{"id":6582,"date":"2014-08-09T19:16:58","date_gmt":"2014-08-09T19:16:58","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6582"},"modified":"2014-08-09T19:16:58","modified_gmt":"2014-08-09T19:16:58","slug":"como-a-populacao-palestina-e-tratada-no-estado-sionista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6582","title":{"rendered":"COMO A POPULA\u00c7\u00c3O PALESTINA \u00c9 TRATADA NO ESTADO SIONISTA"},"content":{"rendered":"\n<p><em>No fundo, Israel n\u00e3o deseja paz. Por isso, ocupa territ\u00f3rios, segrega e alimenta fundamentalismo religioso baseado no desprezo ao outro<\/em><\/p>\n<p>Por <strong>Gideon Lewy <\/strong>| Tradu\u00e7\u00e3o:<strong> In\u00eas Castilho<\/strong><\/p>\n<p>Israel n\u00e3o deseja a paz. Nunca quis tanto que estivesse errado o que escrevo. Mas as evid\u00eancias se acumulam. Na verdade, pode-se dizer que Israel nunca desejou a paz \u2013 uma paz justa, ou seja, baseada num acordo justo para ambos os lados. \u00c9 verdade que a sauda\u00e7\u00e3o rotineira em hebreu \u00e9 <em>Shalom<\/em> (paz) \u2013 <em>shalom<\/em> quando algu\u00e9m se despede e <em>shalom<\/em> quando algu\u00e9m chega. E quase todo israelense dir\u00e1 sempre que deseja a paz, claro que sim. Mas ele n\u00e3o se refere ao tipo de paz que traz justi\u00e7a, sem a qual n\u00e3o h\u00e1 paz e n\u00e3o haver\u00e1 paz. Os israelenses desejam paz, n\u00e3o justi\u00e7a; certamente nada que se baseie em valores universais. Nos \u00faltimos dez anos, ali\u00e1s Israel afastou-se at\u00e9 mesmo da aspira\u00e7\u00e3o de construir a paz. Desistiu completamente dela. A paz desapareceu da agenda, seu lugar foi tomado por ansiedades coletivas, fabricadas sistematicamente, e por quest\u00f5es pessoais, privadas, que agora t\u00eam prioridade sobre todas as outras.<\/p>\n<p>Os israelenses que ansiavam pela paz aparentemente morreram h\u00e1 cerca de uma d\u00e9cada, depois do fracasso da reuni\u00e3o de Camp David em 2000, da dissemina\u00e7\u00e3o da mentira de que n\u00e3o h\u00e1 um parceiro palestino para a paz e, claro, do terr\u00edvel per\u00edodo da segunda intifada, encharcado de sangue. Mas a verdade \u00e9 que, mesmo antes disso, Israel nunca desejou realmente a paz. Nunca, nem por um minuto, Israel tratou os palestinos como seres humanos com direitos iguais. Nunca viu seu sofrimento como um sofrimento humano e nacional compreens\u00edveis.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m o movimento israelense pela paz \u2013 se \u00e9 que chegou a existir \u2013 morreu uma morte lenta, em meio \u00e0s penosas cenas da segunda intifada e \u00e0 mentira da falta de parceiros. Tudo o que restou foi um punhado de organiza\u00e7\u00f5es t\u00e3o empenhadas quanto ineficazes, face \u00e0s campanhas de deslegitima\u00e7\u00e3o montadas contra elas. Logo, Israel foi deixada em sua postura isolacionista.<\/p>\n<p>A evid\u00eancia mais esmagadora da rejei\u00e7\u00e3o da paz por Israel \u00e9, claro, o projeto das col\u00f4nias de ocupa\u00e7\u00e3o da Palestina. Desde o in\u00edcio de sua exist\u00eancia, nunca houve um teste mais seguro ou mais preciso para as verdadeiras inten\u00e7\u00f5es de Israel do que esse empreendimento particular. Em linguagem clara: os construtores das col\u00f4nias desejam consolidar a ocupa\u00e7\u00e3o, e quem deseja consolidar a ocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o deseja a paz. Esse \u00e9 o resumo da \u00f3pera.<\/p>\n<p>Considerando que as decis\u00f5es de Israel s\u00e3o racionais, \u00e9 imposs\u00edvel aceitar que a constru\u00e7\u00e3o nos territ\u00f3rios e a aspira\u00e7\u00e3o pela paz possam coexistir mutuamente. Cada ato de constru\u00e7\u00e3o em col\u00f4nias de ocupa\u00e7\u00e3o, cada casa m\u00f3vel e cada varanda transmitem rejei\u00e7\u00e3o. Se Israel quisesse alcan\u00e7ar a paz atrav\u00e9s dos <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Acordos_de_paz_de_Oslo\" target=\"_blank\">Acordos de Oslo<\/a>, teria ao menos parado, por iniciativa pr\u00f3pria, de construir as col\u00f4nias. O fato de que isso n\u00e3o aconteceu prova que Oslo foi uma fraude, ou, na melhor das hip\u00f3teses, a cr\u00f4nica de um fracasso anunciado. Se Israel desejava construir a paz em Taba, em Camp David, em Sharm el-Sheikh, em Washington ou em Jerusal\u00e9m, seu primeiro passo teria sido acabar com toda ocupa\u00e7\u00e3o nos territ\u00f3rios. Incondicionalmente. Sem exigir nada em troca. O fato de Israel n\u00e3o t\u00ea-lo feito \u00e9 a prova de que n\u00e3o quer uma paz justa.