{"id":6605,"date":"2014-08-16T17:40:42","date_gmt":"2014-08-16T17:40:42","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6605"},"modified":"2014-08-16T17:40:42","modified_gmt":"2014-08-16T17:40:42","slug":"a-guerra-civil-dos-libertadores-da-libia-pelo-controle-do-petroleo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6605","title":{"rendered":"A guerra civil dos \u201clibertadores da L\u00edbia\u201d pelo controle do petr\u00f3leo"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Correio da Cidadania 12 \u2013 Agosto 2014<\/strong><\/p>\n<p>No in\u00edcio do ano, quando as \u201cexcel\u00eancias\u201d do Departamento de Estado tra\u00e7aram as linhas mestras da pol\u00edtica geoestrat\u00e9gica dos EUA, os diretores da grande m\u00eddia estadunidense receberam o conselho \u201cde serem muito cautelosos com o contexto pol\u00edtico da L\u00edbia, do momento que o pa\u00eds, ap\u00f3s tr\u00eas anos de transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, ainda vivia um concitado per\u00edodo de indefini\u00e7\u00e3o institucional\u201d. Paradoxalmente, tamb\u00e9m nos pa\u00edses europeus membros da OTAN, os diretores de jornais, revistas e TV receberam a recomenda\u00e7\u00e3o de \u201ctratar com cuidado o material informativo relacionado \u00e0 L\u00edbia\u201d. Enfim, um cuidado que, na realidade, equivale \u00e0 autocensura de seus cong\u00eaneres estadunidenses.<\/p>\n<p>De fato, j\u00e1 em outubro de 2013, era evidente que na L\u00edbia a \u201cguerrinha entre as mil\u00edcias\u201d, conhecida por \u201ctodos contra todos\u201d, havia determinado o refor\u00e7o das mil\u00edcias de Misrata e de Zeitan, prontas a se digladiar, e n\u00e3o para defender um insignificante Parlamento ou um fantasmag\u00f3rico governo. Mas, sim, para assegurar-se o controle dos campos de explora\u00e7\u00e3o petrol\u00edfera, dos dutos, dos portos com terminais para a exporta\u00e7\u00e3o do g\u00e1s e do petr\u00f3leo e, logicamente, dos aeroportos, de onde era poss\u00edvel viabilizar qualquer tipo de \u201ccom\u00e9rcio\u201d.<\/p>\n<p>No fim de 2013, j\u00e1 eram evidentes as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas objetivas associadas aos elementos de criminalidade organizada que estavam determinando a implos\u00e3o do novo Estado, cuja adjetiva\u00e7\u00e3o de \u201cDemocr\u00e1tico\u201d existiu somente nos anacr\u00f4nicos relat\u00f3rios de Hillary Clinton. Um contexto que era o pref\u00e1cio de uma sangrenta guerra civil que explodiu na Tripolit\u00e2nia e, sobretudo, na Cirenaica, onde se encontram os grandes reservat\u00f3rios de hidrocarbonetos, as \u00fanicas riquezas da L\u00edbia.<\/p>\n<p>Um contexto que foi literalmente censurado por todos os correspondentes, inclusive os mais experientes, da CNN, da BBC, da Al-Jazeera e RAI que, diante das c\u00e2meras, referiam que na capital Tr\u00edpoli e em Benghazi \u201cse registravam, apenas, leves tiroteios entre milicianos que n\u00e3o prejudicavam a autoridade do governo e a estabilidade pol\u00edtica no pa\u00eds\u201d!<\/p>\n<p>Mentiras de profissionais que deveriam dizer a verdade, do momento que em Tr\u00edpoli j\u00e1 se vivia uma situa\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica, enquanto no interior do pa\u00eds a dita \u201cguerrinha entre mil\u00edcias\u201d ocasionou massacres impressionantes nas pequenas cidades e nas aldeias, onde seus moradores foram fuzilados casa por casa, sem nenhuma piedade para as crian\u00e7as e as mulheres.