{"id":6546,"date":"2014-08-02T17:45:22","date_gmt":"2014-08-02T17:45:22","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6546"},"modified":"2014-08-02T17:45:22","modified_gmt":"2014-08-02T17:45:22","slug":"a-industria-belica-brasileira-e-israel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6546","title":{"rendered":"A ind\u00fastria b\u00e9lica brasileira e Israel"},"content":{"rendered":"\n<p>A ind\u00fastria b\u00e9lica brasileira nos anos de presid\u00eancia petista \u00e9 o tema da disserta\u00e7\u00e3o de mestrado em hist\u00f3ria que estamos elaborando. As investiga\u00e7\u00f5es indicam uma forte atua\u00e7\u00e3o desta ind\u00fastria no estabelecimento das pautas pol\u00edticas para o setor, no que tem sido bem sucedida. Poucos sabem, mas nos \u00faltimos anos foram aprovadas diversas pol\u00edticas de incentivo fiscal e comercial para a Ind\u00fastria B\u00e9lica \u201cnacional\u201d. Desde 2005, esta ind\u00fastria tem voz ativa na Comiss\u00e3o Militar da Ind\u00fastria de Defesa (CMID), ligada ao minist\u00e9rio da Defesa, atuando por meio de seus representantes no F\u00f3rum da Ind\u00fastria de Defesa (FID), subordinado \u00e0 CMID.<\/p>\n<p>Como resultado direto da atua\u00e7\u00e3o de seus porta-vozes junto ao governo, desde 2010 empresas selecionadas do setor b\u00e9lico brasileiro t\u00eam uma margem de prefer\u00eancia de at\u00e9 25% sobre o pre\u00e7o dos concorrentes em licita\u00e7\u00f5es. Em 2011, somou-se a esta prefer\u00eancia em licita\u00e7\u00f5es a isen\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria em rela\u00e7\u00e3o ao PIS\/PASEP, COFINS e IPI. \u00c9 marcante, ainda, a presen\u00e7a de empresas do setor b\u00e9lico entre os financiadores de campanhas e partidos pol\u00edticos no Brasil.<\/p>\n<p>Para se ter uma ideia, segundo dados do TSE, em 2010, a UTC engenharia destinou recursos da ordem de R$ 8.264.666,00 para financiamento de campanhas eleitorais. Entre os principais partidos atendidos est\u00e3o o PT, o PSDB, o PMDB e o DEM. A Embraer, no mesmo ano, destinou R$ 1.255.000,00 atendendo principalmente PSDB, PSB e PT. A AGRALE concentrou seus recursos no estado do Rio Grande do Sul, destinando R$ 85.000,00 para campanhas do PT, PMDB, PCdoB, PDT, PSDB e PRP. A fabricante de armas leves TAURUS gastou, no mesmo estado, R$ 215.000,00 com candidatos do DEM, PDT e PT. Poder\u00edamos continuar citando exemplos, mas os casos aqui apontados s\u00e3o suficientes para notar a expressiva presen\u00e7a de empresas do setor entre os financiadores de campanha e a ampla abrang\u00eancia dos partidos receptores desses recursos, sejam eles a base aliada ou grupos de partidos de \u201coposi\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Mas o que tudo isto tem a ver com Israel? Os repetidos ataques de Israel \u00e0 popula\u00e7\u00e3o palestina t\u00eam mais a ver com o Brasil do que se imagina. Grandes empresas b\u00e9licas de Israel mant\u00eam \u00edntima rela\u00e7\u00e3o com suas cong\u00eaneres brasileiras, prestam diversos servi\u00e7os e fornecem diversos materiais \u00e0s For\u00e7as Armadas do Brasil.<\/p>\n<p>Em 2003, a For\u00e7a A\u00e9rea Brasileira sentia necessidade de modernizar sua desgastada frota de ca\u00e7as F-5. Para tanto, contratou a empresa \u201cnacional\u201d Embraer para fazer o servi\u00e7o de moderniza\u00e7\u00e3o em 46 aeronaves. Por n\u00e3o dominar o trabalho com os avan\u00e7ados sistemas eletr\u00f4nicos de aeronaves de combate, a Embraer subcontratou uma empresa israelense para fazer esta parte dos servi\u00e7os. Entrava em cena a Elbit e se estabelecia uma parceria que dura at\u00e9 hoje. Como resultado do contrato de moderniza\u00e7\u00e3o de seus avi\u00f5es F-5 usados, o Brasil recebeu um conjunto de off-sets, gastos no pa\u00eds com desenvolvimento local e transfer\u00eancia de tecnologia a partir da empresa israelense. A principal benefici\u00e1ria, al\u00e9m da pr\u00f3pria Embraer, foi uma empresa chamada AEL, antiga Aeroeletr\u00f4nica.<\/p>\n<p>No entanto, essa empresa j\u00e1 havia sido comprada pelo mesmo grupo israelense. Ou seja, trata-se do t\u00edpico e recorrente caso de se transferir tecnologia para si mesmo, ou da matriz estrangeira para a subsidi\u00e1ria \u201cfilial\u201d local. O controle sobre o capital e sobre a tecnologia continuou sendo israelense, agora maquiado de brasileiro. Al\u00e9m do contrato de moderniza\u00e7\u00e3o dos F-5 da For\u00e7a A\u00e9rea, foi firmado em 2012 um contrato semelhante, or\u00e7ado em R$1,3 bilh\u00e3o, para modernizar os jatos de ataque A-1 ou o conhecido AMX da For\u00e7a A\u00e9rea, envolvendo as mesmas EMBRAER e AEL.