<\/p>\n<p>Mas as col\u00f4nias s\u00e3o apenas um dos indicadores das inten\u00e7\u00f5es de Israel. Seu isolamento est\u00e1 entranhado bem mais fundo \u2013 em seu DNA, sua corrente sangu\u00ednea, suas cren\u00e7as mais primordiais. L\u00e1, no n\u00edvel mais profundo, est\u00e1 o conceito de que esta terra est\u00e1 destinada apenas aos judeus. L\u00e1, no n\u00edvel mais profundo, est\u00e1 entrincheirado o valor de \u201cam sgula\u201d \u2014 os escolhidos por Deus.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, isso se traduz na no\u00e7\u00e3o de que, nesta terra, os judeus est\u00e3o autorizados a fazer o que aos outros \u00e9 proibido. Esse \u00e9 o ponto de partida, e n\u00e3o h\u00e1 como chegar a uma paz justa a partir da\u00ed. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma maneira de alcan\u00e7ar uma paz justa quando o nome do jogo \u00e9 desumaniza\u00e7\u00e3o dos palestinos. N\u00e3o h\u00e1 forma de conseguir alcan\u00e7ar a paz quando sua demoniza\u00e7\u00e3o \u00e9 martelada na cabe\u00e7a das pessoas dia ap\u00f3s dia. Quem est\u00e1 convencido de que cada palestino \u00e9 um suspeito e quer \u201cjogar os judeus no mar\u201d nunca vai construir a paz com os palestinos. A maioria dos israelenses est\u00e3o convencidos de ambas as afirma\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada passada, as duas popula\u00e7\u00f5es foram separadas uma da outra. O jovem israelense m\u00e9dio nunca se encontrar\u00e1 com seu par palestino, a n\u00e3o ser durante seu servi\u00e7o militar (e, mesmo assim, apenas se servir nos territ\u00f3rios ocupados). Nem o jovem palestino m\u00e9dio encontrar\u00e1 um israelense da sua idade, a n\u00e3o ser o soldado que o hostiliza no <em>checkpoint<\/em>, ou invade sua casa no meio da noite, ou o colono que usurpa sua terra ou queima seus bosques.<\/p>\n<p>Em consequ\u00eancia, o \u00fanico encontro entre os dois povos \u00e9 entre os ocupantes, que s\u00e3o armados e violentos, e os ocupados, que s\u00e3o desesperados. Foram-se os tempos em que palestinos trabalhavam em Israel e israelenses iam fazer compras na Palestina. Foi-se o per\u00edodo de rela\u00e7\u00f5es &#8220;meio-normais&#8221; e um-quarto-iguais, que existiram por poucas d\u00e9cadas entre dois povos que dividiam o mesmo peda\u00e7o de territ\u00f3rio. \u00c9 muito f\u00e1cil, nesse estado de coisas, incitar e inflamar um contra o outro, espalhar medos e instigar novos \u00f3dios sobre os j\u00e1 existentes. Essa \u00e9, tamb\u00e9m, uma receita certa de n\u00e3o-paz.<\/p>\n<p>Foi assim que um novo anseio israelense surgiu: o desejo de separa\u00e7\u00e3o: \u201cEles ficam l\u00e1 e n\u00f3s ficamos aqui (e l\u00e1 tamb\u00e9m)\u201d. Num momento em que a maioria dos palestinos \u2013 avalia\u00e7\u00e3o que me permito fazer, ap\u00f3s d\u00e9cadas de cobertura nos territ\u00f3rios \u2013 ainda quer coexist\u00eancia, mesmo que cada vez menos, a maioria dos israelenses quer n\u00e3o-envolvimento e separa\u00e7\u00e3o, mas sem pagar o pre\u00e7o. A vis\u00e3o de dois estados ganhou ades\u00e3o generalizada, mas sem qualquer inten\u00e7\u00e3o de implement\u00e1-la na pr\u00e1tica. A maioria dos israelenses \u00e9 a favor, mas n\u00e3o agora e talvez nem mesmo aqui. Eles foram treinados a acreditar que n\u00e3o h\u00e1 parceiro para a paz \u2013 isto \u00e9, um parceiro palestino \u2013 mas h\u00e1 um parceiro israelense.<\/p>\n<p>Infelizmente, a verdade \u00e9 quase o oposto. Os palestinos n\u00e3o-parceiros n\u00e3o t\u00eam mais nenhuma chance de provar que s\u00e3o parceiros; os n\u00e3o-parceiros israelenses est\u00e3o convencidos de que s\u00e3o interlocutores. Come\u00e7ou ent\u00e3o um processo em que as condi\u00e7\u00f5es, obst\u00e1culos e dificuldades impostas por Telaviv se amontoaram, mais um marco no isolamento israelense. Primeiro, veio a exig\u00eancia de acabar com o terrorismo; em seguida, a demanda pela troca da lideran\u00e7a (Yasser Arafat visto como uma pedra no caminho); e depois disso o Hamas tornou-se o obst\u00e1culo. Agora \u00e9 a recusa dos palestinos em reconhecer Israel como um Estado judeu. Israel considera leg\u00edtimo cada passo que d\u00e1 \u2013 de pris\u00f5es pol\u00edticas em massa \u00e0 constru\u00e7\u00e3o nos territ\u00f3rios \u2013, enquanto todo movimento palestino \u00e9 considerado \u201cunilateral\u201d.