{"id":6464,"date":"2014-07-16T20:44:47","date_gmt":"2014-07-16T20:44:47","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6464"},"modified":"2014-07-17T09:52:03","modified_gmt":"2014-07-17T09:52:03","slug":"40-anos-sem-vianinha-intelectual-comunista-e-dramaturgo-da-condicao-humana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6464","title":{"rendered":"40 anos sem Vianinha, intelectual comunista e dramaturgo da condi\u00e7\u00e3o humana"},"content":{"rendered":"<p><em>\u00c0s v\u00e9speras de se completarem 40 anos da morte do dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974) &#8211; um dos mais importantes intelectuais do pa\u00eds e militante hist\u00f3rico do Partido Comunista Brasileiro -, publicamos a seguir entrevista com D\u00eanis de Moraes, professor da Universidade Federal Fluminense e autor do livro Vianinha, c\u00famplice da paix\u00e3o: uma biografia de Oduvaldo Vianna Filho (Record, 2000), na qual analisa a sua rica trajet\u00f3ria como homem de cultura e ativista pol\u00edtico.<\/em><!--more--><\/p>\n<p><em>Vianinha ingressou no PCB aos 9 anos de idade, em 1945, pelas m\u00e3os do pai, o tamb\u00e9m, dramaturgo comunista Oduvaldo Vianna. Permaneceu fiel ao Partido at\u00e9 a sua morte, aos 38 anos, em 16 de julho de 1974, tendo sido destacado integrante do Comit\u00ea Cultural desde os anos 1960. Foi um dos l\u00edderes do Teatro de Arena de S\u00e3o Paulo, do Centro Popular de Cultura da Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes e do Grupo Opini\u00e3o (movimento teatral de resist\u00eancia \u00e0 ditadura militar p\u00f3s-1964). Nenhum outro autor teatral brasileiro recebeu tantos pr\u00eamios por suas pe\u00e7as, a maioria das quais proibida pela ditadura, entre elas a obra-prima Rasga cora\u00e7\u00e3o, que \u00e9 dedicada por ele \u201c\u00e0 velha guarda comunista\u201d, como preito de gratid\u00e3o pelas li\u00e7\u00f5es de coragem e combatividade em defesa da democracia e do socialismo.<\/em><\/p>\n<p><em>Nos anos 1970, Vianinha contribuiu decisivamente para a renova\u00e7\u00e3o da teledramaturgia, com adapta\u00e7\u00f5es de cl\u00e1ssicos teatrais para a televis\u00e3o e o extraordin\u00e1rio seriado A grande fam\u00edlia, exibido pela TV Globo e escrito em parceria com outros dois dramaturgos e militantes do PCB, Paulo Pontes e Armando Costa. Com rara habilidade para driblar as censuras policial e empresarial, essa com\u00e9dia de costumes, protagonizada por uma fam\u00edlia de classe m\u00e9dia remediada, expunha as dificuldades enfrentadas pelo popula\u00e7\u00e3o durante os anos de chumbo. Vianinha conseguiu atrair audi\u00eancia de massa com um seriado que sutilmente criticava a pol\u00edtica econ\u00f4mica antissocial vigente, bem como a mentalidade reacion\u00e1ria e repressiva do regime militar.<\/em><\/p>\n<p><em>Atuando em praticamente todos os meios de express\u00e3o do seu tempo, Vianinha foi um lutador social incans\u00e1vel, com clareza suficiente para perceber o papel dos intelectuais engajados na batalhas das ideias pela constru\u00e7\u00e3o de outra hegemonia pol\u00edtica e cultural.