{"id":6481,"date":"2014-07-23T15:45:47","date_gmt":"2014-07-23T15:45:47","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6481"},"modified":"2014-07-23T15:45:47","modified_gmt":"2014-07-23T15:45:47","slug":"israel-invade-gaza-para-alterar-e-dominar-o-cenario-geoestrategico-do-oriente-medio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6481","title":{"rendered":"Israel invade Gaza para alterar e dominar o cen\u00e1rio geoestrat\u00e9gico do Oriente M\u00e9dio"},"content":{"rendered":"\n<p>Desde o in\u00edcio da \u201cOpera\u00e7\u00e3o Margem de Prote\u00e7\u00e3o\u201d (<em>Protective Edge<\/em>), o presidente dos EUA, Barack Obama, defendeu o ataque \u00e0 Faixa de Gaza, declarando na TV: \u201c&#8230; <em>Israel tem o legitimo direito de se defender dos ataques dos terroristas, tentando, por\u00e9m, n\u00e3o comprometer os civis.<\/em>..\u201d. A seguir, todos os chefes dos governos europeus, bem como os aliados asi\u00e1ticos, africanos e latino-americanos, justificaram o brutal ataque do ex\u00e9rcito sionista que, nos primeiros 12 dias da invas\u00e3o, mataram 339 pessoas, entre elas muitas crian\u00e7as, al\u00e9m de ferir gravemente 2.562 palestinos, na maioria civis, enquanto os desabrigados s\u00e3o cerca de 55.000.<\/p>\n<p>O apoio incondicional em favor do governo sionista de Israel e a condena\u00e7\u00e3o irrevog\u00e1vel contra o Hamas e o povo palestino de Gaza se deram em fun\u00e7\u00e3o da campanha midi\u00e1tica que a imprensa sionista e os partidos da direita israelense promoveram contra o Hamas, a partir de 12 de junho, logo ap\u00f3s o misterioso assassinato dos tr\u00eas jovens israelenses, realizado nos arredores de Hebron. De fato, ainda hoje h\u00e1 vagas suspeitas de que o assassinato dos tr\u00eas jovens<\/p>\n<p>teria sido realizado por uma fantasmag\u00f3rica c\u00e9lula jihadista, que nunca reivindicou a execu\u00e7\u00e3o e que seria formada por membros da tribo Qawasameh, tradicionalmente inimigos do Hamas \u2013 e que, segundo alguns analistas, foi infiltrada por agentes duplos do Mossad, o servi\u00e7o secreto israelense, notoriamente especializado em \u201cOpera\u00e7\u00f5es Especiais\u201d.<\/p>\n<p>Um contexto que logo foi reprisado pela m\u00eddia ocidental, permitindo, assim, ao primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu responsabilizar publicamente a dire\u00e7\u00e3o do Hamas pelo tr\u00edplice assassinato e conclamar, diante dos microfones das TV, uma vingativa invas\u00e3o, sublinhando: \u201c<em>Daremos uma dura li\u00e7\u00e3o ao Hamas, quebrando todos os t\u00faneis que na Faixa de Gaza servem de base aos terroristas<\/em>&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Sucessivamente, os efeitos da manipula\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica permitiram ao ex\u00e9rcito sionista de realizar na Cisjord\u00e2nia uma gigantesca \u201copera\u00e7\u00e3o preventiva\u201d que, em menos de 48 horas, prendeu cerca de 1.300 militantes do Hamas, entre os quais Aziz Dweik, de 66 anos, porta-voz do Conselho Legislativo Palestino. Uma opera\u00e7\u00e3o que foi ovacionada pela opini\u00e3o p\u00fablica sionista israelense, do momento que o ex\u00e9rcito voltou a prender os 570 ex-presos pol\u00edticos palestinos residentes na Cisjord\u00e2nia, que haviam sido libertados em 18 de outubro de 2011, quando o Hamas trocou o soldado israelense Gilad Shalit (capturado nos arredores de Gaza, em 2006) pela liberta\u00e7\u00e3o de 1.027 presos pol\u00edticos palestinos.