{"id":667,"date":"2010-07-21T05:34:17","date_gmt":"2010-07-21T05:34:17","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=667"},"modified":"2010-07-21T05:34:17","modified_gmt":"2010-07-21T05:34:17","slug":"odeio-os-indiferentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/667","title":{"rendered":"Odeio os indiferentes"},"content":{"rendered":"\n<p>11 de Fevereiro de 1917<\/p>\n<p>Odeio os indiferentes. Como Friederich Hebbel acredito que &#8220;viver significa tomar partido&#8221;. N\u00e3o podem existir os apenas homens, estranhos \u00e0 cidade. Quem verdadeiramente vive n\u00e3o pode deixar de ser cidad\u00e3o, e partid\u00e1rio. Indiferen\u00e7a \u00e9 abulia, parasitismo, covardia, n\u00e3o \u00e9 vida. Por isso odeio os indiferentes.<\/p>\n<p>A indiferen\u00e7a \u00e9 o peso morto da hist\u00f3ria. \u00c9 a bala de chumbo para o inovador, \u00e9 a mat\u00e9ria inerte em que se afogam freq\u00fcentemente os entusiasmos mais esplendorosos, \u00e9 o fosso que circunda a velha cidade e a defende melhor do que as mais s\u00f3lidas muralhas, melhor do que o peito dos seus guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama os assaltantes, os dizima e desencoraja e \u00e0s vezes, os leva a desistir de gesta her\u00f3ica.<\/p>\n<p>A indiferen\u00e7a atua poderosamente na hist\u00f3ria. Atua passivamente, mas atua. \u00c9 a fatalidade; e aquilo com que n\u00e3o se pode contar; \u00e9 aquilo que confunde os programas, que destr\u00f3i os planos mesmo os mais bem constru\u00eddos; \u00e9 a mat\u00e9ria bruta que se revolta contra a intelig\u00eancia e a sufoca. O que acontece, o mal que se abate sobre todos, o poss\u00edvel bem que um ato her\u00f3ico (de valor universal) pode gerar, n\u00e3o se fica a dever tanto \u00e0 iniciativa dos poucos que atuam quanto \u00e0 indiferen\u00e7a, ao absentismo dos outros que s\u00e3o muitos. O que acontece, n\u00e3o acontece tanto porque alguns querem que aconte\u00e7a quanto porque a massa dos homens abdica da sua vontade, deixa fazer, deixa enrolar os n\u00f3s que, depois, s\u00f3 a espada pode desfazer, deixa promulgar leis que depois s\u00f3 a revolta far\u00e1 anular, deixa subir ao poder homens que, depois, s\u00f3 uma subleva\u00e7\u00e3o poder\u00e1 derrubar.<\/p>\n<p>A fatalidade, que parece dominar a hist\u00f3ria, n\u00e3o \u00e9 mais do que a apar\u00eancia ilus\u00f3ria desta indiferen\u00e7a, deste absentismo. H\u00e1 fatos que amadurecem na sombra, porque poucas m\u00e3os, sem qualquer controle a vigi\u00e1-las, tecem a teia da vida coletiva, e a massa n\u00e3o sabe, porque n\u00e3o se preocupa com isso. Os destinos de uma \u00e9poca s\u00e3o manipulados de acordo com vis\u00f5es limitadas e com fins imediatos, de acordo com ambi\u00e7\u00f5es e paix\u00f5es pessoais de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens n\u00e3o se preocupa com isso.<\/p>\n<p>Mas os fatos que amadureceram v\u00eam \u00e0 superf\u00edcie; o tecido feito na sombra chega ao seu fim, e ent\u00e3o parece ser a fatalidade a arrastar tudo e todos, parece que a hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 mais do que um gigantesco fen\u00f4meno natural, uma erup\u00e7\u00e3o, um terremoto, de que s\u00e3o todos v\u00edtimas, o que quis e o que n\u00e3o quis, quem sabia e quem n\u00e3o sabia, quem se mostrou ativo e quem foi indiferente. Estes ent\u00e3o zangam-se, queriam eximir-se \u00e0s conseq\u00fc\u00eancias, quereriam que se visse que n\u00e3o deram o seu aval, que n\u00e3o s\u00e3o respons\u00e1veis.