{"id":6434,"date":"2014-07-11T00:11:49","date_gmt":"2014-07-11T00:11:49","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6434"},"modified":"2014-07-11T00:11:49","modified_gmt":"2014-07-11T00:11:49","slug":"francisco-javier-tolosa-marcha-patriotica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6434","title":{"rendered":"Francisco Javier Tolosa (Marcha Patri\u00f3tica):"},"content":{"rendered":"\n<p>Apesar da vis\u00e3o escatol\u00f3gica sobre as elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 15 de junho passado apresentada pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o e que conseguiu impregnar importantes setores populares e democr\u00e1ticos do pa\u00eds, a vida cotidiana e a luta pol\u00edtica do povo colombiano continuou sem maiores sobressaltos. Nem nos precipitamos novamente ao inferno de uma guerra \u2013 porque nunca sa\u00edmos dela \u2013, nem ascendemos ao nirvana de um quim\u00e9rico p\u00f3s-conflito; os avan\u00e7os ou retrocessos da solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e as mudan\u00e7as democr\u00e1ticas necess\u00e1rias de nossa p\u00e1tria, continuam dependendo \u2013 como sempre \u2013 da pot\u00eancia do que na Marcha Patri\u00f3tica chamamos de pessoas comuns, ou seja, da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as de desenvolvimento geral da luta de classes em nosso pa\u00eds, de seus n\u00edveis organizativos, de mobiliza\u00e7\u00e3o e combatividade em todas suas express\u00f5es.<\/p>\n<p>Sem pretender diminuir a import\u00e2ncia que possui a defini\u00e7\u00e3o dentro do bloco de poder sobre o tipo de projeto hegem\u00f4nico que devemos combater, esta an\u00e1lise n\u00e3o pode ofuscar a necess\u00e1ria vis\u00e3o de longo prazo acerca das vari\u00e1veis estruturais da din\u00e2mica pol\u00edtica mantidas no caso colombiano de forma constante.<\/p>\n<p>Se temos afirmado sistematicamente \u2013 e com todo fundamento \u2013 que o sistema eleitoral colombiano \u00e9 esp\u00fario, n\u00e3o podemos pensar que seus resultados agora s\u00e3o leg\u00edtimos. Se reivindicamos o car\u00e1ter social e pol\u00edtico do conflito, ou seja, compreendemos esta guerra como enraizada na estrutura de poder e de classe do pa\u00eds, errar\u00edamos se outorg\u00e1ssemos sua resolu\u00e7\u00e3o ou seu prolongamento indefinido \u00e0 decis\u00e3o individual de um mandat\u00e1rio de turno, e n\u00e3o ao resultado da luta pol\u00edtica geral em cen\u00e1rios que superam as urnas. O presente processo de di\u00e1logo com as insurg\u00eancias n\u00e3o \u00e9 o resultado de uma d\u00e1diva olig\u00e1rquica como apregoam os \u201copinadores\u201d, mas uma conquista do movimento popular colombiano em todas as suas formas, conquista que precisa ser referendada cotidianamente ao calor da luta popular para que possa avan\u00e7ar rumo \u00e0 aut\u00eantica solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ou corre o risco de ser revertida.<\/p>\n<p>Depois do 15 de junho, a vida e a luta seguiram \u2013 com o Mundial de Futebol inclu\u00eddo \u2013, n\u00e3o houve o profetizado Armagedon definitivo de nossa hist\u00f3ria. As causas que originaram o conflito continuam im\u00f3veis porque n\u00e3o podiam ser exorcizadas por nenhum sortil\u00e9gio eleitoral. Nem a desequilibrada concentra\u00e7\u00e3o da terra nas m\u00e3os do grande latif\u00fandio ocioso \u2013 substrato de classe de boa parte do uribismo \u2013, nem a aus\u00eancia de garantias democr\u00e1ticas que cerceiam a participa\u00e7\u00e3o das maiorias foram apagadas com uma canetada \u2013 nem podiam s\u00ea-lo \u2013 pela \u201cnova\u201d realidade eleitoral. Infelizmente permanecem em suas celas os milhares de prisioneiros pol\u00edticos colombianos, dos quais j\u00e1 somos mais de 330 processados da Marcha Patri\u00f3tica. Nem as bases norte-americanas e nem a ofensiva militar dirigida pelo ministro de Guerra Pinz\u00f3n retrocederam um mil\u00edmetro, enquanto a locomotiva neoextrativista continua minando a sustentabilidade deste modelo econ\u00f4mico com claros limites ambientais, sociais e produtivos, enquanto o grande capital financeiro transnacional engorda com lucros que na d\u00e9cada de 2001-2009 subiram mais de 1.000%, empobrecendo milh\u00f5es de trabalhadores colombianos<sup><sup>1<\/sup><\/sup>.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos perder de vista que no segundo turno presidencial a perenidade da quintess\u00eancia do status quo colombiano estava duplamente garantida. Em primeiro lugar, porque elei\u00e7\u00f5es dentro de um sistema pol\u00edtico apenas dirimem os aspectos mais imediatos do governo e n\u00e3o do poder em seu conjunto. Definem a administra\u00e7\u00e3o do estado, mas n\u00e3o sua pr\u00f3pria configura\u00e7\u00e3o. Nada mais equivocado que pensar que as mudan\u00e7as democr\u00e1ticas importantes recentes na Am\u00e9rica Latina est\u00e3o determinadas por vit\u00f3rias nas urnas e n\u00e3o pelo processo de mobiliza\u00e7\u00e3o e gera\u00e7\u00e3o de poder constituinte dos povos irm\u00e3os, que romperam com os anacr\u00f4nicos regimes pol\u00edticos existentes.