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso tamb\u00e9m dizer que, enquanto os 1.300 palestinos permanecem presos sem especificas acusa\u00e7\u00f5es do Tribunal de Hebron e, por isso, sujeitos a vexaminosos interrogat\u00f3rios por parte dos investigadores do Shin Bet (Seguran\u00e7a Interna), notoriamente especializados na tortura f\u00edsica e psicol\u00f3gica, o grupo de colonos sionistas, respons\u00e1vel pelo linchamento do jovem palestino Mohamed Abu Jadair (que em dois de julho foi sequestrado e depois queimado vivo na pra\u00e7a do bairro de Shoafat, em Jerusal\u00e9m Oriental) continuam em liberdade.<\/p>\n<p><strong>A invas\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 evidente que o tr\u00edplice assassinato em Hebron foi o necess\u00e1rio estopim para o governo sionista poder mobilizar a opini\u00e3o p\u00fablica israelense, inclusive a \u201cn\u00e3o sionista\u201d e, assim, legitimar o ataque contra a Faixa de Gaza \u201c<em>para dar uma li\u00e7\u00e3o ao Hamas<\/em>\u201d. De fato, o \u201cataque total\u201d para destruir a estrutura militar de Hamas \u00e9 um projeto que o Estado Maior do Tzahal planejou em 2006 para contrapor-se \u00e0 decis\u00e3o de Ariel Sharon que, na qualidade de primeiro-ministro em 2004 e em 2005, sentenciou a \u201c<em>a <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Plano_de_retirada_unilateral_de_Israel\" target=\"_blank\" title=\"Plano de retirada unilateral de Israel\">retirada unilateral de Israel da Faixa de Gaza<\/a>, por raz\u00f5es de seguran\u00e7a<\/em>\u201d. Assim, em 2008, foi lan\u00e7ada a opera\u00e7\u00e3o \u201cChumbo Fundido\u201d e, depois, em 2012, foi realizado outro grande ataque denominado \u201cPilar da Defesa\u201d. Por\u00e9m, nenhuma das duas opera\u00e7\u00f5es foi finalizada porque os efeitos das nefandas a\u00e7\u00f5es realizadas pelo ex\u00e9rcito e a avia\u00e7\u00e3o israelense levantaram a acusa\u00e7\u00e3o de genoc\u00eddio e de limpeza \u00e9tnica por parte do Conselho de Direitos Humanos da ONU. \u00c9 suficiente lembrar que, em 2008, a opera\u00e7\u00e3o \u201cChumbo Fundido\u201d provocou a morte de 1400 civis palestinos! Mesmo assim os representantes permanentes dos EUA, da Gr\u00e3 Bretanha e da Fran\u00e7a no Conselho de Seguran\u00e7a da ONU vetaram qualquer tipo de senten\u00e7a condenat\u00f3ria contra Israel que, gra\u00e7a \u00e0 cumplicidade dos pa\u00edses da OTAN, continua impune desde 1948, isto \u00e9, quando as brigadas dos grupos sionistas invadiram os territ\u00f3rios da Cisjord\u00e2nia, expulsando a maior parte da popula\u00e7\u00e3o palestina.<\/p>\n<p>Em janeiro de 2013, apesar da in\u00fatil interfer\u00eancia do Secret\u00e1rio de Estado dos EUA, John Kerry, o Estado Maior do Tzahal (For\u00e7as Armadas Israelenses), e as dire\u00e7\u00f5es do Mossad (Intelig\u00eancia e Opera\u00e7\u00f5es Especiais), do Aman (Intelig\u00eancia Militar) e do Shin Bet (Seguran\u00e7a Interna), com o pleno conhecimento do governo, come\u00e7aram a finalizar o planejamento da \u201cOpera\u00e7\u00e3o Margem de Prote\u00e7\u00e3o\u201d (Protective Edge). Tanto que, em 20 de maio de 2014, o comandante da For\u00e7a A\u00e9rea de Israel, major-general Amir Eshel, ao intervir na D\u00e9cima Confer\u00eancia Anual para a Seguran\u00e7a Nacional declarava: \u201c<em>Eu acredito que, nos \u00faltimos dois anos, nossas capacidades operacionais cresceram bastante, perdendo apenas para os Estados Unidos, a partir de um ponto de vista tanto ofensivo como defensivo<\/em>&#8230;\u201d, salientando depois: \u201c<em>Hoje, a For\u00e7a A\u00e9rea de Israel (IAF) tem uma capacidade ofensiva sem precedentes, o que nos permite de atacar com precis\u00e3o milhares de alvos em um \u00fanico dia, isto porque, nos \u00faltimos dois anos, dobramos nossa capacidade operacional por duas vezes. Assim, no final de 2014, teremos uma melhoria avaliada em 400% das nossas capacidades ofensivas em rela\u00e7\u00e3o ao passado recente, como resultado de um longo processo de melhorias<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Palavras extremamente claras que evidenciam, sem nenhuma d\u00favida, que a For\u00e7a A\u00e9rea Israelense, com seus F15 e F16 armados com \u201cbombas inteligentes GBU-28\u201d, juntamente aos m\u00edsseis de longo alcance \u201cJerico\u201d, pode alvejar todas as cidades do Oriente M\u00e9dio, inclusive as da S\u00edria e do Ir\u00e3. Por isso, ficou claro que a invas\u00e3o contra Gaza foi, apenas, uma demonstra\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica do potencial militar de Israel. Uma demonstra\u00e7\u00e3o que os estrategistas de Telavive querem que seja, antes de tudo, um sinal de alerta para os pa\u00edses do Oriente M\u00e9dio que ainda duvidam dos elementos pol\u00edticos decis\u00f3rios, do poderio militar e da vis\u00e3o estrat\u00e9gica de Israel. De fato, \u00e0s 21h23min do dia 17, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu autorizava o prosseguimento das vertentes b\u00e9licas da \u201cOpera\u00e7\u00e3o Margem de Prote\u00e7\u00e3o\u201d em todo o territ\u00f3rio da Faixa de Gaza, mobilizando ainda mais 18.000 reservistas que se juntaram aos 56.000 j\u00e1 entrincheirados ao longo da fronteira da Faixa de Gaza.<\/p>\n<p><strong>A \u201cGuerra Total\u201d <\/strong><\/p>\n<p>Planejada por ser executada com 74.000 soldados para \u201climpar\u201d, durante dois meses, a periferia e os campos de refugiados de Gaza City e os bairros de Beit Lahia, Jabalia, Beit Haroun, Deir al-Balah, Khan Yunis, Abassan al-Kabera e Rafah, a invas\u00e3o terrestre foi precedida por um primeiro bombardeio \u201ca tapete\u201d, que durou 5 horas, alvejando toda a rede de infra-estruturas das referidas cidades, em particular as subesta\u00e7\u00f5es de distribui\u00e7\u00e3o das companhias de eletricidade, g\u00e1s, \u00e1gua e telefone, as pontes, bem como os grandes armaz\u00e9ns e frigor\u00edficos e todos os pr\u00e9dios da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>Um bombardeio que come\u00e7ou primeiro no norte de Gaza, na regi\u00e3o de Beit Lahiya, onde os ca\u00e7as-bombardeiros descarregaram bombas de fragmenta\u00e7\u00e3o de 500 kg e bombas de penetra\u00e7\u00e3o de 1.000 kg. A seguir outra onda de avi\u00f5es investiu o bairro de Choujaiya, no Leste da Faixa, enquanto uma terceira onda descarregou seu carregamento de bombas e foguetes em Gaza City alvejando, inclusive um campo de refugiados da ONU e o hospital Al-Wafa. Por sua parte, as corvetas e os navios lan\u00e7a-foguetes destru\u00edam todo tipo de constru\u00e7\u00f5es localizadas no litoral de Gaza City. Enquanto isso, a artilharia (tanques, canh\u00f5es de longo alcance, morteiros e rampas de foguetes) martelava os edif\u00edcios localizados ao longo da fronteira at\u00e9 alcan\u00e7ar a periferia de Gaza City.<\/p>\n<p>Somente depois desse sistem\u00e1tico bombardeio \u00e9 que os batalh\u00f5es de fuzileiros e das tropas especiais come\u00e7aram a avan\u00e7ar com extrema prud\u00eancia entre os escombros das casas.