{"id":6652,"date":"2014-09-03T19:35:30","date_gmt":"2014-09-03T19:35:30","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6652"},"modified":"2014-09-03T19:35:30","modified_gmt":"2014-09-03T19:35:30","slug":"divida-neoliberalismo-e-classes-sociais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6652","title":{"rendered":"D\u00edvida, neoliberalismo e classes sociais"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Uma das for\u00e7as do argumento para o reembolso da d\u00edvida p\u00fablica \u00e9 a aparente neutralidade da medida. Reembolsar a d\u00edvida \u00e9 apenas uma quest\u00e3o contabil\u00edstica isenta de qualquer motiva\u00e7\u00e3o oculta. &#8220;Precisamos de reembolsar a d\u00edvida porque um Estado n\u00e3o pode viver acima dos seus meios&#8221;. Indiscut\u00edvel enquanto posi\u00e7\u00e3o. No entanto, escavando um pouco, torna-se claro que a an\u00e1lise contabil\u00edstica permite ocultar uma vis\u00e3o em termos de classe, ou seja, no cerne da gest\u00e3o da d\u00edvida tal como ela tem sido feita desde h\u00e1 d\u00e9cadas. Se a utiliza\u00e7\u00e3o da d\u00edvida como forma de dom\u00ednio n\u00e3o \u00e9 nova <strong>[1]<\/strong> , os anos 70 e o abrandamento da economia nos pa\u00edses do primeiro mundo v\u00e3o ver o argumento do reembolso da d\u00edvida ser utilizado pelas grandes pot\u00eancias, com um duplo objetivo rapidamente alcan\u00e7ado: o dom\u00ednio dos territ\u00f3rios rec\u00e9m-independentes (o terceiro mundo) e a restaura\u00e7\u00e3o do poder de classe nas economias ditas do primeiro mundo. Este elemento marca de certo modo o in\u00edcio duma \u00e9poca que se prolonga at\u00e9 hoje. <\/em><\/p>\n<p><strong>Nova Iorque, aqui estamos!<\/strong><\/p>\n<p>Embora se evoque frequentemente a crise da d\u00edvida dos pa\u00edses do Sul no in\u00edcio dos anos 80, \u00e9 em Nova Iorque que se vai desencadear um processo de desapossamento das classes populares atrav\u00e9s da d\u00edvida. Fui buscar a an\u00e1lise que se segue a David Harvey <strong>[2]<\/strong> . No seu livro <em>Br\u00e8ve histoire du n\u00e9olib\u00e9ralisme <\/em>, ele descreve um &#8220;putsch das institui\u00e7\u00f5es financeiras em preju\u00edzo do governo democraticamente eleito de Nova Iorque&#8221;. Nos anos 70, v\u00e1rios elementos estruturais (desindustrializa\u00e7\u00e3o, empobrecimento do centro da cidade na sequ\u00eancia do desenvolvimento dos sub\u00farbios) arrastaram a cidade para dificuldades financeiras. Resolvidas temporariamente pelo d\u00e9fice, essas dificuldades agravaram-se em 1975, na sequ\u00eancia da decis\u00e3o de um banco de investimentos de recusar cobrir a d\u00edvida da cidade, provocando com isso uma esp\u00e9cie de incumprimento do pagamento. Na sequ\u00eancia desse incumprimento, a gest\u00e3o do or\u00e7amento da cidade passou para o controlo de novas institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o eleitas, que visaram prioritariamente o reembolso dos credores. Iniciou-se assim um mote que se generalizou rapidamente aos quatro cantos do mundo: cortes or\u00e7amentais nos servi\u00e7os p\u00fablicos e sociais, congelamento dos sal\u00e1rios dos funcion\u00e1rios p\u00fablicos e enfraquecimento dos sindicatos, nomeadamente pela obriga\u00e7\u00e3o que lhes foi imposta de investir o seu fundo de pens\u00f5es em obriga\u00e7\u00f5es da cidade. David Harvey d\u00e1 grande import\u00e2ncia a este acontecimento &#8220;local&#8221; porque, segundo ele, &#8220;a gest\u00e3o da crise or\u00e7amental de Nova Iorque preparou a via para as pr\u00e1ticas neoliberais, tanto no plano nacional com Reagan, como a