{"id":6672,"date":"2014-09-08T14:55:54","date_gmt":"2014-09-08T14:55:54","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6672"},"modified":"2014-09-08T14:55:54","modified_gmt":"2014-09-08T14:55:54","slug":"a-crise-do-capitalismo-e-a-lmaca-de-adaor-do-revisionismo-comunista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6672","title":{"rendered":"A crise do capitalismo e a \u00abma\u00e7\u00e3-de-Ad\u00e3o\u00bb do revisionismo comunista"},"content":{"rendered":"\n<p>Contrariamente ao que sugerem as promessas governamentais que diariamente nos bombardeiam com vis\u00f5es id\u00edlicas do in\u00edcio da recupera\u00e7\u00e3o, uma crise n\u00e3o se desenvolve linearmente: fase de depress\u00e3o, per\u00edodo de estabiliza\u00e7\u00e3o a que se segue uma inevit\u00e1vel recupera\u00e7\u00e3o. Mesmo na mais profunda fase depressiva ser\u00e1 sempre poss\u00edvel encontrar t\u00e9nues sinais contr\u00e1rios, sem que isso signifique que a crise est\u00e1 j\u00e1 a ser superada ou at\u00e9 que possa vir a ser superada na presente fase imperialista do sistema do capital.<\/p>\n<p>Uma das novidades que esta crise parece ter trazido \u00e9 a de que os ciclos que pareciam reger o funcionamento econ\u00f3mico deixaram de funcionar. O tempo que decorreu desde o rebentar da crise parece dar for\u00e7a ao argumento de Jorge Beinstein que hoje \u00ab<em>podemos sustentar que as ondas longas de Kondratrief foram trituradas por uma nova realidade, a economia mundial completamente hegemonizada pelo parasitismo financeiro obedece a uma din\u00e2mica radicalmente diferente da vigente durante a era do capitalismo industrial.<\/em>\u00bb<\/p>\n<p>Tudo parece indicar que a presente crise do capitalismo dificilmente ser\u00e1 temporariamente superada sem uma violenta destrui\u00e7\u00e3o massiva de capital \u2013 uma guerra, hoje de consequ\u00eancias inimagin\u00e1veis que pode mesmo p\u00f4r em causa a vida do planeta \u2013 ou uma ruptura revolucion\u00e1ria que destrua o sistema de capital, o que n\u00e3o se antev\u00ea no curto e no m\u00e9dio prazo, at\u00e9 por falta da sua defini\u00e7\u00e3o como objectivo das organiza\u00e7\u00f5es do movimento oper\u00e1rio, e aus\u00eancia de prepara\u00e7\u00e3o do elemento subjectivo.<\/p>\n<p>Na Europa, o BCE \u00e9 obrigado a confessar que \u00aba recupera\u00e7\u00e3o continua a ser fraca, fr\u00e1gil e desequilibrada\u00bb, verificando-se \u00abum abrandamento do impulso de crescimento\u00bb. Persiste uma situa\u00e7\u00e3o deflacion\u00e1ria, desde o in\u00edcio de 2014, que nem a baixa da taxa de juro do Banco Central Europeu (BCE) para 0,15% atenuou. Em It\u00e1lia esvai-se o brilho artificialmente criado por poderosa barragem publicit\u00e1ria de promo\u00e7\u00e3o de Matteo Renzi, o \u2018jovem\u2019 Primeiro-ministro italiano, em sintonia com a economia italiana que contrai pelo segundo trimestre consecutivo. E a realidade imp\u00f5e-se com estrondo \u00e0 propaganda: \u00abajustado \u00e0 infla\u00e7\u00e3o, o segundo trimestre [de 2014] foi o pior de sempre da economia italiana desde o ano 2000\u00bb.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos verificou-se, logo no in\u00edcio deste ano, a maior queda de constru\u00e7\u00e3o de habita\u00e7\u00f5es desde Fevereiro de 2011, ao mesmo tempo que, segundo a Associa\u00e7\u00e3o de Banqueiros Hipotec\u00e1rios, o n\u00famero de solicita\u00e7\u00f5es de empr\u00e9stimos hipotec\u00e1rios, que inclui tamb\u00e9m os pedidos de revis\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de empr\u00e9stimos anteriores, contraiu 4,5%.<\/p>\n<p>A central de desinforma\u00e7\u00e3o sediada nos EUA procura fazer crer que a crise \u00e9 um problema europeu. Sem coragem para dissidir dos amos, os <em>media<\/em> portugueses e europeus escondem que mais profunda que a crise na Uni\u00e3o Europeia \u00e9 a crise nos EUA, cuja derrocada \u00e9 adiada pela cada vez maior impress\u00e3o de d\u00f3lares, o que n\u00e3o se pode manter indefinidamente. A subida da venda de habita\u00e7\u00f5es no \u00faltimo trimestre, agora anunciada nos EUA, n\u00e3o retira os crescentes problemas levantados pela crise, \u00e9 apenas um dos muitos indicadores.<\/p>\n<p>As bolsas de todo mundo na sua instabilidade c\u00edclica afundam-se e, num \u00e1pice, cai por terra a brutal campanha de propaganda minuciosamente preparada para criar a convic\u00e7\u00e3o que o pior j\u00e1 l\u00e1 ia. N\u00e3o foi, para infelicidade da classe trabalhadora e da generalidade dos pequenos e m\u00e9dios empres\u00e1rios sobre quem recai o \u00f3nus da crise.