<\/em><\/p>\n<p>Por Maura Voltarelli<\/p>\n<p>Poucos s\u00e3o os artistas que conseguem unir \u00e0 est\u00e9tica pr\u00f3pria da obra de arte, as quest\u00f5es sociais e humanas de seu tempo. Oduvaldo Vianna Filho (1936&#8211;1974), mais conhecido como Vianinha, foi um deles. Com fortes bases te\u00f3ricas em dramaturgos como Brecht, Vianinha foi um autor e ator que atuou nas mais diversas \u00e1reas. Fez teatro, televis\u00e3o, cinema, jornalismo e at\u00e9 teoria cr\u00edtica da cultura, faces m\u00faltiplas que fizeram da sua arte uma permanente passagem pela poesia e pelo social.<\/p>\n<p>As quest\u00f5es humanas, a sociedade em que viveu, a pol\u00edtica, os desafios, os sonhos de uma \u00e9poca est\u00e3o expressos nas suas diversas pe\u00e7as de teatro. Todas com enredos e personagens originais, al\u00e9m de propostas quase sempre ousadas \u2013 principalmente para a d\u00e9cada de 60 e posteriores anos de Ditadura Militar, contexto em que Vianinha mais produziu \u2013 grande parte delas foi censurada e o pr\u00f3prio Vianinha morreu sem ver algumas encenadas como <em>Papa Highirte<\/em>, que foi escrita em 1968 e montada onze anos depois, e <em>Rasga Cora\u00e7\u00e3o<\/em>, que trabalha com uma multiplicidade de planos a alternar tempos, espa\u00e7os e personagens distintos para falar da psicologia e das rela\u00e7\u00f5es familiares de tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es, de Get\u00falio Vargas ao Golpe Militar.<\/p>\n<p>O teatro de Vianinha tamb\u00e9m produziu pe\u00e7as como <em>Chapetuba Futebol Clube<\/em> e <em>A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar<\/em> que traduz, por meio de uma prosa po\u00e9tica e, ao mesmo tempo, ir\u00f4nica, a teoria da mais valia.<\/p>\n<p>Vianinha, no entanto, n\u00e3o fez viver sua consci\u00eancia pol\u00edtica e social apenas nos textos de teatro. Sempre engajado nas lutas e discuss\u00f5es de seu tempo, ele foi participante ativo do Teatro de Arena, de onde se desligou ap\u00f3s a montagem de <em>Eles N\u00e3o Usam Black-Tie<\/em> para fundar o Centro Popular de Cultura (CPC), ligado \u00e0 Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes (UNE).<\/p>\n<p>Em 1964, com o Golpe Militar e a extin\u00e7\u00e3o do CPC, participou da funda\u00e7\u00e3o do Grupo Opini\u00e3o e, em 1973, em plena Ditadura Militar, aventurou-se no terreno da televis\u00e3o e escreveu o seriado <em>A Grande Fam\u00edlia<\/em>, com Armando Costa. Uma com\u00e9dia de costumes que, tomando como protagonista uma remediada fam\u00edlia brasileira, conseguiu driblar duas censuras, a da TV Globo e a dos militares, e produzir um conte\u00fado cr\u00edtico que evidenciava a dif\u00edcil vida do pa\u00eds nos \u201canos de chumbo\u201d.<\/p>\n<p>Ao lan\u00e7ar um olhar sobre sua trajet\u00f3ria, a impress\u00e3o que se tem \u00e9 que, para Vianinha, arte e vida sempre caminharam juntas. A intensa poesia e a elevada dramaticidade presentes nos seus textos teatrais eram as mesmas que ele encontrava nas ruas, nos movimentos populares.<\/p>\n<p>E foi assim, popular, que ele se fez. Popular e revolucion\u00e1rio. Um teatro cr\u00edtico e social, mas com uma n\u00edtida preocupa\u00e7\u00e3o em n\u00e3o se fechar em torno de si mesmo e falar ao povo, de onde ele emanava. \u00c9 sobre Vianinha e sua arte engajada que o jornalista, escritor e professor D\u00eanis de Moraes, autor da biografia <em>Vianinha, c\u00famplice da paix\u00e3o<\/em>, fala nesta entrevista.