{"id":6548,"date":"2014-08-02T17:57:20","date_gmt":"2014-08-02T17:57:20","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6548"},"modified":"2014-08-02T17:57:20","modified_gmt":"2014-08-02T17:57:20","slug":"nao-em-meu-nome","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6548","title":{"rendered":"N\u00e3o em meu nome"},"content":{"rendered":"\n<p>Na minha adolesc\u00eancia, tive a oportunidade de visitar Israel por duas vezes, ambas na primeira metade da d\u00e9cada de 1990. Era estudante de uma escola judaica da zona sul da cidade do Rio de Janeiro. As viagens foram organizadas por institui\u00e7\u00f5es sionistas, e tinham por intuito apresentar \u00e0 juventude diasp\u00f3rica a realidade daquele Estado formado ap\u00f3s o holocausto judaico da Segunda Guerra Mundial, e para o qual todo e qualquer judeu tem o direito de \u201cretornar\u201d caso assim o deseje. Voltar \u00e0 terra ancestral. Para as organiza\u00e7\u00f5es sionistas, ainda que n\u00e3o disposto a deixar a di\u00e1spora, todo e qualquer judeu ao redor do mundo deve conhecer a \u201cterra prometida\u201d, prestar-lhe solidariedade material ou simb\u00f3lica, assim como todo mu\u00e7ulmano deve fazer, pelo menos uma vez na vida, a peregrina\u00e7\u00e3o a Meca. Para muitos jovens judeus, a visita a Israel \u00e9 um rito de passagem, assim como para outros o destino \u00e9 a Disneyl\u00e2ndia.<\/p>\n<p>A equival\u00eancia de Israel e Disneyl\u00e2ndia tem um motivo. A grande maioria dos jovens n\u00e3o religiosos e sem interesse por quest\u00f5es pol\u00edticas realizam a viagem apenas para se divertir. O roteiro \u00e9 basicamente o mesmo: visita ao Muro das Lamenta\u00e7\u00f5es, com direito a fotos em posi\u00e7\u00e3o hip\u00f3crita de reza (j\u00e1 viram ateu rezando?), ao Museu da Di\u00e1spora, ao Museu do Holocausto, \u00e0s Colinas do Golan, ao Deserto do Neguev e a experi\u00eancia de tomar um ch\u00e1 com os bedu\u00ednos, ir ao Mar Morto e boiar na \u00e1gua sem fazer esfor\u00e7o por conta da alt\u00edssima concentra\u00e7\u00e3o de sal, a \u201cviv\u00eancia\u201d de alguns dias num dos kibutzim ainda existentes em Israel e uma semana num acampamento militar, onde se tem a oportunidade de atirar com uma arma de verdade. Al\u00e9m, \u00e9 claro, da intera\u00e7\u00e3o com jovens de outros pa\u00edses hospedados no mesmo local. Para variar, brasileiros e argentinos, esquecendo sua identidade \u00e9tnica comum, atualizavam a rivalidade futebol\u00edstica e travavam uma guerra particular pelas meninas. Neste quesito, os argentinos davam de goleada, e os brasileiros ficavam a ver navios.<\/p>\n<p>Minha mem\u00f3ria afetiva das duas viagens n\u00e3o \u00e9 das mais significativas. Aparte ter conhecido parentes por parte de m\u00e3e, a \u201cterra prometida\u201d me frustrou quando o assunto \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de minha identidade judaica. Achei os israelenses meio grosseiros (dizem que o \u201csabra\u201d, o israelense \u201cda gema\u201d, \u00e9 duro por natureza), a comida \u00e9 med\u00edocre (o melhor falafel que comi at\u00e9 hoje foi em Paris&#8230;), \u00e9 tudo muito \u00e1rido, a sociedade \u00e9 militarizada, o servi\u00e7o militar \u00e9 compuls\u00f3rio, n\u00e3o existe \u201cexcesso de contingente\u201d. A mem\u00f3ria constru\u00edda apenas sobre o sofrimento come\u00e7ava a me incomodar.<\/p>\n<p>Nossos guias, jovens talvez dez anos mais velhos do que n\u00f3s, andavam armados, o motorista do \u00f4nibus andava armado. Um dos nossos passeios foi em Hebron, cidade da Cisjord\u00e2nia, em que a estrada era rodeada por telas para conten\u00e7\u00e3o das pedras atiradas pelos palestinos. Em momento algum os guias se referiram \u00e0quele territ\u00f3rio como \u201cocupado\u201d, e hoje me envergonho de ter feito parte, ainda que por poucas horas, deste \u201cfinca p\u00e9\u201d em territ\u00f3rio ilegalmente ocupado. Para piorar, na segunda viagem quebrei a perna jogando basquete e tive de engess\u00e1-la, o que, por outro lado, me liberou da experi\u00eancia desagrad\u00e1vel de ter de apertar o gatilho de uma arma, exatamente naquela semana \u00edamos acampar com o ex\u00e9rcito israelense.