<\/p>\n<p><strong>Sete anos de crise<\/strong><\/p>\n<p>Diferentemente do que n\u00e3o inocentemente \u00e9 por norma afirmado, n\u00e3o foi com a fal\u00eancia do banco Lehman Brothers, em Setembro de 2008, que rebentou a crise que continua a varrer o mundo.<\/p>\n<p>Foi muito antes.<\/p>\n<p>Nos EUA, entre 1 de Janeiro e 17 de Agosto de 2007, 84 sociedades de cr\u00e9dito hipotec\u00e1rio faliram ou cessaram parcialmente a sua actividade, 5 vezes mais do que no ano anterior!<\/p>\n<p>Em Maio de 2007, o analista econ\u00f3mico norte-americano Mike Withney dizia que \u00abos pre\u00e7os das casas novas ca\u00edram, em 17 das 20 maiores cidades dos EUA e as linhas de tend\u00eancia indicam que o pior ainda est\u00e1 para vir. As vendas de casas novas ca\u00edram a pique em Mar\u00e7o, estabelecendo o recorde de 23,5% (\u2026), afastando qualquer esperan\u00e7a de recupera\u00e7\u00e3o r\u00e1pida. (\u2026) \u00c9 prov\u00e1vel que a pr\u00f3xima v\u00edtima seja o mercado bolsista. (\u2026) A bolha de cr\u00e9dito de Wall Street \u00e9 ainda maior que a imobili\u00e1ria\u00bb!<\/p>\n<p>Na Europa, foi a 7 de Agosto do mesmo ano que se verificou o primeiro e irrefut\u00e1vel sinal de alarme: o maior banco franc\u00eas, o PNB (Paribas), anunciou que dada \u00aba completa aus\u00eancia de liquidez em certos segmentos do mercado de titulariza\u00e7\u00e3o norte-americano\u00bb era obrigado \u00aba suspender temporariamente\u00bb o resgate de tr\u00eas fundos, um dos quais era comercializado em Portugal, o Parvest Dynamic ABS. O BCE v\u00ea-se obrigado a injectar no mercado <strong>95 e 61 mil milh\u00f5es de euros,<\/strong> respectivamente a 9 e 10 de Agosto de 2007, a que se seguem <strong>mais 25,2 mil milh\u00f5es<\/strong> no dia 14 do mesmo m\u00eas!<\/p>\n<p>Em 25 de Agosto de 2007, o Le Monde conclu\u00eda que \u00abraz\u00f5es para estar pessimista n\u00e3o faltam\u00bb, mas tudo continuou como se nada se tivesse passado. O sistema n\u00e3o tinha resposta para evitar o inevitavelmente cada vez mais pr\u00f3ximo e estrondoso rebentar da crise.<\/p>\n<p>Em Portugal, o PS completava o processo de fus\u00e3o ideol\u00f3gica com a direita e aprofundava a liga\u00e7\u00e3o ao grande capital financeiro: <em>Jotas<\/em> do PS e filhos de quadros daquele partido enxamearam os centros de decis\u00e3o das empresas monopolistas, particularmente do Grupo Esp\u00edrito Santo e das empresas onde o Estado ainda tinha participa\u00e7\u00f5es e <em>Golden Shares,<\/em> como a opera\u00e7\u00e3o \u00abFace Oculta\u00bb ilustrou at\u00e9 \u00e0 saciedade.<\/p>\n<p>Negando as evid\u00eancias, para S\u00f3crates a crise era um problema dos EUA e, dizia, em Portugal n\u00e3o era esperado mais do que uma ligeira turbul\u00eancia. Teixeira dos Santos, ministro das Finan\u00e7as do governo do PS, ainda dizia em 10 de Junho de 2008 \u00ab&#8230; <em>que h\u00e1 um ano atr\u00e1s todos esper\u00e1vamos que esta situa\u00e7\u00e3o e a incerteza que da\u00ed decorria se pudesse desvanecer mais rapidamente\u00bb<\/em>. Em Dezembro de 2008, apesar de j\u00e1 reconhecer a crise que tinha andado a negar, Jos\u00e9 S\u00f3crates afirmava irresponsavelmente que <em>\u00abas fam\u00edlias portuguesas podem esperar ter um melhor rendimento dispon\u00edvel em 2009, (\u2026) ganharem poder de compra\u00bb <\/em>!<\/p>\n<p>Em Portugal e no mundo, pol\u00edticos, jornalistas, comentadores, professores universit\u00e1rios e outros ep\u00edgonos do capitalismo, todos eles irmanados na salva\u00e7\u00e3o do sistema de explora\u00e7\u00e3o, diziam que esta era uma crise financeira provocada por falhas de supervis\u00e3o e banqueiros gananciosos.<\/p>\n<p>Mentiam conscientemente.<\/p>\n<p>Esta n\u00e3o \u00e9 e nunca foi uma crise financeira, embora tenha repercuss\u00f5es em todo o sector financeiro. Trata-se de uma grav\u00edssima crise de sobreprodu\u00e7\u00e3o e sobre-acumula\u00e7\u00e3o iniciada em 2007 que, um pouco por todo mundo embora a ritmos diferentes nos diversos pa\u00edses, tem maior incid\u00eancia nos pa\u00edses que gravitam mais dentro da \u00f3rbita do imperialismo norte-americano e est\u00e1 agora a conhecer uma nova e profunda fase de agravamento\u2026<\/p>\n<p>Na UE, nem a baixa da taxa de juro para 0,15% consegue atenuar a defla\u00e7\u00e3o que parece ter chegado com bilhete de longa dura\u00e7\u00e3o. A Fran\u00e7a entrou oficialmente em depress\u00e3o, a economia alem\u00e3 n\u00e3o arranca, a economia espanhola tamb\u00e9m marca passo, em It\u00e1lia o segundo trimestre do corrente ano, repito, foi o pior dos \u00faltimos 14 anos\u2026<\/p>\n<p>Em Portugal, de acordo com dados divulgados no dia 12 de Agosto do corrente ano pelo Banco de Portugal, o cr\u00e9dito mal-parado nos empr\u00e9stimos para habita\u00e7\u00e3o atingiu em Junho o novo m\u00e1ximo de 2.488 milh\u00f5es de euros, mais 168 milh\u00f5es de euros que no m\u00eas hom\u00f3logo do ano anterior, o que representa uma subida de 7,2%!, no que \u00e9 o \u00faltimo dos d\u00e9bitos que as fam\u00edlias deixam de pagar.