n\u00edvel internacional, com o FMI <strong>[3]<\/strong> na d\u00e9cada de 1980&#8243;. E acrescenta que isso estabeleceu as bases do seguinte princ\u00edpio: &#8220;no caso dum conflito que oponha a integridade das institui\u00e7\u00f5es financeiras e os benef\u00edcios dos acionistas ao bem-estar dos cidad\u00e3os, (os poderes p\u00fablicos) privilegiariam os primeiros&#8221;. Por consequ\u00eancia, &#8220;o governo tinha por fun\u00e7\u00e3o a cria\u00e7\u00e3o dum clima favor\u00e1vel aos neg\u00f3cios, em vez de resolver as necessidades e o bem-estar da popula\u00e7\u00e3o em geral&#8221;. <strong>[4]<\/strong><\/p>\n<p><strong>Etapa seguinte: o terceiro mundo <\/strong><\/p>\n<p>Depois de Nova Iorque, foi o M\u00e9xico quem teve o triste privil\u00e9gio de abrir o baile da austeridade.<\/p>\n<p>A explos\u00e3o das taxas de juro decidida unilateralmente pelos Estados Unidos, aplicada em conjunto com a queda dos pre\u00e7os dos produtos de exporta\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, vai levar o governo mexicano \u00e0 incapacidade de honrar as suas d\u00edvidas. A partir da\u00ed, o m\u00e9todo nova-iorquino vai ser aplicado pelo FMI e pelo Banco Mundial. <strong>[5]<\/strong> Para al\u00e9m dos cortes or\u00e7amentais, estes impuseram igualmente medidas estruturais tais como a redu\u00e7\u00e3o das barreiras aduaneiras, privatiza\u00e7\u00f5es maci\u00e7as e uma maior flexibilidade do mercado de trabalho. <strong>[6]<\/strong> As consequ\u00eancias ser\u00e3o duplas e anunciar\u00e3o a nova era neoliberal: precariza\u00e7\u00e3o maci\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o mexicana (provocando uma subida do emprego informal, da criminalidade, da inseguran\u00e7a alimentar\u2026) e o enriquecimento duma &#8220;elite&#8221; estrangeira (bancos de dep\u00f3sitos, empresas americanas) e nacional (apareceram 24 multimilion\u00e1rios na sequ\u00eancia das v\u00e1rias reformas impostas \u00e0 economia mexicana, entre eles Carlos Slim, que chegou a ser o homem mais rico do planeta). <strong>[7]<\/strong> As coisas desenrolaram-se praticamente do mesmo modo numa grande parte da Am\u00e9rica do Sul, da \u00c1frica e, em menor escala, da \u00c1sia. Para muitos autores, entre eles David Harvey, \u00e9 muito claro que a crise da d\u00edvida esteve na origem da viragem neoliberal na maior parte dos pa\u00edses do Sul. <strong>[8]<\/strong> O que \u00e9 preciso perceber, \u00e9 que o modo como as coisas se passaram n\u00e3o aconteceu por acaso, mas foi preparado com muita anteced\u00eancia, nomeadamente pelos disc\u00edpulos de Milton Friedman, que colonizaram pouco a pouco o FMI e o Banco Mundial. Naomi Klein resume: &#8220;confrontados com os choques repetidos dos anos 80, os pa\u00edses endividados n\u00e3o tinham outra alternativa sen\u00e3o recorrer ao Banco Mundial e ao FMI. Esbarravam ent\u00e3o num muro de ortodoxia criado pelos Chicago Boys que, dada a sua forma\u00e7\u00e3o, n\u00e3o viam as cat\u00e1strofes como problemas a resolver mas como ocasi\u00f5es preciosas que deviam ser aproveitadas de imediato a fim de abrir novos territ\u00f3rios ao mercado livre&#8221;. <strong>[9]<\/strong> Embora o Norte n\u00e3o tenha sido poupado a esse ataque <strong>[10]<\/strong> , foi na sequ\u00eancia da crise da d\u00edvida grega em 2010 que a ofensiva de desapropria\u00e7\u00e3o pelos credores vai ser mais brutal.