<\/p>\n<p>Sei l\u00e1, n\u00e3o me senti tocado por esta realidade, minha fantasia era outra. N\u00e3o encontrei minhas ra\u00edzes no solo des\u00e9rtico do Negev, tampouco na neve das colinas do Golan. Apesar disso, trouxe na bagagem uma bandeira de Israel, que coloquei no meu quarto. Muitas vezes meu pai, judeu ateu, n\u00e3o sionista, me perguntou o porqu\u00ea daquela bandeira estar ali, e eu n\u00e3o sabia responder. Hoje eu sei por que ela N\u00c3O DEVERIA estar ali, porque minha identidade judaica passa pela Europa, pelos vilarejos judaicos descritos nos contos de Scholem Aleichem, pelo humor judaico caracter\u00edstico daquela parte do mundo, pela comida judaica daquela parte do mundo, pela m\u00fasica klezmer que os judeus criaram naquela parte do mundo, pelas est\u00f3rias que meus av\u00f3s judeus da Pol\u00f4nia contavam ao redor da mesa da sala nos incont\u00e1veis lanches nas tardes de domingo.<\/p>\n<p>Sou um judeu da di\u00e1spora, com muito orgulho. Na verdade, questiono mesmo este conceito de \u201cdi\u00e1spora\u201d. Como bem coloca o antrop\u00f3logo norte-americano James Clifford, as culturas diasp\u00f3ricas n\u00e3o necessitam de uma representa\u00e7\u00e3o exclusiva e permanente de um \u201clar original\u201d. Privilegia-se a multilocalidade dos la\u00e7os sociais. Diz ele:<\/p>\n<p>As conex\u00f5es transnacionais que ligam as di\u00e1sporas n\u00e3o precisam estar articuladas primariamente atrav\u00e9s de um lar ancestral real ou simb\u00f3lico (&#8230;). Descentradas, as conex\u00f5es laterais [transnacionais] podem ser t\u00e3o importantes quanto aquelas formadas ao redor de uma teleologia da origem\/retorno. E a hist\u00f3ria compartilhada de um deslocamento cont\u00ednuo, do sofrimento, adapta\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia pode ser t\u00e3o importante quanto a proje\u00e7\u00e3o de uma origem espec\u00edfica.<\/p>\n<p>H\u00e1 muita confus\u00e3o quando se trata de definir o que \u00e9 juda\u00edsmo, ou melhor, o que \u00e9 a identidade judaica. A partir da cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel, a identidade judaica em qualquer parte do mundo passou a associar-se, geogr\u00e1fica e simbolicamente, \u00e0quele territ\u00f3rio. A diversidade cultural interna ao juda\u00edsmo foi reduzida a um espa\u00e7o f\u00edsico que \u00e9 poss\u00edvel percorrer em algumas horas. A submiss\u00e3o a um lugar f\u00edsico \u00e9 a subestima\u00e7\u00e3o da capacidade humana de produzir cultura; o mesmo ocorre, analogamente, aos que defendem a rela\u00e7\u00e3o inexor\u00e1vel de negros fora do continente africano com este continente, como se a cultura passasse literalmente pelo sangue. O que, diga-se de passagem, s\u00f3 serve aos racialistas e, por tabela, racistas de plant\u00e3o. Prefiro a lateralidade de que nos fala Clifford.<\/p>\n<p>Ser judeu n\u00e3o \u00e9 o mesmo que ser israelense, e nem todo israelense \u00e9 judeu, a despeito da cidadania de segunda classe exercida por \u00e1rabes-israelenses ou por judeus de pele negra discriminados por seus pares origin\u00e1rios da Europa Central, de pele e olhos claros. Da\u00ed que o exerc\u00edcio da identidade judaica n\u00e3o implica, necessariamente, o exerc\u00edcio de defesa de toda e qualquer posi\u00e7\u00e3o do Estado de Israel, seja em que campo for.<\/p>\n<p>Muito desta falsa equival\u00eancia \u00e9 culpa dos pr\u00f3prios judeus da \u201cdi\u00e1spora\u201d, que se alinham imediatamente aos ditames das pol\u00edticas interna e externa israelense, acr\u00edticos, crentes de que tudo que parta do Knesset (o parlamento israelense) \u00e9 \u201cbom para os judeus\u201d, am\u00e9m. Muitos judeus diasp\u00f3ricos se interessam mais pelo que acontece no Oriente M\u00e9dio do que no seu cotidiano. Veja-se, por exemplo, o n\u00famero \u00ednfimo de cartas de leitores judeus em jornais de grande circula\u00e7\u00e3o, como O Globo, quando o assunto tratado \u00e9 a corrup\u00e7\u00e3o ou viol\u00eancia end\u00eamica em nosso pa\u00eds, em compara\u00e7\u00e3o \u00e0s indefect\u00edveis cartas de leitores judeus em defesa das a\u00e7\u00f5es militaristas israelenses nos territ\u00f3rios ocupados. Seria o complexo de gueto falando mais alto?