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, porque a coluna vertebral do projeto hegem\u00f4nico \u00e9 de consenso entre as 2 fac\u00e7\u00f5es do bloco de poder que disputavam a presid\u00eancia em 15 de junho. Boa parte da polariza\u00e7\u00e3o vinha induzida midiaticamente, buscando reanimar os agora calmos esp\u00edritos bipartidaristas, considerando o acordo essencial entre santistas e uribistas quanto ao modelo econ\u00f4mico de reprimariza\u00e7\u00e3o financeirizada<sup><sup>2<\/sup><\/sup>, o alinhamento internacional obsequioso com Washington, a manuten\u00e7\u00e3o do excludente regime pol\u00edtico e a busca pela derrota pol\u00edtica do movimento insurgente. Surgem, obviamente, matizes transcendentais em todos os aspectos mencionados \u2013 em que pese o fato da matriz midi\u00e1tica ter se dedicado a explorar apenas alguns aspectos destas diferen\u00e7as \u2013, mas, sem d\u00favidas, n\u00e3o presenciamos uma dist\u00e2ncia de projetos dentro do bloco do poder do conjunto dos governos reformistas da regi\u00e3o<sup><sup>3<\/sup><\/sup>, mas antes de tudo op\u00e7\u00f5es dentro do plano estrat\u00e9gico do grande capital e da rea\u00e7\u00e3o sobre nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>A presente conjuntura desnuda com nitidez a profunda crise do regime pol\u00edtico colombiano: absten\u00e7\u00e3o estrutural de mais de 50% sustentada por 4 d\u00e9cadas, crise de representatividade dos coletivos partid\u00e1rios, a mais profunda separa\u00e7\u00e3o clientelista do exerc\u00edcio do voto a favor das m\u00e1fias legalizadas ou n\u00e3o, a crescente dificuldade de reposi\u00e7\u00e3o dos quadros das classes dominantes e o mais virulento enfrentamento no bloco de poder desde seus acordos de paz nas praias de Sitges e Benidorm h\u00e1 mais de meio s\u00e9culo. Este \u00e9 o panorama que descrevem as elei\u00e7\u00f5es deste ano, sendo a mera exterioriza\u00e7\u00e3o de c\u00e2nceres que carcomem o regime que se proclama internacionalmente como a \u201cdemocracia mais antiga da regi\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Os porta-vozes editoriais das classes dominantes, ao adularem os sufr\u00e1gios obtidos por seus 2 candidatos, querendo apresent\u00e1-los diante de todos como s\u00e9rios votos de opini\u00e3o \u201ca favor da paz\u201d ou \u201cpela retifica\u00e7\u00e3o do processo de di\u00e1logo\u201d, e a lan\u00e7ar elucubra\u00e7\u00f5es anal\u00edticas sobre vencedores e perdedores. Parece que n\u00e3o quiseram levar em conta a importante torrente de vota\u00e7\u00e3o condicionada pelas m\u00e1fias clientelistas e os n\u00e3o menos mafiosos grupos econ\u00f4micos, ou o transcendente voto constrangido a coronhadas de fuzil pelos paramilitares rebatizados. E, \u00e9 claro, estes analistas corajosamente ignoram que nenhum destes m\u00e9todos, somados \u00e0 matriz midi\u00e1tica que se comportava como uma aut\u00eantica campanha do medo, conseguiram convocar nem sequer a metade dos eleitores. Cada vez mais s\u00e3o revelados os impactos da crise e a ilegitimidade do regime pol\u00edtico. Os pomposos 7.8 milh\u00f5es de votos do presidente ou os 6.9 milh\u00f5es que obteve Zuluaga, empalidecem ante os 17.2 milh\u00f5es de colombianos que n\u00e3o foram \u00e0s urnas.<\/p>\n<p>Realizar uma disseca\u00e7\u00e3o detalhada do voto de cada candidato e da pr\u00f3pria absten\u00e7\u00e3o, permitindo rastrear a ruptura do bloco do poder nas regi\u00f5es e setores de classe, \u00e9 um exerc\u00edcio necess\u00e1rio para o nosso que fazer pol\u00edtico, por\u00e9m que supera estas linhas. No momento, basta apenas dizer, mais que senten\u00e7as grandiloquentes sobre a \u201cvit\u00f3ria da paz\u201d, que dentro da minoria votante ganhou o rep\u00fadio ao uribismo. Ou seja, que n\u00e3o com muita folga Santos gera menos aborrecimento que Uribe entre os que votaram e, sobretudo, entre os que controlam a vota\u00e7\u00e3o. Esta realidade decanta um componente caracter\u00edstico da presente crise do regime pol\u00edtico: as dificuldades de reposi\u00e7\u00e3o e de consenso dentro do bloco do poder. Santos \u00e9 presidente reeleito mais pela desqualifica\u00e7\u00e3o e rep\u00fadio que geram seus advers\u00e1rios, que pela confian\u00e7a ou coes\u00e3o que ele mesmo gera no seio de sua classe, condi\u00e7\u00e3o que, obviamente, pesar\u00e1 naquilo que os assessores estatais chamam governabilidade.