<\/p>\n<p>Entre outras coisas, D\u00eanis de Moraes mostra a expressiva rela\u00e7\u00e3o entre o teatro de Vianinha e o do dramaturgo alem\u00e3o Bertold Brecht ao dizer que em ambos havia uma preocupa\u00e7\u00e3o fundamental: \u201catuar sobre o real para mudar o mundo que n\u00e3o serve, porque reifica, marginaliza, exclui e castiga\u201d. Tamb\u00e9m lembra que o mundo expressivo de Vianinha transcendia os g\u00eaneros teatrais e que o teatro foi, para ele, a descoberta de uma ferramenta poderosa de express\u00e3o, participa\u00e7\u00e3o e interven\u00e7\u00e3o em um mundo hostil e injusto, esp\u00e9cie de cimento para as suas convic\u00e7\u00f5es mais genu\u00ednas e profundas. Convic\u00e7\u00f5es essas que, muitas vezes, colocaram Vianinha diante do dilema entre o que se quer ser e o que se pode ser.<\/p>\n<p>Dilemas \u00e0 parte, segundo D\u00eanis, em apenas 38 anos de vida, esse genu\u00edno artista viveu pelo menos 100, escrevendo uma hist\u00f3ria apaixonante que nunca parou de se renovar. \u201cDiariamente, penso nele e tento aprender e me orientar por suas li\u00e7\u00f5es de coer\u00eancia e de coragem para travar o bom combate. Sobretudo nos momentos mais dif\u00edceis e quando tenho d\u00favidas\u201d, diz o escritor.<\/p>\n<p>E talvez seja isso mesmo o que se espera dos grandes artistas: que a eles possamos voltar, \u00e0s suas palavras, \u00e0s suas imagens, aos seus sons, nos momentos mais dif\u00edceis, ou quando temos d\u00favidas\u2026<\/p>\n<p><strong>Maura Voltarelli:<\/strong> Quero come\u00e7ar a entrevista com uma frase de Brecht que parece dizer algo sobre o teatro de Oduvaldo Vianna Filho, O Vianinha, de quem voc\u00ea escreveu a biografia, e tamb\u00e9m sobre a postura deste autor e ator diante da arte e da vida. O dramaturgo alem\u00e3o diz \u201capenas quando somos instru\u00eddos pela realidade \u00e9 que podemos mud\u00e1-la\u201d. Vianinha teria, de certa forma, tomado de empr\u00e9stimo essas preocupa\u00e7\u00f5es de Brecht em situar sua obra teatral no \u00e2mbito de uma perspectiva social, refletindo e discutindo ele tamb\u00e9m a realidade social de seu povo, pa\u00eds e \u00e9poca como forma de revelar a domina\u00e7\u00e3o e desigualdade social, esclarecendo e dizendo por meio da arte aquilo que outros j\u00e1 n\u00e3o eram capazes de dizer?<\/p>\n<p><strong>D\u00eanis de Moraes:<\/strong> Sem d\u00favida. N\u00e3o \u00e9 casual o fato de Brecht ser uma das refer\u00eancias fundamentais no aprendizado te\u00f3rico de Vianinha, ainda na fase do Teatro de Arena de S\u00e3o Paulo e, sobretudo, ap\u00f3s o c\u00e9lebre Semin\u00e1rio de Dramaturgia que Augusto Boal dirigiu naquele grupo, em fins da d\u00e9cada de 1950. O sentido prec\u00edpuo do trabalho intelectual de Vianinha era fazer da express\u00e3o art\u00edstica uma ferramenta para intervir na realidade e, em um processo de lutas cont\u00ednuas e permanentes, transform\u00e1-la, na dire\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais igualit\u00e1ria, justa e inclusiva. Vianinha e Brecht coincidem em v\u00e1rios pontos. Um dos mais relevantes: a exig\u00eancia insuper\u00e1vel de uma dramaturgia que investigue as aspira\u00e7\u00f5es e os dilemas da condi\u00e7\u00e3o humana, em conjunturas quase sempre marcadas por conflitos, desigualdades e discrimina\u00e7\u00f5es de todo o tipo. Atuar sobre o real, para ambos, n\u00e3o significava apenas tomar os elementos da vida cotidiana e social como fontes de inspira\u00e7\u00e3o; implica processar e angular esses elementos em uma perspectiva de compreens\u00e3o aprofundada para formular e