<\/p>\n<p>Segundo um grupo de jornalistas e professores universit\u00e1rios que conseguiu fugir, chegando a Roma no m\u00eas de julho, a advogada e defensora dos direito humanos Salwa Bugaighis foi assassinada em Benghazi, em 25 de junho, porque estava finalizando um dossi\u00ea sobre os massacres realizados nos \u00faltimos tr\u00eas anos pelas mil\u00edcias. Para evitar a divulga\u00e7\u00e3o desse dossi\u00ea, os assassinos de Salwa sequestraram seu marido, pedindo em troca de sua vida todos os discos r\u00edgidos com os arquivos do dossi\u00ea, das grava\u00e7\u00f5es e das fotografias. Enfim, um trabalho feito por profissionais, no momento em que nesse \u201clivro branco\u201d estavam catalogadas, fotografadas e em muitos casos at\u00e9 filmadas as pris\u00f5es, as torturas e os consequentes fuzilamentos e enforcamentos (sem processo) dos ex-funcion\u00e1rios do governo de Kadafi, bem como a matan\u00e7a dos imigrantes africanos, acusados, injustamente, de serem soldados de Kadafi.<\/p>\n<p>Na realidade, a \u00fanica culpa desses 200.000 imigrantes presos e assassinados durante os primeiros dois anos da dita revolu\u00e7\u00e3o foi a de serem negros e a maioria cat\u00f3licos. Ali\u00e1s, a pr\u00e1tica indiscriminada da limpeza \u00e9tnica por parte das mil\u00edcias isl\u00e2micas, jihadistas e salafitas orientou as tribos berberes a assumirem uma posi\u00e7\u00e3o defensiva unilateral, transformando a mil\u00edcia Zeitan em um poderoso ex\u00e9rcito tribal que logo ocupou o aeroporto de Tr\u00edpoli e outros centros nevr\u00e1lgicos da Tripolit\u00e2nia.<\/p>\n<p><strong>A destrui\u00e7\u00e3o do pa\u00eds<\/strong><\/p>\n<p>A partir de 26 de julho, a \u201ccautela\u201d dos diretores de jornais e o \u201ccuidado\u201d dos diplomatas ficaram despeda\u00e7ados ap\u00f3s o comunicado do Departamento de Estado dos EUA que anunciava o fechamento da embaixada em Tr\u00edpoli e a transfer\u00eancia de todos os funcion\u00e1rios at\u00e9 a fronteira com a Tun\u00edsia, sob forte escolta armada (inclusive F-16 e helic\u00f3pteros). Por sua parte, a embaixadora Deborah Jones ordenou a todos os cidad\u00e3os estadunidenses empregados na L\u00edbia a abandonarem o pa\u00eds imediatamente. De repente, o mundo descobriu que todas as na\u00e7\u00f5es que haviam contribu\u00eddo a libertar a L\u00edbia do \u201cverdugo\u201d Kadafi haviam j\u00e1 fechado suas embaixadas, seus consulados, os escrit\u00f3rios das transnacionais e das companhias a\u00e9reas. As \u00fanicas embaixadas que ainda permanecem precariamente abertas s\u00e3o as do Vaticano e da It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Assim, enquanto as limusines dos diplomatas e dos empres\u00e1rios dos pa\u00edses ricos chegaram em seguran\u00e7a em T\u00fanis, os milhares de trabalhadores filipinos, gregos, chineses, tailandeses, romenos, portugueses, vietnamitas, espanh\u00f3is e italianos, isto \u00e9, o contingente de m\u00e3o de obra especializada barata, contratada ap\u00f3s a dita \u201cliberta\u00e7\u00e3o\u201d, se amassava no porto de Tr\u00edpoli para serem evacuados por via mar\u00edtima at\u00e9 Malta. Enquanto isso, suas moradias, carros e empresas eram assaltados por gatunos ou pretensos milicianos.