<\/p>\n<p>A decomposi\u00e7\u00e3o do sistema pol\u00edtico, que pode aprofundar neste segundo mandato de Santos diante da intriga parlamentar que tecer\u00e1 a bancada uribista \u2013 recordando-nos dos mesm\u00edssimos nazistas no Reichstag antes de 1933 \u2013, os j\u00e1 assinalados limites do atual modelo econ\u00f4mico e as indefini\u00e7\u00f5es do bloco do poder frente ao processo de paz, ratificam a necessidade da substitui\u00e7\u00e3o do regime pol\u00edtico mediante uma Assembleia Nacional Constituinte para a paz, com a participa\u00e7\u00e3o direta dos setores populares historicamente exclu\u00eddos. Do contr\u00e1rio, o advento desta crise org\u00e2nica bem pode ser aproveitado para a renova\u00e7\u00e3o do regime com o cara ou coroa da moeda lan\u00e7ada nestas elei\u00e7\u00f5es de 2014: seja atrav\u00e9s de uma en\u00e9sima virada <em>gatopardista<\/em>, como em 1991, mudando formas para que tudo continue igual, ou mediante a implanta\u00e7\u00e3o de um regime descaradamente neofascista que, em todo caso, salvaguarde os eternos privil\u00e9gios das classes dominantes.<\/p>\n<p>Quando uma campanha \u00e9 taxada pela pr\u00f3pria grande imprensa dominante como a mais suja da hist\u00f3ria em um pa\u00eds que em uma mataram-se 3 candidatos presidenciais; em outra, cortaram a luz e mudaram-se os resultados ou aquela que elegeu presidentes com financiamento dos cart\u00e9is de droga ou da motosserra paramilitar, a afirma\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve ser ignorada. Inevitavelmente a caracteriza\u00e7\u00e3o do momento pol\u00edtico passa por determinar o impacto da fratura no seio do bloco do poder que se expressou nesta \u00faltima disputa eleitoral.<\/p>\n<p>\u00c9 neste campo onde mais impress\u00f5es abundam, desde aqueles que exacerbam publicitariamente as diferen\u00e7as at\u00e9 os que, de forma simplista e antidial\u00e9tica, homologam as 2 fac\u00e7\u00f5es como se a ruptura n\u00e3o existisse. \u00c9 ponto-chave n\u00e3o cair em esquematismos nem vis\u00f5es tendenciosas.<\/p>\n<p>Como mencionado anteriormente, falamos de duas pessoas que respondem a um mesmo projeto estrat\u00e9gico do capitalismo transnacional e da direita continental. Duas pessoas que bem podem significar duas etapas necess\u00e1rias em seu plano de estabiliza\u00e7\u00e3o olig\u00e1rquica, com acordos no fundamental, mas com diferen\u00e7as essenciais nos meandros do modelo hegem\u00f4nico. Basta dizer que estas controv\u00e9rsias, amplificadas pela grande imprensa, foram a base da pol\u00edtica colombiana atrav\u00e9s de seu inveterado bipartidarismo que, sem ter contradi\u00e7\u00f5es antag\u00f4nicas, ensanguentou o pa\u00eds desde o surgimento da pr\u00f3pria rep\u00fablica. Dentro do \u201ccivilismo\u201d colombiano, a guerra civil sempre foi um recurso frequente das elites para resolver suas disputas e agora, com a incorpora\u00e7\u00e3o das m\u00e1fias ao bloco do poder e a maior participa\u00e7\u00e3o direta do imperialismo em ambos os grupos, certamente a virul\u00eancia da disputa entre as duas fac\u00e7\u00f5es que se enfrentam ser\u00e1 de grandes propor\u00e7\u00f5es, sendo visto na campanha eleitoral o mero prel\u00fadio do espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>Os meios de comunica\u00e7\u00e3o \u2013 inclu\u00eddos os supostamente alternativos \u2013 pouco ajudam a caracterizar estas fraturas: Santos \u00e9 o di\u00e1logo, Uribe a guerra. O santismo \u00e9 a geleia, o uribismo o paramilitarismo. Ideologicamente, dizem: o santismo \u00e9 liberal e Uribe \u00e9 o conservadorismo. Santos \u00e9 a oligarquia; Uribe o advent\u00edcio. Santos \u00e9 o centralismo bogotano. Uribe as regi\u00f5es. Um olhar mais detalhado sobre suas coliga\u00e7\u00f5es poder\u00e1 denotar que apesar das tend\u00eancias, estas duplas s\u00e3o transversais aos dois grupos.<\/p>\n<p>Falamos dos grandes acordos entre os grupos: o modelo econ\u00f4mico, o alinhamento internacional com o Departamento de Estado, a manuten\u00e7\u00e3o do antidemocr\u00e1tico regime pol\u00edtico e a busca da derrota pol\u00edtica do movimento insurgente. N\u00e3o obstante, em cada um deles as fac\u00e7\u00f5es guardam nuances que estar\u00e3o enraizadas nos interesses de classe: um uribismo mais ligado ao latif\u00fandio tradicional e improdutivo com ancoragem nos elos mais baixos do capitalismo criminoso colombiano; e o santismo, expressando a fac\u00e7\u00e3o do bloco do poder plenamente integrada ao grande capital financeiro transnacional e tamb\u00e9m a estas camadas branqueadas do capitalismo mafioso. Os obst\u00e1culos, tens\u00f5es, ritmos e velocidade s\u00e3o distintos, assim como as m\u00faltiplas interse\u00e7\u00f5es com outras variantes estruturais da realidade colombiana, como a guerra interna \u2013 e sua economia pol\u00edtica \u2013, a pol\u00edtica nas regi\u00f5es, entre tantas coisas.<\/p>\n<p>Ambas as fac\u00e7\u00f5es apostam no neoliberalismo e o neoextrativismo, por\u00e9m sua proposta agr\u00e1ria varia. S\u00e3o as tens\u00f5es pr\u00f3prias entre a manuten\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es autenticamente pr\u00e9-capitalistas no campo, mediante terras ociosas dedicadas a pastos que, apesar de sua improdutividade, s\u00e3o o sustento de poder a n\u00edvel territorial, ou a moderniza\u00e7\u00e3o capitalista conforme as atuais l\u00f3gicas de financeiriza\u00e7\u00e3o e transnacionaliza\u00e7\u00e3o ligadas ao mercado das commodities.