propugnar por um ide\u00e1rio de radical transforma\u00e7\u00e3o. Mudar o mundo que n\u00e3o serve, porque reifica, marginaliza, exclui e castiga. Aos artistas e intelectuais conscientes e comprometidos se imp\u00f5e, para Brecht e Vianinha, uma atitude dial\u00e9tica entre a observa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica da realidade e a defini\u00e7\u00e3o de formas estrat\u00e9gicas e t\u00e1ticas capazes de sintonizar a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica e intelectual com a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica emancipat\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>Maura:<\/strong> Vianinha escreveu muito. S\u00e3o diversas pe\u00e7as, com enredos e personagens originais, al\u00e9m de propostas quase sempre ousadas, principalmente para a d\u00e9cada de 60 e posteriores anos de ditadura militar. Muitas de suas pe\u00e7as foram inclusive censuradas e ele pr\u00f3prio faleceu sem ver algumas delas encenadas como <em>Papa Highirte<\/em> e <em>Rasga Cora\u00e7\u00e3o<\/em>. De onde vem toda for\u00e7a do teatro de Vianinha? Da qualidade do texto, bem escrito, com uma poesia pr\u00f3pria que aparece em versos rimados e sonoros? Do didatismo, ou seja, da preocupa\u00e7\u00e3o em revelar certos mecanismos de funcionamento da estrutura social, como o da explora\u00e7\u00e3o capitalista, por exemplo, esbo\u00e7ado na pe\u00e7a <em>A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar<\/em>, na qual as formas de domina\u00e7\u00e3o se revelam ao p\u00fablico enquanto se revelam para o pr\u00f3prio personagem e onde tamb\u00e9m existe certa veia c\u00f4mica dos tipos humanos representados e das situa\u00e7\u00f5es? Ou \u00e9 uma combina\u00e7\u00e3o de tudo isso?<\/p>\n<p><strong>D\u00eanis:<\/strong> Uma combina\u00e7\u00e3o de tais inspira\u00e7\u00f5es e compromissos. Em Vianinha n\u00e3o havia dissocia\u00e7\u00e3o entre o trabalho art\u00edstico, a ousadia criativa e as inten\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edtica de uma obra dramat\u00fargica. Ele foi capaz de experimentar-se dos textos de agita\u00e7\u00e3o e propaganda at\u00e9 as elabora\u00e7\u00f5es mais sofisticadas, n\u00e3o hesitando em valer-se de f\u00f3rmulas outras que pudessem retratar suas vis\u00f5es de mundo, como as com\u00e9dias de costumes, os shows musicais e os roteiros televisivos. Se observarmos bem, em qualquer desses experimentos imaginativos h\u00e1 tra\u00e7os que o distinguem como autor, como a fenomenal carga po\u00e9tica, a aguda dramaticidade , a arg\u00facia para o humor e a ironia, a corrosiva cr\u00edtica social. S\u00e3o elementos constitutivos de seu mundo expressivo que transcendem os g\u00eaneros teatrais, e parecem mesmo se infiltrar entre eles, com efeitos estil\u00edsticos e de comunicabilidade os mais diversos. \u00c9 importante ressaltar que, no limite do poss\u00edvel e mesmo do imposs\u00edvel, ele jamais admitia renunciar \u00e0 busca da constru\u00e7\u00e3o em nome dos apelos ideol\u00f3gicos. Talvez tenha sido um de seus grandes m\u00e9ritos como homem de teatro: na ampla maioria de sua obra, n\u00e3o submeteu a sensibilidade aos c\u00e1lculos pol\u00edticos da hora, por mais que o sentido da pol\u00edtica o norteasse e o demandasse o tempo inteiro. Digo ampla maioria porque, evidentemente, houve exce\u00e7\u00f5es, como os autos de agit-prop e didatismo