<\/p>\n<p>A imprensa europ\u00e9ia e, sobretudo, a estadunidense fizeram de tudo para minimizar a brutalidade dos bombardeios \u201ca tapete\u201d, dos dias 17, 18 e 19, enfatizando os comunicados do porta-voz do ex\u00e9rcito sionista, tenente-coronel Peter Lerner, segundo o qual \u201c&#8230;<em>As unidades da For\u00e7a A\u00e9rea israelense haviam realizado apenas bombardeios cir\u00fargicos contra os objetivos militares do Hamas<\/em>&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>Mas o cinismo dos sionistas tocou o \u00e1pice quando o presidente israelense, Shimon Peres (que em 1994 recebeu o premio Nobel pela Paz para depois, em 2005, se juntar a Ariel Sharon no novo partido direitista Kadima), ao ser entrevistado pela BBC ap\u00f3s o assassinato de quatro garotinhos palestinos, teve o descaramento de dizer: \u201c&#8230;<em>Estou profundamente sentido pela morte das jovens v\u00edtimas que se deu por um acidente. Pois nossos pilotos receberam a ordem de n\u00e3o atirar onde h\u00e1 crian\u00e7as. Infelizmente, no local do ataque havia muito armamento e os palestinos n\u00e3o mant\u00eam longe as crian\u00e7as<\/em>!\u201d<\/p>\n<p>Ap\u00f3s essa entrevista ter corrido o mundo, contribuindo a refor\u00e7ar o show midi\u00e1tico do Estado sionista e seus aliados, a TV \u00e1rabe Al Arabya divulgava uma nota do porta-voz do centro de primeiros socorros de Gaza, Ashraf al-Qudra, que anunciava a morte, no bairro de Sabra, de mais tr\u00eas crian\u00e7as, respectivamente de 7, 8 e 10 anos, que foram alvejadas por um foguete no terra\u00e7o de sua casa, no momento em que estavam dando a comida aos seus pombos. A seguir, o diretor do hospital, Basman Alashi, informava que, tamb\u00e9m na praia de Gaza, outros tr\u00eas garotos, de 10, 12 e 13 anos, morreram alvejados, no dia 18, pelos canh\u00f5es das corvetas israelenses.<\/p>\n<p>Na tarde do dia 19, o n\u00famero de palestinos mortos por efeito dos bombardeios chegou a 339, enquanto os feridos somavam 2.562, sem contar, ainda, os mortos e os feridos que ficaram enterrados debaixo dos destro\u00e7os dos pr\u00e9dios alvejados. Mortos e feridos que em sua completa maioria s\u00e3o civis, em particular crian\u00e7as, mulheres e idosos.<\/p>\n<p>Os milicianos das Brigadas Ezzedin al-Qassam continuam escondidos em t\u00faneis subterr\u00e2neos, de onde atiraram contra o territ\u00f3rio de Israel 1.663 foguetes Qassam. Destes, somente 346 foram interceptados pelo sistema anti-foguetes \u201cIron-Dom\u201d, do ex\u00e9rcito israelense; os restantes n\u00e3o alvejaram nenhum objetivo estrat\u00e9gico importante. Por isso, \u00e9 preciso lembrar que a efic\u00e1cia dos foguetes Qassam \u00e9 muito reduzida por ser um projeto artesanal desenvolvido, em 2001, por Nidal Fat&#8217;hi Rabah Farahat. Hoje, o foguete Qassam \u00e9 mais uma arma pol\u00edtica que representa o esp\u00edrito de resist\u00eancia dos palestinos de Gaza e seu apoio pol\u00edtico ao Hamas e aos milicianos das Brigadas Ezzedin al-Qassam.<\/p>\n<p>Segundo as declara\u00e7\u00f5es do porta-voz do ex\u00e9rcito sionista, tenente-coronel Peter Lerner, os bombardeios continuar\u00e3o ainda por outros dois ou tr\u00eas dias, isto \u00e9, quando iniciar\u00e3o os desgastantes combates de \u201ccasa por casa\u201d entre os milicianos que saem dos t\u00faneis e os soldados israelenses que pretendem controlar os per\u00edmetros urbanos. \u00c9 nessa fase que come\u00e7ar\u00e1 a verdadeira \u201cOpera\u00e7\u00e3o Margem de Prote\u00e7\u00e3o\u201d, com os soldados israelenses que pretendem acabar fisicamente, em menos de trinta dias, com as Brigadas Ezzedin al-Qassam, enquanto os milicianos tentar\u00e3o transformar Gaza City em uma segunda Stalingrado.