{"id":6522,"date":"2014-07-28T19:39:11","date_gmt":"2014-07-28T19:39:11","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6522"},"modified":"2014-07-28T19:39:11","modified_gmt":"2014-07-28T19:39:11","slug":"sobre-anoes-e-coelhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6522","title":{"rendered":"Sobre an\u00f5es e coelhos"},"content":{"rendered":"\n<p>Professor de Direito Internacional da FGV Direito SP<\/p>\n<p>Circula nos meios acad\u00eamicos uma piada em que um coelhinho defende a tese de ser ele, coelho, o animal mais poderoso da floresta. Um ap\u00f3s o outro, os tradicionais predadores perdem a vida por duvidar de uma proposi\u00e7\u00e3o t\u00e3o esdr\u00faxula. Ao final, descobre-se que por tr\u00e1s da tese e do coelho estava o le\u00e3o, rei da floresta, que com a pata pesada despeda\u00e7ava os advers\u00e1rios.<\/p>\n<p>Nas rela\u00e7\u00f5es internacionais contempor\u00e2neas s\u00f3 n\u00e3o se sabe se Israel \u00e9 o coelho que conseguiu forjar uma sociedade especial com o le\u00e3o, os Estados Unidos, ou se de algum modo esse le\u00e3o foi la\u00e7ado, hipnotizado ou de outro modo submetido, para servir \u00e0 agenda de poder do coelhinho. Uma mistura dos dois \u00e9 poss\u00edvel e, como em todos os casamentos, s\u00f3 o sabem ao certo os parceiros.<\/p>\n<p>De todo modo, o alinhamento do le\u00e3o e da sua corte \u2013 os europeus e outros \u2013 faz com que Israel se perceba como muito mais do que um gigante no cen\u00e1rio mundial. Israel, a seus pr\u00f3prios olhos, \u00e9 detentor de todas as verdades. Apenas por serem suas, todas as suas causas s\u00e3o justas. Talvez, em linguagem de Antigo Testamento, se veja com ascend\u00eancia sobre todas as coisas criadas e, portanto, com a prerrogativa de nomear e classificar todas as coisas.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que, ao se ver alvo de uma cr\u00edtica justa \u2013 que teria sido mais justa se tivesse sido menos contida \u2013 por parte do Brasil, permite-se classificar-nos como an\u00f5es diplom\u00e1ticos. Porque discordamos dos israelenses, somos automaticamente jogados no saco dos \u201cirrelevantes\u201d. Perceba-se a arrog\u00e2ncia e a sufici\u00eancia: Israel tem sozinho o poder de decidir quem \u00e9 relevante na constru\u00e7\u00e3o de uma solu\u00e7\u00e3o justa, um trabalho em que ele \u2013 e isto \u00e9 t\u00e3o tr\u00e1gico quanto c\u00f4mico \u2013 se diz empenhado. Se voc\u00ea discordar da tese, ser\u00e1 gentilmente convidado para, atr\u00e1s da moita, ser devidamente devorado.<\/p>\n<p>H\u00e1 muito o que dizer sobre a pol\u00edtica externa brasileira para o Oriente M\u00e9dio. E h\u00e1 muito o que criticar nela. Entre as cr\u00edticas, deve-se sim, dirigir uma \u00e0 mod\u00e9stia dessa pol\u00edtica e \u00e0 hesita\u00e7\u00e3o com que concebemos e perseguimos a nossa ambi\u00e7\u00e3o para esse lugar do mundo.<\/p>\n<p>Tenho dito que a pol\u00edtica externa brasileira est\u00e1 essencialmente diante de uma escolha entre presen\u00e7a e aus\u00eancia no Oriente M\u00e9dio. O nosso discurso, de primazia do direito e da legitimidade internacionais, tem consist\u00eancia e tem resistido ao tempo. Ele \u00e9 honesto e nos presta credibilidade. Mas, por muito tempo, o Brasil fez a op\u00e7\u00e3o pela aus\u00eancia por acreditar que o Oriente M\u00e9dio demandava passos mais largos do que os que podiam dar as nossas pernas.<\/p>\n<p>Ao se ausentar, no entanto, n\u00e3o podia, de fato, pretender estar entre os grandes e, mais grave, n\u00e3o podia participar efetivamente de um dos problemas cruciais das rela\u00e7\u00f5es internacionais, um problema de profundas implica\u00e7\u00f5es morais, a quest\u00e3o da Palestina. A aus\u00eancia redundava em efetivamente deixar livre curso \u00e0 agenda israelense de ocupa\u00e7\u00e3o e de incorpora\u00e7\u00e3o gradual da Palestina.<\/p>\n<p>Apenas nos \u00faltimos anos uma op\u00e7\u00e3o mais clara pela presen\u00e7a no Oriente M\u00e9dio foi feita. Essa op\u00e7\u00e3o apresenta desafios que n\u00e3o podem ser contemplados a contento aqui, mas \u00e9 certo que, tamb\u00e9m por conta das dificuldades, a op\u00e7\u00e3o sofreu com flutua\u00e7\u00f5es e hesita\u00e7\u00f5es. Est\u00e1 claro tamb\u00e9m que, dos v\u00e1rios e complexos temas relacionados ao Oriente M\u00e9dio, s\u00f3 cabe falar agora da quest\u00e3o Palestina.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o a isso, justamente, uma das raz\u00f5es centrais para a flutua\u00e7\u00e3o est\u00e1 na tentativa constante de projetar uma imparcialidade, uma eq\u00fcidist\u00e2ncia, uma igual proximidade com palestinos e israelenses. Isso tudo \u00e9 talvez fact\u00edvel para quem quer ser amigo de todos, para quem quer oferecer ajuda humanit\u00e1ria aqui e celebrar acordos de com\u00e9rcio e defesa ali. Mas, para quem que abordar a quest\u00e3o central e buscar-lhe uma solu\u00e7\u00e3o justa, aquilo que \u00e9 pensado como imparcialidade acaba sendo uma apoio ao mais forte na sua opress\u00e3o do mais fraco.<\/p>\n<p>Penso que o Brasil tenha uma percep\u00e7\u00e3o razoavelmente clara disso, mas \u00e9 t\u00edmido demais em expressar o que sabe ser verdade. E \u00e0 timidez se soma um estilo, cordial diriam alguns, que permite aos outros a continuada ousadia da arrog\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Quando, por exemplo, o nosso Ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, ao reagir \u00e0 acusa\u00e7\u00e3o de nanismo, usa um tom de t\u00edpica bonomia e, diz entre outras coisas que \u201cn\u00f3s nunca negamos o direito de Israel se defender\u201d, ele n\u00e3o s\u00f3 deixa de responder com a acidez que a arrog\u00e2ncia demandava, como transmite uma imagem err\u00f4nea do que \u00e9 a imparcialidade.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que todos t\u00eam direito \u00e0 leg\u00edtima defesa, e isto \u00e9 verdade para Israel, e \u00e9 verdade que o Brasil nunca negou isto, mas colocar assim as coisas agora passa a impress\u00e3o de que o Brasil concorda com a tese de que os absurdos perpetrados por Israel nestes dias e mesmo nestas d\u00e9cadas mant\u00eam algum parentesco com a legitima defesa.<\/p>\n<p>Est\u00e1 na hora de recusarmos definitivamente a irrelev\u00e2ncia, como classifica\u00e7\u00e3o e como fato, e est\u00e1 na hora de dizer ao coelho que a sua tese \u00e9 falsa e que, ainda que ele fique de p\u00e9 sobre os ombros do le\u00e3o, a sua causa \u00e9 injusta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nSalem H. 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