<\/p>\n<p>Com a sa\u00edda imediata da maior parte dos trabalhadores estrangeiros da capital e de muitas outras cidades da Tripolit\u00e2nia e, sobretudo, da Cirenaica, as atividades de muitos servi\u00e7os p\u00fablicos ficaram praticamente paralisadas. De fato, ap\u00f3s o assassinato de um trabalhador filipino e o \u201cmortal interrogat\u00f3rio\u201d de mais dois trabalhadores filipinos por parte de milicianos, o governo de Manila suspendeu o contrato de coopera\u00e7\u00e3o que havia assinado com o ent\u00e3o primeiro-ministro da L\u00edbia, Ali Zeidan, ordenando aos 13.000 trabalhadores filipinos empregados nos servi\u00e7os p\u00fablicos e nas empresas privadas a sa\u00edrem rapidamente da L\u00edbia, pegando os navios que haviam come\u00e7ado a transportar os estrangeiros at\u00e9 Malta.<\/p>\n<p>A guerra civil, oficialmente, estourou no m\u00eas de julho, quando a mil\u00edcia de Misurata entrou em Tr\u00edpoli para desalojar os combatentes da mil\u00edcia de Zeitan, entrincheirados no aeroporto internacional. Assim, tudo o que n\u00e3o havia sido danificado na capital nos \u00faltimos tr\u00eas anos foi destru\u00eddo ou sabotado em poucos dias. De fato, os milicianos de Misurata tiveram a \u201cbrilhante id\u00e9ia\u201d de alvejar todos os tanques de gasolina e de diesel, provocando um inc\u00eandio gigantesco, onde seis milh\u00f5es de litros de combust\u00edveis queimaram durante uma semana, visto que em Tr\u00edpoli e em toda a L\u00edbia n\u00e3o havia mais servi\u00e7os de bombeiros! Apesar de o gigantesco inc\u00eandio ter atingido os bairros da periferia de Tr\u00edpoli, provocando a fuga de quase 80.000 moradores, nenhum pa\u00eds europeu respondeu aos apelos do governo l\u00edbio, que havia pedido o envio urgente de equipes de bombeiros para apagar o gigantesco inc\u00eandio.<\/p>\n<p>Consequentemente, em Tr\u00edpoli, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 mais gasolina e diesel nas bombas da cidade!<\/p>\n<p>Mas foi em 30 de julho que a L\u00edbia ficou definitivamente isolada do resto do mundo, quando a British Airways decidiu suspender seus voos ao pa\u00eds, visto que os aeroportos internacionais de Tr\u00edpoli e de Benghazi estavam fechados. De fato, nos \u00faltimos dois meses os combates para o controle desses aeroportos acabaram com as pistas de aterrissagem, que foram destru\u00eddas juntamente a toda a infraestrutura aeroportu\u00e1ria. Tamb\u00e9m a frota das sete companhias a\u00e9reas l\u00edbias ficou dizimada: 20 avi\u00f5es de m\u00e9dio e pequeno alcance foram sequestrados pelas mil\u00edcias de Misrata. Outros dez, inclusive dois novos Air Bus, foram alvejados com obuses e foguetes, queimando no limiar das pistas. Os demais jatos permanecem abandonados, sujeitos a qualquer ato.<\/p>\n<p>As \u00fanicas esta\u00e7\u00f5es aeroportu\u00e1rias que ainda n\u00e3o foram destru\u00eddas s\u00e3o os aeroportos de Misrata e o de Labraq. O primeiro, apesar de possuir duas pistas de aterrissagem para Boeing e Air Bus, foi interditado em maio, quando os milicianos ocuparam a torre de controle. Por isso, tamb\u00e9m a Air Jord\u00e2nia \u2013 a \u00fanica companhia que operava no aeroporto de Misrata \u2013 fechou seus escrit\u00f3rios em junho. Em Labraq, perto de Beida, no nordeste da Cirenaica, h\u00e1 um pequeno aeroporto que em condi\u00e7\u00f5es normais era utilizado pelos jatinhos das companhias petrol\u00edferas.