<\/p>\n<p>O \u00fanico pa\u00eds sem fronteiras do planeta n\u00e3o quis, at\u00e9 aqui, delimitar sequer as fronteiras que estaria pronto a aceitar num acordo. Israel n\u00e3o internalizou o fato de que, para os palestinos, as fronteiras de 1967 s\u00e3o a m\u00e3e de todos os acordos, a linha vermelha da justi\u00e7a (ou justi\u00e7a relativa). Para os israelenses, elas s\u00e3o \u201cfronteiras suicidas\u201d. Essa \u00e9 a raz\u00e3o pela qual a preserva\u00e7\u00e3o do <em>status quo<\/em> tornou-se o verdadeiro alvo, o objetivo primordial da pol\u00edtica de Israel, quase seu tudo ou nada. O problema \u00e9 que a situa\u00e7\u00e3o existente n\u00e3o pode durar para sempre. Historicamente, poucas na\u00e7\u00f5es aceitaram viver sob ocupa\u00e7\u00e3o sem resist\u00eancia. E tamb\u00e9m a comunidade internacional estar\u00e1 apta, um dia, a proferir um pronunciamento firme, acompanhado de medidas punitivas, sobre este estado de coisas. Segue-se que o objetivo de Israel \u00e9 irrealista.<\/p>\n<p>Desconectada da realidade, a maioria dos israelenses mant\u00e9m seu estilo de vida normal. A seus olhos, o mundo est\u00e1 sempre contra eles, e as \u00e1reas de ocupa\u00e7\u00e3o \u00e0 sua porta est\u00e3o fora de sua esfera de interesse. Quem ousa criticar a pol\u00edtica de ocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 rotulado de anti-semita, cada ato de resist\u00eancia \u00e9 percebido como uma amea\u00e7a existencial. Toda a oposi\u00e7\u00e3o internacional \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 lida como \u201cdeslegitimiza\u00e7\u00e3o\u201d de Israel e como um desafio para a pr\u00f3pria exist\u00eancia do pa\u00eds. Os sete bilh\u00f5es de pessoas do mundo \u2013 a maioria das quais contra a ocupa\u00e7\u00e3o \u2013 est\u00e3o erradas, e seis milh\u00f5es de judeus israelenses \u2013 a maioria dos quais ap\u00f3ia a ocupa\u00e7\u00e3o \u2013 est\u00e3o certos. Essa \u00e9 a realidade na vis\u00e3o do israelense m\u00e9dio.<\/p>\n<p>Some a isso a repress\u00e3o, a oculta\u00e7\u00e3o e a dissimula\u00e7\u00e3o, e voc\u00ea tem uma outra justificativa para o isolamento. Por que algu\u00e9m deveria lutar pela paz, desde que a vida em Israel seja boa, a calma prevale\u00e7a e a realidade se mantenha oculta? A \u00fanica maneira de a Faixa de Gaza, sitiada, lembrar as pessoas de sua exist\u00eancia \u00e9 atirando foguetes, e, atualmente, a Cisjord\u00e2nia s\u00f3 entra na agenda quando h\u00e1 sangue derramado por l\u00e1. Da mesma forma, o ponto de vista da comunidade internacional s\u00f3 \u00e9 levado em conta quando tenta impor boicotes e san\u00e7\u00f5es, que por sua vez geram imediatamente campanhas de autovitimiza\u00e7\u00e3o cravejadas de contundentes \u2013 e, \u00e0s vezes, tamb\u00e9m impertinentes \u2013 acusa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas.<\/p>\n<p>Este \u00e9, pois, o quadro sombrio. N\u00e3o cont\u00e9m um raio de esperan\u00e7a. A mudan\u00e7a n\u00e3o vai acontecer por si mesma, a partir do interior da sociedade israelense, caso continue a se comportar como se comporta. Os palestinos cometeram mais do que um erro, mas seus erros s\u00e3o marginais. A justi\u00e7a de base est\u00e1 do seu lado, e o isolamento de base \u00e9 o limite dos israelenses. Eles querem ocupa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o paz.<\/p>\n<p>Tenho a esperan\u00e7a de estar errado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nGideon Levy\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6582\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[78],"tags":[],"class_list":["post-6582","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c91-solidariedade-a-palestina"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1Ia","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6582","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6582"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6582\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6582"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6582"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6582"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}