<\/p>\n<p>Apesar desta realidade brutal e irrefut\u00e1vel, um ministro e deputados dos partidos governamentais repetiam no dia seguinte ao conhecimento da subida do cr\u00e9dito mal-parado para compra de habita\u00e7\u00e3o que o pior j\u00e1 l\u00e1 ia, pois a economia nos \u00faltimos 3 meses subiu 0,6%!<\/p>\n<p>\u201c<strong>N\u00e3o h\u00e1 alternativa\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Com a derrota da URSS e do sistema socialista europeu, o <em>mundo caiu em cima<\/em> da generalidade dos dirigentes do movimento comunista, oper\u00e1rio e sindical de classe, um pouco por todo o mundo, mas particularmente na Europa. As d\u00favidas surgiram: teria sido em v\u00e3o a luta de d\u00e9cadas?<\/p>\n<p>Dirigentes houve, nos diversos movimentos de classe, que n\u00e3o resistiram \u00e0 campanha, baixaram os bra\u00e7os e perderam a perspectiva de classe, sendo na Europa que se verificaram os maiores abandonos, recuos e tergiversa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A vaga de globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal, j\u00e1 em curso, intensificou-se e os partidos socialistas e social-democratas aceleraram o processo de fus\u00e3o ideol\u00f3gica com a direita.<\/p>\n<p>Com a globaliza\u00e7\u00e3o deu-se uma acelerada integra\u00e7\u00e3o de economias perif\u00e9ricas e semi-capitalistas (os tigres asi\u00e1ticos, a China\u2026) na economia global. Devido aos baixos sal\u00e1rios ali praticados deu-se uma enorme acumula\u00e7\u00e3o capitalista, o que agravou a sobreprodu\u00e7\u00e3o e o aumento desmedido da capacidade produtiva instalada, ao mesmo tempo que diminu\u00eda a capacidade de compra de bens, devido \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o real dos sal\u00e1rios para satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades nas economias do chamado primeiro mundo.<\/p>\n<p>Esta realidade levou a que a taxa de lucro das 500 maiores empresas transnacionais da lista da Fortune tivesse passado de 7,15%, entre os anos 60-69 do s\u00e9culo passado, para 2,29% tr\u00eas d\u00e9cadas depois e para 1,32% entre 2000 e 2002! Hoje, a maioria dos lucros das transnacionais prov\u00eam da especula\u00e7\u00e3o financeira e n\u00e3o da sua actividade produtiva ou comercial.<\/p>\n<p>Com a financeiriza\u00e7\u00e3o, o capitalismo encontrou a resposta para satisfazer a sua necessidade sist\u00e9mica de crescentes taxas de lucro e atenuar os efeitos da lei tendencial de redu\u00e7\u00e3o da taxa de lucro. A inevit\u00e1vel diminui\u00e7\u00e3o das taxas de lucro nos sectores criadores de riqueza, a par dos enormes montantes de dinheiro em circula\u00e7\u00e3o internacional, desencadearam uma espiral especulativa, aumentaram desmesuradamente a especula\u00e7\u00e3o financeira, o que foi facilitado pela falta de regula\u00e7\u00e3o e de supervis\u00e3o efectivas.<\/p>\n<p>O capitalismo n\u00e3o tem hoje receita para as crises que provoca.<\/p>\n<p>A imposi\u00e7\u00e3o da globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal n\u00e3o foi mais do que a \u00fanica sa\u00edda do imperialismo para satisfazer a sua necessidade imperiosa de manter a taxa de lucro.<\/p>\n<p>Recorrendo a uma poderos\u00edssima campanha de propaganda nos <em>media<\/em> j\u00e1 globalizados, domesticados e rendidos \u00e0 onda neoliberal, o imperialismo procurou impor a ideia, particularmente na Europa, de que a derrota da URSS e a do movimento oper\u00e1rio e sindical de classe que se lhe seguiu era um facto irrevers\u00edvel, ao mesmo tempo que negava o papel de vanguarda da classe oper\u00e1ria e da luta de classes no avan\u00e7o da Hist\u00f3ria, fazendo assim alastrar a ideia de irreversibilidade da situa\u00e7\u00e3o. Todos os dias os <em>media<\/em> noticiavam a queda do regime cubano no prazo m\u00e1ximo de uma semana e ridicularizavam o \u201c<em>S\u00ed, si puede\u201d<\/em> de Ra\u00fal Castro, pois n\u00e3o compreendiam a capacidade de realiza\u00e7\u00e3o de um povo determinado.