{"id":6594,"date":"2014-08-12T14:42:25","date_gmt":"2014-08-12T14:42:25","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6594"},"modified":"2014-08-12T14:42:25","modified_gmt":"2014-08-12T14:42:25","slug":"quatro-anos-apos-o-terremoto-nada-mudou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6594","title":{"rendered":"Quatro anos ap\u00f3s o terremoto, nada mudou"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Foto: Microbarracos no acampamento de Icare, onde vivem 500 haitianos que perderam suas casas em 2010 (Jules Jelin Esa\u00fc)<\/em><\/p>\n<p>A reconstru\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a trag\u00e9dia que matou 240 mil pessoas em 2010 inexiste. Viol\u00eancia, falta de \u00e1gua e eletricidade tornam a vida nos acampamentos ainda mais dif\u00edcil<\/p>\n<p><strong>por Mars\u00edlea Gombata &#8211; Carta Capital<\/strong><\/p>\n<p><strong>De Porto Pr\u00edncipe<\/strong><\/p>\n<p>A cada dois dias, Florence Porissaint sai de seu prec\u00e1rio barraco no acampamento de Icare, perto de Forte Nacional, em busca de \u00e1gua por Porto Pr\u00edncipe. A caminhada de 40 minutos rende um balde cheio que suprir\u00e1 as necessidades da neta e da filha, com quem vive, por pouco mais de um dia. O supl\u00edcio por qual passa \u00e9 parte da rotina da Florence e de outros 137 mil haitianos que ainda vivem em acampamentos depois de terem perdido suas casas no terremoto de 2010.<\/p>\n<p>Quatro anos depois da trag\u00e9dia que deixou 240 mil mortos e 1,5 milh\u00e3o de desabrigados, a reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e da vida daqueles que perderam suas casas \u00e9 inexistente. A mobiliza\u00e7\u00e3o parece ter ficado na for\u00e7a tarefa inicial para o envio de ajuda humanit\u00e1ria e a remo\u00e7\u00e3o dos escombros. Um dos cart\u00f5es postais do Haiti, o Pal\u00e1cio Presidencial foi demolido \u00e0 espera de seu reerguimento. A Catedral Notre Dame continua com sua parte superior destru\u00edda. Pelo centro da cidade, casas e edif\u00edcios abalados pelo tremor permanecem arruinados, aumentando a sensa\u00e7\u00e3o de abandono cr\u00f4nico e pobreza que imperam em Porto Pr\u00edncipe.<\/p>\n<p>\u201cPens\u00e1vamos que ficar\u00edamos aqui por um per\u00edodo curto, mas desde o terremoto ningu\u00e9m do governo d\u00e1 as caras\u201d, conta Florence, que vive em um barraco de 2 metros quadrados com a filha e a neta. \u201cN\u00e3o temos \u00e1gua, n\u00e3o temos comida. Vivemos como animais\u201d.<\/p>\n<p>A mesma inseguran\u00e7a abate seus vizinhos. Em Icare, 500 pessoas se apertam em microbarracos constru\u00eddos com chapas de zinco, pl\u00e1stico e peda\u00e7os de madeira. O espa\u00e7o tomado pelo esgoto a c\u00e9u aberto e pelo lixo acumulado na entrada competem com o conquistado por moradores locais que vendem frutas e comida no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Precariamente improvisadas, as \u201ccasas\u201d chegam a abrigar dez pessoas. Os moradores, que n\u00e3o t\u00eam acesso a energia el\u00e9trica ou saneamento b\u00e1sico, dificilmente fazem mais de uma refei\u00e7\u00e3o por dia. N\u00e3o s\u00e3o raros os relatos de adultos e crian\u00e7as que chegaram a ficar, inclusive, uma semana sem comer.<\/p>\n<p>O improviso \u00e9 parte do cotidiano. Para sobreviver e conseguir manter a moradia de 3 metros quadrados em que vive com a mulher e cinco filhos, Lindor Cherisnord, 39 anos, trabalha carregando sacos de arroz ou cimento, o que lhe rende cerca de dois d\u00f3lares por dia. \u201c\u00c9 como eu consigo me defender. Aqui n\u00e3o temos ajuda do governo, n\u00e3o nos d\u00e3o comida nem \u00e1gua\u201d, diz ao ressaltar o aumento da viol\u00eancia sexual e de outros crimes como roubo ou latroc\u00ednio nas microvielas que separam um barraco do outro. \u201cTalvez seja o destino ficar aqui at\u00e9 morrer\u201d.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem100\" src=\"http:\/\/www.cartacapital.com.br\/internacional\/reconstrucao-inexistente-deixa-haiti-em-limbo-5533.html\/vendinha.jpg-8598.html\" border=\"0\" \/><\/p>\n<p>Portador de uma defici\u00eancia que o faz cadeirante, Charles Robiou <em>(foto acima)<\/em>, 34 anos, vive h\u00e1 quatro anos com a m\u00e3e, duas irm\u00e3s e duas sobrinhas no mesmo local em que vendem frango, manteiga, doces e ervas \u2013 tudo sem refrigera\u00e7\u00e3o, descoberto e com moscas. Para piorar, o calor cruel sob o telhado de zinco faz os 40 graus do lado de fora parecerem 50. \u201cMontamos a vendinha com o dinheiro que recebemos de uma ONG para ajudar na retirada dos escombros. Mas aqui n\u00e3o temos dignidade, n\u00e3o h\u00e1 banheiro, n\u00e3o h\u00e1 \u00e1gua. E quando chove, uma \u00e1gua suja sobe e inunda a nossa casa\u201d.