{"id":6436,"date":"2014-07-12T17:41:29","date_gmt":"2014-07-12T17:41:29","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6436"},"modified":"2014-07-12T17:41:29","modified_gmt":"2014-07-12T17:41:29","slug":"plinio-presente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6436","title":{"rendered":"Pl\u00ednio\u2026 presente!"},"content":{"rendered":"\n<p>Sob uma chuva fina e um frio ameno, o corpo do copanheiro Pl\u00ednio de Arruda Sampaio encontrou a terra que tanto defendeu. Seus companheiros cantaram a Internacional para que a m\u00fasica o acompanhasse enquanto grit\u00e1vamos seu nome para que ficasse para sempre conosco.<\/p>\n<p>Por um momento o mundo congelou como em uma foto em branco e preto. Os rostos de seus companheiros de luta, inevitavelmente tristes, estavam calmos. Aquele que partia tinha uma estranha capacidade de aglutinar, virtude que se destaca em tempos de fragmenta\u00e7\u00e3o e serialidade. Sua fam\u00edlia, seus amigos, seus colegas de partido, seus companheiros de luta. Querido pelos seus, respeitado por seus advers\u00e1rios. S\u00e3o poucos aqueles que podemos descrever desta forma.<\/p>\n<p>Nas palavras de Valdemar Rossi, um de seus mais antigos amigos, Pl\u00ednio era um semeador e talvez isso o descreva de forma mais cabal. J\u00e1 em 1962 quando foi eleito deputado pelo PDC e participou da Comiss\u00e3o de Pol\u00edtica Agr\u00edcola do Congresso, elaborando o plano de reforma Agr\u00e1ria que comporia as Reformas de Base do presidente Goulart. Quando trabalhou para a FAO em ex\u00edlio no Chile depois de cassado, quando apresentou a ideia de n\u00facleos de base ao rec\u00e9m criado Partido dos Trabalhadores ao qual viria a aderir e ajudar a construir, Pl\u00ednio estava semeando.<\/p>\n<p>No entanto, o que semeava de melhor eram ideias. Militante crist\u00e3o, partilhava seu p\u00e3o e seu vinho, vivificando sonhos de emancipa\u00e7\u00e3o e solidariedade. Cativava com sua forma simples, seu humor, sua convic\u00e7\u00e3o profunda, suas d\u00favidas criativas, sementes das respostas que abriam caminhos novos, novos frutos, novas sementes.<\/p>\n<p>Contava-nos uma hist\u00f3ria de quando estava em um avi\u00e3o com Lula e lhe disse que, talvez, o maior legado de uma campanha era plantar a ideia do socialismo. Como todo agricultor sabe, nem toda semente vinga. O que nos leva a outra caracter\u00edstica de nosso companheiro: a persist\u00eancia.<\/p>\n<p>S\u00e3o raros aqueles que persistem tanto e por tanto tempo. Pl\u00ednio nasceu na elite, com fam\u00edlia tradicional, nome grande, propriedade. Jovem talhado para a pol\u00edtica tradicional das classes dominantes, advogado, subchefe da Casa Civil do governo de Carvalho Pinto em S\u00e3o Paulo no final dos anos 50, e deputado com a ben\u00e7\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica que a esta \u00e9poca queria salvar os pobres da amea\u00e7a comunista.<\/p>\n<p>Sua trajet\u00f3ria \u00e9 algo singular. Primeiro, sai do PDC para uma vers\u00e3o radical da democracia crist\u00e3 no Chile. Em seu retorno do ex\u00edlio tenta formar um Partido Social Democr\u00e1tico Popular junto com Francisco Weffort, Almino Afonso, Fernando Henrique e outros, para depois participar da constru\u00e7\u00e3o do PT. Para seu espanto, como ele mesmo gostava de dizer, ele, um moderado, vai ficando \u00e0 esquerda no PT que pegava o caminho da concilia\u00e7\u00e3o. Por fim, rompe com o PT e participa da constru\u00e7\u00e3o do PSOL.<\/p>\n<p>Pl\u00ednio era surpreendente, mas sua trajet\u00f3ria desenha uma clara e coerente linha de princ\u00edpios que o acompanhou por toda a vida e se expressa ao final como um militante crist\u00e3o e socialista. Uma coisa fica clara: enquanto a maioria tende a se acomodar e assumir posi\u00e7\u00f5es mais moderadas, nosso amigo originalmente moderado ia cada vez mais para a esquerda.<\/p>\n<p>Uma vez, na campanha ao governo do Estado de S\u00e3o Paulo em 2006 quando o acompanhei como seu vice (e n\u00e3o era nada f\u00e1cil acompanhar seu ritmo e vitalidade), Pl\u00ednio nos convidou \u00e0 sua casa para um jantar que receberia o ent\u00e3o candidato humanista \u00e0 presid\u00eancia do Chile, Tom\u00e1s Hirsch. Fui eu e o Didi do PSTU, assim um pouco deslocados. Em determinado momento, nos chamam para nos acercarmos do chileno e Pl\u00ednio lhe pergunta diretamente: \u201cqueria entender uma coisa desse humanismo que voc\u00ea prop\u00f5e, como fica a quest\u00e3o da viol\u00eancia?\u201d Didi e eu nos entreolhamos como que dizendo \u201cvai sobrar para n\u00f3s\u201d. Logo em seguida arremata: \u201cporque sou crist\u00e3o, comigo \u00e9 na espada!\u201d<\/p>\n<p>S\u00e3o poucos nossos prazeres nesta vida, s\u00e3o raras as chances de vit\u00f3ria contra esta elite pol\u00edtica asquerosa, poderosa e arrogante. Vendo as pessoas que acompanhavam Pl\u00ednio em seu \u00faltimo adeus, principalmente as pessoas simples, trabalhadores, jovens e velhos, companheiros, camaradas, me veio uma s\u00fabita sensa\u00e7\u00e3o de regozijo\u2026 Pl\u00ednio nos escolheu, ele \u00e9 nosso, dos fodidos, dos prolet\u00e1rios, dos camponeses, dos pobres, ele poderia ter escolhido ser um deles com tudo que isso lhe renderia de poder e prest\u00edgio, e decidiu ser mais um dos nossos. Comer nosso p\u00e3o, beber de nosso sofrimento, nos abra\u00e7ar em nossas derrotas, sorver o sal de nossas l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>Pl\u00ednio \u00e9 nosso. Morram de inveja. N\u00e3o \u00e9 pouco. Pequenas s\u00e3o nossas diferen\u00e7as e discord\u00e2ncias colocadas diante desta perspectiva. O generoso cora\u00e7\u00e3o de nossa classe lhe recebeu com um abra\u00e7o fraterno e ter\u00e1 nosso reconhecimento eterno.<\/p>\n<p>Seu corpo agora foi semeado. O c\u00e9u cinza chora calmo e n\u00f3s seguimos por nossos diferentes caminhos. Atr\u00e1s de uma \u00e1rvore posso ouvir Brecht dizer, como disse uma vez sobre Rosa, em um sussurro: \u201caqui jaz Pl\u00ednio\u2026 enterrai vossas desaven\u00e7as!\u201d<\/p>\n<p>Vai aqui, deste amigo ateu, o poema que fiz para meus irm\u00e3os da pastoral metropolitana de S\u00e3o Paulo, n\u00e3o como uma forma de despedida, mas como um convite a todos que continuam esta caminhada. Companheiro Pl\u00ednio de Arruda Sampaio\u2026 presente. Agora\u2026 e sempre!