<\/p>\n<p>A intensa campanha de propaganda nos <em>media<\/em> foi ampliada por uma profusa edi\u00e7\u00e3o de obras com vista \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de uma s\u00f3lida e <em>actualizada<\/em> base te\u00f3rica do capitalismo, de que <em>O fim da Hist\u00f3ria <\/em>de Francis Fukuyama foi apenas a mais badalada. Estas duas vertentes, campanha de propaganda e a cria\u00e7\u00e3o de uma base te\u00f3rica do capitalismo, procuravam ainda datar o marxismo-leninismo, diziam-no ultrapassado, com an\u00e1lises que nada tinham a ver com o tempo que se vivia, um tempo de <em>liberdade e empreendedorismo<\/em> como nunca o sistema capitalista tinha proporcionado.<\/p>\n<p>\u00abN\u00e3o h\u00e1 alternativa\u00bb tornou-se um <em>slogan<\/em> t\u00e3o repetido que Margaret Thatcher foi alcunhada de senhora TINA (\u00ab<em>There is no alternative\u00bb<\/em>).<\/p>\n<p>Particularmente na Europa, onde desde h\u00e1 muito se lan\u00e7avam algumas das bases te\u00f3ricas do que mais tarde se veio a chamar <em>eurocomunismo<\/em>, a direita ganhou esta batalha ideol\u00f3gica e a centralidade da classe oper\u00e1ria na luta de classes \u00e9 substitu\u00edda, pelo Partido Comunista Franc\u00eas, pela necessidade \u00abde reafirmar e desenvolver a pol\u00edtica (\u2026) para ganhar a maioria do povo franc\u00eas para a causa insepar\u00e1vel de uma democracia avan\u00e7ada e do socialismo\u00bb.<\/p>\n<p>A privatiza\u00e7\u00e3o de empresas estrat\u00e9gicas e monop\u00f3lios naturais, a retirada de regalias e direitos conquistados pelos trabalhadores ao longo de d\u00e9cadas, a baixa real e nominal dos sal\u00e1rios, a restri\u00e7\u00e3o e por vezes elimina\u00e7\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es sociais do Estado foram linhas de for\u00e7a das pol\u00edticas obrigat\u00f3rias da globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal.<\/p>\n<p>O Estado passou a ter como fun\u00e7\u00e3o principal carrear cada vez mais recursos financeiros e riqueza para o capital monopolista.<\/p>\n<p>O imperialismo n\u00e3o s\u00f3 transformou a supervis\u00e3o e a regula\u00e7\u00e3o do sistema financeiro em mera formalidade, como procedeu a uma redistribui\u00e7\u00e3o do Rendimento Dispon\u00edvel em favor da grande burguesia. Em Portugal, esta pol\u00edtica de redistribui\u00e7\u00e3o do Rendimento Nacional (RD) a favor da classe dominante, fez cair a percentagem dos sal\u00e1rios no RD, de 47,6% em 1973 (Marcelo Caetano) e de 59,5% em 1975 (Vasco Gon\u00e7alves at\u00e9 19 de Setembro), para 45,6% em 1983 (Pinto Balsem\u00e3o\/M\u00e1rio Soares) e para 40,6% em 2006 (Jos\u00e9 S\u00f3crates), n\u00fameros que revelam como entre n\u00f3s aumentou a taxa de explora\u00e7\u00e3o das classes trabalhadoras, mas tamb\u00e9m quem foram os seus principais respons\u00e1veis.<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o tenha dados dos \u00faltimos dois anos, a parte do RD distribu\u00eddo ao trabalho \u00e9 hoje seguramente inferior a 35%!<\/p>\n<p>Em Portugal, todos recordamos que M\u00e1rio Soares, quando \u00abmeteu o socialismo na gaveta\u00bb, tal como S\u00f3crates anos mais tarde com os PECs repetiam com fingida m\u00e1goa e encolhendo os ombros <em>o slogan:<\/em> \u00abn\u00e3o h\u00e1 alternativa\u00bb.<\/p>\n<p>Mas se a imposi\u00e7\u00e3o da globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal foi a \u00fanica sa\u00edda do imperialismo para responder \u00e0 lei tendencial de diminui\u00e7\u00e3o da taxa de lucro, tamb\u00e9m provocou uma acelera\u00e7\u00e3o da crise estrutural do capitalismo e as profundas crises de sobreprodu\u00e7\u00e3o e sobre-acumula\u00e7\u00e3o em que vivemos h\u00e1 sete anos.<\/p>\n<p>A chegada das crises e o medo das suas consequ\u00eancias, a incerteza no futuro, a par do recuo e divis\u00e3o do movimento oper\u00e1rio e revolucion\u00e1rio e o peso da superestrutura ideol\u00f3gica que a todos abafa vieram aprofundar um sentimento alargado de inalterabilidade que foi aproveitado pelos ep\u00edgonos do capitalismo para acentuar a difus\u00e3o da ideia que \u00abn\u00e3o h\u00e1 alternativa\u00bb.<\/p>\n<p>Claro que h\u00e1 alternativa.<\/p>\n<p>O neoliberalismo n\u00e3o \u00e9 nenhuma novidade nem alterou a realidade da sociedade de explora\u00e7\u00e3o do homem. \u00c9 apenas uma nova fase da evolu\u00e7\u00e3o do capitalismo, agora j\u00e1 na sua longa <em>idade senil <\/em>[1]. A sua imposi\u00e7\u00e3o, o dom\u00ednio do capital financeiro sobre o capital produtivo, s\u00f3 foi poss\u00edvel, atrav\u00e9s de um poderoso Estado de classe que, pelo seu forte car\u00e1cter classista, se demite das fun\u00e7\u00f5es de Estado social e retira direitos e regalias \u00e0 classe trabalhadora, ao mesmo tempo que se desdobra na cria\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es para a transfer\u00eancia de fundos do aparelho do Estado para o grande capital monopolista.