<\/p>\n<p><strong>Gaza e o cen\u00e1rio geoestrat\u00e9gico regional<\/strong><\/p>\n<p>Enquanto o ex\u00e9rcito israelense continua a bombardear a Faixa de Gaza, os dirigentes do Hamas n\u00e3o aceitam negociar o cessar-fogo, proposto pelo secret\u00e1rio da ONU, Ban Ki-moon que, na realidade, n\u00e3o resolve a condi\u00e7\u00e3o de absoluto isolamento diplom\u00e1tico e econ\u00f4mico a que a Faixa de Gaza est\u00e1 submetida. De fato, o governo sionista impede o funcionamento do aeroporto, dos portos, al\u00e9m de ter conseguido do Egito o fechamento da \u00fanica entrada comercial no posto de fronteira de Rafah.<\/p>\n<p>\u00c9 neste \u00e2mbito e com o recrudescimento das opera\u00e7\u00f5es militares em Gaza que o primeiro ministro, Benjamin Netanyahu, est\u00e1 conseguindo montar um novo cen\u00e1rio geoestrat\u00e9gico, cuja complexidade pode interferir com a representatividade e as proje\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que o Departamento de Estado dos EUA elaborou, recentemente, para o Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n<p><strong>Estados Unidos<\/strong><\/p>\n<p>Para entender a posi\u00e7\u00e3o que Benjamin Netanyahu assumiu nos \u00faltimos meses, bem como o apoio irrestrito que ele recebeu dos comandos das For\u00e7as Armadas e das dire\u00e7\u00f5es dos poderosos servi\u00e7os secretos (Mossad, Aman e Shin Bet), \u00e9 preciso dizer que isso reflete, tamb\u00e9m, o conflito pol\u00edtico interno no seio do Partido Democrata, entre o cl\u00e3 dos Clinton e o grupo que ainda ap\u00f3ia Barack Obama, do qual John Kerry \u00e9 o porta-voz no \u00e2mbito internacional. De fato, \u00e9 not\u00f3ria a atual flexuosidade em forma de ziguezague da pol\u00edtica exterior da Casa Branca para com o Oriente M\u00e9dio. Por exemplo, quando a Ar\u00e1bia Saudita decidiu financiar o golpe de Estado contra o presidente do Egito, Mohamed Morsi, os sauditas n\u00e3o pediram a autoriza\u00e7\u00e3o \u00e0 Casa Branca, mas, sim, informaram, apenas, as autoridades de Telavive, que saudaram a iniciativa, do momento que Morsi e o governo da Irmandade Mu\u00e7ulmana estavam ajudando a dire\u00e7\u00e3o do Hamas em romper o isolamento imposto pelo ex\u00e9rcito sionista.<\/p>\n<p>De fato, o golpe liderado pelo general Sisi, criou s\u00e9rios problemas de credibilidade para a Casa Branca, visto que em um primeiro momento o presidente Obama havia decidido suspender a ajuda militar destinada ao Egito, no valor de 1,6 bilh\u00e3o de d\u00f3lares. Depois, quando o poderoso lobby sionista de Wall Street manifestou seu pensamento, Obama enviou John Kerry ao Cairo para renegociar com o general Sisi a continua\u00e7\u00e3o do antigo acordo de coopera\u00e7\u00e3o assinado desde os tempos de Mubarak.<\/p>\n<p>Na quest\u00e3o da Palestina, Benjamin Netanyahu virou a cara quando a Casa Branca apoiou o acordo de reconcilia\u00e7\u00e3o entre o Fatah e o Hamas. Ali\u00e1s, esse foi o motivo para enterrar de vez as negocia\u00e7\u00f5es de paz, constru\u00eddas pacientemente por John Kerry e o presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, o governo sionista e em particular os comandos militares n\u00e3o gostaram da abertura diplom\u00e1tica que a Casa Branca realizou com o novo presidente do Ir\u00e3, o moderado Hassan Rohan, visto que o pac\u00edfico desmantelamento das centrais nucleares iranianas eliminava a hip\u00f3tese do ataque a\u00e9reo com os F-15 e F-16 israelenses.