{"id":6545,"date":"2014-08-02T17:39:35","date_gmt":"2014-08-02T17:39:35","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6545"},"modified":"2014-08-02T17:39:35","modified_gmt":"2014-08-02T17:39:35","slug":"gaza-nao-ha-bomba-nao-intencional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6545","title":{"rendered":"Gaza: N\u00e3o h\u00e1 bomba \u201cn\u00e3o intencional\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>\u201c<a href=\"http:\/\/www.lrb.co.uk\/blog\/2014\/07\/29\/nadia-abu-el-haj\/nothing-unintentional\/\" target=\"_blank\">Nothing Unintentional<\/a>\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Traduzido pelo pessoal da <strong>Vila Vudu<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 s\u00e3o mais de mil mortos palestinos, com mais de 5 mil feridos. Mais de 70% das baixas s\u00e3o civis, mais de 200, crian\u00e7as. Fam\u00edlias inteiras foram dizimadas. Meninos que jogavam bola numa praia foram mortos por barcos de guerra de Israel. Mais de 2 mil resid\u00eancias foram danificadas ou destru\u00eddas. Segundo um porta-voz do ex\u00e9rcito de Israel, 120 bombas de uma tonelada foram lan\u00e7adas s\u00f3 contra os arredores de Shaja\u2019yya. Mesmo assim, porque morreram tr\u00eas civis israelenses e 40 soldados, os israelenses e seus aliados nos EUA insistem em descrever a carnificina como guerra de autodefesa.<\/p>\n<p>Dizem tamb\u00e9m que o ex\u00e9rcito de Israel guerreia moralmente. Que n\u00e3o mira civis. Que jamais os mata intencionalmente. Que at\u00e9 alerta os gazenses sobre futuros ataques, para que possam escafeder-se da \u00e1rea.<\/p>\n<p>A matan\u00e7a \u201cn\u00e3o intencional\u201d de civis n\u00e3o \u00e9 ilegal, nos termos da lei internacional. Se os civis n\u00e3o s\u00e3o deliberadamente \u201cmirados\u201d, se s\u00e3o mortos na tentativa de alcan\u00e7ar objetivo militar leg\u00edtimo e o n\u00famero de mortos \u00e9 \u201cproporcional\u201d \u00e0quele objetivo, nesse caso as baixas civis s\u00e3o definidas como \u201cdano colateral\u201d. Contudo, como ensina Neta Crawford em <em>Accountability for Killing<\/em>,<span> <\/span><strong>[1]<\/strong> vale a pena pensar mais criticamente sobre a categoria das mortes n\u00e3o intencionais de civis. Muitas mortes de civis em guerra de guerrilha urbana podem ser \u201cn\u00e3o intencionais\u201d, mas s\u00e3o tamb\u00e9m previs\u00edveis.<\/p>\n<p>Gaza \u00e9 territ\u00f3rio densamente povoado cercado por terra, mar e ar, do qual n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda poss\u00edvel. O ex\u00e9rcito israelense est\u00e1 fazendo chover bombas naquele territ\u00f3rio com poder de fogo suficiente para demolirem pr\u00e9dio de apartamentos de oito andares; para fazerem voar pelos ares enormes port\u00f5es de ferro. H\u00e1<em>drones<\/em> que disparam contra \u00e1reas onde se acumulam dezenas de milhares de pessoas, contra, at\u00e9, abrigos; e contra, tamb\u00e9m pontos em que se aglomeram pessoas que tentam fugir.<\/p>\n<p>O ex\u00e9rcito de Israel est\u00e1 bombardeando \u00e1reas densamente povoadas e campos de refugiados usando tanques Merkava e a respectiva muni\u00e7\u00e3o, e m\u00edsseis disparados de helic\u00f3pteros Apache, inclusive em \u00e1reas que, antes, o ex\u00e9rcito israelense indicara como local para onde os civis poderiam deslocar-se.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 lugar seguro em Gaza. N\u00e3o h\u00e1 para onde fugir. E nada h\u00e1 de \u201cn\u00e3o intencional\u201d, muito menos h\u00e1 algo de moral, se o que se v\u00ea s\u00e3o civis mortos em circunst\u00e2ncias nas quais se pode prever com 100% de probabilidade que ser\u00e3o mortos; se se ataca \u00e0 bala de canh\u00e3o um campo de refugiados superlotado ou uma \u00e1rea superlotada de qualquer cidade, ou rua superlotada, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida alguma de que haver\u00e1 mortes de civis em massa. Nessas circunst\u00e2ncias, a distin\u00e7\u00e3o entre assassinato premeditado e morte n\u00e3o intencional j\u00e1 perdeu completamente qualquer significado.