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 a classe trabalhadora que n\u00e3o tem alternativa, \u00e9 o capital financeiro e monopolista que hoje n\u00e3o tem como superar as contradi\u00e7\u00f5es insan\u00e1veis do sistema e os problemas criados pelo capitalismo.<\/p>\n<p><strong>Novo banco, velhas pr\u00e1ticas: a golpada<\/strong><\/p>\n<p>O que sucedeu e tudo o mais que est\u00e1 para suceder com o Grupo Esp\u00edrito Santo (GES) e o Banco Esp\u00edrito Santo (BES) e os muitos milhares de milh\u00f5es de euros que v\u00e3o custar ao povo portugu\u00eas em trabalho, austeridade, desemprego e mis\u00e9ria faz parte do normal funcionamento do capitalismo, \u00e9 o resultado das pr\u00e1ticas delituosas dos her\u00f3is do sistema do capital. E nem vale a pena especular sobre a provabil\u00edssima hip\u00f3tese de ter havido uma acelerada fuga de capitais do GES e do BES, uma parte em benef\u00edcio do conjunto da fam\u00edlia e outra s\u00f3 em benef\u00edcio de Ricardo Salgado, o que explicaria as p\u00fablicas bulhas e zangas na fam\u00edlia. Esperemos, a verdade surgir\u00e1 a conta-gotas, e fiquemos desde j\u00e1 com a certeza que o mais desfavorecido dos membros da fam\u00edlia Esp\u00edrito Santo n\u00e3o vai viver para baixo de nenhuma ponte de abrigo e vai poder continuar a \u00abbrincar aos pobrezinhos\u00bb numa qualquer Comporta brasileira ou de um qualquer para\u00edso fiscal.<\/p>\n<p>Os problemas do GES e do BES eram h\u00e1 muito conhecidos de todos menos, a fazer f\u00e9 nas suas declara\u00e7\u00f5es, de quem tinha mais obriga\u00e7\u00e3o de os conhecer: o governador do Banco de Portugal, o governo e a troika! Como podiam n\u00e3o ter visto, se um particular em lit\u00edgio com Ricardo Salgado (Pedro Queiroz Pereira) contratou meia d\u00fazia de economistas e, meio ano depois, entrega um <em>dossier<\/em> ao Banco de Portugal com provas das maroscas no BES e no GES?<\/p>\n<p>E se n\u00e3o sabiam, o que \u00e9 que andaram a fazer no BES a troika, o governo e o Banco de Portugal?<\/p>\n<p>Quantas inspec\u00e7\u00f5es fizeram ao BES?<\/p>\n<p>Claro que viram e sabiam, mas iam l\u00e1 para n\u00e3o ver, que \u00e9 essa a sua fun\u00e7\u00e3o. \u00c9 por isso que tresanda a hipocrisia a surpresa pelo que aconteceu no GES e no BES e a <em>condena\u00e7\u00e3o<\/em> de Ricardo Salgado que agora fazem os anteriores encomiadores de servi\u00e7o. \u00c9, em ambos os casos, a necessidade de salvar o sistema e a sua enorme capacidade de recupera\u00e7\u00e3o, nem que para isso se tenha de condenar uma das suas mais reverenciadas personagens.<\/p>\n<p>Muita gente sabia e agiu em conformidade: o banco Goldman Sachs, por exemplo, vendeu 4 milh\u00f5es de ac\u00e7\u00f5es do BES antes da sua suspens\u00e3o na Bolsa.<\/p>\n<p>Com ou sem problemas, em Portugal, Ricardo Salgado \u00e9 uma das mais importantes personaliza\u00e7\u00f5es do capital, enquanto os quadros da troika, os membros do governo, o governador do Banco de Portugal apenas aspiram, atrav\u00e9s da presta\u00e7\u00e3o de bons e leais servi\u00e7os ao capital, transformarem-se em personaliza\u00e7\u00f5es subalternas associadas \u00e0s verdadeiras personaliza\u00e7\u00f5es do capital. Por isso, governo, troika e Banco de Portugal n\u00e3o podiam dizer que viam sem se negarem.<\/p>\n<p>Pode mesmo dizer-se que o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, <strong>j\u00e1 tem <\/strong><em><strong>curriculum<\/strong><\/em><strong> em n\u00e3o ver<\/strong>.<\/p>\n<p>Director-geral do BCP para a \u00e1rea internacional com o pelouro das sociedades sediadas em para\u00edsos fiscais (saiu em 2004), Carlos Costa foi respons\u00e1vel pela an\u00e1lise favor\u00e1vel enviada \u00e0 administra\u00e7\u00e3o para os avultados empr\u00e9stimos a sociedades daquele banco para compra de ac\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias, caso h\u00e1 pouco julgado em tribunal superior. Com esta folha de servi\u00e7o, como \u00e9 que o dr. Carlos Costa pode supervisionar a actua\u00e7\u00e3o de personaliza\u00e7\u00f5es do capital t\u00e3o poderosas como as que dirigiam o BES e o GES?