<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em><strong>Transcend\u00eancias<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em> (para os camaradas e irm\u00e3os da PO metropolitana de S\u00e3o Paulo)<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>Na massa universal<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>da mat\u00e9ria de nossos corpos<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>seja luz et\u00e9rea de estrelas,<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>carne mineral de planetas,<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>ou fogo, ou \u00e1gua<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>ou planta, ou bicho<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>n\u00e3o vejo alma al\u00e9m daquela<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>que no movimento<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>se apresenta a vida.<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>Aprendi que a religi\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>\u00e9 o sol em torno do qual<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>gira o ser humano<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>antes de ver em si mesmo<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>o sol de sua exist\u00eancia.<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>Ordem do tempo<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>inimiga do novo<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>dona da culpa<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>\u00f3pio do povo<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>organiza\u00e7\u00e3o racional da tristeza<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>carrasco do meu desejo<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>\u00e1rbitro dos castigos aplicados por n\u00f3s<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>contra n\u00f3s mesmos.<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>Assim, feuerbachianamente,<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>me tornei ateu.<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>Mas, quando os vejo\u2026<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em> com seu amor aos pobres,<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>com seu compromisso com a vida<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>na teia indissol\u00favel da solidariedade\u2026<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>Quando os vejo<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>subindo as \u201csierras\u201d de nossa Am\u00e9rica<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>com seus ter\u00e7os e fuzis<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>com sua f\u00e9 e bravura\u2026<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>Quando os vejo<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>na madrugadas fabris<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>nas estradas acampados<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>repartindo o pouco p\u00e3o\u2026<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>Quando os vejo<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>reinventando a comunh\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>renascendo a cada dia<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>fazendo da morte ressurrei\u00e7\u00e3o\u2026 <\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>Quando nos abra\u00e7amos<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em> sobre nossa bandeira vermelha<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>chorando l\u00e1grimas de raiva,<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>alegria ou emo\u00e7\u00e3o\u2026<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>Da inexist\u00eancia de minha alma<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>chego a desejar<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>que esta vida se supere em outra<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>para abra\u00e7ar mais uma vez<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>os nossos mortos.<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>E no calor vivo de nossas batalhas<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>onde constru\u00edmos a cada dia<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>a aurora contra a noite que persiste <\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>consigo ver, nitidamente,<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em> entre a sombra e o escuro,<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>o rosto sereno de um deus<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>que n\u00e3o existe.<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\"><em>(Mauro Iasi)<\/em><\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><strong>Mauro Iasi <\/strong>\u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/48#.Ul8Kh1Csh8E\" target=\"_blank\"><em>O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia<\/em><\/a> (Boitempo, 2002) e colabora com os livros <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/cidades-rebeldes\" target=\"_blank\"><em>Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil<\/em><\/a> e <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/gy%C3%B6rgy-lukacs-e-a-emancipacao-humana\" target=\"_blank\"><em>Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana<\/em><\/a> (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o <strong>Blog da Boitempo <\/strong>mensalmente, \u00e0s quartas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\npor Mauro Iasi (Blog da Boitempo)\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6436\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-6436","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1FO","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6436","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6436"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6436\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6436"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6436"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6436"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}