<\/p>\n<p>E se as mortes de civis ali n\u00e3o forem \u2018n\u00e3o intencionais\u2019? <strong><a href=\"http:\/\/redecastorphoto.blogspot.com.br\/2014\/07\/propaganda-para-encobrir-as-atrocidades.html\" target=\"_blank\">O estado israelense \u00e9 h\u00e1bil na arte de mostrar-se sempre alinhado com os interesses e valores proclamados dos EUA<\/a><\/strong>.<\/p>\n<p>Depois do 11\/9\/2001, Ariel Sharon trabalhou muito para igualar a guerra dos EUA contra \u201cterroristas mu\u00e7ulmanos\u201d no Afeganist\u00e3o e no Iraque, com a luta de Israel contra o povo palestino. Mas a guerra de Israel \u00e9 absolutamente diferente da guerra dos EUA. N\u00e3o porque os militares norte-americanos sejam mais morais, ou mais sens\u00edveis \u00e0s leis da guerra, mas porque os EUA operam com uma fantasia ideol\u00f3gica diferente.<\/p>\n<p>Os militares dos EUA foram libertar iraquianos e afeg\u00e3os de regimes dos quais esses povos queriam libertar-se \u2013 ou, pelo menos, acreditaram que queriam, quando lhes foi dito que queriam. Sempre seria preciso conquistar cora\u00e7\u00f5es e mentes, mas os civis iraquianos e afeg\u00e3os facilmente abra\u00e7ariam a causa dos EUA e sua miss\u00e3o \u201clibertadora\u201d.<\/p>\n<p>A guerra de Israel contra Gaza n\u00e3o \u00e9 guerra que visa a conquistar cora\u00e7\u00f5es e mentes palestinos. Israel n\u00e3o se apresenta como protetora ou libertadora dos gazenses, de algum governo opressor. Em vez disso, as t\u00e1ticas do ex\u00e9rcito de Israel fazem lembrar a l\u00f3gica dos bombardeios de brit\u00e2nicos e norte-americanos contra cidades alem\u00e3s e japonesas durante a II\u00aa Guerra Mundial: atirar para matar contra a popula\u00e7\u00e3o civil. Que sofram al\u00e9m do imagin\u00e1vel. Ent\u00e3o, os pr\u00f3prios civis levantar-se-\u00e3o contra o governo <em>deles<\/em>.<\/p>\n<p>Quando Israel ataca hospitais em Gaza, quando assassina fam\u00edlias inteiras, quando reduz a peda\u00e7os irreconhec\u00edveis quatro meninos que jogavam bola numa praia, todos esses s\u00e3o assassinatos premeditados e cuidadosamente planejados. A guerra \u00e9 uma extens\u00e3o do castigo coletivo aplicado aos palestinos da Cisjord\u00e2nia depois que tr\u00eas jovens colonos israelenses foram sequestrados e mortos em junho\/2014. \u00c9 resposta proporcional?<\/p>\n<p>Comparem-se essa resposta e a rea\u00e7\u00e3o israelense contra os tr\u00eas israelenses que queimaram vivo um adolescente palestino, como vingan\u00e7a pela morte dos tr\u00eas colonos. Imaginem o ex\u00e9rcito israelense pondo-se a bombardear as col\u00f4nias nas quais vivessem os colonos assassinos, responsabilizando col\u00f4nias israelenses inteiras, pelo crime dos tr\u00eas assassinos; imaginem o ex\u00e9rcito israelense a demolir col\u00f4nias de israelenses, a tiros de canh\u00e3o.<\/p>\n<p>Ou imaginem se o Ham\u00e1s tivesse acesso a foguetes melhores, que pudessem ser mais eficazmente dirigidos contra os seus alvos. Imaginem se o Ham\u00e1s come\u00e7asse a atacar exatamente os pontos onde estivessem os altos comandantes e governantes israelenses, as casas deles, que matassem mulher e filhos deles, sobrinhos, sobrinhas, junto com a fam\u00edlia, tamb\u00e9m dos vizinhos deles, da casa ao lado, numa explos\u00e3o s\u00f3. Imaginem que essas mortes fossem apresentadas ao mundo como \u201cdanos colaterais\u201d pelas quais o Ham\u00e1s n\u00e3o seria respons\u00e1vel nem legal nem moralmente!