<\/p>\n<p>Tudo o que levou ao colapso do BES e do GES torna-se mais compreens\u00edvel se tivermos presente uma realidade pouco tida em conta: <strong>\u00ab\u00c9 preciso compreender que o sistema capitalista \u00e9 amoral, tem de produzir resultados\u00bb <\/strong>(<strong>Ricardo<\/strong> Esp\u00edrito Santo Silva <strong>Salgado,<\/strong> em 26 de Fevereiro de 2011).<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos esquecer que o explicador, Ricardo Salgado, conhece como poucos o sistema de capital por dentro. As est\u00f3rias e a hist\u00f3ria da fam\u00edlia na actividade financeira t\u00eam 140 anos, pelo que pode dizer-se que Ricardo Salgado come\u00e7ou o seu conhecimento do capitalismo com o leite materno e culminou na presid\u00eancia do BES durante os \u00faltimos 22 anos.<\/p>\n<p>\u00c9 um <em>expert <\/em>do capitalismo!<\/p>\n<p>Segundo Jo\u00e3o Duque, na justifica\u00e7\u00e3o da atribui\u00e7\u00e3o a Ricardo Salgado do grau de <em>Doutor honoris causa<\/em> que apadrinhou, Ricardo Salgado \u00e9 <strong>\u00abum exemplo de lideran\u00e7a e de vis\u00e3o de quem conhece o neg\u00f3cio, tem as rela\u00e7\u00f5es nacionais e internacionais certas, que delas faz a gest\u00e3o sensata, e zela pelo ativo mais preciso da atividade banc\u00e1ria: a confian\u00e7a.\u00bb<\/strong> Uma pessoa <strong>\u00aba quem se reconhecem as j\u00e1 citadas qualidades de lideran\u00e7a em tranquilidade, de vis\u00e3o, de antecipa\u00e7\u00e3o, de decis\u00e3o em serenidade, de conhecimento t\u00e9cnico e capacidade de gest\u00e3o\u00bb.<\/strong><\/p>\n<p>Viu-se.<\/p>\n<p>Lamentavelmente, o Prof. Jo\u00e3o Duque nada disse sobre o mais importante atributo pessoal de quem quer que seja, a honestidade, e ao longo de tr\u00eas artigos no Expresso (26\/7, 2\/8 e 9\/8) apenas nos disse de interesse sobre o caso BES ter aprendido que <strong>\u00abcom o novo sistema desbravado pelo Banco Central, nasceu outro tipo de risco: o do esbulho do pequeno accionista, que a partir de agora tem(nho) de explicar aos (m)seus alunos\u00bb<\/strong>.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o n\u00e3o aprendeu nada sobre o papel do Estado numa sociedade de classes? Nem sobre a incapacidade da supervis\u00e3o? E sobre quem vai pagar os milhares de milh\u00f5es que v\u00e3o ser precisos para defender o sistema?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o n\u00e3o aprendeu que o Estado, numa sociedade de classes, \u00e9 uma estrutura de imposi\u00e7\u00e3o da defesa dos interesses da classe no poder? E n\u00e3o aprendeu que por isso mesmo a supervis\u00e3o dos instrumentos do capital monopolista numa sociedade capitalista \u00e9 uma inutilidade?<\/p>\n<p><strong>A necess\u00e1ria contra-ofensiva, <\/strong><\/p>\n<p><strong>o movimento oper\u00e1rio e <\/strong><\/p>\n<p><strong>o movimento comunista internacional <\/strong><\/p>\n<p>Se at\u00e9 h\u00e1 alguns anos a classe trabalhadora p\u00f4de conquistar importantes direitos, com a derrota da URSS e dos pa\u00edses europeus que se reclamavam da constru\u00e7\u00e3o do socialismo, a ofensiva neoliberal e a vit\u00f3ria ideol\u00f3gica da direita, j\u00e1 engrossada pela chegada incondicional dos partidos que se reclamavam do \u00absocialismo em liberdade\u00bb, verificou-se uma profunda mudan\u00e7a na correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as a n\u00edvel mundial e em todos e cada um dos pa\u00edses.<\/p>\n<p>Na sua fase de expans\u00e3o e com a press\u00e3o da exist\u00eancia da URSS e restantes pa\u00edses socialistas, e ainda devido \u00e0 elevada taxa de lucro, o capital teve condi\u00e7\u00f5es para permitir ceder algumas conquistas, particularmente no sector produtivo industrial, que iam sendo alargadas aos outros sectores. Hoje, com a crise estrutural do capitalismo num est\u00e1dio de muito maior desenvolvimento e as profundas crises de sobreprodu\u00e7\u00e3o e sobre-acumula\u00e7\u00e3o, todas conjugadas, <em>\u00ab<\/em><em>enfrentar at\u00e9 mesmo quest\u00f5es parciais com alguma esperan\u00e7a de \u00eaxito implica a necessidade de desafiar o sistema do capital como tal, pois em nossa pr\u00f3pria \u00e9poca hist\u00f3rica, quando a auto-expans\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais o meio prontamente dispon\u00edvel de fugir das dificuldades e contradi\u00e7\u00f5es que se acumulam (\u2026), o sistema de capital global \u00e9 obrigado a frustrar todas as tentativas de interfer\u00eancia, at\u00e9 mesmo as mais reduzidas nos seus par\u00e2metros estruturais<\/em>\u00bb, como nos diz Meszaros.