{"id":6671,"date":"2014-09-08T14:46:50","date_gmt":"2014-09-08T14:46:50","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6671"},"modified":"2014-09-08T14:46:50","modified_gmt":"2014-09-08T14:46:50","slug":"a-historia-desconhecida-da-militancia-de-esquerda-nas-forcas-armadas-brasileiras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6671","title":{"rendered":"A hist\u00f3ria desconhecida da milit\u00e2ncia de esquerda nas For\u00e7as Armadas brasileiras"},"content":{"rendered":"\n<p>Livro analisa trajet\u00f3ria do grupo, atuante desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XX, e que foi o mais atingido ap\u00f3s o golpe de 1964<\/p>\n<p>POR LEONARDO CAZES<\/p>\n<p>RIO &#8211; Em maio do ano passado, uma audi\u00eancia da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (CNV), no Rio de Janeiro, reuniu v\u00e1rios militares perseguidos pela ditadura. Entre eles estava o fuzileiro naval reformado Fernando Novais Coutinho. Em seu depoimento, Coutinho contou que no dia 25 de mar\u00e7o de 1964 a Associa\u00e7\u00e3o de Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil comemorava o seu segundo anivers\u00e1rio na sede do Sindicato dos Metal\u00fargicos, na Zona Norte do Rio. A festa se transformou num ato em defesa das reformas de base do presidente Jo\u00e3o Goulart e o ent\u00e3o fuzileiro foi enviado para um cerco no local. \u201cNos recusamos a efetuar um massacre, porque a ordem era essa, jogamos as metralhadoras no ch\u00e3o, pulamos o muro e apoiamos o movimento\u201d, lembrou. A decis\u00e3o lhe custou a expuls\u00e3o das For\u00e7as Armadas e nove meses de pris\u00e3o ap\u00f3s o golpe militar, poucos dias depois. Uma das justificativas golpistas foi, inclusive, a agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos pra\u00e7as.<\/p>\n<p>Militares como Coutinho foram, proporcionalmente, o grupo mais atingido por puni\u00e7\u00f5es pol\u00edticas depois de 1964, com a expuls\u00e3o de milhares de pra\u00e7as e oficiais. Contudo, a pouco conhecida milit\u00e2ncia de esquerda dentro das tr\u00eas for\u00e7as n\u00e3o come\u00e7ou na d\u00e9cada de 1960, como mostra o professor Paulo Ribeiro da Cunha no livro \u201cMilitares e milit\u00e2ncia: Uma rela\u00e7\u00e3o dialeticamente conflituosa\u201d (Editora Unesp). Cunha, que \u00e9 professor de Teoria Pol\u00edtica da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Mar\u00edlia (SP), explica que desde o in\u00edcio do s\u00e9culo a movimenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica foi intensa.<\/p>\n<p>Um dos casos mais conhecidos foi a rebeli\u00e3o dos marinheiros, em 1910, na Revolta da Chibata. Houve ainda revoltas de sargentos entre 1915 e 1916, menos conhecidas. Ao longo desta d\u00e9cada, foram registradas v\u00e1rias demonstra\u00e7\u00f5es de solidariedade dos pra\u00e7as com protestos populares. Um caso ocorreu entre agosto e setembro de 1918, durante uma greve dos trabalhadores do servi\u00e7o de bondes e barcas em Niter\u00f3i. Soldados do Ex\u00e9rcito aquartelados na cidade se posicionaram junto aos grevistas e contra a pol\u00edcia.<\/p>\n<p>Este campo heterog\u00eaneo, que o professor classifica de \u201cesquerda militar\u201d, agrupava nacionalistas, socialistas, democratas e comunistas e era bastante forte entre os pra\u00e7as. Uma das raz\u00f5es dessa influ\u00eancia, conta ele, \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o de fragilidade vivida por soldados, cabos, sargentos, fuzileiros e marinheiros, como a falta de estabilidade. O contexto internacional e a funda\u00e7\u00e3o do Partido Comunista Brasileiro (PCB), em 1922, tamb\u00e9m contribu\u00edram para a politiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Havia uma situa\u00e7\u00e3o muito negativa nas For\u00e7as Armadas, o tratamento dispensado aos pra\u00e7as vinha do Imp\u00e9rio, uma situa\u00e7\u00e3o de falta total de direitos. O comando era muito elitista. \u00c9 a partir de 1929 que h\u00e1 uma aproxima\u00e7\u00e3o mais efetiva entre o PCB e os militares, com a cria\u00e7\u00e3o do setor militar do partido, o Antimil, por orienta\u00e7\u00e3o da Internacional Comunista. A partir da ades\u00e3o de Lu\u00eds Carlos Prestes, na d\u00e9cada de 1930, esse movimento se intensificar\u00e1 bastante \u2014 aponta o professor.