<\/p>\n<p>Ambos os grupos confiam em ser representantes da Casa Branca na regi\u00e3o, por\u00e9m com t\u00e1ticas diferenciadas: do garrote certeiro do uribismo, que bombardeia o Equador e conspira abertamente contra a Venezuela, \u00e0 diplomacia p\u00e9rfida de Santos, que desmonta cen\u00e1rios de guerra aberta, mas continua impulsionando a Alian\u00e7a do Pac\u00edfico, assina um acordo com a OTAN e apoia as a\u00e7\u00f5es dos golpistas venezuelanos de sua embaixada em Caracas ou com a pequena Miami, premiando os esqu\u00e1lidos do norte de Bogot\u00e1.<\/p>\n<p>Os dois projetos da direita coincidem em sua defesa do atual regime pol\u00edtico, que reivindicam como democr\u00e1tico. O uribismo quer fazer adequa\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias em aspectos relacionados com o executivo ou a administra\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a. O santismo, pelo contr\u00e1rio, quer queimar as pontes diante de qualquer nova tentativa de bonapartismo e fortalecer os chamados contrapesos institucionais, ou seja, o controle de classe em seu conjunto sobre o sistema pol\u00edtico, uma normaliza\u00e7\u00e3o burguesa ap\u00f3s o recurso excepcional ao caudilhismo uribista. Por\u00e9m, nenhum dos dois lados concebe a abertura democr\u00e1tica e nem a plena inclus\u00e3o de setores pol\u00edticos que, como a insurg\u00eancia, devem ser parte integrante de um novo sistema pol\u00edtico para a paz.<\/p>\n<p>Finalmente, este estabelecimento bic\u00e9falo \u00e9 monol\u00edtico em buscar a derrota pol\u00edtica da insurg\u00eancia revolucion\u00e1ria. A pacifica\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio \u00e9 condi\u00e7\u00e3o sine qua non para a entrada plena da Col\u00f4mbia na presente faceta do capitalismo global. Para isso, o bloco do poder realiza a guerra de diversas formas, com especial afinco nos \u00faltimos 50 anos. Hoje, uma fac\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria representada pelo santismo e avalizada pelo atual governo norte-americano considera que \u00e9 o momento de obter mediante o di\u00e1logo um acordo de desmobiliza\u00e7\u00e3o e rendi\u00e7\u00e3o das guerrilhas. Outra fac\u00e7\u00e3o minorit\u00e1ria, mas estrat\u00e9gica por seu poder, condicionada por suas liga\u00e7\u00f5es de classe no latif\u00fandio ou a pr\u00f3pria guerra<sup><sup>4<\/sup><\/sup>, considera complicado utilizar o di\u00e1logo para obter esta entrega final de armas. Eis aqui o dilema atual dentro do bloco do poder, distantes ambas as op\u00e7\u00f5es, at\u00e9 hoje, da proposta de solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica: a <em>\u201cpaz express, light e free\u201d<\/em> de Santos ou a <em>\u201cpax romana\u201d<\/em> de Uribe.<\/p>\n<p>No entanto, estas posturas n\u00e3o s\u00e3o est\u00e1ticas. S\u00e3o produto da din\u00e2mica de luta de classes \u2013 inclu\u00eddos os conflitos no seio da burguesia \u2013, por\u00e9m basta recordar o consenso majorit\u00e1rio que teve a postura de n\u00e3o di\u00e1logo durante quase uma d\u00e9cada e que hoje \u00e9 desdenhada por aqueles mesmos que a enaltecem. Enquanto isso, n\u00e3o serve ao povo colombiano nenhuma destas op\u00e7\u00f5es e dever\u00e1 seguir lutando de diferentes formas para conquistar a aut\u00eantica paz, a solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do conflito social armado, que requer a participa\u00e7\u00e3o direta do povo soberano e de um novo pacto para a reconcilia\u00e7\u00e3o nacional. Por isso, paz hoje \u00e9 ANC, que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel mediante a luta pol\u00edtica e unit\u00e1ria de todos os setores populares e democr\u00e1ticos.<\/p>\n<p>As elei\u00e7\u00f5es passadas expressaram a crise do regime no marco da qual se desprende um consider\u00e1vel setor das classes dominantes com posi\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas sobre a terra, as For\u00e7as Militares, as decadentes oligarquias regionais e a chamada classe pol\u00edtica. Este setor, condensado no Centro Democr\u00e1tico, tem hoje a particularidade, pela primeira vez na hist\u00f3ria nacional recente, de estar disposto a enfrentar o consenso majorit\u00e1rio do bloco do poder do qual fazem parte e que tem sido seu pr\u00f3prio mentor. Uribe conseguiu juntar em um s\u00f3 partido desde narcoparamilitares at\u00e9 o senhorial falangismo colombiano, passando por agentes dos falc\u00f5es norte-americanos, elites pol\u00edticas e econ\u00f4micas regionais desprezadas no atual bloco do poder, assim como o espectro social e pol\u00edtico da c\u00fapula das For\u00e7as Armadas.<\/p>\n<p>Sem pretender for\u00e7ar nossa realidade, \u00e9 inevit\u00e1vel encontrar um claro tra\u00e7o neofascista na proje\u00e7\u00e3o do uribismo. Um fascismo macondiano e g\u00e2ngster, mas com claras caracter\u00edsticas de continuidade, em sintonia com a crise global capitalista e a emerg\u00eancia da chamada ultradireita a n\u00edvel mundial. Outra vez o fascismo como op\u00e7\u00e3o desesperada de uma oligarquia que teme o crescimento e avan\u00e7o dos setores revolucion\u00e1rios, como na Europa do entreguerras ou na Col\u00f4mbia de 2002.