{"id":668,"date":"2010-07-21T05:35:53","date_gmt":"2010-07-21T05:35:53","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=668"},"modified":"2010-07-21T05:35:53","modified_gmt":"2010-07-21T05:35:53","slug":"teoria-da-politica-externa-dos-eua-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/668","title":{"rendered":"Teoria da pol\u00edtica externa dos EUA \u2013 I"},"content":{"rendered":"\n<p>A pol\u00edtica externa dos Estados Unidos tem gerado derrotas h\u00e1 bem mais de uma d\u00e9cada mas nunca a um ritmo t\u00e3o r\u00e1pido e furioso como durante os \u00faltimos meses [NR: escrito em 1960].<\/p>\n<p>Qual \u00e9 a reac\u00e7\u00e3o da classe dominante americana a este fracasso constante e generalizado da pol\u00edtica externa? Poder-se-ia esperar uma acumula\u00e7\u00e3o de cr\u00edticas e um apoio crescente a pol\u00edtica ou pol\u00edticas alternativas. Mas olha-se em v\u00e3o por qualquer coisa desta esp\u00e9cie nos Estados Unidos de hoje. Estamos em meio a uma campanha eleitoral, a qual d\u00e1 a todos os l\u00edderes pol\u00edticos de ambos os partidos muitas oportunidades para expor ao p\u00fablico os seus pontos de vista. Tanto quanto sabemos, nenhum deles exprimiu qualquer cr\u00edtica dos fundamentos da pol\u00edtica americana ou prop\u00f4s que fosse mudada em qualquer aspecto importante.<\/p>\n<p>Como explicar isto? Como explicar o facto de que a resposta virtualmente un\u00e2nime da classe dominante americana \u00e9 uma evas\u00e3o a qualquer an\u00e1lise s\u00e9ria das causas e uma ades\u00e3o teimosa \u00e0s mesmas pol\u00edticas que no passado conduziram constantemente ao fracasso?<\/p>\n<p>Sem dar respostas completas a estas quest\u00f5es, <strong>[1]<\/strong> podemos no entanto expor algumas considera\u00e7\u00f5es relevantes.<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, \u00e9 crucialmente importante reconhecer que a pol\u00edtica externa \u00e9 modelada e dominada por interesses de classe internos. Isto \u00e9 verdade para os Estados Unidos de hoje assim como o foi para o Imp\u00e9rio Romano ou a Fran\u00e7a de Lu\u00eds XIV. Em alguns pa\u00edses, em certos momentos, a estrutura de classe e o padr\u00e3o de interesses reflectido na pol\u00edtica externa apresenta um puzzle mais ou menos complicado. Isto foi verdadeiro, por exemplo, nos Estados Unidos dos meados do s\u00e9culo XIX quando o pa\u00eds inclu\u00eda duas formas contradit\u00f3rias de sociedade a lutarem pelo controle do governo nacional, cada uma com a sua pr\u00f3pria estrutura de classe e suas necessidades particulares na \u00e1rea da pol\u00edtica externa. Tamb\u00e9m foi verdadeiro, para dar outro exemplo, na Alemanha Imperial no meio s\u00e9culo que antecedeu a I Guerra Mundial, aquela conjuga\u00e7\u00e3o \u00fanica de feudalismo e capitalismo que era levada por uma rigorosa l\u00f3gica interna a antagonizar tanto a R\u00fassia a Leste como a Inglaterra a Oeste e portanto a garantir a sua pr\u00f3pria derrocada final.<\/p>\n<p><strong> WELFARE OU WARFARE <\/strong><\/p>\n<p>Os Estados Unidos de hoje, em compara\u00e7\u00e3o, s\u00e3o um caso muito mais simples. O pa\u00eds \u00e9 dominado totalmente pelo capitalismo monopolista, pois os remanescentes de formas sociais anteriores (particularmente a classe agr\u00edcola independente) s\u00e3o em grande medida destitu\u00eddos de poder. O estado normal de uma sociedade avan\u00e7ada no capitalismo monopolista \u2013 no sentido da norma rumo \u00e0 qual ela tende sempre \u2013 \u00e9 a depress\u00e3o cr\u00f3nica. Os Estados Unidos atingiram esta etapa do desenvolvimento em algum momento entre 1910 e 1930, com a norma tornando-se realidade na d\u00e9cada de 1930. A depress\u00e3o cr\u00f3nica n\u00e3o \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o vi\u00e1vel, sendo contra os interesses tanto dos capitalistas como dos trabalhadores. Ela pode ser ultrapassada (mas n\u00e3o eliminada como tend\u00eancia) s\u00f3 e exclusivamente atrav\u00e9s de um sector p\u00fablico amplo e em crescimento firme. Teoricamente, este sector p\u00fabico pode assumir tanto uma forma &#8220;welfare&#8221; (estado previd\u00eancia) ou uma forma &#8220;warfare&#8221; (estado guerreiro). Mas um amplo e crescente programa de previd\u00eancia contraria os interesses de uma classe dirigente privilegiada, uma vez que necessariamente implica um programa cumulativo de reforma social, a eros\u00e3o de direitos e privil\u00e9gios especiais, etc. Um vasto e crescente programa de guerra, por