<\/p>\n<p><strong>Uma gest\u00e3o da d\u00edvida ao servi\u00e7o de 1% <\/strong><\/p>\n<p>O que \u00e9 necess\u00e1rio entender, e o que Harvey demonstra de modo magistral, \u00e9 que o neoliberalismo na realidade n\u00e3o passa duma casca ideol\u00f3gica que dissimula a reafirma\u00e7\u00e3o dum poder de classe <strong>[11]<\/strong> . Assim, &#8220;o principal \u00eaxito do neoliberalismo reside na redistribui\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o na cria\u00e7\u00e3o, de riquezas e receitas&#8221;. <strong>[12]<\/strong> Christian Vandermotten diz o mesmo quando escreve que &#8220;quaisquer que sejam as modalidades do seu aparecimento, o neoliberalismo traduz-se por uma reafirma\u00e7\u00e3o do poder econ\u00f3mico das classes dominantes&#8221;. <strong>[13]<\/strong> Por consequ\u00eancia, mais do que uma ideologia, \u00e9 necess\u00e1rio considerar esta vaga neoliberal sobretudo como um projeto pol\u00edtico de refor\u00e7o do dom\u00ednio a favor dos detentores de capitais. Para ficar convencido, basta considerar as m\u00faltiplas distor\u00e7\u00f5es feitas \u00e0 teoria neoliberal, mesmo entre os defensores mais fervorosos desse sistema. A gest\u00e3o das crises da d\u00edvida \u00e9 provavelmente o melhor exemplo. &#8220;Ao dar toda a autoridade ao FMI e ao Banco Mundial para negociar a redu\u00e7\u00e3o da d\u00edvida, os Estados neoliberais acabavam por proteger as principais institui\u00e7\u00f5es financeiras mundiais da amea\u00e7a de um incumprimento. Na realidade, o FMI cobre, o melhor que pode, a exposi\u00e7\u00e3o aos riscos e \u00e0s incertezas nos <em>mercados financeiros<\/em>internacionais. Uma pr\u00e1tica dif\u00edcil de justificar em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 teoria neoliberal, visto que os investidores, em princ\u00edpio, deviam ser respons\u00e1veis pelos seus erros&#8221;. <strong>[14]<\/strong> Joseph Stiglitz vai no mesmo sentido. Pr\u00e9mio Nobel de economia e antigo economista-chefe no Banco Mundial, escreve: &#8220;na economia de mercado normal, se um emprestador consente num empr\u00e9stimo que acaba mal, sofre as consequ\u00eancias disso (\u2026) Na realidade, repetidamente, o FMI forneceu fundos aos Estados para salvar de apuros os credores ocidentais&#8221;. <strong>[15]<\/strong> Resume as coisas de modo l\u00edmpido: &#8220;se examinarmos o FMI como se o seu objetivo seja servir os interesses da comunidade financeira, encontramos sentido para os seus atos que, sem isso, parecem contradit\u00f3rios e intelectualmente incoerentes&#8221;. <strong>[16]<\/strong> Num registo semelhante, as opera\u00e7\u00f5es de salvamento de bancos na sequ\u00eancia da crise de 2007-2008 nos Estados Unidos e na Europa revelam igualmente interesses de classe: longe do ideal liberal de responsabilidade dos investidores, assistimos sobretudo a um mecanismo de privatiza\u00e7\u00e3o dos benef\u00edcios e de socializa\u00e7\u00e3o das perdas. Tanto pior para o famoso <em>risco moral <\/em>, apesar de este ser invocado para justificar o reembolso da d\u00edvida pelos pa\u00edses do Sul.<\/p>\n<p>Um outro ponto de discord\u00e2ncia <strong>[17]<\/strong> em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 teoria \u00e9 a escolha das prioridades or\u00e7amentais. Com raras exce\u00e7\u00f5es, notamos que na maior parte dos pa\u00edses submetidos \u00e0 austeridade, o or\u00e7amento militar pouco ou nada \u00e9 afetado pelos cortes nas despesas p\u00fablicas. J\u00e1 assim era com Reagan que, apesar duma ret\u00f3rica muito anti estado, manteve or\u00e7amentos militares fara\u00f3nicos, financiados no essencial pelo d\u00e9fice. Como nota Harvey, &#8220;embora em desacordo com a teoria neoliberal, o aumento dos d\u00e9fices federais forneceu uma justifica\u00e7\u00e3o c\u00f3moda para o projeto de demoli\u00e7\u00e3o dos programas