{"id":6527,"date":"2014-07-28T20:00:19","date_gmt":"2014-07-28T20:00:19","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6527"},"modified":"2014-07-28T20:00:19","modified_gmt":"2014-07-28T20:00:19","slug":"relato-de-uma-testemunha-ocular-da-historia-recente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6527","title":{"rendered":"RELATO DE UMA TESTEMUNHA OCULAR DA HIST\u00d3RIA RECENTE"},"content":{"rendered":"\n<p>Nasci no in\u00edcio dos anos 80. Quando comecei a ter alguma consci\u00eancia do mundo, aprendi que no passado havia acontecido coisas horr\u00edveis: duas guerras mundiais, nas quais morreram dezenas de milh\u00f5es de pessoas, e que havia terminado no nosso Pa\u00eds a Ditadura (1964-1985), quando muitas pessoas foram perseguidas, torturadas e assassinadas. Era um tempo de horrores que, diziam, tinha ficado para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>As imagens do holocausto eram constantes. In\u00fameros filmes mostravam a cena j\u00e1 cl\u00e1ssica dos vag\u00f5es de trem escuros e sombrios nos quais os nazistas amontoavam judeus como animais para encaminh\u00e1-los para o seu fim nos campos de concentra\u00e7\u00e3o (e exterm\u00ednio). J\u00e1 as imagens da ditadura eram bem menos comuns, apenas uma coisa ou outra no seriado \u201cAnos Dourados\u201d da Rede Globo. Tudo muito romantizado, como se fosse bom viver durante os anos 60 e 70 e ser perseguido pelos bandidos do Estado. Sobre a \u00e9poca mais sombria do Brasil Republicano, aprendi mesmo no col\u00e9gio, nos livros de hist\u00f3ria. Tive a sorte de ter uma grande professora de Hist\u00f3ria da 5\u00aa at\u00e9 a 8\u00aa s\u00e9rie. Minha primeira grande mestre. Me ensinou que se algu\u00e9m era exemplo para os homens que querem um mundo melhor, \u00e9 Robespierre, o incorrupt\u00edvel.<\/p>\n<p>Recordo que no in\u00edcio dos anos 90, pod\u00edamos acompanhar pela televis\u00e3o a Guerra do Golfo (1990-1991), ver os ca\u00e7as dos Estados Unidos bombardear o Iraque, que revidava sem grande efeito com armas anti-a\u00e9reas. George Bush, ent\u00e3o presidente dos EUA, era mostrado como um her\u00f3i e campe\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o. Na minha inoc\u00eancia infantil, perguntei ao meu pai se Bush era assim t\u00e3o bom, porque ele n\u00e3o governava logo o mundo todo. Meu pai ficara fitando meus olhos. Dessa maneira, essa guerra era transmitida como algo bom e justo, j\u00e1 que os EUA vinham proteger o Kuwait, ent\u00e3o um pequeno pa\u00eds indefeso diante da invas\u00e3o iraquiana. Levaria ainda uns 10 anos para entender que o petr\u00f3leo era o neg\u00f3cio e a hegemonia global era a inten\u00e7\u00e3o. Percebi que o filme \u201cTop Gun\u201d era uma grande farsa. Portanto, o tempo passado com os seus horrores n\u00e3o havia ido embora. Aprendi tamb\u00e9m que uma na\u00e7\u00e3o pequena no tamanho, mas grandiosa na sua hist\u00f3ria, Cuba, resistia bravamente, tendo a sua frente homens apaixonados, radicalmente humanistas, como aquele Robespierre da escola.<\/p>\n<p>Pouco tempo depois da trag\u00e9dia iraquiana saiu a not\u00edcia nos jornais de que &#8220;a R\u00fassia havia adotado a economia de mercado&#8221;. Nesse momento, minha m\u00e3e estava na cozinha e, da sala, repeti a not\u00edcia para ela, que ficou surpreendida. Sobre a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, a televis\u00e3o bombardeava diariamente que se tratava de um mundo de horrores que, tamb\u00e9m, havia ficado para tr\u00e1s. Uns 15 anos mais eu chegaria \u00e0 conclus\u00e3o de que aquela era tamb\u00e9m uma grande farsa da m\u00eddia conservadora. Como falava uma professora da universidade, o \u201cSOREX\u201d &#8211; estranha abreviatura para \u201csocialismo realmente existente\u201d &#8211; foi capaz trazer \u00e0 humanidade conquistas sociais antes inimagin\u00e1veis. E depois tamb\u00e9m, j\u00e1 que muitos de n\u00f3s ignoram aquele mundo.