<\/p>\n<p>Israel fornece, ainda, ve\u00edculos a\u00e9reos n\u00e3o tripulados (VANT) ao Brasil. Outra empresa israelense, a IAI, Israel Aerospace Industries, entregou em 2010 dois aparelhos \u00e0 Pol\u00edcia Federal em contrato estimado em R$80 milh\u00f5es. A Elbit, por sua vez, forneceu em 2013 dois VANTs \u00e0 For\u00e7a A\u00e9rea, ao custo de R$ 48 milh\u00f5es. A mesma Elbit, presente aqui por meio de sua subsidi\u00e1ria AEL, formou uma joint venture com a Embraer em 2011 visando o desenvolvimento de um VANT \u201cnacional\u201d. As duas abocanharam o projeto Falc\u00e3o da Avibras, que ent\u00e3o atravessava um per\u00edodo de dificuldade financeira, quando ela entrou na parceria. Este avi\u00e3o, equivalente ao planejado pelas gigantes, j\u00e1 se encontrava em estado avan\u00e7ado de projeto.<\/p>\n<p>A empresa que formaram se chama Harpia, e tem controle acion\u00e1rio da Embraer, 51%, secundariamente da AEL, 40%, e por \u00faltimo da Avibr\u00e1s, com 9%. Ou seja, a empresa mais \u201cbrasileira\u201d do grupo foi visivelmente lesada ante a capacidade financeira das parceiras Embraer e Elbit.<\/p>\n<p>\u00c9 relevante, ainda, a participa\u00e7\u00e3o da mesma dupla Embraer-AEL\/ELBIT no desenvolvimento da aeronave KC-390, que ser\u00e1 a espinha dorsal da log\u00edstica a\u00e9rea das For\u00e7as Armadas brasileiras nos pr\u00f3ximos 30-40 anos. Tamb\u00e9m existem negocia\u00e7\u00f5es para repetir a dupla no desenvolvimento da participa\u00e7\u00e3o brasileira, no rec\u00e9m encomendado Gripen, aeronave de ca\u00e7a que venceu o processo F-X2.<\/p>\n<p>Falamos apenas da atua\u00e7\u00e3o israelense nos projetos de aeronaves. Al\u00e9m disso, a AEL atua no ramo de sat\u00e9lites, sensores, comunica\u00e7\u00e3o e simuladores para as for\u00e7as armadas brasileiras. Sua \u201cparceira\u201d Elbit j\u00e1 comprou outras duas empresas brasileiras do setor b\u00e9lico, a Perisc\u00f3pio Equipamentos Optronicos e a Ares Aeroespecial e Defesa, aumentando o seu portf\u00f3lio de atividades no pa\u00eds. A mesma AEL fornecer\u00e1 as torres automatizadas para o nov\u00edssimo blindado \u201cbrasileiro\u201d fabricado pela IVECO\/FIAT, cuja encomenda prevista hoje \u00e9 de 2044 unidades nos pr\u00f3ximos 20 anos.<\/p>\n<p><strong>Em 2013, a empresa israelense Global Shield forneceu a pre\u00e7o 70% abaixo da tabela 8 ve\u00edculos blindados para o BOPE e a Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) da Pol\u00edcia Civil, no Rio de Janeiro<\/strong>. Estes ve\u00edculos foram fornecidos a pre\u00e7o t\u00e3o baixo sob a justificativa de que a cidade funcionaria, por causa dos grandes eventos, como um estande de exposi\u00e7\u00e3o de produtos de seguran\u00e7a para o mundo. Este conjunto de opera\u00e7\u00f5es israelense-brasileiras no campo armamentista n\u00e3o est\u00e1 desconectado do mundo. Faz parte de um conjunto mais amplo de fus\u00f5es, aquisi\u00e7\u00f5es e forma\u00e7\u00e3o de imensas massas de capital aplicado na pesquisa, produ\u00e7\u00e3o e consumo de m\u00e1quinas de morte.<\/p>\n<p>Israel \u00e9 um dos pa\u00edses de onde se origina parte consider\u00e1vel dos recursos investidos na ind\u00fastria b\u00e9lica brasileira, tendo controle acion\u00e1rio em pelo menos tr\u00eas empresas no Brasil. A atua\u00e7\u00e3o de suas empresas aqui, para al\u00e9m de promover qualquer benef\u00edcio tecnol\u00f3gico imagin\u00e1vel ou qualquer desenvolvimento local de m\u00e1quinas de morte que em algum desvario possa ser considerado desej\u00e1vel, responde \u00e0 l\u00f3gica de valoriza\u00e7\u00e3o de seu pr\u00f3prio capital e nisso atua de modo associado \u00e0s empresas ditas brasileiras.<\/p>\n<p>Portanto, sim, a For\u00e7a A\u00e9rea de Israel ataca palestinos com armas que ajudamos a pagar, desenvolver e vender, na medida em que financiamos com neg\u00f3cios que, numa aproxima\u00e7\u00e3o conservadora razoavelmente precisa, ultrapassaram R$1 bilh\u00e3o nos \u00faltimos 12 anos.<\/p>\n<p>Alexandre Arienti Ramos \u00e9 mestrando em Hist\u00f3ria pela UNIOESTE.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nAlexandre Arienti Ramos\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6546\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-6546","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1HA","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6546","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6546"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6546\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6546"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6546"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6546"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}