sociais&#8221;. <strong>[18]<\/strong> A dupla explica\u00e7\u00e3o \u00e9 sem d\u00favida, por um lado, a exist\u00eancia e o poderio do complexo militar-industrial e as suas liga\u00e7\u00f5es com a administra\u00e7\u00e3o americana e, por outro lado, o imperialismo sempre omnipresente do poderio americano vis-\u00e0-vis o resto do mundo (Naomi Klein utiliza a express\u00e3o<em>capitalismo do desastre <\/em>para descrever o fen\u00f3meno que associa estes dois elementos). A gest\u00e3o da d\u00edvida grega leva a uma an\u00e1lise semelhante visto que o or\u00e7amento do armamento do governo, um dos mais elevados da Uni\u00e3o Europeia, foi inicialmente poupado \u00e0s medidas de austeridade, em preju\u00edzo das despesas sociais, de sa\u00fade e de educa\u00e7\u00e3o. O facto de a Fran\u00e7a e a Alemanha serem dois dos grandes vendedores de armas \u00e0 Gr\u00e9cia sem d\u00favida n\u00e3o lhe \u00e9 alheio.<\/p>\n<p><strong>Crises e tecnocratas <\/strong><\/p>\n<p>De resto, a crise serve quase sempre de pretexto para a imposi\u00e7\u00e3o de medidas impopulares. Naomi Klein descreveu este fen\u00f3meno com o nome de <em>estrat\u00e9gia de choque <\/em>: resumindo, isso consiste em tirar partido da perturba\u00e7\u00e3o duma popula\u00e7\u00e3o face a um acontecimento brutal para impor medidas que seriam dif\u00edceis, ou mesmo imposs\u00edveis, de fazer aprovar em tempos normais. Mais uma vez, a crise da d\u00edvida, no terceiro mundo ou na Europa, ilustra perfeitamente este fen\u00f3meno. &#8220;A amea\u00e7a que as d\u00edvidas p\u00fablicas apresentam para a estabilidade banc\u00e1ria tornou-se simultaneamente numa cortina de fumo para dissimular as responsabilidades dos bancos e um pretexto para impor pol\u00edticas anti-sociais a fim de sanear as finan\u00e7as p\u00fablicas&#8221;. <strong>[19]<\/strong> Al\u00e9m disso, o argumento da crise ou da insustentabilidade da d\u00edvida tem tend\u00eancia para ir eliminando cada vez os mais processos democr\u00e1ticos. Prova disso &#8220;o gosto dos neoliberais pelas institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o democr\u00e1ticas que n\u00e3o prestam contas a ningu\u00e9m&#8221;. Harvey resume a impostura neoliberal: &#8220;fortes interven\u00e7\u00f5es do Estado e um governo das elites e dos &#8216;especialistas&#8217; num mundo que supostamente n\u00e3o devia ser intervencionista&#8221;. <strong>[20]<\/strong> Cinco anos depois de ter escrito estas linhas, a gest\u00e3o da crise grega e europeia d\u00e1-lhe totalmente raz\u00e3o, visto que puseram no poder diversos &#8220;t\u00e9cnicos&#8221; diretamente provenientes do mundo da finan\u00e7a. Mario Draghi, o presidente do Banco Central Europeu, \u00e9 de resto um ex-dirigente da Goldman Sachs. O que \u00e9 lament\u00e1vel \u00e9 ver a in\u00e9rcia da esfera pol\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o a isso. Assim, a famosa regra de ouro, que grava no m\u00e1rmore a austeridade e imp\u00f5e op\u00e7\u00f5es or\u00e7amentais, desprezando as escolhas eleitorais da popula\u00e7\u00e3o, n\u00e3o encontrou, por assim dizer, protestos por parte dos governos em exerc\u00edcio e por parte da maioria dos partidos tradicionais. No entanto, \u00e9 vis\u00edvel que enfrentamos um novo processo de acumula\u00e7\u00e3o das riquezas por uma minoria. <strong>[21]<\/strong> Evidentemente, nem todos os liberais s\u00e3o seres p\u00e9rfidos e desprovidos de alma. Muitos deles sem d\u00favida t\u00eam boa vontade mas est\u00e3o mergulhados num conjunto de cren\u00e7as e mitos <strong>[22]<\/strong> associados \u2013 quase sempre incorretamente \u2013 ao ideal liberal ou capitalista. Apesar disso, a verdade \u00e9 que existe uma elite, financeira, pol\u00edtica, empresarial, que beneficia com as medidas neoliberais impostas quase sempre de modo n\u00e3o democr\u00e1tico. Reconhecer este estado de coisas deve levar-nos a denunciar e a lutar contra a <em>d\u00edvida ileg\u00edtima <\/em>e os planos de austeridade.