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m, no que diz respeito \u00e0 guerra civil na S\u00edria, o governo sionista e a monarquia saudita desaprovaram as iniciativas diplom\u00e1ticas de John Kerry, que com a insignificante realiza\u00e7\u00e3o das c\u00fapulas \u201cGenebra-1\u201d e \u201cGenebra-2\u201d deram ao regime de Bashar al-Assad um importante f\u00f4lego pol\u00edtico que permitiu a retomada da iniciativa militar e, mais recentemente, a vit\u00f3ria nas elei\u00e7\u00f5es. Ali\u00e1s, sionistas e sauditas censuraram Barack Obama por ter \u201cvacilado\u201d quando a m\u00eddia ocidental acusou, injustamente, o ex\u00e9rcito de Damasco de ter usado as bombas qu\u00edmicas contra os civis. Na realidade, a indecis\u00e3o de Obama deu tempo para descobrir que foram os homens da Brigada Al-Nusra que provocaram o desastre qu\u00edmico em Homs.<\/p>\n<p><strong>Ir\u00e3<\/strong><\/p>\n<p>A partir do dia 20 de julho, John Kerry abrir\u00e1 um canal de comunica\u00e7\u00e3o com o presidente do Ir\u00e3, Hassan Rohan, para definir uma agenda de trabalho sobre as futuras negocia\u00e7\u00f5es para a retirada das san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas impostas pelo Ocidente, enquanto o Ir\u00e3 aceitou desmantelar as centrais nucleares consideradas \u201cimpr\u00f3prias\u201d para o uso civil. Consequentemente, os EUA e o Ir\u00e3 dever\u00e3o definir o in\u00edcio das negocia\u00e7\u00f5es realizadas com um \u201cdeadline 5+1\u201d, isto \u00e9, com a participa\u00e7\u00e3o de R\u00fassia, China, Gr\u00e3 Bretanha, Fran\u00e7a e Alemanha.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que Israel est\u00e1 contra esse \u201cdeadline\u201d, do momento que o Ir\u00e3, ap\u00f3s o desmantelamento das suas centrais nucleares, poder\u00e1 tornar-se o novo grande parceiro do Ocidente, tal como o era o Ir\u00e3 do X\u00e1 Reza Pahlevi. Por isso, juntamente \u00e0 Ar\u00e1bia Saudita (que odeia o Ir\u00e3), o governo sionista permitiu que os agentes do servi\u00e7o secreto Mossad fossem \u00e0 S\u00edria e ao Iraque para treinar e monitorar os combatentes do ISIS. Desta forma, al\u00e9m de impedir a consolida\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica do governo iraquiano do xiita Nuri al-Maliki, muito ligado ao Ir\u00e3, Israel poder\u00e1 desestabilizar o futuro relacionamento do governo iraniano com as pot\u00eancias ocidentais, cujos servi\u00e7os secretos determinaram o sucesso do Califado do ISIS.<\/p>\n<p><strong>Iraque<\/strong><\/p>\n<p>Em 2012, ningu\u00e9m acreditava que os servi\u00e7os secretos de Gr\u00e3 Bretanha, Fran\u00e7a, EUA e, sobretudo, Israel estivessem treinando na S\u00edria os bandos jihadistas iraquianos. Ali\u00e1s, ningu\u00e9m pensava que em pouco tempo os mesmos teriam conseguido atacar a regi\u00e3o central do Iraque e se apoderar de v\u00e1rios campos petrol\u00edferos, com vista a financiar suas atividades militares. Por isso, em 2013, diferentes empresas \u201cfantasmas\u201d israelenses e sauditas j\u00e1 estavam comprando o petr\u00f3leo que o ISIS roubava na S\u00edria e no Iraque, pagando apenas 50% do valor de mercado. Praticamente, o ISIS sobrevive com a receita do petr\u00f3leo roubado, com a qual o misterioso Al-Bagadabi pode pagar os 30.000 combatentes fundamentalistas e sustentar a estrutura administrativa de um \u201cCalifado\u201d que, em teoria, se estende das regi\u00f5es norte-orientais da S\u00edria at\u00e9 o centro do Iraque.<\/p>\n<p>\u00c0 causa do despudorado comportamento do ex\u00e9rcito iraquiano em Mossul, o governo central do Iraque, dirigido pelo presidente Jalal Talabani (curdo) e o primeiro-ministro Nuri al-Maliki (xiita) entrou em crise, visualizando, assim, todas as contradi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, institucionais, econ\u00f4micas e militares provocadas no Iraque ap\u00f3s 10 anos de ocupa\u00e7\u00e3o estadunidense. Pior disso tudo \u00e9 a cegueira pol\u00edtica do governo majorit\u00e1rio xiita que, ainda, n\u00e3o consegue se relacionar com os sunitas e os curdos.