{"id":6597,"date":"2014-08-15T00:31:20","date_gmt":"2014-08-15T00:31:20","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6597"},"modified":"2014-08-15T00:31:20","modified_gmt":"2014-08-15T00:31:20","slug":"upp-e-as-duas-faces-da-mesma-moeda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6597","title":{"rendered":"UPP E AS DUAS FACES DA MESMA MOEDA"},"content":{"rendered":"\n<p>Em 2007, o Secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a do estado do Rio de Janeiro fez a seguinte afirma\u00e7\u00e3o: \u201c<em>Um tiro em Copacabana \u00e9 uma coisa, na Favela da Cor\u00e9ia \u00e9 outra<\/em>\u201d. Tr\u00eas anos depois, j\u00e1 em funcionamento diversas Unidades de Pol\u00edcia Pacificadora (UPP), alegou que o que se pretendia com a UPP era: &#8220;&#8230;<em> criar uma ambi\u00eancia para as pessoas que vivem ali e, a partir dela, criar outra pol\u00edcia<\/em>&#8220;. Contudo, em 2013, o Secret\u00e1rio dizia que: \u201c<em>Para fazer a interven\u00e7\u00e3o (nas favelas) de verdade, vamos entrar na discuss\u00e3o das remo\u00e7\u00f5es. Hoje remo\u00e7\u00e3o \u00e9 tabu, \u00e9 palavra proibida, porque colocaram ideologia no debate<\/em>\u201d. Poder\u00edamos buscar outras declara\u00e7\u00f5es que revelam o perfil pol\u00edtico-ideol\u00f3gico que orienta a seguran\u00e7a p\u00fablica do estado, mas creio j\u00e1 ser o suficiente.<\/p>\n<p>Cabe antes esclarecer, no entanto, que a ideologia a que se refere o Secret\u00e1rio \u00e9 a luta por outro consenso que rompa a l\u00f3gica da remo\u00e7\u00e3o e afirme o direito \u00e0 moradia das classes populares. Ou seja, uma luta contra a subordina\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica p\u00fablica aos interesses do capital especulativo imobili\u00e1rio. Por\u00e9m, quando \u00e9 detectado risco aos interesses dos donos do poder, a repress\u00e3o \u00e0queles que os incomodam \u00e9 a resposta. Por isso, o aparelho policial se afirma como fundamental e a Pol\u00edcia Militar do Rio de Janeiro (PMRJ) se encontra no centro desse debate. Portanto, compreender o perfil ideol\u00f3gico dessa institui\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a m\u00e3o mais vis\u00edvel do poder p\u00fablico para a maioria dos trabalhadores, \u00e9 essencial.<\/p>\n<p>Desde sua origem, em 1809, a PMRJ teve como objetivo garantir a seguran\u00e7a da classe dominante residente na cidade do Rio em rela\u00e7\u00e3o aos indiv\u00edduos que mais lhes aterrorizavam: as pessoas escravizadas. Estas deveriam ser mantidas em guetos e apavoradas pelo poder como estrat\u00e9gia de domina\u00e7\u00e3o. Percebe-se, ent\u00e3o, que essa institui\u00e7\u00e3o traz consigo um v\u00edcio de origem: a seletividade de classe em suas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas v\u00edcios de origem podem ser superados. Entretanto, eles n\u00e3o se superam por si s\u00f3 e nem por decretos, mas por projetos de sociedade. Como os projetos de Brasil sempre foram carregados de preconceitos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s classes populares e trabalhadoras, o aparelho policial constantemente foi acionado para garantir a \u201cordem natural\u201d do processo a partir da submiss\u00e3o dessas.<\/p>\n<p>Para legitimar essas a\u00e7\u00f5es, como de h\u00e1bito, n\u00e3o faltaram argumentos \u201ccient\u00edficos\u201d. Ou seja, \u201cestudos\u201d, sustentados por duvidosa cientificidade, que chegavam a classificar que pobres, negros ou qualquer outro indesejado pol\u00edtico tinham em sua origem gen\u00e9tica tend\u00eancia criminosa. A solu\u00e7\u00e3o, portanto, era simples: o encarceramento. Essa \u201ccientificidade\u201d, por sua vez, alimentou o senso comum que em uma radicalidade paradoxal entende, tamb\u00e9m, a elimina\u00e7\u00e3o dessas \u201cclasses perigosas\u201d como caminho razo\u00e1vel e aceit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Como consequ\u00eancia, o lado perverso que tem batido \u00e0s nossas portas \u00e9 que de 2011 a 2012, no estado do Rio, registrou-se um aumento de 7,1% no \u00edndice de mortes sem solu\u00e7\u00e3o, passando de 2.456 para 3.619. Uma realidade acompanhada de perto pelo restante do pa\u00eds, o que \u00e9 agravado pela exist\u00eancia dos chamados autos de resist\u00eancia ao se constatar que, de 2000 a 2012, cinco pessoas morreram por dia em confrontos com a pol\u00edcia.