<\/p>\n<p>O rebentar desta crise encontra a classe trabalhadora mais enfraquecida que antes da ofensiva neoliberal e da derrota da URSS e dos pa\u00edses europeus que se reclamavam da constru\u00e7\u00e3o do socialismo.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a guerra de 39\/45, fora do campo socialista, era na Europa que a classe oper\u00e1ria estava mais organizada e mostrava a sua for\u00e7a no confronto com a classe no poder. Mas a guerra n\u00e3o provocou apenas a enorme destrui\u00e7\u00e3o material de cidades e pa\u00edses, com particular destaque para a URSS, ela provocou tamb\u00e9m a perda de centenas de milhares de quadros comunistas na luta contra o nazi-fascismo, normalmente os mais determinados, o que teve consequ\u00eancias no Partido Comunista da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e na maioria dos partidos comunistas europeus.<\/p>\n<p>A intensa luta ideol\u00f3gica que se desenvolveu reflectiu esta realidade e teve consequ\u00eancias negativas na coes\u00e3o e unidade ideol\u00f3gica do movimento comunista internacional. O conflito sino-sovi\u00e9tico que se tornou p\u00fablico logo no in\u00edcio da d\u00e9cada de 60 foi de imediato aproveitado pelo partido italiano para se demarcar de qualquer das posi\u00e7\u00f5es e apresentar a posi\u00e7\u00e3o do PCI.<\/p>\n<p>Se no \u00abManifesto de Champigny\u00bb em 1968 se lan\u00e7avam em Fran\u00e7a algumas das bases te\u00f3ricas do que mais tarde veio a chamar-se eurocomunismo, em It\u00e1lia j\u00e1 tinha sido lan\u00e7ado postumamente o \u00abMemorial de Yalta\u00bb, escrito por Palmiro Togliatti em 1964:<\/p>\n<p><em>\u00ab\u2026 uma reflex\u00e3o mais profunda sobre o tema da possibilidade de uma via pac\u00edfica de acesso ao socialismo leva-nos a precisar o que \u00e9 que n\u00f3s entendemos por democracia num Estado burgu\u00eas, como se podem alargar os limites da liberdade e das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas e quais s\u00e3o as formas mais eficazes de participa\u00e7\u00e3o das massas oper\u00e1rias e trabalhadoras na vida econ\u00f3mica e pol\u00edtica. Surge assim a quest\u00e3o da possibilidade de conquistar posi\u00e7\u00f5es de poder, por parte das classes trabalhadoras, no \u00e2mbito de um Estado que n\u00e3o mudou a sua natureza de Estado burgu\u00eas e, portanto, a de se \u00e9 poss\u00edvel a luta por uma progressiva transforma\u00e7\u00e3o, a partir do interior dessa natureza\u00bb.<\/em><\/p>\n<p>Em It\u00e1lia, onde as vota\u00e7\u00f5es no PCI chegaram a ultrapassar os 30%, depois da formula\u00e7\u00e3o da \u00abdemocracia progressiva\u00bb no p\u00f3s-guerra sucedeu o per\u00edodo de \u00ab<em>aggiornamento\u00bb<\/em> para se passar \u00e0 tentativa de um \u00abcompromisso hist\u00f3rico\u00bb de gest\u00e3o do capitalismo com a Democracia Crist\u00e3, num quadro de imutabilidade do aparelho de Estado dominado pelo grande capital monopolista, onde a m\u00e1fia detinha uma posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o desdenh\u00e1vel. Logo no seu in\u00edcio ficou claro o que se pretendia com esta deriva ideol\u00f3gica:<\/p>\n<p><em>\u00abDemocracia progressiva significa profunda altera\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais, ou seja, das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o. \u00c9 o princ\u00edpio da propriedade que est\u00e1 em causa; n\u00e3o se colocam hoje quest\u00f5es de classe, n\u00e3o se fala hoje de alian\u00e7as de classe; hoje fala-se da fraternidade do povo, luta-se por todo o povo; fora com a clique capitalista, fora com a clique monopolista e da grande ind\u00fastria. \u00c9 o povo quem deve estar no comando, s\u00e3o o campon\u00eas e o pequeno propriet\u00e1rio de terra quem deve receber os lucros do seu trabalho, s\u00e3o o prolet\u00e1rio e o pequeno propriet\u00e1rio industrial quem deve tomar o lugar do monopolista\u00bb<\/em>.<\/p>\n<p>Em Fran\u00e7a, um documento aprovado numa reuni\u00e3o de dois dias do CC do Partido Comunista Franc\u00eas \u2013 5 e 6 de Dezembro de 1968 \u2013 foi a primeira e bem estruturada pe\u00e7a te\u00f3rica de um longo processo reformista, cujo objectivo era a chegada do partido ao governo atrav\u00e9s das estruturas da democracia burguesa sem destruir o aparelho de Estado que servia o capital monopolista. Desde logo conhecido como o \u00abManifesto Champigny\u00bb, nele se defende \u00aba substitui\u00e7\u00e3o <em>do poder gaulista dos monop\u00f3lios por uma democracia pol\u00edtica e econ\u00f3mica avan\u00e7ada, que abra a via do socialismo\u00bb.