<\/p>\n<p>N\u00e3o preciso de Israel para ser judeu e n\u00e3o acredito que a exist\u00eancia no presente e no futuro de n\u00f3s, judeus, dependa da exist\u00eancia de um Estado judeu, argumento utilizado por muitos que defendem a defesa militar israelense por quaisquer meios, que justificam o fim. N\u00e3o aceito a justificativa de que o holocausto judaico na Segunda Guerra Mundial \u00e9 o exemplo claro de que apenas um lar nacional \u00fanica e exclusivamente judaico seja capaz de proteger a etnia da extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A dor vivida pelos judeus, na vis\u00e3o etnoc\u00eantrica, reproduzida nas gera\u00e7\u00f5es futuras atrav\u00e9s de narrativas e monumentos, \u00e9 incomensur\u00e1vel e acima de qualquer dor que outro grupo \u00e9tnico possa ter sofrido, e justifica qualquer a\u00e7\u00e3o que sirva para proteg\u00ea-los de uma nova trag\u00e9dia. Certa vez, ouvi de um sobrevivente de campo de concentra\u00e7\u00e3o que n\u00e3o h\u00e1 compara\u00e7\u00e3o entre o genoc\u00eddio judaico e os genoc\u00eddios praticados atualmente nos pa\u00edses africanos, por exemplo, em Ruanda, onde tutsis e hutus se digladiaram sob as vistas grossas das ex-pot\u00eancias coloniais. Como este senhor ousa qualificar o sofrimento alheio? Ser\u00e1 pelo n\u00famero m\u00e1gico? Seis milh\u00f5es? O genial Woody Allen coloca bem a quest\u00e3o, num di\u00e1logo de Desconstruindo Harry (tradu\u00e7\u00e3o livre):<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea se importa com o Holocausto ou acha que ele n\u00e3o existiu?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, s\u00f3 eu sei que perdemos seis milh\u00f5es, mas o mais apavorante \u00e9 saber que recordes s\u00e3o feitos para serem quebrados.<\/p>\n<p>O holocausto judaico n\u00e3o \u00e9 inexplic\u00e1vel, e n\u00e3o \u00e9 explic\u00e1vel pela maldade latente dos alem\u00e3es. Sem d\u00favida, o componente antissemita estava presente, mas, conforme demonstrado por diversos pensadores contempor\u00e2neos, dentre os quais insuspeitos judeus (seriam judeus antissemitas Hannah Arendt, Raul Hilberg e Zygmunt Bauman?), uma s\u00e9rie de caracter\u00edsticas do massacre est\u00e1 relacionada \u00e0 Modernidade, \u00e0 burocratiza\u00e7\u00e3o do Estado e \u00e0 \u201cindustrializa\u00e7\u00e3o da morte\u201d, sofrida tamb\u00e9m por dirigentes pol\u00edticos, doentes mentais, ciganos, eslavos, \u201csubversivos\u201d de um modo geral. Pr\u00e1ticas sociais genocidas, conforme descritas pelo soci\u00f3logo argentino Daniel Feierstein (outro judeu antissemita?), est\u00e3o presentes tanto na Segunda Guerra Mundial quanto durante o Processo de Reorganiza\u00e7\u00e3o Nacional imposto pela ditadura argentina a partir de 1976. Genoc\u00eddio \u00e9 genoc\u00eddio, e ponto final.<\/p>\n<p>A sacraliza\u00e7\u00e3o do genoc\u00eddio judaico permite a\u00e7\u00f5es que vemos atualmente na televis\u00e3o, o esmagamento da popula\u00e7\u00e3o palestina em Gaza, transformada em campo de concentra\u00e7\u00e3o, isolada do resto do mundo. Destrui\u00e7\u00e3o da infraestrutura, de milhares de casas, a morte de centenas de civis, fam\u00edlias destro\u00e7adas, crian\u00e7as torturadas em interrogat\u00f3rios ilegais conforme descrito por advogados israelenses. N\u00e3o, n\u00e3o s\u00e3o a exce\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00e3o o efeito colateral de uma guerra suja. S\u00e3o v\u00edtimas, sim, de pr\u00e1ticas sociais genocidas, que visam, no final do processo, ao aniquilamento f\u00edsico do grupo.<\/p>\n<p>Recuso-me a acumpliciar-me com esta agress\u00e3o. O ex\u00e9rcito israelense n\u00e3o me representa, o governo ultranacionalista n\u00e3o me representa. Os assentados ilegalmente s\u00e3o meus inimigos.<\/p>\n<p>Eu, judeu brasileiro, digo: ACABEM COM A OCUPA\u00c7\u00c3O!!!<\/p>\n<p>*Marcelo Gruman \u00e9 antrop\u00f3logo.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas:<\/p>\n<p>CLIFFORD, James. (1997). Diasporas, in Montserrat Guibernau and John Rex (Eds.) The Ethnicity Reader: Nationalism, Multiculturalism and Migration, Polity Press, Oxford.<\/p>\n<p>https:\/\/www.brasil247.com\/pt\/247\/mundo\/148412\/Antrop%C3%B3logo-judeu-denuncia-genoc%C3%ADdio-de-Netanyahu.htm<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nMarcelo Gruman*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6548\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[78],"tags":[],"class_list":["post-6548","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c91-solidariedade-a-palestina"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1HC","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6548","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6548"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6548\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6548"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6548"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6548"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}