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p>1. J\u00e1 no s\u00e9culo XIX, o Imp\u00e9rio Otomano, a Am\u00e9rica latina ou a China assistiram \u00e0 generaliza\u00e7\u00e3o dos empr\u00e9stimos banc\u00e1rios provenientes das metr\u00f3poles do norte (bancos londrinos) se tornarem um meio de controlo das suas finan\u00e7as p\u00fablicas e das suas riquezas. Para este tema, ver TOUSSAINT \u00c9ric, <a href=\"http:\/\/cadtm.org\/Retour-dans-le-passe-Mise-en\" target=\"_blank\">cadtm.org\/Retour-dans-le-passe-Mise-en<\/a><\/p>\n<p>2. HARVEY David, <em>Br\u00e8ve histoire du n\u00e9olib\u00e9ralisme <\/em>, Les Prairies Ordinaires, Paris, 2014, p76.<\/p>\n<p>3. Se o FMI e o seu co-irm\u00e3o, o Banco Mundial, foram inicialmente criados para estabilizar a ordem econ\u00f3mica mundial e financiar o desenvolvimento dos pa\u00edses mais pobres, estas duas institui\u00e7\u00f5es v\u00e3o transformar-se rapidamente num instrumento de imposi\u00e7\u00e3o do neoliberalismo, em especial pelas elites norte-americanas. A sua localiza\u00e7\u00e3o em Washington, assim como o seu sistema de funcionamento, dominados pelos pa\u00edses ocidentais (em especial os Estados Unidos) explicam perfeitamente este estado de coisas.<\/p>\n<p>4. HARVEY, op. cit., p80.<\/p>\n<p>5. Este <em>modus operandi <\/em>combinar-se-\u00e1 rapidamente com os m\u00e9todos imperialistas americanos que, contrastando com o colonialismo europeu, consistiam sobretudo na institui\u00e7\u00e3o de um poder &#8220;independente&#8221; mas totalmente submisso aos interesses americanos. O endividamento servir\u00e1 assim simultaneamente para a corrup\u00e7\u00e3o desses governos fantoches e igualmente, dada a gest\u00e3o pelo Banco Mundial e pelo FMI, para uma transfer\u00eancia de riquezas dos povos do Sul para as elites financeiras (americanas ou outras).<\/p>\n<p>6. Estas medidas ser\u00e3o tamb\u00e9m encorajadas pela ades\u00e3o do M\u00e9xico ao GATT, assim como ao ALENA em 1994<\/p>\n<p>7. HARVEY, op. cit. pp149-154<\/p>\n<p>8. VANDERMOTTEN Christian, <em>La production des espaces \u00e9conomiques <\/em>, \u00c9ditions de l&#8217;ULB, Bruxelles, 2010, p345 ; KLEIN Naomi, <em>La strat\u00e9gie du choc <\/em>, Acte Sud, Paris, 2008, pp256-261.<\/p>\n<p>9. KLEIN Naomi, op. cit, p252.<\/p>\n<p>10. No final dos anos 70, a subida das taxas de juros seguida das viragens de Reagan e de Thatcher, v\u00e3o fazer prever a liquida\u00e7\u00e3o, por diversas formas, da heran\u00e7a intervencionista omnipresente durante os gloriosos anos 30. Ali\u00e1s, \u00e0 semelhan\u00e7a de Nova Iorque uns anos antes, v\u00e1rias cidades servir\u00e3o de laborat\u00f3rio por imposi\u00e7\u00e3o da austeridade nos or\u00e7amentos p\u00fablicos. Foi o caso da cidade de Li\u00e8ge nos anos 80. Esta pol\u00edtica ser\u00e1 alargada a toda a B\u00e9lgica, nomeadamente atrav\u00e9s do governo de Martens-Gol. Depois de uns anos de reformas progressistas, a Fran\u00e7a de Mitterrand afundar-se-\u00e1 igualmente no fosso neoliberal, tal como os pa\u00edses de leste, depois do desmoronamento da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p>11. HARVEY, op. cit., p223<\/p>\n<p>12. HARVEY, op. cit, p226.