do CPC, por exemplo, ainda que possamos apontar o seu esfor\u00e7o em forjar ali tipos de espet\u00e1culos que tentassem encurtar o caminho de compreens\u00e3o de problemas cruciais da realidade brasileira para plateias populares (o que, afinal, n\u00e3o alcan\u00e7ou \u00eaxito, inclusive pelo corte brutal das experi\u00eancias do CPC pelo golpe militar de 1964). Vianinha tentava harmonizar o impulso criativo e as raz\u00f5es de ser de seu teatro, que se projetavam para muito al\u00e9m de c\u00edrculo existencial, ainda que tamb\u00e9m o refletisse em in\u00fameras situa\u00e7\u00f5es evidenciadas em suas pe\u00e7as, roteiros e escritos.<\/p>\n<p><strong>Maura:<\/strong> Entre os escritos de Vianinha est\u00e1 tamb\u00e9m o seriado para TV <em>A Grande Fam\u00edlia<\/em>, escrito em 1973, durante a ditadura militar, com Armando Costa e que faz sucesso at\u00e9 os dias de hoje. \u00c9 interessante perceber que no meio de tantas pe\u00e7as Vianinha tamb\u00e9m escreveu para televis\u00e3o escolhendo justamente como tema a fam\u00edlia brasileira. Como voc\u00ea v\u00ea essa cria\u00e7\u00e3o no contexto da trajet\u00f3ria art\u00edstica de Vianna Filho? Em que medida ela dialoga com a linha cr\u00edtica e social da sociedade e dos seus costumes presente em sua obra teatral?<\/p>\n<p><strong>D\u00eanis:<\/strong> O seriado <em>A Grande Fam\u00edlia<\/em>, escrito em plena ditadura militar, \u00e9 a demonstra\u00e7\u00e3o definitiva do talento criativo e da incr\u00edvel habilidade de Vianinha para tentar driblar as duas censuras (a do regime e a da pr\u00f3pria emissora, a TV Globo). A partir do cotidiano de uma fam\u00edlia da classe m\u00e9dia remediada, ele conseguiu traduzir aspira\u00e7\u00f5es e dilemas de boa parte da sociedade brasileira em meio ao chamado milagre econ\u00f4mico. Enquanto a m\u00e1quina governamental de propaganda enaltecia os feitos do governo do general M\u00e9dici, o seriado focalizava as agruras e as dificuldades impostas pelo modelo econ\u00f4mico excludente, perverso e entreguista em que o pa\u00eds vivia, com n\u00edveis alarmantes de concentra\u00e7\u00e3o de renda e riqueza, ao mesmo tempo que as persegui\u00e7\u00f5es, as pris\u00f5es, as torturas e os assassinatos de opositores do regime aconteciam, sob o manto do sil\u00eancio, nos por\u00f5es de quart\u00e9is e \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a. Vianinha soube mesclar a interpela\u00e7\u00e3o cr\u00edtica da realidade com a com\u00e9dia de costumes, criando uma atmosfera familiar \u00e0 ampla maioria dos telespectadores, ao mesmo tempo em que infiltrava nos scripts uma s\u00e9rie de temas, quest\u00f5es e impasses que caracterizavam a dif\u00edcil vida do pa\u00eds nos anos chumbos. Tudo isso dentro de uma emissora de televis\u00e3o que se alinhava ao regime militar e \u00e0 sua pol\u00edtica econ\u00f4mica elitista e antipopular. A enorme empatia do p\u00fablico com o seriado por certo contribuiu para dificultar uma censura mais severa por parte da Globo, na medida em que personagens e situa\u00e7\u00f5es faziam somar pontos, fidelidade e lideran\u00e7a de audi\u00eancia. Vianinha, na pr\u00e1tica autoral, conseguiu evidenciar a import\u00e2ncia de se explorarem brechas e contradi\u00e7\u00f5es dentro dos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o, ocupando espa\u00e7os preciosos na formula\u00e7\u00e3o de uma