<\/p>\n<p>Logo vi o ideal socialista nascer dentro de mim e me dei conta de que n\u00e3o estava s\u00f3, pois os ideais revolucion\u00e1rios est\u00e3o tamb\u00e9m na mente e no cora\u00e7\u00e3o de muitos outros camaradas, de todas as idades e de todos os cantos desse pa\u00eds-continente. Lembro que eu pensava que o melhor amigo de meu pai, o equatoriano Dr. Jorge, a pessoa mais correta e honesta que conheci, era socialista e que, portanto, n\u00e3o havia nada de errado em eu ser comunista. Pelo contr\u00e1rio. Aprendi que ser cr\u00edtico \u00e9 ter consci\u00eancia da nossa responsabilidade no mundo.<\/p>\n<p>Hoje, com 33 anos -&#8220;a idade de Cristo&#8221;, sempre me dizem-, acompanho os horrores perpetrados por Israel contra um povo indefeso mas que se defende como pode. E se lan\u00e7a pedras e alguns foguetinhos contra a maquinaria b\u00e9lica israelense, \u00e9 para dizer-lhes: &#8220;Temos dignidade, n\u00e3o tememos e lutaremos at\u00e9 mesmo com pedras contra seus horrores&#8221;. Recordo de um grande amigo palestino que, em uma palestra em Curitiba, disse &#8220;Venceremos, pois a civiliza\u00e7\u00e3o sempre vence a barb\u00e1rie&#8221;. Hoje assisto crian\u00e7as que est\u00e3o sendo impedidas de viver a pr\u00f3pria inf\u00e2ncia. Os opressores imaginam que lhes tirar\u00e3o a tenra idade. Aquelas que n\u00e3o foram mortas, carregar\u00e3o para o resto de suas vidas a imagem da destrui\u00e7\u00e3o. Disse Che certa vez que \u201cOs poderosos podem matar uma, duas ou tr\u00eas rosas, mas jamais conseguir\u00e3o deter a primavera inteira\u201d.<\/p>\n<p>Dante Alighieri, que descreveu em detalhes o inferno, seria incapaz de imaginar algo t\u00e3o horrendo. E, ironia da hist\u00f3ria, Israel que deveria ser o basti\u00e3o da paz, j\u00e1 que foi constru\u00eddo por muitas v\u00edtimas do holocausto nazista, se converte em exterminador de um povo indefeso mas que n\u00e3o se rende e teima em mostrar sua bravura. Em italiano, \u201cbravo\u201d significa bom. A televis\u00e3o insiste que o conflito \u00e9 religioso. Mas a Palestina \u00e9 apenas um elo da grande guerra pelo petr\u00f3leo, da qual Israel \u00e9 apenas ponta de lan\u00e7a da maior pot\u00eancia b\u00e9lica do planeta. Para a sanha capitalista, religi\u00e3o \u00e9 \u00f3cio se n\u00e3o \u00e9 neg\u00f3cio. Errou Max Weber.<\/p>\n<p>Disse o revolucion\u00e1rio que \u00e9 melhor morrer de p\u00e9 do que viver ajoelhado. E \u00e9 assim que fazem os palestinos. Seu exemplo ficar\u00e1 para a hist\u00f3ria. J\u00e1 sobre o que faz Israel, os judeus se envergonhar\u00e3o, como muitos j\u00e1 se envergonham. E o sionismo, assim como o nazi-fascismo, \u00e9 mais uma ideologia odiosa que nunca deveria ter sa\u00eddo da Caixa de Pandora. Em um mundo novo, calmo e livre, que est\u00e1 ali no horizonte, tudo isso estar\u00e1 no museu da hist\u00f3ria. N\u00e3o existir\u00e1 mais o capitalismo e suas in\u00fameras mazelas sociais ser\u00e3o uma amarga mas remota lembran\u00e7a.<\/p>\n<p>Rodrigo Juruc\u00ea Mattos Gon\u00e7alves \u00e9 professor de Hist\u00f3ria e comunista.<\/p>\n<p>Curitiba, 24\/07\/2014.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nRodrigo Juruc\u00ea Mattos Gon\u00e7alves\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6527\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-6527","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1Hh","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6527","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6527"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6527\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6527"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6527"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6527"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}