<\/p>\n<p>13. VANDERMOTTEN, op. cit., p339. Ver igualmente TOUSSAINT \u00c9ric, <em>Bancocratie <\/em>, Aden, Bruxelles, 2014. Este \u00faltimo escreve: &#8220;as pol\u00edticas neoliberais generalizadas a partir dos anos 80 permitiram aos capitalistas aumentar a sua parte nas receitas nacionais enquanto diminu\u00edam a parte relativa aos sal\u00e1rios&#8221; (p56).<\/p>\n<p>14. HARVEY, op. cit., p115.<\/p>\n<p>15. STIGLITZ Joseph, <em>La grande D\u00e9sillusion <\/em>, Fayard, Paris, 2002, pp321-322<\/p>\n<p>16. STIGLITZ Joseph, op. cit., p330.<\/p>\n<p>17. Evidentemente h\u00e1 outros. Um deles, que \u00e9 interessante sublinhar, \u00e9 o desfasamento entre o famoso princ\u00edpio de concorr\u00eancia livre e n\u00e3o falseada e a exist\u00eancia, em muitas \u00e1reas, de situa\u00e7\u00f5es de oligop\u00f3lios que controlam uma grande parte do mercado. A esfera financeira \u00e9, mais uma vez, emblem\u00e1tica visto que, segundo \u00c9ric Toussaint, &#8220;entre 1997 e 2010, os cinco maiores bancos passaram de 52% para 75% do mercado na B\u00e9lgica e de 50,9% para 86% em Fran\u00e7a&#8221; (op. cit., p153). A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 semelhante em muitos dos dom\u00ednios de atividade, desde o autom\u00f3vel \u00e0 avia\u00e7\u00e3o, passando pelo agroalimentar.<\/p>\n<p>18. HARVEY, op. cit., p136.<\/p>\n<p>19. TOUSSAINT \u00c9ric, <em>Bancocratie <\/em>, op. cit., p190. Mais uma vez, o objetivo \u00e9 apenas te\u00f3rico visto que os pol\u00edticos da austeridade que contraem a procura e portanto diminuem as receitas fiscais, n\u00e3o resolvem minimamente a quest\u00e3o dos d\u00e9fices. O caso da Gr\u00e9cia \u00e9 emblem\u00e1tico.<\/p>\n<p>20. HARVEY, op. cit. p111.<\/p>\n<p>21. Para ficar convencido, basta ver as estat\u00edsticas quanto ao n\u00famero de multimilion\u00e1rios e milion\u00e1rios, que aumentam por todo o lado. No mesmo registo, o mercado de luxo (malas Vuitton, cigarros topo de gama, autom\u00f3veis de luxo\u2026) nunca esteve t\u00e3o bem.<\/p>\n<p>22. Entre estes mitos, referimos a figura do trabalhador empres\u00e1rio, a efic\u00e1cia do mercado, os benef\u00edcios do com\u00e9rcio livre e da liberdade econ\u00f3mica, a recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica dos pa\u00edses do Sul\u2026<\/p>\n<p>10\/Agosto\/2014<\/p>\n<p>[*] Autor de <a href=\"http:\/\/cadtm.org\/Rwanda-une-histoire-volee-Dette-et\" target=\"_blank\"><em>Rwanda, une histoire vol\u00e9e<\/em><\/a> , \u00e9ditions Tribord, 2013; co-autor com \u00c9ric De Ruest de <a href=\"http:\/\/cadtm.org\/La-dette-cachee-de-l-economie\" target=\"_blank\"><em>La dette cach\u00e9e de l&#8217;\u00e9conomie<\/em><\/a> , Les Liens qui Lib\u00e8rent, 2014.<\/p>\n<p>O original encontra-se em <a href=\"http:\/\/cadtm.org\/Dette-neoliberalisme-et-classes\" target=\"_blank\">cadtm.org\/Dette-neoliberalisme-et-classes<\/a> . Tradu\u00e7\u00e3o de Margarida Ferreira.<\/p>\n<p>Este artigo encontra-se em <a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\">http:\/\/resistir.info\/<\/a> .<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nRenaud Duterme*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6652\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-6652","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1Ji","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6652","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6652"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6652\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6652"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6652"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6652"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}