teledramaturgia mais pr\u00f3xima da moldura social brasileira, com sua carga at\u00f4mica de mazelas, desigualdades e exclus\u00f5es. Quanto \u00e0 atual vers\u00e3o de A grande fam\u00edlia, cabe registrar o sucesso de audi\u00eancia conquistado em todos esses anos. Mas, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o do not\u00e1vel desempenho de Marco Nanini em um personagem (Lineu) muito fiel \u00e0 concep\u00e7\u00e3o original de Vianinha, penso que a vers\u00e3o no ar est\u00e1 muito longe de espelhar a riqueza e a energia cr\u00edtica da vers\u00e3o original, que, como j\u00e1 ressaltado, foi exibida nos piores anos da repress\u00e3o e, ainda assim, promovia um questionamento at\u00e9 mais inteligente, articulado e incisivo.<\/p>\n<p><strong>Maura:<\/strong> A preocupa\u00e7\u00e3o social que Vianinha deixa escorrer para a maioria de seus textos tamb\u00e9m parece ter acompanhado boa parte da sua vida pessoal. Sempre engajado nas lutas e discuss\u00f5es de seu tempo, ele foi participante ativo do Teatro de Arena, fundou o Centro Popular de Cultura (CPC) ligado \u00e0 Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes (UNE), participou da funda\u00e7\u00e3o do Grupo Opini\u00e3o e tamb\u00e9m fundou o Teatro do Autor. Diante de toda essa trajet\u00f3ria ligada ao ativismo e participa\u00e7\u00e3o nos processos sociais e hist\u00f3ricos nacionais, \u00e9 poss\u00edvel separar o artista do homem no caso de Vianinha? Ali\u00e1s, tal separa\u00e7\u00e3o seria poss\u00edvel na arte de forma geral e, particularmente, no teatro?<\/p>\n<p><strong>D\u00eanis:<\/strong> Vianinha nasceu, cresceu, formou-se e tornou-se adulto em uma fam\u00edlia de militantes comunistas, como eram seus pais, o dramaturgo Oduvaldo Vianna e Deoc\u00e9lia Vianna. A constru\u00e7\u00e3o de sua fisionomia pol\u00edtica e intelectual tem muito a ver com a trajet\u00f3ria de resist\u00eancia e luta dos pais. Os valores que ele assumiu ao longo da vida \u2013 sobretudo a necessidade de solidarizar-se com os oprimidos, recusando e combatendo o ego\u00edsmo e a gan\u00e2ncia do meio burgu\u00eas, bem como a explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem \u2013 desbordaram para a sua obra teatral de maneira coerente e permanente. N\u00e3o havia linhas de fronteira entre vida e cria\u00e7\u00e3o; eram, na maioria das situa\u00e7\u00f5es, uma simbiose, ou uma rela\u00e7\u00e3o de extens\u00e3o, fertiliza\u00e7\u00e3o m\u00fatua e complementaridade. Ele seguia uma exist\u00eancia quase franciscana, vivendo com o m\u00ednimo indispens\u00e1vel \u00e0 sobreviv\u00eancia, totalmente refrat\u00e1rio ao consumismo, \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o material, \u00e0 ostenta\u00e7\u00e3o e ao desperd\u00edcio. Detestava a mentalidade consumista, os valores e a hipocrisia social. Tudo o que escreveu estava impregnado dessas vis\u00f5es de mundo, desses compromissos \u00e9tico-pol\u00edticos. N\u00e3o foi, portanto, um te\u00f3rico do que se poderia ser; ele, a muito custo e enfrentando dificuldades financeiras e incompreens\u00f5es de v\u00e1rias ordens, procurava praticar, coerentemente o que pensava e acreditava (desafio imenso, quase uma impossibilidade, se extremarmos esse compromisso). Assim podemos v\u00ea-lo no Teatro de Arena, no CPC, no Opini\u00e3o, tanto quando escrevia ou representava, tanto quando debatia, propunha ideias, pelejava