<\/p>\n<p>Os aspectos s\u00e3o di\u00e1fanos: uma alternativa conservadora em meio a uma crise pol\u00edtica generalizada, ampliada por uma recess\u00e3o econ\u00f4mica global e pela proje\u00e7\u00e3o de uma op\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria; um discurso manique\u00edsta explicativo da crise que demoniza o advers\u00e1rio e o culpa por tudo, que no caso colombiano agora amplia do \u201cterrorismo\u201d ao \u201ccastrochavismo\u201d; seu caudilhismo messi\u00e2nico buscando enquadrar setores populares mediante um grande aparato de propaganda; sua defesa das tradi\u00e7\u00f5es mais conservadoras e reacion\u00e1rias da vida social e pol\u00edtica; seu desd\u00e9m pelas formas institucionais e o inevit\u00e1vel recurso \u00e0 viol\u00eancia por seus grupos de choque. Necessita, por agora, ap\u00f3s a falha tentativa de seus 8 anos de governo, de uma aut\u00eantica for\u00e7a de massas organizada, apesar de observar disputas nesta via, o que n\u00e3o impede a identifica\u00e7\u00e3o do uribismo com este fascismo do s\u00e9culo XXI reanimado a n\u00edvel mundial ante a queda do capitalismo liberal, e que na Col\u00f4mbia tem um papel especial, como parte da estrat\u00e9gia continental de combate contra os pa\u00edses da ALBA-TCP.<\/p>\n<p>Seria equivocado impingir a totalidade da vota\u00e7\u00e3o de Zuluaga a esta op\u00e7\u00e3o neofascista, j\u00e1 que aqui tamb\u00e9m se refletem votos de \u00f3dio e ressentimento contra o presidente Santos por diversos motivos que v\u00e3o desde o aborrecimento das linhagens santa-feenses, como expresso pelo escritor William Ospina, at\u00e9 o voto castigo dos prejudicados por sua pol\u00edtica econ\u00f4mica, como os cultivadores de batata de Boyac\u00e1. O que n\u00e3o impede destacar o perfil da alternativa fascista que tenta encarnar o uribismo e, portanto, a import\u00e2ncia da luta antifascista em todas as frentes poss\u00edveis. A vota\u00e7\u00e3o uribista denota um importante contingente urbano das camadas m\u00e9dias e baixas que, sem serem benefici\u00e1rias do projeto excludente, s\u00e3o presas do discurso b\u00e1sico e vulgar do neofascismo ressoadas pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0queles que fazem profecias sobre a civiliza\u00e7\u00e3o capitalista, que sempre decretam superados os cap\u00edtulos mais obscuros da hist\u00f3ria, a oligarquia colombiana n\u00e3o tem pudor em adotar permanentemente as op\u00e7\u00f5es mais reacion\u00e1rias quando sente seu poder amea\u00e7ado. O fascismo \u2013 que sempre foi uma for\u00e7a latente neste pa\u00eds \u2013 se potencializa remo\u00e7ado nesta conjuntura e, certamente, explorar\u00e1 ao m\u00e1ximo sua tribuna parlamentar, ap\u00f3s consolidar-se regionalmente nas elei\u00e7\u00f5es de 2015, sem prejudicar a ado\u00e7\u00e3o de todas as formas de luta e sabotagem pol\u00edtica para fazer fracassar o processo de di\u00e1logo com as insurg\u00eancias. Nossa disputa com este neofascismo deve dar-se em todos os terrenos, especialmente em uma gigantesca campanha ideol\u00f3gica para os jovens e as massas populares que aspiram ser convertidos em suas bases, sem limitar para isso nenhum meio v\u00e1lido para construir nossa contra-hegemonia, como demonstram as experi\u00eancias hist\u00f3ricas de vit\u00f3ria contra esta a\u00e7\u00e3o agressiva do capital.<\/p>\n<p>Quem observa \u00e9 que escolhe, reza o velho dito popular. Em um sistema que qualificamos como antidemocr\u00e1tico, foi eleito o candidato mais \u00fatil aos interesses imediatos da maioria do bloco do poder em nosso pa\u00eds, n\u00e3o sem os m\u00faltiplos condicionamentos impostos pelo momento hist\u00f3rico concreto.<\/p>\n<p>Para entender Santos, al\u00e9m de sua \u00f3bvia determina\u00e7\u00e3o de classe, n\u00e3o se pode perder de vista 2 de suas caracter\u00edsticas pessoais: primeira, nutrido com o jornal El Tiempo do qual ele mesmo foi subdiretor, manipular a matriz informativa de opini\u00e3o com destreza; segundo, \u00e9 um pertinente estrategista no jogo de cartas. Estamos falando, ent\u00e3o, de um jogador profissional, especialista em estratagemas e especula\u00e7\u00f5es. Um seguidor do engano de que at\u00e9 os de sua estirpe desconfiam. Se algu\u00e9m tem d\u00favida, assim poder\u00e3o certificar Uribe, Samper, Pastrana ou seu pr\u00f3prio primo Francisco.