<\/p>\n<p>De fato, com a sa\u00edda do contingente militar dos EUA (120.000 homens) e o fim dos bilion\u00e1rios investimentos \u201cpara a implanta\u00e7\u00e3o da democracia\u201d, criou-se no Iraque um perigoso \u201cburaco negro\u201d, que a Casa Branca pensa poder fechar com a reformula\u00e7\u00e3o do governo do primeiro-ministro Nuri al-Maliki, diretamente monitorado pelo Ir\u00e3, cuja reciclagem pol\u00edtica passa pela ren\u00fancia do programa nuclear militar, al\u00e9m de garantir um regular fornecimento de g\u00e1s e de petr\u00f3leo ao Ocidente.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que as \u201cexcel\u00eancias\u201d da estrat\u00e9gia sionista ap\u00f3iam o processo de \u201cbalcaniza\u00e7\u00e3o\u201d do Iraque, com o qual pretendem evitar a forma\u00e7\u00e3o de um novo eixo pol\u00edtico, econ\u00f4mico e energ\u00e9tico entre Washington e Teer\u00e3.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi casual que quando John Kerry esteve em Erbril, para se encontrar com o presidente da regi\u00e3o aut\u00f4noma do Curdist\u00e3o, Masud Barzani, os assessores israelenses j\u00e1 haviam sugerido a Barzani de ocupar as regi\u00f5es petrol\u00edferas de Kirkut, que os curdos pretendem integrar a sua regi\u00e3o aut\u00f4noma. Esta iniciativa enfureceu John Kerry por desarticular os equil\u00edbrios entre o Curdist\u00e3o e o governo central de Nuri al-Maliki, al\u00e9m de ampliar as rupturas do modelo institucional em um momento em que a instabilidade pol\u00edtica entre curdos e xiitas permite ao \u201cCalifado do ISIS\u201d se apresentar como o terceiro Estado etnicamente reservado aos sunitas.<\/p>\n<p><strong>L\u00edbia<\/strong><\/p>\n<p>A desintegra\u00e7\u00e3o do \u201cprocesso democr\u00e1tico ocidental\u201d imposto pelos EUA, a Fran\u00e7a e a Gr\u00e3 Bretanha, e a divis\u00e3o \u00e9tnica e tribal operada pelas mil\u00edcias, ligadas aos servi\u00e7os secretos da Ar\u00e1bia Saudita e do Catar, evidenciaram a completa incapacidade do Departamento de Estado dos EUA e da pr\u00f3pria CIA em saber reordenar a vida pol\u00edtica, econ\u00f4mica e, principalmente, militar da L\u00edbia. Esse fato, aos olhos dos sionistas e do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, refor\u00e7a ainda mais a id\u00e9ia de que Israel pode ser a nova pot\u00eancia regional capaz e apta a ditar e fazer respeitar regras e, portanto, impedir o surgimento de outras L\u00edbias. De fato, o golpe de Estado no Egito e a dura repress\u00e3o que o governo do general Sisi est\u00e1 impondo no pa\u00eds com a ca\u00e7a aos membros da Irmandade Mu\u00e7ulmana, impedem o Egito de voltar a ser a grande pot\u00eancia \u00e1rabe, que garante a \u201cordem ocidental\u201d no Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n<p><strong>Gaza<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que, hoje, o presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas, \u00e9 apenas uma figura decorativa no fragmentado movimento de resist\u00eancia palestino. Ali\u00e1s, seu posicionamento titubeante diante da pol\u00edtica arrogante e seletiva do governo sionista e os ricos neg\u00f3cios que a burguesia palestina pratica com a ind\u00fastria israelense, enterraram de vez a tese \u201c<em>Dois Estados para Dois Povos<\/em>\u201d, que Yasser Arafat havia conseguido impor nos Acordos de Oslo, em 13 de setembro de 1993.