por alternativas e sa\u00eddas. \u00c9 claro que se deparou, frequentemente, com o dilema, tantas vezes dilacerador, entre o que se quer ser e o que se pode ser. N\u00e3o \u00e9 casual que, em v\u00e1rias pe\u00e7as, esse mesmo dilema aparece a alguns personagens, sobretudo quando se trata de algu\u00e9m que tem compromissos com a transforma\u00e7\u00e3o social e esbarra em obst\u00e1culos de monta, desde a fam\u00edlia at\u00e9 as engrenagens de domina\u00e7\u00e3o, passando pelas tens\u00f5es profissionais e pelas crises afetivas e amorosas. Ent\u00e3o, n\u00e3o se pode absolutamente separar o homem do criador em Vianinha, sob pena de desfigur\u00e1-lo.<\/p>\n<p><strong>Maura:<\/strong> Falando em teatro, em livros que narram a forma\u00e7\u00e3o do sujeito burgu\u00eas cl\u00e1ssico como <em>Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister<\/em>, do escritor alem\u00e3o Goethe, o personagem principal se apaixona pelo teatro, mas, no caminho de sua forma\u00e7\u00e3o, acaba deixando de lado tal paix\u00e3o para que a sua entrada no mundo burgu\u00eas fosse poss\u00edvel. Essa separa\u00e7\u00e3o entre o teatro e o mundo burgu\u00eas aconteceria, pois nos palcos, o sujeito pode ser tudo e viver em constante metamorfose e redescoberta de si mesmo, invocando justamente tudo aquilo que a sociedade burguesa procura sufocar, ou seja, o mundo m\u00edtico, a totalidade, o encantamento com o corpo, com as cores, com o ser. Em outras palavras, o teatro \u00e9 tudo aquilo que a sociedade burguesa n\u00e3o quer. Neste sentido, seria o teatro o destino maior de uma personalidade como a de Vianna Filho, cr\u00edtica, revolucion\u00e1ria, e a forma cl\u00e1ssica por excel\u00eancia para que sua consci\u00eancia social e sua luta contra o imperialismo cultural pudessem jorrar? Ou, perguntado de outra forma, algu\u00e9m como Vianinha renunciaria ao teatro e seria capaz de viver em um mundo onde a possibilidade de experimentar a totalidade n\u00e3o existisse?<\/p>\n<p><strong>D\u00eanis:<\/strong> O percurso de Vianinha at\u00e9 o teatro foi influenciado, como mencionei, pela atmosfera familiar e tamb\u00e9m pelo contexto das lutas sociais e pol\u00edticas dos anos 50. A sociedade burguesa e o tipo de desenvolvimento excludente e elitista que o Brasil ent\u00e3o reproduzia (e dramaticamente continua reproduzindo mais de meio s\u00e9culo depois, na atualidade) eram recusados ferozmente pela gera\u00e7\u00e3o estudantil da qual Vianinha participava. O teatro foi, para Vianinha, a descoberta de uma ferramenta poderosa de express\u00e3o, participa\u00e7\u00e3o e interven\u00e7\u00e3o em um mundo hostil e injusto. Nesse sentido, sim, se constituiu em destino maior para uma personalidade rebelde, questionadora, inconformada. Tanto assim que o grupo no qual ele despontou e depois viria a ser um dos expoentes, o c\u00e9lebre Teatro de Arena de S\u00e3o Paulo, se projetou no cen\u00e1rio art\u00edstico e cultural do pa\u00eds como um dos principais centros de forma\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia cr\u00edtica, seja no plano interno do grupo (formando e\/ou consolidando uma admir\u00e1vel gera\u00e7\u00e3o de atores e diretores engajados politicamente), seja no plano externo, na medida em que constituiu em torno de si plateias receptivas a um teatro participante, cr\u00edtico e empenhado em levar aos palcos o homem brasileiro, em