<\/p>\n<p>Mais anacr\u00f4nica \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o do Parlamento e do governo, cujos gabinetes e minist\u00e9rios, nos \u00faltimos seis meses, foram atacados por diferentes grupos armados. Por isso, a partir de 14 de julho o Parlamento e o governo se abrigaram em um hotel de Tobruk, a poucos quil\u00f4metros da fronteira com o Egito. De fato, ap\u00f3s ter fugido da capital Tr\u00edpoli, o Parlamento tentou se instalar em Benghazi. Uma op\u00e7\u00e3o que acirrou ainda mais a rejei\u00e7\u00e3o por parte dos partid\u00e1rios da Irmandade Mu\u00e7ulmana e dos movimentos separatistas da Cirenaica.<\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o demonstra que o Parlamento e o governo s\u00e3o ainda considerados elementos de fic\u00e7\u00e3o, porque em tr\u00eas anos de atividade n\u00e3o conseguiram evitar que a l\u00f3gica interesseira e mercantil dos cl\u00e3s tribais condicionasse as atividades legislativas e executivas. Por exemplo, o Parlamento n\u00e3o quis formular uma solu\u00e7\u00e3o federativa apta a evitar a explos\u00e3o do separatismo regional na Cirenaica e em Fezzan. Enquanto isso, o governo foi incapaz de materializar a ideia de na\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, come\u00e7ando a programar um plano de reformas socioecon\u00f4micas, al\u00e9m de fixar as coordenadas para a reconstru\u00e7\u00e3o de um novo ex\u00e9rcito e de uma nova administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Na pr\u00e1tica, a pol\u00edtica dos deputados no Parlamento e dos ministros se limitava a definir os contratos (e as propinas) com as transnacionais do petr\u00f3leo e as empresas estrangeiras prestadoras de servi\u00e7os.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio dizer que o povo l\u00edbio, com a destrui\u00e7\u00e3o da Jamahiriya (Estado das Massas, na tradu\u00e7\u00e3o mais comum, o modelo institucional criado por Kadafi), acreditou nas promessas de reconstru\u00e7\u00e3o e de bem-estar para todos, feitas pelos l\u00edderes do Conselho Nacional de Transi\u00e7\u00e3o, Mustaf\u00e1 Abushagur e Mahmoud Jibril. Por isso, hoje, Mahmoud Jibril \u00e9 publicamente detestado. De fato, nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es, realizadas em 15 de maio, dos 2,8 milh\u00f5es de eleitores com direito a voto e cadastrados em 2011, somente 1,5 milh\u00e3o foram votar. Desses, apenas 600.000 votaram na lista majorit\u00e1ria da \u201cAlian\u00e7a das For\u00e7as Nacionais\u201d, de Mahmoud Jibril.<\/p>\n<p>Esse buraco negro se tornou mais amplo com a elei\u00e7\u00e3o \u201cminorit\u00e1ria\u201d do empres\u00e1rio de Misrata, Ahmed Omar Miitig, ao cargo de primeiro-ministro, com apenas 113 votos (por lei deviam ser, no m\u00ednimo, 120). De fato, a elei\u00e7\u00e3o foi manipulada pelos deputados da Irmandade Mu\u00e7ulmana, que n\u00e3o conseguiram o qu\u00f3rum de 120 votos para barrar o segundo mandato do primeiro-ministro Abdullah al-Thani, ligado aos liberais e aos moderados n\u00e3o-isl\u00e2micos. Para evitar a derrota de Ahmed Omar Miitig, interviu um grupo de milicianos de Misrata, que \u201cconvenceram\u201d oito deputados a anularem seus votos e declararem sua prefer\u00eancia para Miitig, que, assim, alcan\u00e7ava os necess\u00e1rios 121 votos.