<\/p>\n<p>Por outro lado, todos os l\u00edderes pol\u00edticos palestinos contr\u00e1rios \u00e0 linha pol\u00edtica de Mahmud Abbas e Mohamed Dahlan (apoiado pessoalmente pelo emir do Qatar) ou foram definitivamente afastados da vida pol\u00edtica ou est\u00e3o encarcerados nas pris\u00f5es sionistas, tal como aconteceu a Marwan Al-Barghouti, l\u00edder do Fatah, e a Ahmad Sa\u2019adat, secret\u00e1rio geral da Frente Popular de Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina (FPLP), preso em uma solit\u00e1ria desde 2006.<\/p>\n<p>Por isso, o Hamas adquiriu no contexto palestino uma dimens\u00e3o pol\u00edtica nacional, visto que teve a coragem de governar e, ao mesmo tempo, rejeitar as regras impostas pelos governos sionistas. Ali\u00e1s, a reconcilia\u00e7\u00e3o entre o Fatah e o Hamas foi considerada pelo governo sionista um ato n\u00e3o declarado de guerra, em um momento em que o pr\u00f3prio primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, considera mortos e enterrados os Acordos de Oslo. Uma posi\u00e7\u00e3o que, apesar de tudo, a Casa Branca e os parlamentos de muitos pa\u00edses europeus ainda n\u00e3o engoliram.<\/p>\n<p>Se depois consideramos que o Hamas \u00e9 reconhecido e apoiado pelo Catar, enquanto a Autoridade Nacional Palestina (ANP) \u00e9 sustentada pela Ar\u00e1bia Saudita, fica evidente que o \u201cataque total\u201d \u00e0 Faixa de Gaza \u00e9 tamb\u00e9m uma maneira para dizer a todo o mundo \u00e1rabe, inclusive \u00e0 Turquia \u2013 apesar ter assinado acordos militares com Israel, ainda ap\u00f3ia a cria\u00e7\u00e3o de um Estado independente palestino -, que a atua\u00e7\u00e3o do Hamas na Faixa de Gaza dever\u00e1 ser a mesma que o Fatah exerce na Cisjord\u00e2nia. Isto \u00e9, desmilitarizada, sem nenhuma autonomia financeira, totalmente dependente da economia e dos transportes israelenses, al\u00e9m de permitir que parcelas de seu territ\u00f3rio sejam destinadas \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o sionista. Enfim, uma entidade minorit\u00e1ria \u201c<em>politicamente pacificada e controlada no quadro das regras da sociedade judaica e da ordem do Estado de Israel<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Por outro lado, a inflex\u00edvel decis\u00e3o de Benjamin Netanyahu de derrubar a estrutura militar do Hamas foi uma maneira de apresentar aos Estados Unidos e aos pa\u00edses da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia o novo cen\u00e1rio geoestrat\u00e9gico do Oriente M\u00e9dio, onde Israel \u00e9 a pot\u00eancia nuclear e militar que representa e coordena os interesses do Ocidente no Oriente M\u00e9dio. Enfim, \u00e9 a moderna prospec\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, econ\u00f4mica e, sobretudo, geoestrat\u00e9gica do \u201cGrande Israel\u201d.<\/p>\n<p><strong>Achille Lollo \u00e9 jornalista italiano, correspondente do Brasil de Fato na It\u00e1lia, editor do programa TV \u201cQuadrante Informativo\u201d e colunista do &#8220;Correio da Cidadania&#8221;.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nEscrito por Achille Lollo, de Roma para o Correio da Cidadania &#8211; Segunda, 21 de Julho de 2014 \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6481\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[78],"tags":[],"class_list":["post-6481","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c91-solidariedade-a-palestina"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1Gx","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6481","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6481"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6481\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6481"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6481"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6481"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}