<\/p>\n<p>As casas, com ch\u00e3o de terra, roupas penduradas em varais sobre as camas e portas de chapa de metal se mesclam \u00e0 paisagem composta por crian\u00e7as sem roupa, idosos famintos e a pouca comida preparada em estruturas escassas, onde o poder p\u00fablico n\u00e3o circula e as tropas da miss\u00e3o da ONU n\u00e3o patrulham.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o h\u00e1 um dia que seja f\u00e1cil. E, para agravar as coisas, convivemos diariamente com a viol\u00eancia, no acerto de contas entre rivais e nos estupros\u201d, conta Thermidores Term\u00e9us, 22 anos, que vive com a mulher Immanuelle, 19 anos, e a beb\u00ea Estessy, de 2 anos <em>(foto abaixo)<\/em>.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem100\" src=\"http:\/\/www.cartacapital.com.br\/internacional\/reconstrucao-inexistente-deixa-haiti-em-limbo-5533.html\/pais-e-filha.jpg-8361.html\" border=\"0\" \/><\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m nos acampamentos que a rivalidade entre gangues volta a compor a rotina dos haitianos. Sem ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica, ningu\u00e9m se arrisca a caminhar pelas vielas entre barracos quando anoitece. Assim, homic\u00eddios ganham novos terrenos longe dos olhos das for\u00e7as de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>O governo haitiano tamb\u00e9m se ressente da reconstru\u00e7\u00e3o inexistente do pa\u00eds. Dos cerca de 10 bilh\u00f5es de d\u00f3lares prometidos para o Haiti em janeiro de 2010, menos de 5% passaram pelas m\u00e3os das institui\u00e7\u00f5es estatais ou das organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil haitiana. Estima-se que metade do dinheiro tenha ficado com organismos internacionais e tenham sido gastos com ajuda humanit\u00e1ria, postos de trabalho de curto prazo, abrigos e remo\u00e7\u00e3o de escombros. Um assessor pr\u00f3ximo ao presidente Michel Martelly e ao primeiro-ministro Laurent Lamothe lembra que \u00e0 \u00e9poca todos queriam posar como doadores, mas apenas metade do prometido acabou sendo entregue. Apesar de aplaudir os dez anos da Minustah no pa\u00eds e rezar para que esses se transformem em 20, ele tece cr\u00edticas ao pr\u00f3prio Brasil, que n\u00e3o teria conseguido dar um salto para al\u00e9m da seguran\u00e7a p\u00fablica. \u201cN\u00e3o fico triste de o Brasil investir em Cuba e em outros pa\u00edses. S\u00f3 fico triste de n\u00e3o ter investido aqui\u201d, diz.<\/p>\n<p>O organismo da ONU que deveria coordenar a reconstru\u00e7\u00e3o a longo prazo foi encerrado em 2012. Hoje, a maior seguran\u00e7a financeira do pa\u00eds vem do Petrocaribe, acordo com a Venezuela que garante ao Haiti 400 milh\u00f5es de d\u00f3lares ao ano. Mas mesmo esse esquema \u00e9 incerto para as pr\u00f3ximas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Depois do terremoto que destruiu o pouco das estruturas que restavam do pa\u00eds, o Haiti viu sua realidade piorar ainda mais. No fim de 2010, foi palco de um surto de c\u00f3lera que matou 8.300 pessoas e contaminou mais de 650 mil. Em agosto de 2012, a tempestade tropical Isaac causou perdas agr\u00edcolas na ordem de 254 milh\u00f5es de d\u00f3lares e deixou 1,6 milh\u00e3o de haitianos em situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cO Haiti sempre foi um pa\u00eds muito pobre, cheio de surpresas. Aqui, como eles mesmos dizem, \u00e9 o \u2018Vivrel\u2019inesper\u00e9\u2019 (Viver o inesperado)\u201d, lembra o c\u00f4nsul brasileiro Vitor Hugo Irigaray. Segundo o diplomata, que trabalhou no Haiti pela primeira vez h\u00e1 25 anos, a falta de infraestrutura \u00e9 a maldi\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, que sofrer\u00e1 com a sa\u00edda das tropas estrangeiras. \u201cO dia em que tirarem a miss\u00e3o, isso vai virar um caos. Eles n\u00e3o est\u00e3o preparados, n\u00e3o existe uma for\u00e7a que possa garantir a seguran\u00e7a. E se n\u00e3o h\u00e1 seguran\u00e7a como vamos ter paz?\u201d, questiona.<\/p>\n<p>http:\/\/www.patrialatina.com.br\/editorias.php?idprog=2d280461b029134123f1f1a356e176b1&#038;cod=14165<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6594\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-6594","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1Im","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6594","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6594"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6594\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6594"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6594"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6594"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}