suas m\u00faltiplas dimens\u00f5es (as converg\u00eancias, as diferen\u00e7as, os conflitos, os anseios, as d\u00favidas, as esperan\u00e7as, os limites, as frustra\u00e7\u00f5es, as conquistas, as utopias). Assim sendo, o teatro foi um cimento para as convic\u00e7\u00f5es mais genu\u00ednas e profundas de Vianinha; tudo aquilo que ele sentia e almejava, tudo que lhe incomoda e do\u00eda, tudo aquilo que tinha urg\u00eancia e impelia \u00e0 cria\u00e7\u00e3o e \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o estavam relacionados, efetivamente, a uma busca, determinada, vigorosa e \u00e0s vezes desesperada, de uma totalidade que refletisse n\u00e3o apenas o seu ser e estar no mundo, mas o mundo mais amplo, em seu ser e estar t\u00e3o contradit\u00f3rio e fascinante. Da\u00ed eu perceber em Vianinha a necessidade de s\u00ednteses dial\u00e9ticas entre a dimens\u00e3o do indiv\u00edduo e a dimens\u00e3o coletiva, o que n\u00e3o se alcan\u00e7a sem um profundo mergulho em n\u00f3s mesmos e nas teias que a sociedade estabelece \u00e0 nossa volta, com todas as consequ\u00eancias existenciais, sociais e pol\u00edticas da\u00ed decorrentes.<\/p>\n<p><strong>Maura:<\/strong> Voc\u00ea escreveu sobre a vida de um homem que, por sua vez, escreveu e viveu a vida de muitos outros homens sempre de forma intensa, onde o social, o indiv\u00edduo, as paix\u00f5es e todas as mis\u00e9rias do ser e do mundo pulsavam em cada ato. Qual o maior desafio em biografar um ator e algu\u00e9m como Oduvaldo Vianna Filho?<\/p>\n<p><strong>D\u00eanis:<\/strong> Vianinha, em apenas 38 anos, viveu pelo menos 100, tamanha a intensidade de seu envolvimento com suas cren\u00e7as e com a exig\u00eancia crucial de tentar transp\u00f4-las para fora de si, atrav\u00e9s do teatro e da arte, o que implicou um esfor\u00e7o descomunal para superar as conting\u00eancias cotidianas e as barreiras impostas pelas circunst\u00e2ncias dos contextos em que viveu, sobretudo durante a ditadura militar. Esse esfor\u00e7o o tornou um homem m\u00faltiplo e mesmo multim\u00eddia (fez teatro, televis\u00e3o, cinema, jornalismo, teoria cr\u00edtica da cultura), ao mesmo tempo em que era um militante comunista em tempo integral, no setor cultural. Tudo conflu\u00eda para o ponto-chave: fazer pol\u00edtica, lutar sem tr\u00e9gua pelas causas democr\u00e1ticas, socialistas e humanistas, explorando todos os espa\u00e7os poss\u00edveis na batalha das ideias. Ele resumiu esse compromisso inabal\u00e1vel com as lutas sociais, mesmo nas condi\u00e7\u00f5es mais adversas, numa de seus reflex\u00f5es mais agudas: \u201cUma derrota n\u00e3o significa a fal\u00eancia de nossas convic\u00e7\u00f5es; antes, significa que precisamos aprimorar nossos planos de ataque.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6464\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-6464","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c56-memoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1Gg","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6464","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6464"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6464\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6464"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6464"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6464"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}