<\/p>\n<p>Diante dessa farsa, o vice-presidente do Parlamento, Ezzedin al-Awami, que havia presidido as sess\u00f5es de voto, rejeitou a elei\u00e7\u00e3o de Miitig. Por\u00e9m, no dia seguinte os partid\u00e1rios do empres\u00e1rio apresentaram uma declara\u00e7\u00e3o do presidente do Parlamento, Nuri Abu Sahmein, que do exterior ratificava a nomea\u00e7\u00e3o de Ahmed Omar Miitig como novo primeiro-ministro.<\/p>\n<p>Para entender os motivos que provocaram a rea\u00e7\u00e3o do vice-presidente do Parlamento, Ezzedin al-Awami, \u00e9 preciso lembrar que os oitos deputados mudaram seu voto logo ap\u00f3s o sequestro de seus familiares por parte de grupos armados da mil\u00edcia de Misrata. Por outro lado, o presidente do Parlamento, Nuri Abu Sahmein, n\u00e3o estava na Su\u00ed\u00e7a por motivos de sa\u00fade, mas, sim, para evitar ser interrogado pelos ju\u00edzes do Tribunal de Tr\u00edpoli, acerca do seu envolvimento em uma incr\u00edvel \u201cpatota fiscal\u201d. Fontes fidedignas revelam que Nuri Abu Sahmein negociou seu apoio irrestrito a Ahmed Omar Miitig, se o mesmo, uma vez eleito primeiro-ministro, enterrasse as acusa\u00e7\u00f5es do Tribunal de Tr\u00edpoli.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que essa trapa\u00e7a contribuiu, ainda mais, para acirrar a desqualifica\u00e7\u00e3o do Parlamento e o \u00f3dio da mil\u00edcia de Zeitan contra os homens da mil\u00edcia de Misrata, ligada \u00e0 Irmandade Mu\u00e7ulmana. Por isso, a capital Tr\u00edpoli e depois Benghazi viraram um aut\u00eantico campo de batalha, inclusive com o reaparecimento do ex-general Khalifa Haftar (o principal homem da CIA na L\u00edbia), que, ap\u00f3s ter falhado seu segundo golpe de Estado no m\u00eas de maio, tentava ocupar Benghazi, chamando a seu lado o que sobrava do novo ex\u00e9rcito l\u00edbio, com o objetivo de \u201clivrar a L\u00edbia dos terroristas isl\u00e2micos\u201d.<\/p>\n<p>Consequentemente, todas as mil\u00edcias separatistas, jihadistas e salafitas da Cirenaica se juntaram e formaram o \u201cConselho da Shura, dos Revolucion\u00e1rios de Benghazi\u201d, cujo comando ficou nas m\u00e3os dos l\u00edderes do grupo fundamentalista <a href=\"http:\/\/temi.repubblica.it\/limes\/la-vera-battaglia-in-libia-non-e-tra-laici-e-musulmani\/62773\">Ansar al-Sharia<\/a>, historicamente ligado \u00e0 Al-Qaeda.<\/p>\n<p>As responsabilidades pol\u00edticas, econ\u00f4micas, sociais e, sobretudo, morais do caos e agora da guerra civil na L\u00edbia recaem, exclusivamente, nas chancelarias dos pa\u00edses da OTAN, que planejaram a destrui\u00e7\u00e3o da Jamahiriya l\u00edbia sem idealizar o tipo de Estado e de na\u00e7\u00e3o que deveriam substituir os de Kadafi. Na pr\u00e1tica, foi arregimentada a variada estrutura tribal para realizar uma revolu\u00e7\u00e3o, sem ter em conta o peso pol\u00edtico dos cl\u00e3s tribais, a quem foi prometido que a divis\u00e3o dos lucros da venda dos hidrocarbonetos seria realizada segundo a l\u00f3gica dos cl\u00e3s tribais, oportunista e tamb\u00e9m autorit\u00e1ria, totalmente diferente do conceito de Estado e de na\u00e7\u00e3o livres e democr\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Em suma, os \u201clibertadores da OTAN\u201d entregaram ao CNT de Mustaf\u00e1 Abushagur e Mahmoud Jibril um projeto pol\u00edtico, onde a formula\u00e7\u00e3o do novo Estado era condicionada pela implementa\u00e7\u00e3o imediata de duas vertentes pol\u00edticas: 1) a vingativa desestrutura\u00e7\u00e3o da Jamahiriya; 2) a imediata liberaliza\u00e7\u00e3o do monop\u00f3lio do g\u00e1s e do petr\u00f3leo em favor das transnacionais dos pa\u00edses da OTAN.