<\/p>\n<p>O presidente candidato construiu a matriz que homologava sua reelei\u00e7\u00e3o com um plebiscito pela paz. Seus objetivos eram claros: o fortalecimento de seu segundo mandato, depois de um quadri\u00eanio que termina com debilidades, e um b\u00e1lsamo de legitima\u00e7\u00e3o para o mesm\u00edssimo regime pol\u00edtico. Santos buscou uma vit\u00f3ria contundente no segundo turno, que o potencialize em seu debate no seio do bloco do poder contra o uribismo, mas que tamb\u00e9m o fortale\u00e7a em sua campanha de imposi\u00e7\u00e3o de sua paz <em>express<\/em>. Nada mais eloquente que as palavras do dia de sua vit\u00f3ria eleitoral: <em>\u201cA mensagem de hoje \u00e9 tamb\u00e9m para as FARC e o ELN. E \u00e9 uma mensagem clara: este \u00e9 o fim e \u00e9 preciso chegar a ele com seriedade e decis\u00e3o\u201d<\/em>, no qual pretende apresentar seus votos como uma defesa \u00e0 desmobiliza\u00e7\u00e3o insurgente. Para isso inicia uma grande campanha midi\u00e1tica sobre uma esp\u00e9cie de Armagedon eleitoral, que conseguiu diminuir 10 pontos de absten\u00e7\u00e3o entre o primeiro e o segundo turno.<\/p>\n<p>Indubitavelmente foram milh\u00f5es de colombianos bem intencionados que deram seu voto ao presidente Santos, envoltos pelo desejo de paz. Por\u00e9m, da mesma maneira, \u00e9 ineg\u00e1vel que para este desejo ser levado a cabo n\u00e3o se pode confiar em um personagem da laia de Santos. \u00c9 preciso um processo pol\u00edtico mais complexo de ascend\u00eancia do poder constituinte para a aut\u00eantica solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, que passa por remover vontades do pr\u00f3prio bloco do poder que expressa o santismo.<\/p>\n<p>O processo de di\u00e1logo com as FARC-EP entra em um momento determinante. Seu t\u00e9rmino feliz s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel atrav\u00e9s do acompanhamento protagonista do movimento popular em uma Assembleia Nacional Constituinte e mediante a compreens\u00e3o do bloco do poder de que um acordo de paz significa reformas pol\u00edticas substanciais, entendimento que apenas se dar\u00e1 pela dial\u00e9tica da luta de classes em todas as suas formas.<\/p>\n<p>Enquanto a m\u00eddia transita pela rapina burocr\u00e1tica entre os velhos e novos s\u00f3cios do santismo para formar gabinetes, por tr\u00e1s desta disputa existem algumas contradi\u00e7\u00f5es maiores que a colis\u00e3o dominante. H\u00e1 consenso entre todos seus grupos em aprovar o di\u00e1logo para colocar fim ao confronto armado, conforme requerem seus investidores, por\u00e9m os termos de um poss\u00edvel acordo com a insurg\u00eancia geram os maiores dissensos no pr\u00f3prio governo.<\/p>\n<p>A matriz de opini\u00e3o come\u00e7a a apresentar a chamada \u201cpaz sem impunidade\u201d, simplificada pelas m\u00eddias como \u201cc\u00e1rcere ou congresso\u201d, o que, certamente, ter\u00e1 uma agressiva campanha propagand\u00edstica com o in\u00edcio da discuss\u00e3o sobre as V\u00edtimas na Mesa de Havana. A pretens\u00e3o de submeter a insurg\u00eancia \u00e0 justi\u00e7a contra a qual eles se levantaram em armas, n\u00e3o pode ser o ponto de partida para esta discuss\u00e3o, mas, pelo contr\u00e1rio, a compreens\u00e3o do car\u00e1ter estrutural da viol\u00eancia emanada pelo conflito, que se erige como assassino \u00fanico tal qual como se come\u00e7a a expressar nos acordos metodol\u00f3gicos sobre o tema das delega\u00e7\u00f5es de paz, a necess\u00e1ria verdade hist\u00f3rica e a constru\u00e7\u00e3o de uma nova normativa jur\u00eddica conforme o novo momento pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Por princ\u00edpio, a pris\u00e3o n\u00e3o pode ser o destino dos revolucion\u00e1rios, muito al\u00e9m dos dif\u00edceis tr\u00e2mites jur\u00eddicos pr\u00f3prios do legalismo santanderista propostos pelos porta-vozes editoriais. Mais que submeter a solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ao leito de Procusto de um Marco Legal pela Paz unilateral e inconsulto, como ocorre com todos os temas que emanam dos di\u00e1logos e necess\u00e1rios para a real democratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, se requer \u00e9 liberar \u00e0 pot\u00eancia criadora do poder constituinte do povo soberano. Sob o risco de redund\u00e2ncia, a solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 um problema pol\u00edtico, mais do que jur\u00eddico.<\/p>\n<p>Santos se reelege com in\u00fameros compromissos em disputa no interior da confusa colis\u00e3o que o apoiou, dif\u00edceis de conciliar em termos gerais. A luta pol\u00edtica dentro e fora da institucionalidade ser\u00e1 determinante para dar-lhe uma identidade a seu segundo mandato, assim como circunst\u00e2ncias persistentes nos terrenos econ\u00f4micos, institucional ou internacional. N\u00e3o podemos confiar em que Santos seja fiel a um mandato que lhe pertence, quando nem sequer tem sido leal aos seus. Devemos conquistar a aut\u00eantica paz com a luta popular e imp\u00f4-la ao governo nacional.<\/p>\n<p>Grandiloquentemente, Santos acredita ter sido marcado pelo demiurgo para entrar ele mesmo em mai\u00fasculas na hist\u00f3ria nacional e universal como o estrategista da finaliza\u00e7\u00e3o de nosso extenso conflito armado. Efetivamente se encontra ante uma possibilidade \u00fanica de contribuir com um passo adiante na solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, por\u00e9m isso depender\u00e1 de sua determina\u00e7\u00e3o para possibilitar o processo constituinte em vias de come\u00e7ar a brotar e que pode condensar os anseios de paz do povo colombiano e canalizar os importantes avan\u00e7os realizados em Havana.