outro lado, n\u00e3o s\u00f3 &#8220;resolve&#8221; o problema econ\u00f3mico do capitalismo monopolista como tamb\u00e9m ajuda a preservar intacta a estrutura de classe existente com o seu sistema graduado de classifica\u00e7\u00e3o, status e privil\u00e9gio. Al\u00e9m disso, e isto \u00e9 da m\u00e1xima import\u00e2ncia, o poder militar que cria \u00e9 essencial para a manuten\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio econ\u00f3mico \u00e0 escala mundial, o qual proporciona ao capitalismo monopolista as indispens\u00e1veis (e altamente lucrativas) mat\u00e9rias-primas, mercados e sa\u00eddas de investimentos. A classe dominante portanto tem todo o interesse em fazer com que o necess\u00e1rio sector p\u00fablico seja um sector guerreiro (warfare). A classe trabalhadora, embora naturalmente os seus interesses objectivos fossem melhor servidos por um sector previd\u00eancia (welfare), prefere o sector warfare ao desemprego em massa e \u2013 a julgar pela experi\u00eancia at\u00e9 \u00e0 data \u2013 pode ser persuadida em massa de forma relativamente f\u00e1cil a aceitar isto como um dever patri\u00f3tico.<\/p>\n<p>Portanto vemos que no caso da Am\u00e9rica de meados do s\u00e9culo XX a investida dos interesses de classe internos imperativamente requer a guerra fria e a corrida \u00e0s armas, e torna-se tarefa prim\u00e1ria da pol\u00edtica externa proporcionar a justifica\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>Observ\u00e1mos anteriormente que a resposta quase un\u00e2nime da classe dominante a esta deteriora\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o mundial da Am\u00e9rica tem sido n\u00e3o o questionar da pol\u00edtica que levou a isto mas, ao inv\u00e9s, insistir em que \u00e9 necess\u00e1rio mais empenho em aplicar aquela pol\u00edtica. A an\u00e1lise precedente permite-nos explicar este paradoxo aparente. At\u00e9 agora, o decl\u00ednio dos Estados Unidos como pot\u00eancia mundial tem tido apenas repercuss\u00f5es menores sobre a economia interna e portanto deixou imperturbado o padr\u00e3o de interesses de classe que determina a pol\u00edtica externa. Enquanto isto permanecer verdadeiro n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para esperar nem uma mudan\u00e7a na pol\u00edtica externa nem uma interrup\u00e7\u00e3o no processo de decl\u00ednio.<\/p>\n<p>Neste ponto devemos desviar por um momento do ponto principal para responder a uma poss\u00edvel objec\u00e7\u00e3o. Pode ser afirmado que a nossa teoria deixa de fora um factor importante, que ao determinar suas ac\u00e7\u00f5es as pessoas podem e levam em conta n\u00e3o s\u00f3 a situa\u00e7\u00e3o imediata que as confronta como tamb\u00e9m tend\u00eancias e prov\u00e1veis situa\u00e7\u00f5es futuras. N\u00e3o ser\u00e1 um mist\u00e9rio a raz\u00e3o por que a classe dominante americana n\u00e3o s\u00f3 nada faz para conter a deteriora\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o mundial dos Estados Unidos como realmente intensifica as pol\u00edticas que s\u00e3o respons\u00e1veis pela deteriora\u00e7\u00e3o? A resposta, parece-nos, depende da caracter\u00edstica mais fundamental de uma sociedade burguesa (ou de qualquer outra sociedade baseada na propriedade privada), nomeadamente que a preocupa\u00e7\u00e3o predominante de cada indiv\u00edduo \u00e9 e deve ser cuidar dos seus pr\u00f3prios interesses o melhor que puder. O que acontece \u00e0 sociedade toda \u00e9 a resultante de um n\u00famero infinito de ac\u00e7\u00f5es individuais em causa pr\u00f3pria. A mentalidade dos membros de tal sociedade (al\u00e9m das classes ou grupos revolucion\u00e1rios, se houver) \u00e9 completamente dominada por esta disposi\u00e7\u00e3o. Cada um identifica o interesse p\u00fablico com o seu pr\u00f3prio interesse privado e portanto n\u00e3o tem inibi\u00e7\u00f5es ou sentimentos de culpa acerca da promo\u00e7\u00e3o dos seus pr\u00f3prios interesses privados mesmo se chegar a ocupar uma posi\u00e7\u00e3o governamental arcando com o dever de servir toda a sociedade. <strong>[2]<\/strong> N\u00e3o existe nada em tudo isto que impe\u00e7a o indiv\u00edduo de antecipar e planear seus neg\u00f3cios privados de forma a levar em conta o antecipado bem como situa\u00e7\u00f5es reais, mesmo que isto signifique algum sacrif\u00edcio no presente. Mas isto n\u00e3o significa que indiv\u00edduos n\u00e3o possam antecipar-se e aproveitar-se ou procurar impor sobre outros os sacrif\u00edcios do presente em troca de um antecipado benef\u00edcio