<\/p>\n<p>Somente no \u00faltimo cap\u00edtulo desse projeto \u2013 na \u00e9poca supervisionado pela ex-Secret\u00e1ria de Estado, Hillary Clinton, e monitorado in loco pelo falecido embaixador dos EUA, Chris Stevens \u2013, havia uma longa sequ\u00eancia de normas burocr\u00e1ticas para a legaliza\u00e7\u00e3o dos partidos, o funcionamento do Parlamento, as prioridades da nova Constitui\u00e7\u00e3o, a realiza\u00e7\u00e3o de novas elei\u00e7\u00f5es, a forma\u00e7\u00e3o do governo, o funcionamento dos minist\u00e9rios etc. etc.<\/p>\n<p><strong>Os atores da guerra civil<\/strong><\/p>\n<p>Os \u00faltimos correspondentes da Associated Press e da France Press que ficaram em Tr\u00edpoli veiculam que os combates entre os milicianos de Zeitan e os de Misrata se alastraram do aeroporto para os diferentes bairros da capital. Segundo diversas fontes, os combates na capital provocam, em m\u00e9dia, uns cem mortos por dia e um n\u00famero indefinido de feridos que ningu\u00e9m socorre, porque os hospitais est\u00e3o colapsados sem medicamentos, com pouqu\u00edssimos m\u00e9dicos, e sem pessoal auxiliar. Uma situa\u00e7\u00e3o que, segundo Abdul Rauf, chefe da Comiss\u00e3o Emergencial, \u201cse agravou bastante depois da sa\u00edda dos 3.000 enfermeiros filipinos. Sem eles e os demais trabalhadores estrangeiros, que fugiram por causa do conflito, todo o sistema de sa\u00fade ficou literalmente paralisado, visto que desloc\u00e1vamos esse pessoal para onde havia mais necessidades\u201d.<\/p>\n<p>No dia 7 de agosto, a France Presse recebeu a confirma\u00e7\u00e3o do escrit\u00f3rio do governador de Benghazi de que as mil\u00edcias jihadistas e as do grupo fundamentalista <a href=\"http:\/\/temi.repubblica.it\/limes\/la-vera-battaglia-in-libia-non-e-tra-laici-e-musulmani\/62773\">Ansar al-Sharia<\/a> haviam ocupado todos os quart\u00e9is do ex\u00e9rcito l\u00edbio em Benghazi, expulsando as brigadas do \u201cEx\u00e9rcito L\u00edbio Nacional\u201d, que \u00e9 o ex\u00e9rcito pessoal do ex-general Khalifa Haftar. Ap\u00f3s sangrentos combates, os homens do ex-general se retiraram de Benghazi e se entrincheiraram ao longo do eixo rodovi\u00e1rio al-Uruba Road in al-Kwayfiya.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1, tamb\u00e9m, informa\u00e7\u00f5es detalhadas sobre os combates que est\u00e3o ocorrendo no interior da L\u00edbia, por\u00e9m, se sabe que as tribos de Fezzan fizeram uma alian\u00e7a com os grupos fundamentalistas e jihadistas do Mali, que agora se movimentam tranquilamente em todas as regi\u00f5es des\u00e9rticas do sul da L\u00edbia.<\/p>\n<p>O complexo cen\u00e1rio de guerra civil come\u00e7a a ficar mais claro com a apresenta\u00e7\u00e3o de quatro ex\u00e9rcitos que lutam entre eles para definir o controle das duas capitais: Tr\u00edpoli, capital dos n\u00e3o-isl\u00e2micos, e Benghazi, capital da Irmandade Mu\u00e7ulmana. Nesse \u00e2mbito, os agrupamentos militares podem ser apresentados da seguinte maneira:<\/p>\n<p><strong>1) Mil\u00edcia de Zeitan:<\/strong> re\u00fane todos os grupos armados das tribos berberes, bem como os novos grupos n\u00e3o-isl\u00e2micos que abandonaram