<\/p>\n<p>Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas nenhum ou poucos p\u00f5em esta quest\u00e3o: se eu tivesse tamb\u00e9m cumprido o meu dever, se tivesse procurado fazer valer a minha vontade, o meu parecer, teria sucedido o que sucedeu? Mas nenhum ou poucos atribuem \u00e0 sua indiferen\u00e7a, ao seu cepticismo, ao fato de n\u00e3o ter dado o seu bra\u00e7o e a sua atividade \u00e0queles grupos de cidad\u00e3os que, precisamente para evitarem esse mal combatiam (com o prop\u00f3sito) de procurar o tal bem (que) pretendiam.<\/p>\n<p>A maior parte deles, por\u00e9m, perante fatos consumados prefere falar de insucessos ideais, de programas definitivamente desmoronados e de outras brincadeiras semelhantes. Recome\u00e7am assim a falta de qualquer responsabilidade. E n\u00e3o por n\u00e3o verem claramente as coisas, e, por vezes, n\u00e3o serem capazes de perspectivar excelentes solu\u00e7\u00f5es para os problemas mais urgentes, ou para aqueles que, embora requerendo uma ampla prepara\u00e7\u00e3o e tempo, s\u00e3o todavia igualmente urgentes. Mas essas solu\u00e7\u00f5es s\u00e3o belissimamente infecundas; mas esse contributo para a vida coletiva n\u00e3o \u00e9 animado por qualquer luz moral; \u00e9 produto da curiosidade intelectual, n\u00e3o do pungente sentido de uma responsabilidade hist\u00f3rica que quer que todos sejam ativos na vida, que n\u00e3o admite agnosticismos e indiferen\u00e7as de nenhum g\u00eanero.<\/p>\n<p>Odeio os indiferentes tamb\u00e9m, porque me provocam t\u00e9dio as suas lam\u00farias de eternos inocentes. Pe\u00e7o contas a todos eles pela maneira como cumpriram a tarefa que a vida lhes imp\u00f4s e imp\u00f5e quotidianamente, do que fizeram e sobretudo do que n\u00e3o fizeram. E sinto que posso ser inexor\u00e1vel, que n\u00e3o devo desperdi\u00e7ar a minha compaix\u00e3o, que n\u00e3o posso repartir com eles as minhas l\u00e1grimas. Sou militante, estou vivo, sinto nas consci\u00eancias viris dos que est\u00e3o comigo pulsar a atividade da cidade futura que estamos a construir. Nessa cidade, a cadeia social n\u00e3o pesar\u00e1 sobre um n\u00famero reduzido, qualquer coisa que aconte\u00e7a nela n\u00e3o ser\u00e1 devido ao acaso, \u00e0 fatalidade, mas sim \u00e0 intelig\u00eancia dos cidad\u00e3os. Ningu\u00e9m estar\u00e1 \u00e0 janela a olhar enquanto um pequeno grupo se sacrifica, se imola no sacrif\u00edcio. E n\u00e3o haver\u00e1 quem esteja \u00e0 janela emboscado, e que pretenda usufruir do pouco bem que a atividade de um pequeno grupo tenta realizar e afogue a sua desilus\u00e3o vituperando o sacrificado, porque n\u00e3o conseguiu o seu intento.<\/p>\n<p>Vivo, sou militante. Por isso odeio quem n\u00e3o toma partido, odeio os indiferentes.<\/p>\n<p>Primeira Edi\u00e7\u00e3o: La Citt\u00e0 Futura, 11-2-1917<\/p>\n<p>Origem da presente Transcri\u00e7\u00e3o: Texto retirado do livro Convite \u00e0 Leitura de Gramsci&#8221;<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Pedro Celso Uch\u00f4a Cavalcanti.<\/p>\n<p>Transcri\u00e7\u00e3o de: Alexandre Linares para o Marxists Internet Archive<\/p>\n<p>HTML de: Fernando A. S. Ara\u00fajo<\/p>\n<p>Direitos de Reprodu\u00e7\u00e3o: Marxists Internet Archive (<a href=\"http:\/\/marxists.org\/\" target=\"_blank\">marxists.org<\/a>), 2005. A c\u00f3pia ou distribui\u00e7\u00e3o deste documento \u00e9 livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Marxists.org\n\n\n\n\n\n\n\n\nOs Indiferentes\nAntonio Gramsci\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/667\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-667","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-aL","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/667","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=667"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/667\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=667"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=667"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=667"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}