futuro para o grupo. Esta \u00e9 a raz\u00e3o porque numa sociedade capitalista a previs\u00e3o colectiva e o planeamento antecipado s\u00e3o poss\u00edveis s\u00f3 na medida em que envolvam sacrif\u00edcios insignificantes no presente e benef\u00edcios finais para todos ou quase todos os indiv\u00edduos que contam (isto \u00e9, possuidores de propriedade). Se os sacrif\u00edcios no presente forem substanciais e os benef\u00edcios no futuro forem colectivos, nenhuma ac\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. A mentalidade burguesa, por outras palavras, \u00e9 t\u00e3o condicionada que nunca pode transcender o horizonte dos interesses individuais. Quando uma dada situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica parece apelar a um tal esfor\u00e7o, a resposta \u00e9 um recurso a racionaliza\u00e7\u00f5es as quais, se bem que distorcendo a realidade, proporcionam a justifica\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para atitudes e ac\u00e7\u00f5es que possam passar no teste do interesse privado.<\/p>\n<p>Esta an\u00e1lise explica uma das coisas mais \u00f3bvias e ainda assim desconcertantes acerca da sociedade capitalista, a qual nunca pode actuar antecipadamente para impedir uma crise, n\u00e3o importa qu\u00e3o previs\u00edvel possa ser, mas deve sempre esperar e actuar depois de a crise ter ocorrido. Centenas de ilustra\u00e7\u00f5es desta proposi\u00e7\u00e3o poderiam ser mencionadas, mas basta uma. Soci\u00f3logos urbanos e planeadores de cidades s\u00e3o quase un\u00e2nimes em dizer-nos que os nossos grandes centros metropolitanos caminham para a paralisia e que as pol\u00edticas de transportes dos dias actuais est\u00e3o a acelerar o dia do desastre. E ainda assim nenhumas contra-medidas efectivas s\u00e3o tomadas e \u00e9 seguro prever que nenhuma o ser\u00e1 at\u00e9 que interesses privados decisivos sejam imediata e esmagadoramente amea\u00e7ados. Sugerimos que precisamente o mesmo princ\u00edpio se aplica no campo dos assuntos internacionais. Uma pol\u00edtica externa que repousa sobre interesses privados est\u00e1 a precipitar o decl\u00ednio e a queda dos Estados Unidos como pot\u00eancia mundial. Nada ser\u00e1 feito quanto a isto, contudo, a menos e at\u00e9 que aqueles mesmos interesses privados comecem a ser prejudicados ao inv\u00e9s de beneficiados.<\/p>\n<p>Qu\u00e3o logo e por que meios podemos esperar que a deteriora\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o mundial da Am\u00e9rica comece a ter efeitos adversos s\u00e9rios sobre a economia americana? E quais as formas que estes efeitos adversos provavelmente tomar\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p>1- Elas podem ser uma preocupa\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria de cientistas sociais profissionais, mas n\u00e3o s\u00e3o. A raz\u00e3o \u00e9 que cientistas sociais neste pa\u00eds hoje s\u00e3o dependentes de universidades e funda\u00e7\u00f5es as quais por sua vez est\u00e3o sob o controle directo e estreito de representantes aut\u00eanticos dos interesses e da ideologia da classe dominante. Os cientistas sociais s\u00e3o tratados generosamente e permite-se-lhes que fa\u00e7am o que quiserem, mas com uma condi\u00e7\u00e3o, nomeadamente de afastarem-se de qualquer tentativa de uma an\u00e1lise cr\u00edtica da sociedade americana. H\u00e1 excep\u00e7\u00f5es, naturalmente, mas elas s\u00e3o todas daquelas que confirmam a regra.<\/p>\n<p>2- Recordar a formula\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica de Charlie Wilson: &#8220;O que \u00e9 bom para a General Motors \u00e9 bom para os Estados Unidos&#8221;.<\/p>\n<p><strong>[*] Paul M. Sweezy (1910-2004): economista marxista e fundador da <a href=\"http:\/\/www.monthlyreview.org\/\" target=\"_new\"> <em>Monthly Review<\/em><\/a> . Leo Huberman (1903-1068): marxista americano, co-fundador e co-editor da MR. O texto acima \u00e9 um excerto da &#8220;Revis\u00e3o do m\u00eas&#8221; publicada no n\u00famero de Setembro de 1960 da MR. <\/strong><\/p>\n<p><strong> O original encontra-se em <a href=\"http:\/\/mrzine.monthlyreview.org\/2010\/hs120710.html\" target=\"_new\"> http:\/\/mrzine.monthlyreview.org\/2010\/hs120710.html<\/a> <\/strong><\/p>\n<p><strong>Este artigo encontra-se em http:\/\/www.resistir.info\/mreview\/sweezy_huberman_1960.html<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Resistir.info\n\n\n\n\n\n\n\n\n Leo Huberman e Paul M. 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