a op\u00e7\u00e3o parlamentar do l\u00edder da \u201cAlian\u00e7a das For\u00e7as Nacionais\u201d, Mahmoud Jibril. Segundo algumas indiscri\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m os militantes kadafianos que sobreviveram aos massacres de 2011 e 2012 agora estariam pegando as armas e operando juntamente aos milicianos de Zeitan. A a\u00e9rea de atua\u00e7\u00e3o \u00e9 antes de tudo a capital Tr\u00edpoli e as principais regi\u00f5es da Tripolit\u00e2nia, at\u00e9 as montanhas onde residem invictas as tribos berberes.<\/p>\n<p><strong>2) Ex\u00e9rcito L\u00edbio Nacional:<\/strong> desde 1991, a CIA o manteve o ex-general Khalifa Haftar congelado em uma resid\u00eancia perto de Langley. Com a queda de Kadafi, o ex-general exigiu do Conselho Nacional de Transi\u00e7\u00e3o o posto de chefia do novo ex\u00e9rcito. Por\u00e9m, alguns meses depois, foi removido pelo pr\u00f3prio Mahmoud Jibril. Com a ajuda dos fundos secretos da CIA e da intelig\u00eancia da Ar\u00e1bia Saudita, formou um pequeno ex\u00e9rcito chamado \u201cEx\u00e9rcito L\u00edbio Nacional\u201d, que apareceu no cen\u00e1rio primeiro em fevereiro, por ocasi\u00e3o de uma desastrada tentativa de golpe de Estado, e depois em maio, quando Khalifa Haftar lan\u00e7ou seus combatentes contra os grupos jihadistas e fundamentalistas da <a href=\"http:\/\/temi.repubblica.it\/limes\/la-vera-battaglia-in-libia-non-e-tra-laici-e-musulmani\/62773\">Ansar al-Sharia<\/a>.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso lembrar que, em 2012, Khalifa Haftar criou um partido que deveria ser o bra\u00e7o pol\u00edtico do extremismo armado isl\u00e2mico, mas foi um fracasso. Assim, ap\u00f3s o golpe de<\/p>\n<p>Estado no Egito do general Al-Sissi, e a consequente repress\u00e3o aos integrantes da Irmandade Mu\u00e7ulmana, o ex-general Khalifa Haftar lan\u00e7ou os homens do seu Ex\u00e9rcito L\u00edbio Nacional contra os grupos jihadistas e, principalmente, contra as novas brigadas isl\u00e2micas ligadas \u00e0 Irmandade Mu\u00e7ulmana. Isso fez aumentar a simpatia dos agentes da intelig\u00eancia da Ar\u00e1bia Saudita e do pr\u00f3prio general-presidente eg\u00edpcio para com o ex-general Khalifa Haftar, que recebeu uma significativa ajuda financeira e uns cinquenta \u201cespecialistas em telecomunica\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p><strong>3) Mil\u00edcia de Misrata:<\/strong> \u00c9 a mais organizada, inclusive porque, em 2012, Ali Zeidan, logo ap\u00f3s ser empossado primeiro-ministro, entregou a essa mil\u00edcia um cheque de um milh\u00e3o de d\u00f3lares para garantir a estabilidade em Tr\u00edpoli e submeter todas as outras mil\u00edcias. Na realidade, no seio dessa mil\u00edcia prevaleceu a simpatia para o projeto pol\u00edtico da Irmandade Mu\u00e7ulmana, aliada \u00e0 solu\u00e7\u00e3o separatista, do momento que no porto de Misrata se encontram os principais terminais para o embarque do g\u00e1s e do petr\u00f3leo. Se, depois de considerarmos que o Catar foi o \u00fanico pa\u00eds \u00e1rabe disposto a reconhecer a cria\u00e7\u00e3o de um emirado em Misrata, e tamb\u00e9m a abrir os bancos de Doha para efetivar a intermedia\u00e7\u00e3o da venda do petr\u00f3leo e do g\u00e1s, \u00e9 evidente que a Mil\u00edcia de Misrata se tornou o bra\u00e7o armado da Irmandade Mu\u00e7ulmana na L\u00edbia. Sua atua\u00e7\u00e3o \u00e9, antes de tudo, centrada na prote\u00e7\u00e3o dos campos de explora\u00e7\u00e3o de g\u00e1s e petr\u00f3leo, dos dutos e dos tanques das refinarias da regi\u00e3o, al\u00e9m de tentar empurrar as outras mil\u00edcias, em particular a de Zeitan, para fora do per\u00edmetro urbano da capital Tr\u00edpoli.