<\/p>\n<p>Os ataques a bomba, pelo ex\u00e9rcito de Israel, contra casas, escolas e hospitais palestinos, tudo indiscriminadamente posto no ch\u00e3o, reduzido a escombros, matando sem parar o povo de Gaza, tem de ser chamado pelo que \u00e9: CRIME DE GUERRA.<\/p>\n<p><strong>Nota dos tradutores<\/strong><\/p>\n<p><strong>[1]<\/strong> CRAWFORD, Neta C., <em>Accountability for Killing. <\/em><em>Moral Responsibility for Collateral Damage in America&#8217;s Post-9\/11 Wars<\/em> [<strong><a href=\"http:\/\/mail.terra.com.br\/105.0trr\/em%20http:\/global.oup.com\/academic\/product\/accountability-for-killing-9780199981724;jsessionid=EAF19B445D54B9A7E54D8C65DA05E199?cc=br&amp;lang=en&amp;\" target=\"_blank\">Da presta\u00e7\u00e3o e da cobran\u00e7a de contas e responsabilidades por matar. Responsabilidade moral por dano colateral, nas guerras p\u00f3s-11\/9 dos EUA<\/a><\/strong>], <em>Oxford University Press<\/em>, 2013, 513 pp.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>*Nadia Abu El Haj<\/strong> (nasceu em 1962) \u00e9 uma acad\u00eamica americana com PhD em Antropologia pela <em>Duke University<\/em>. \u00c9 professora associada de antropologia da Faculdade Barnard.Autora de <em><a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Facts_on_the_Ground:_Archaeological_Practice_and_Territorial_Self-Fashioning_in_Israeli_Society\" target=\"_blank\" title=\"Facts on the Ground: Archaeological Practice and Territorial Self-Fashioning in Israeli Society\">Facts on the Ground: Archaeological Practice and Territorial Self-Fashioning in Israeli Society<\/a><\/em> (2001) e<em><a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/w\/index.php?title=The_Genealogical_Science:_The_Search_for_Jewish_Origins_and_the_Politics_of_Epistemology&amp;action=edit&amp;redlink=1\" target=\"_blank\" title=\"The Genealogical Science: The Search for Jewish Origins and the Politics of Epistemology (page does not exist)\">The Genealogical Science: The Search for Jewish Origins and the Politics of Epistemology<\/a><\/em> (2012). Abu El Haj nasceu em Nova Iorque, segunda filha de m\u00e3e protestante e pai palestino e mu\u00e7ulmano. Seu av\u00f4 materno era franc\u00eas e av\u00f3 materna noruegu\u00easa-americana. Sua educa\u00e7\u00e3o religiosa limitou-se a frequentar igreja duas vezes por ano. Passou alguns anos em escolas particulares em Teer\u00e3 e Beirute quanto seu pai, como funcion\u00e1rio da ONU, foi transferido para aquelas cidades. Retornou aos Estados Unidos para seus estudos de n\u00edvel universit\u00e1rio, frequentando o <em>Bryn Mawr College<\/em> obtendo t\u00edtulo de Bacharel em Ci\u00eancia Pol\u00edtica e recebeu seu diploma de doutorado na <em>Duke University<\/em>. Entre 1993 e 1995 fez trabalhos de p\u00f3s-doutorado com bolsa da <em>Harvard University Academy<\/em> na \u00e1rea de Estudos Internacionais, com foco no Oriente M\u00e9dio. Tamb\u00e9m recebeu bolsas da<em>University<\/em> <em>of Pennsylvania<\/em>, <em>Mellon Program<\/em>, e do <em>Institute for Advanced Study<\/em> em<em>Princeton<\/em>. Abu El Haj fala ingl\u00eas, \u00e1rabe, franc\u00eas, persa e hebraico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n29\/7\/2014, *Nadia Abu El-Haj, London Review of Books, \u201cBlog \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6545\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[78],"tags":[],"class_list":["post-6545","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c91-solidariedade-a-palestina"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1Hz","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6545","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6545"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6545\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6545"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6545"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6545"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}