<\/p>\n<p>Em 25\/07\/2014, o Jornal do Brasil publicou: \u201cPM do Rio e de SP mata mais que pa\u00edses com pena de morte\u201d. No estado do Rio de Janeiro foram, em 2011, 534 pessoas mortas pela Pol\u00edcia Militar, e, em S\u00e3o Paulo, segundo esse mesmo jornal, 437 assassinatos nas mesmas condi\u00e7\u00f5es. Considerando como verdadeiras essas informa\u00e7\u00f5es, tendo ocorrido no Rio 4.280 homic\u00eddios dolosos, em 2011, os autos de resist\u00eancia constituem uma taxa de uma morte para cada 9,17 assassinatos no estado.<\/p>\n<p>Mas quem s\u00e3o essas pessoas? A maioria \u00e9 jovem, pobre, de baixa escolaridade e morador de favela e\/ou da periferia. Essa condescend\u00eancia da sociedade para com o exterm\u00ednio levou \u00e0 eleva\u00e7\u00e3o de 70% nas mortes em confronto com a pol\u00edcia fluminense entre janeiro de 2013 e janeiro de 2014, segundo o Instituto de Seguran\u00e7a P\u00fablica (ISP).<\/p>\n<p>Mas e as UPPs? A partir delas n\u00e3o se ia \u201c<em>criar outra pol\u00edcia\u201d<\/em>?<\/p>\n<p>A implanta\u00e7\u00e3o destas resultou em uma queda de 75% no n\u00famero de homic\u00eddios, de acordo com os dados oficiais, o que poderia indicar um novo comportamento dessa pol\u00edcia. Por\u00e9m, logo vemos o outro lado da moeda: no mesmo per\u00edodo aumentou em 92% o n\u00famero de desaparecimentos nessas \u00e1reas.<\/p>\n<p>Isso nos leva \u00e0 seguinte constata\u00e7\u00e3o: o v\u00edcio de origem permanece, mas mudou de t\u00e1tica. Sendo assim, fica evidente que a cria\u00e7\u00e3o das UPPs, mesmo que hipoteticamente fosse uma pol\u00edtica bem intencionada, n\u00e3o haveria a possibilidade de se constituir em algo muito diferente da l\u00f3gica de seguran\u00e7a perpetuada por mais de 200 anos, pois o exterm\u00ednio das \u201cclasses perigosas\u201d continua a ser o princ\u00edpio norteador da PMERJ. Nesse caso, podemos compreender que, UPP e PM, s\u00e3o duas faces da mesma moeda!<\/p>\n<p><strong>Fontes Consultadas:<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.arquivodenoticias.rj.gov.br\/detalheNoticiaMetropolitana.asp?ident=62250&amp;flag=Noticia\" target=\"_blank\">http:\/\/www.arquivodenoticias.rj.gov.br\/detalheNoticiaMetropolitana.asp?ident=62250&amp;flag=Noticia<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/oglobo.globo.com\/rio\/beltrame-sobre-5-anos-de-upp-daqui-20-anos-que-sera-da-favela-11056774\" target=\"_blank\">http:\/\/oglobo.globo.com\/rio\/beltrame-sobre-5-anos-de-upp-daqui-20-anos-que-sera-da-favela-11056774<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/extra.globo.com\/noticias\/rio\/beltrame-um-tiro-em-copacabana-uma-coisa-na-favela-da-coreia-outra-oab-critica-diferenciamento-720077.html\" target=\"_blank\">http:\/\/extra.globo.com\/noticias\/rio\/beltrame-um-tiro-em-copacabana-uma-coisa-na-favela-da-coreia-outra-oab-critica-diferenciamento-720077.html<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/cotidian\/ff0612201022.htm\" target=\"_blank\">http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/cotidian\/ff0612201022.htm<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.diariodepernambuco.com.br\/app\/noticia\/brasil\/2014\/08\/06\/interna_brasil,520981\/rio-sobe-o-numero-de-mortos-em-confronto-com-a-policia.shtml\" target=\"_blank\">http:\/\/www.diariodepernambuco.com.br\/app\/noticia\/brasil\/2014\/08\/06\/interna_brasil,520981\/rio-sobe-o-numero-de-mortos-em-confronto-com-a-policia.shtml<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.jb.com.br\/pais\/noticias\/2012\/03\/28\/pm-do-rio-e-de-sp-mata-mais-que-paises-com-pena-de-morte\/\" target=\"_blank\">http:\/\/www.jb.com.br\/pais\/noticias\/2012\/03\/28\/pm-do-rio-e-de-sp-mata-mais-que-paises-com-pena-de-morte\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nHiran Roedel)\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6597\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[88],"tags":[],"class_list":["post-6597","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c101-criminalizacao"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1Ip","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6597","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6597"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6597\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6597"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6597"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6597"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}