<\/p>\n<p><strong>4) Conselho da Shura dos Revolucion\u00e1rios de Benghazi<\/strong>: A apari\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito pessoal do ex-general Khalifa Haftar e a pretensa \u201ccampanha contra os terroristas isl\u00e2micos\u201d favoreceram a unifica\u00e7\u00e3o operacional de todos os grupos armados jihadistas, salafitas e fundamentalistas de Benghazi, sob a lideran\u00e7a dos comandantes de <a href=\"http:\/\/temi.repubblica.it\/limes\/la-vera-battaglia-in-libia-non-e-tra-laici-e-musulmani\/62773\">Ansar al-Sharia<\/a>, historicamente ligados \u00e0 Al-Qaeda. De fato, as brigadas desse novo ex\u00e9rcito conseguiram derrotar os homens do ex-general Khalifa Haftar e se apoderaram de todos os quart\u00e9is do ex\u00e9rcito regular, que n\u00e3o tomaram posi\u00e7\u00e3o e entregaram as armas, as casernas e os blindados ao vencedor. A primeira consequ\u00eancia do sucesso desse Conselho da Shura foi a proclama\u00e7\u00e3o de um Emirado Isl\u00e2mico.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que, agora, os Estados Unidos e todos os primeiros-ministros dos pa\u00edses da OTAN que subscreveram o ataque contra a L\u00edbia de Kadafi sabem que uma interven\u00e7\u00e3o teria alt\u00edssimos custos financeiros, al\u00e9m de muitas baixas. Um contexto dif\u00edcil a ser explicado aos pr\u00f3prios eleitores, sobretudo depois dos dram\u00e1ticos conflitos que estouraram na S\u00edria, no Afeganist\u00e3o, no Iraque e, por \u00faltimo, na Faixa de Gaza. Pois Barack Obama, David Cameron, Fran\u00e7ois Hollande e Angela Merkel sabem que n\u00e3o conseguiriam convencer seus eleitores de que foi justo destruir um estado centralizado, como o da Jamahiriya L\u00edbia, para substitu\u00ed-lo por um projeto de falsa democracia liberal, que desde o in\u00edcio criou as perspectivas da guerra civil.<\/p>\n<p>De fato, a grande problem\u00e1tica dos EUA \u00e9 que, hoje, ningu\u00e9m sabe quando e como poder\u00e1 acabar a guerra civil na L\u00edbia, cujo destino \u00e9 ser uma segunda Som\u00e1lia, ou pior, um segundo Sud\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Achille Lollo \u00e9 jornalista italiano, correspondente do Brasil de Fato na It\u00e1lia, editor do programa TV \u201cQuadrante Informativo\u201d e colunista do &#8220;Correio da Cidadania&#8221;.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nEscrito por Achille Lollo, de Roma para o Correio da Cidadania \u2014 Ter\u00e7a, 12 de Agosto de 2014\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6605\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-6605","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1Ix","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6605","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6605"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6605\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6605"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6605"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6605"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}