00e1bia Saudita, \u00e9 claro, \u00e9 o estado isl\u00e2mico fundamentalista mais radical, e tamb\u00e9m \u00e9 estado mission\u00e1rio, que gasta somas astron\u00f4micas para difundir doutrinas salafistas wahhabistas al\u00e9m de suas fronteiras. Vale a pena lembrar que os EUA, como, antes deles, a Inglaterra, tenderam sempre a apoiar o Isl\u00e3 fundamentalista contra o nacionalismo secular, que sempre foi percebido como amea\u00e7a mais grave de independentismo e de cont\u00e1gio (o \u201cv\u00edrus\u201d, n\u00e3o esque\u00e7am).<\/p>\n<p><strong>O valor do segredismo <\/strong><\/p>\n<p>Muito h\u00e1 para dizer, mas o registro hist\u00f3rico demonstra muito claramente que a doutrina padr\u00e3o tem pouca serventia. A seguran\u00e7a, no sentido normal, n\u00e3o \u00e9 fator na forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Repito: no sentido normal de \u201cseguran\u00e7a\u201d. Mas, para avaliar a doutrina padr\u00e3o, \u00e9 preciso perguntar o qu\u00ea significa \u201cseguran\u00e7a\u201d. \u201cSeguran\u00e7a\u201d para quem?<\/p>\n<p>Uma resposta \u00e9: seguran\u00e7a para o poder do estado. H\u00e1 muitos exemplos. Consideremos um exemplo atual. Em maio, os EUA concordaram que apoiariam uma resolu\u00e7\u00e3o do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU para que a Corte Internacional de Justi\u00e7a, em Haia, investigasse crimes de guerra na S\u00edria, mas sob uma condi\u00e7\u00e3o: n\u00e3o poderia haver investiga\u00e7\u00e3o nenhuma de qualquer poss\u00edvel crime de guerra cometido por Israel. Nem de crimes cometidos por Washington. De fato, ningu\u00e9m nem precisaria declarar essa \u2018prote\u00e7\u00e3o\u2019 aos EUA, porque os EUA s\u00e3o a \u00fanica na\u00e7\u00e3o autoimunizada contra a a\u00e7\u00e3o de qualquer sistema legal internacional.<\/p>\n<p>De fato, h\u00e1 uma lei do Congresso dos EUA que autoriza o presidente a usar for\u00e7a armada para \u201cresgatar\u201d qualquer norte-americano que seja levado a Haia para ser julgado: \u00e9 a \u201cNetherlands Invasion Act\u201d [Lei da Invas\u00e3o dos Pa\u00edses Baixos], como \u00e9 \u00e0s vezes chamada na Europa. Assim, mais uma vez, se comprova a import\u00e2ncia de proteger a seguran\u00e7a do poder do estado.<\/p>\n<p>Mas proteger a seguran\u00e7a do estado, contra quem? Pode-se muito bem argumentar que a principal preocupa\u00e7\u00e3o do governo \u00e9 proteger a seguran\u00e7a do estado e contra a pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o. Como sabe qualquer pessoa que se tenha dedicado a vasculhar arquivos, o segredismo, o chamado \u2018sigilo\u2019 que protege o governo, raramente \u00e9 motivado por leg\u00edtima preocupa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a; praticamente em todos os casos o segredismo oficial visa, exclusivamente, a manter a popula\u00e7\u00e3o em total ignor\u00e2ncia, sem saber do que se passa.<\/p>\n<p>E por boas raz\u00f5es, como explicou lucidamente o ilustre intelectual liberal e conselheiro governamental Samuel Huntington, professor de ci\u00eancia de governo na Harvard University. Nas palavras dele: \u201cOs arquitetos do poder nos EUA devem criar uma for\u00e7a que seja sentida, mas n\u00e3o seja vista. O poder permanece forte quando se guarda no escuro; exposto \u00e0 luz do sol, come\u00e7a a evaporar.\u201d<\/p>\n<p>Huntington escreveu isso em 1981, quando a Guerra Fria voltava a esquentar, e explicou tamb\u00e9m que \u201cvoc\u00ea tem de vender [interven\u00e7\u00e3o ou outra a\u00e7\u00e3o militar] de modo tal que crie a falsa impress\u00e3o de que o que voc\u00ea combate \u00e9 a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. \u00c9 o que os EUA sempre fizeram, desde a Doutrina Truman.\u201d<\/p>\n<p>S\u00e3o verdades simples, raramente reconhecidas, mas ajudam a ver por dentro do poder e das pol\u00edticas do estado, e t\u00eam reverbera\u00e7\u00f5es at\u00e9 nossos dias.