<\/p>\n<p>Cunha afirma que, at\u00e9 1945, a agenda da esquerda militar era insurrecional, com o objetivo de fazer uma revolu\u00e7\u00e3o. O \u00e1pice dessa estrat\u00e9gia foi a Intentona Comunista, em 1935. A partir da tentativa frustrada, houve uma mudan\u00e7a gradual de estrat\u00e9gia. Em 1938, a orienta\u00e7\u00e3o do PCB j\u00e1 era de defesa da democracia, de luta pela anistia e em prol da uni\u00e3o nacional. Com o fim da ditadura do Estado Novo, o grupo assume o papel de defensor da legalidade democr\u00e1tica e, segundo o professor, atua decisivamente em v\u00e1rios momentos, como ao garantir a posse do presidente Juscelino Kubitscheck e ao debelar as revoltas da direita militar de Jacareacanga, em 1956, e Aragar\u00e7as, em 1959. Al\u00e9m de ter um papel decisivo em campanhas como a do \u201cPetr\u00f3leo \u00e9 nosso\u201d.<\/p>\n<p>Na sua opini\u00e3o, os militares de esquerda poderiam atuar mais incisivamente em 1964 caso o presidente Jo\u00e3o Goulart optasse por resistir. Ele destaca, entretanto, que apenas 3% dos atingidos por expurgos entraram na luta armada contra o regime.<\/p>\n<p>\u2014 Depois de 1964, a atua\u00e7\u00e3o desse grupo foi principalmente no plano pol\u00edtico, na luta pela redemocratiza\u00e7\u00e3o, com a forma\u00e7\u00e3o de entidades de militares cassados (como a Associa\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica e Nacionalista de Militares). Depois de cassados, eles passaram a ser vistos como mortos-vivos. Suas esposas recebiam pens\u00f5es como vi\u00favas. No caso de alguns aviadores, por exemplo, portarias secretas s\u00f3 descobertas anos depois os proibiam de voar. E eram her\u00f3is de guerra, muitos participaram da For\u00e7a Expedicion\u00e1ria Brasileira (FEB) na Segunda Guerra.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da tradi\u00e7\u00e3o da esquerda militar no s\u00e9culo XX, assim como as persegui\u00e7\u00f5es aos seus membros e simpatizantes durante o Estado Novo e a ditadura militar, \u00e9 pouco estudada e sofre com a falta de documenta\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel. Cunha diz que os curr\u00edculos das academias militares ignoram a Coluna Prestes, embora esta seja objeto de pesquisas em institui\u00e7\u00f5es estrangeiras. Sobre a circular, revelada pelo GLOBO, determinando que apenas o gabinete do general Enzo Peri, comandante do Ex\u00e9rcito, pode fornecer informa\u00e7\u00f5es sobre o per\u00edodo entre 1964 e 1985, o professor v\u00ea, na raiz da medida, um ide\u00e1rio da d\u00e9cada de 1930.<\/p>\n<p>\u2014 Eles insistem que apenas os comandantes podem falar pelas institui\u00e7\u00f5es. Isso vem de 1932, com a doutrina G\u00f3es Monteiro, que procurou acabar com a pol\u00edtica no Ex\u00e9rcito e fazer a pol\u00edtica do Ex\u00e9rcito. Todas as tentativas nesse sentido foram malsucedidas. Se voc\u00ea buscar a forma\u00e7\u00e3o do comando atual das tr\u00eas for\u00e7as, ela se deu no per\u00edodo M\u00e9dici, o que para muitos militares ainda \u00e9 uma refer\u00eancia hist\u00f3rica. H\u00e1 uma tens\u00e3o em responder \u00e0 sociedade democr\u00e1tica sobre comandantes aos quais eles j\u00e1 foram subordinados. \u00c9 uma pena, pois est\u00e3o perdendo uma \u00f3tima oportunidade \u2014 lamenta.<\/p>\n<p>Foto: Marinheiros deixam o Sindicato dos Metal\u00fargicos, onde ficaram sublevados por tr\u00eas dias, menos de uma semana antes do golpe de 1964 &#8211; Geraldo Tonel\/27-03-1964<\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/oglobo.globo.com\/cultura\/livros\/a-historia-desconhecida-da-militancia-de-esquerda-nas-forcas-armadas-brasileiras-13843349<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Paulo Oliveira<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6671\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-6671","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1JB","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6671","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6671"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6671\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6671"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6671"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6671"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}