<\/em> Tudo isto sem uma \u00fanica palavra para a necessidade de destruir e substituir o Estado burgu\u00eas.<\/p>\n<p>Em Espanha, \u00e0 semelhan\u00e7a da \u00abvia italiana para o socialismo\u00bb, Santiago Carrillo elabora a \u00abpol\u00edtica de reconcilia\u00e7\u00e3o nacional\u00bb que, mais tarde, conduziu \u00e0 assinatura do \u00abPacto de Moncloa\u00bb pelo PCE, ao mesmo tempo que descartava o passado de luta armada. A via err\u00e1tica imposta por Carrillo, logo a partir da sua elei\u00e7\u00e3o como Secret\u00e1rio-geral, em Janeiro de 1960, originou o abandono e a expuls\u00e3o de in\u00fameros quadros do partido.<\/p>\n<p>N\u00e3o admira por isso que, pouco antes do 25 de Abril, se vendesse livremente em Lisboa com profusa exposi\u00e7\u00e3o nas montras o \u00abDepois de Franco, o qu\u00ea?\u00bb de Santiago Carrillo. Era uma cunha na coes\u00e3o ideol\u00f3gica do movimento comunista internacional, as posi\u00e7\u00f5es a\u00ed expostas n\u00e3o se distinguiam das da social-democracia.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 seguramente uma curiosidade registar que, no in\u00edcio desta mesma \u00e9poca, em 1967, \u00c1lvaro Cunhal reafirmava a import\u00e2ncia das teses leninistas sobre o Estado e lan\u00e7ava A Quest\u00e3o do Estado, Quest\u00e3o Central de Cada Revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o \u00e9 um acaso que hoje, na Europa, apenas o Partido Comunista Portugu\u00eas, o Partido Comunista da Gr\u00e9cia, o Partido Comunista Checo e o AKEL (Chipre) mant\u00e9m influ\u00eancia clara nos seus pa\u00edses, embora com diverg\u00eancias claras nos seus programas e actua\u00e7\u00f5es. Dos tr\u00eas maiores partidos comunistas da Europa n\u00e3o socialista no p\u00f3s-guerra, um desapareceu \u2013 o PCI em It\u00e1lia \u2013, outro tem uma presen\u00e7a residual \u2013 PCF em Fran\u00e7a \u2013 e o terceiro dissolveu-se numa organiza\u00e7\u00e3o unit\u00e1ria insignificante \u2013 o PCE em Espanha.<\/p>\n<p>Tudo isto em nome de hipot\u00e9ticas \u00abparticularidades nacionais\u00bb para responder \u00e0s quais encontravam formula\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias a algumas das principais teses do marxismo-leninismo.<\/p>\n<p>A teoria ensina-nos e a pr\u00e1tica j\u00e1 o comprovou sobejamente que a participa\u00e7\u00e3o em governos da burguesia n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o contribui para a constru\u00e7\u00e3o do socialismo, como corr\u00f3i, at\u00e9 \u00e0 sua destrui\u00e7\u00e3o como organiza\u00e7\u00f5es de classe, os partidos que a essa experi\u00eancia se sujeitam.<\/p>\n<p>A pretens\u00e3o de chegar ao governo sem ruptura revolucion\u00e1ria e sem a destrui\u00e7\u00e3o do Estado burgu\u00eas e a sua substitui\u00e7\u00e3o por um Estado ao servi\u00e7o da nova classe no poder \u00e9 a \u00abma\u00e7\u00e3-de-Ad\u00e3o\u00bb do revisionismo comunista \u2013 o seu pecado original.<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p>[1] O conceito de capitalismo senil foi elaborado nos anos 70 por Roger Dangeville (\u201cMarx-Engels. La crise\u201d, editions 10\/18, Paris 1978) e retomado por Jorge Beinstein, em 2001 e Samir Amin em 2002<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, Jorge Beinstein definiu-o por 5 indicadores:<\/p>\n<ul>\n<li>\n<p>A decad\u00eancia dos Estados Unidos da Am\u00e9rica;<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p>A interac\u00e7\u00e3o entre a hipertrofia financeira global e a desacelera\u00e7\u00e3o da economia mundial no longo prazo:<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p>O bloqueio tecnol\u00f3gico;<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p>A degrada\u00e7\u00e3o estatal-militar; e<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p>A crise urbana desencadeada pela era neoliberal e que se agravar\u00e1 exponencialmente.<\/p>\n<\/li>\n<\/ul>\n<p>Praia da Vieira, 26 de Agosto de 2014.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nJos\u00e9 Paulo Gasc\u00e3o\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6672\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-6672","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1JC","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6672","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6672"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6672\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6672"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6672"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6672"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}