<\/p>\n<p>De uma maneira interessante, esta reelei\u00e7\u00e3o at\u00edpica propiciou um espa\u00e7o de encontro de diversas for\u00e7as progressistas. Esta frente pela paz tem todas as potencialidades caso consiga identificar que hoje na Col\u00f4mbia a paz se chama Assembleia Nacional Constituinte e n\u00e3o ficar submetida \u00e0 f\u00e9rula de prematuros af\u00e3s eleitorais. Nada mais equivocado neste momento que reviver esp\u00edritos sect\u00e1rios acerca dos m\u00faltiplos caminhos que, em meio \u00e0 turbul\u00eancia dos turnos presidenciais e \u00e0 instrumentaliza\u00e7\u00e3o da paz, tomaram os distintos atores do setor democr\u00e1ticos. A conquista da solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica atrav\u00e9s de uma ANC requer o concurso unit\u00e1rio dos abstencionistas, do crescente voto em branco e daqueles que votaram em Santos porque, honestamente, queriam a paz. E mais, na necess\u00e1ria unidade pela paz e a constituinte devemos convocar muitos votantes do Centro Democr\u00e1tico que o fa\u00e7am mais por oposi\u00e7\u00e3o ao mau governo de Santos que por sua filia\u00e7\u00e3o fascist\u00f3ide. Requeremos, pois, impulsionar um grande acordo pela Paz e pela ANC, que n\u00e3o se deixe oprimir por partidos e nem plataformas eleitorais ou apoios governamentais, e que necessite ser ratificado nas ruas, exigindo estas duas reivindica\u00e7\u00f5es centrais para o povo colombiano.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca de ambas consignas faz com que hoje elas sejam insepar\u00e1veis: Nova constitui\u00e7\u00e3o para a solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para uma nova constitui\u00e7\u00e3o. Neste sentido, a unidade t\u00e1tica pela paz se converte necessariamente em unidade pol\u00edtica para a convocat\u00f3ria de uma ANC, onde todos nos encontramos. \u00c9 uma ANC pela paz, um n\u00edtido espa\u00e7o de unidade popular e de todos os setores democr\u00e1ticos, j\u00e1 que n\u00e3o aspiramos um cen\u00e1rio excludente, mas que busca aglutinar as for\u00e7as vivas de um novo pa\u00eds. N\u00e3o estamos falando do triunfo final de nosso projeto revolucion\u00e1rio, que n\u00e3o se esgota nesta conquista, mas sim do m\u00ednimo necess\u00e1rio para obter a paz democr\u00e1tica com justi\u00e7a social.<\/p>\n<p>N\u00e3o basta o chamado gen\u00e9rico para uma paz et\u00e9rea, mas um que devemos ganhar em afian\u00e7ar o conceito de solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, que inclua os necess\u00e1rios di\u00e1logos das partes beligerantes e da abordagem das causalidades estruturais da guerra. A vis\u00e3o manique\u00edsta da paz como mero silenciamento dos fuzis, como processo unilateral de submiss\u00e3o da insurg\u00eancia ao status quo, como se estivesse dialogando com uma guerrilha derrotada, hoje segue afincada em muitas express\u00f5es pol\u00edticas do pa\u00eds, por\u00e9m n\u00e3o consegue formar o acervo necess\u00e1rio para uma aut\u00eantica frente unit\u00e1ria pela paz, coerente com os interesses populares. N\u00f3s, patriotas colombianos, sabemos que n\u00e3o basta falar de paz ao continuar desenvolvendo a guerra contra o povo.<\/p>\n<p>Uma Constituinte para a paz n\u00e3o deve somente referendar e regulamentar o j\u00e1 acordado em Havana, nem unicamente resolver as profundas limita\u00e7\u00f5es e dissensos das partes consignadas at\u00e9 agora, mas incentivar o poder criativo do constituinte prim\u00e1rio. As mesas de di\u00e1logo ser\u00e3o apenas uma das torrentes democr\u00e1ticas que confluem neste processo constituinte. Neste sentido, sem obst\u00e1culos e ante o esgotamento efetivo dos resqu\u00edcios democr\u00e1ticos da Constitui\u00e7\u00e3o de 1991, em que pesem seus nost\u00e1lgicos, a ANC pela paz deve abordar todos os temas substantivos que j\u00e1 o poder constituinte, \u2013 o novo poder que brota, que se expressa nos movimentos populares \u2013, est\u00e1 sendo gestado. Nesta ANC pela paz devem ser encontrados todos os movimentos constituintes e unidas suas agendas; n\u00e3o \u00e9 um exerc\u00edcio fundamentalmente jur\u00eddico, mas um exerc\u00edcio de luta pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Para garantir estes objetivos de express\u00e3o e unidade do povo soberano, a ANC pela paz deve compreender v\u00e1rios aspectos: a) O car\u00e1ter da ANC deve ser soberano, abordando os acordos e desacordos da mesa de di\u00e1logos, mas n\u00e3o circunscrita a estes somente. b) A ANC dever\u00e1 assegurar que sua forma\u00e7\u00e3o n\u00e3o reproduza o atual poder constitu\u00eddo que se quer substituir. Neste sentido, se deve firmar nesta ANC a participa\u00e7\u00e3o direta e proporcional das organiza\u00e7\u00f5es insurgentes, dos movimentos sociais e populares, dos sindicatos, da academia, dos partidos