<\/p>\n<p>O poder do estado tem de ser protegido contra seu inimigo dom\u00e9stico; em agudo contraste com isso, a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem como se proteger contra o poder do estado. Impressionante exemplo atual \u00e9 o ataque frontal, mortal, que o governo Obama move contra a Constitui\u00e7\u00e3o dos EUA, com seu programa de vigil\u00e2ncia interna massiva. A coisa, \u00e9 claro, justifica-se sob o argumento da \u201cseguran\u00e7a nacional\u201d. Mas \u00e9 o que dizem virtualmente todos os estados para justificar todas as suas a\u00e7\u00f5es e, assim sendo, pouco significa ou informa.<\/p>\n<p>Quando o programa de vigil\u00e2ncia total da Ag\u00eancia de Seguran\u00e7a Nacional dos EUA foi desmascarado pelas revela\u00e7\u00f5es de Edward Snowden, altos funcion\u00e1rios correram a declarar que a vigil\u00e2ncia total teria evitado 54 atos terroristas. No inqu\u00e9rito, o n\u00famero j\u00e1 baixou para uma d\u00fazia. Na sequ\u00eancia, um painel de alto n\u00edvel criado pelo governo logo descobriu que, de fato, s\u00f3 um caso fora realmente \u2018descoberto\u2019: algu\u00e9m mandara $8.500 para a Som\u00e1lia. Foi o \u00fanico \u2018benef\u00edcio\u2019 obtido dessa vasto ataque contra a Constitui\u00e7\u00e3o e, claro, tamb\u00e9m contra milh\u00f5es de outras pessoas em todo o mundo.<\/p>\n<p>A atitude da Gr\u00e3-Bretanha \u00e9 interessante. Em 2007, o governo brit\u00e2nico contratou a colossal ag\u00eancia de espi\u00f5es de Washington, para que \u201canalisasse e recolhesse todos os n\u00fameros de celulares, fax, endere\u00e7os de <em>e-mails<\/em> e <em>IP<\/em>s de qualquer cidad\u00e3o\/\u00e3 brit\u00e2nico\/a que houvesse em seu banco de dados\u201d \u2013 como o <em>Guardian<\/em> noticiou. D\u00e1 indica\u00e7\u00e3o \u00fatil da import\u00e2ncia relativa, aos olhos do governo, de o estado proteger a privacidade dos pr\u00f3prios cidad\u00e3os e das encomendas que Washington recebe.<\/p>\n<p>Outra preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 garantir seguran\u00e7a ao poder privado.<\/p>\n<p>Exemplo atual s\u00e3o os gigantescos acordos comercial que est\u00e3o sendo negociados, as \u2018parcerias\u2019 Trans-Pac\u00edfico e Trans-Atl\u00e2ntico. Est\u00e3o sendo negociadas em segredo, mas n\u00e3o totalmente em segredo. Absolutamente n\u00e3o s\u00e3o segredo para as centenas de advogados de corpora\u00e7\u00f5es que est\u00e3o redigindo as cl\u00e1usulas e seus muitos detalhes. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil adivinhar quais ser\u00e3o os resultados, e os raros \u2018vazamentos\u2019 que se conhecem sugerem que o que se espera e teme, sim, \u00e9 o que acontecer\u00e1.<\/p>\n<p>Como o NAFTA e outros desses \u2018pactos\u2019 e \u2018parcerias\u2019, n\u00e3o s\u00e3o acordos de livre com\u00e9rcio. De fato, sequer s\u00e3o acordos de com\u00e9rcio: s\u00e3o, em primeiro lugar, acordos que fixam os direitos dos investidores.<\/p>\n<p>Mais uma vez o segredismo, o \u2018sigilo\u2019, \u00e9 criticamente importante para garantir seguran\u00e7a \u00e0 parte que interessa do eleitorado dom\u00e9stico de qualquer governo: ao setor empresarial, chamado \u201ccorporativo\u201d, \u00e0s empresas privadas.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/goo.gl\/ZElvEU\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow\">http:\/\/goo.gl\/ZElvEU<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nNoam Chomsky\nH\u00e1 uma \u201cvers\u00e3o padr\u00e3o recebida\u201d, comum na academia, em pronunciamentos do governo e no discurso p\u00fablico, segundo a qual o primeiro dever de qualquer governo \u00e9 prover seguran\u00e7a; e que a principal preocupa\u00e7\u00e3o dos EUA e seus aliados, desde 1945, sempre foi a \u201camea\u00e7a russa\u201d.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6424\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-6424","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1FC","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6424","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6424"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6424\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6424"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6424"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6424"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}