pol\u00edticos nacionais e de todas as regi\u00f5es de nosso pa\u00eds. c) As tem\u00e1ticas assumidas pela ANC pela paz n\u00e3o devem mais ser conten\u00e7\u00f5es \u00e0 vontade do povo soberano e n\u00e3o serem delimitadas pelos poderes constitu\u00eddos que busca superar. De acordo com nossa Plataforma e as reivindica\u00e7\u00f5es mais imediatas do povo colombiano, a ANC deve abordar, entre outros aspectos, o necess\u00e1rio aprofundamento, fortalecimento e expans\u00e3o da carta de direitos existentes, a real democratiza\u00e7\u00e3o do Estado a partir de uma profunda reestrutura\u00e7\u00e3o de todos os seus ramos e \u00f3rg\u00e3os, a constru\u00e7\u00e3o de um regime econ\u00f4mico que garanta os direitos sociais e coletivos, e o reordenamento das rela\u00e7\u00f5es internacionais mediante a conquista da soberania nacional. A tarefa imediata em termos de conte\u00fados de uma nova constitui\u00e7\u00e3o deve ser compendiar o imenso ac\u00famulo de propostas populares e traduzi-las em uma proposta de aut\u00eantico mandato alternativo.<\/p>\n<p>Encontramo-nos, pois, ante um convulsionado e inconstante momento pol\u00edtico, menos pela \u201cgabitenologia\u201d, \u201cgovernan\u00e7a\u201d e demais intrigas midi\u00e1ticas urdidas pelas classes dominantes, e mais pela crise e desgaste do bloco do poder e a persist\u00eancia da resist\u00eancia popular. O desenlace destas conjunturas cr\u00edticas apenas est\u00e1 dado pela a\u00e7\u00e3o dos sujeitos pol\u00edticos, e nos corresponde estar \u00e0 altura das circunst\u00e2ncias, mantendo uma intensa pr\u00e1xis revolucion\u00e1ria em prol de uma aut\u00eantica solu\u00e7\u00e3o ao nosso conflito social e armado. A sa\u00edda que depende de todos n\u00f3s passa por essa Assembleia Nacional Constituinte, onde esperamos reencontrar todos para fazer nascer um novo pa\u00eds.<\/p>\n<p>Vemo-nos na Constituinte!!!<\/p>\n<p><em><strong>Francisco Javier Tolosa (Marcha Patri\u00f3tica)<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/strong><\/p>\n<p>1 Ver Banco colombiano \u00e9 cada vez mais rico e menos generoso. UN Peri\u00f3dico. Mar\u00e7o de 2014.<\/p>\n<p>2 A respeito deste conceito, ver ESTRADA ALVAREZ, Jairo. Derechos del capital. 2010..<\/p>\n<p>3 Apesar das pol\u00eamicas na caracteriza\u00e7\u00e3o dos atuais regimes pol\u00edticos latino-americanos que superam a pretens\u00e3o do presente artigo, parte-se da diferencia\u00e7\u00e3o entre os pr\u00f3prios regimes denominados genericamente como governos alternativos. A esse respeito, ver entre outros KATZ, Claudio. Am\u00e9rica Latina: tres proyectos en disputa.2012.<\/p>\n<p>4 Ainda que corresponda a temas de maior profundidade, falta a caracteriza\u00e7\u00e3o da economia pol\u00edtica da din\u00e2mica da guerra na Col\u00f4mbia. Apenas para instigar, o pa\u00eds vive desde a declara\u00e7\u00e3o de guerra integral de Cesar Gaviria uma vers\u00e3o particular do que Jorge Bernstein chama para o caso norte-americano \u201ckeynesianismo militar\u201d, formando um aut\u00eantico complexo militar-econ\u00f4mico, convertendo a pr\u00f3pria guerra numa linha essencial da economia nacional que freia o crescente ex\u00e9rcito industrial de reserva, configura os militares colombianos por tamanho e relev\u00e2ncia como uma aut\u00eantica classe social, constitui camadas burguesas acionistas do conflito e grupos b\u00e9licos-clientelistas, em torno dos imensos contratos das For\u00e7as Militares que v\u00e3o desde a intend\u00eancia at\u00e9 os analistas de seguran\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nDa escatologia \u00e0 luta de classes: elementos para uma an\u00e1lise p\u00f3s-eleitoral e do momento pol\u00edtico Colombiano\u00b9 \nEst\u00e1 longe da pretens\u00e3o deste artigo promover condena\u00e7\u00f5es ou repara\u00e7\u00f5es sobre as diversas decis\u00f5es pelas quais n\u00f3s, m\u00faltiplos sujeitos pol\u00edticos do campo democr\u00e1tico e popular colombiano, optamos no passado segundo turno presidencial. Por\u00e9m, se aspira refletir em voz alta sobre v\u00e1rios aspectos do m\u00e9todo e conte\u00fado que n\u00e3o devem ser ignorados, a fim de produzir uma an\u00e1lise pol\u00edtica correta em conjunturas t\u00e3o convulsas, com o \u00e2nimo essencial em contribuir com nossa imediata pr\u00e1xis pol\u00edtica.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6434\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[34],"tags":[],"class_list":["post-6434","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c39-colombia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1FM","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6434","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6434"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6434\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6434"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6434"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6434"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}