{"id":6682,"date":"2014-09-11T05:09:03","date_gmt":"2014-09-11T05:09:03","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6682"},"modified":"2014-09-11T05:09:03","modified_gmt":"2014-09-11T05:09:03","slug":"is-uma-variante-fundamentalista-fora-de-controle-ou-um-elemento-da-estrategia-do-ocidente-no-oriente-medio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6682","title":{"rendered":"IS: uma variante fundamentalista fora de controle ou um elemento da estrat\u00e9gia do Ocidente no Oriente M\u00e9dio?"},"content":{"rendered":"\n<p>O v\u00eddeo com a brutal degola\u00e7\u00e3o dos jornalistas estadunidenses James Foley e Steven Sotloff, realizada friamente pelo carrasco do IS, \u201cJohn\u201d, permitiu \u00e0s \u201cexcel\u00eancias\u201d da Casa Branca voltarem ao cen\u00e1rio do Oriente M\u00e9dio para impedir que poss\u00edveis modifica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e territoriais possam afetar o papel geoestrat\u00e9gico de Israel, da Ar\u00e1bia Saudita e da Turquia. Pa\u00edses que representam a base de sustenta\u00e7\u00e3o da geopol\u00edtica dos Estados Unidos e dos interesses das transnacionais no Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n<p>Foi nesse \u00e2mbito que o presidente dos EUA, Barack Obama, no primeiro dia da reuni\u00e3o dos chefes de Estado dos pa\u00edses da OTAN, realizada na cidade brit\u00e2nica de Newport, promoveu a forma\u00e7\u00e3o de uma alian\u00e7a internacional que, na realidade, se parece mais uma \u201ccruzada do Ocidente\u201d contra o mundo isl\u00e2mico, personificado \u201cad hoc\u201d pelo IS (Estado Isl\u00e2mico), que antes era o Califado do Iraque e do Levante chamado ISIL. Em Newport, Obama salientou que &#8220;<em>finalmente a OTAN ir\u00e1 definir as novas miss\u00f5es estrat\u00e9gicas nas frentes da Ucr\u00e2nia, da S\u00edria e do Iraque, onde a seguran\u00e7a do Ocidente foi amea\u00e7ada<\/em>\u201d. Para depois admitir: \u201c<em>o ISIL \u00e9 uma perigosa amea\u00e7a para todos e na OTAN estamos devidamente convencidos de que chegou a hora de enfraquecer e destruir o ISIL<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Uma cruzada que permitir\u00e1 aos governos dos pa\u00edses da OTAN legitimar a participa\u00e7\u00e3o das respectivas for\u00e7as a\u00e9reas nas miss\u00f5es de reconhecimento, de bombardeio a tapete, bem como nos ataques ao sol com drones, em diferentes regi\u00f5es do Iraque e da S\u00edria a partir das bases militares da Turquia, da Jord\u00e2nia, da Ar\u00e1bia Saudita e do Kuwait. De fato, o Secret\u00e1rio do Departamento de Estado dos EUA, John Kerry, foi expl\u00edcito em afirmar: \u201c<em>devemos formar uma coaliz\u00e3o mais ampla poss\u00edvel sem, por\u00e9m, intervir com unidades de infantaria, atacando o IS com a for\u00e7a a\u00e9rea, tendo por objetivo impedir que ampliem suas posi\u00e7\u00f5es. Por isso, devemos tamb\u00e9m refor\u00e7ar as for\u00e7as armadas iraquianas e, tamb\u00e9m, os curdos que est\u00e3o dispostos em combater o IS<\/em>&#8220;.<\/p>\n<p><strong>Guerra sem prisioneiros?<\/strong><\/p>\n<p>A resposta a esse quesito a encontramos nas frases proferidas em Newport, primeiro pelo presidente Obama e depois pelo Secret\u00e1rio do Departamento de Estado, John Kerry. De fato, o presidente preferiu recorrer aos chav\u00f5es eleitorais (\u201c<em>devemos criar uma alian\u00e7a para enfraquecer e destruir o ISIS<\/em>\u201d), enquanto Kerry, talvez mais realista, falou sobretudo em limitar o poder do IS <em>(\u201cimpedir que eles ampliem suas posi\u00e7\u00f5es<\/em>\u201d).<\/p>\n<p>Para muitos analistas, a posi\u00e7\u00e3o de John Kerry faz supor que por debaixo do tapete existe um plano \u201cB\u201d que, em troca da paz, prev\u00ea uma redefini\u00e7\u00e3o territorial no Iraque e na S\u00edria, onde o IS poder\u00e1 existir em um territ\u00f3rio de quase 90.000 quil\u00f4metros quadrados e com uma popula\u00e7\u00e3o sunita de quase oito milh\u00f5es de pessoas, distribu\u00eddas na regi\u00e3o iraquiana de Al Anbar e nas regi\u00f5es s\u00edrias de Day As Zawr, Al Hasakah e parte de Ar Raqqah. Regi\u00f5es com muitas reservas de g\u00e1s e de petr\u00f3leo e por onde transitam os oleodutos e gasodutos dos dois pa\u00edses para a Turquia.<\/p>\n<p>Esta conjectura pol\u00edtica tem como base a an\u00e1lise etimol\u00f3gica das afirma\u00e7\u00f5es de Obama, que se refere apenas ao ISIL, a antiga sigla do movimento jihadista de Abu Bakr Al Baghdadi, cujo objetivo era a cria\u00e7\u00e3o de um Califado sem uma defini\u00e7\u00e3o territorial espec\u00edfica. Por sua parte, John Kerry usa o termo IS, isto \u00e9, Estado Isl\u00e2mico, que o seu fundador, Abu Bakr Al Baghdadi, proclamou ap\u00f3s a conquista da regi\u00e3o central do Iraque, Al Anbar, quase nos limiares das cidades de Mossul e de Kirkut, j\u00e1 em territ\u00f3rio curdo.<\/p>\n<p>Seguindo essa l\u00f3gica, o IS poderia ser interpretado como o novo Estado Isl\u00e2mico dos sunitas iraquianos e s\u00edrios. Um Estado que os estrategistas do Pent\u00e1gono, bem como os fieis e ricos aliados do Golfo (Ar\u00e1bia Saudita, Qatar, Kuwait, Emirados \u00c1rabes Unidos e Bahrein), sempre acharam necess\u00e1rio para reduzir a hegemonia do Ir\u00e3, minimizar a for\u00e7a dos xiitas no Iraque e no Oriente M\u00e9dio e, consequentemente, contribuir na derrota do regime alau\u00edta de Bashar al-Assad na S\u00edria.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, no passado, isto \u00e9, durante os oito anos da ocupa\u00e7\u00e3o estadunidense do Iraque, o projeto de criar um estado sunita foi rejeitado por duas vezes pelos chefes da ent\u00e3o APC (Autoridade Provis\u00f3ria da Coliga\u00e7\u00e3o), Paul Bremen e depois David Petraeus, que de forma decisiva desaconselharam a cria\u00e7\u00e3o de um Estado sunita em fun\u00e7\u00e3o dos acordos que haviam feito com as lideran\u00e7as da maioria xiita, desde sempre contr\u00e1rias em dividir o poder com os sunitas e tampouco dar-lhes mais autonomia pol\u00edtica ou permitir o surgimento do pr\u00f3prio Estado sunita. Ali\u00e1s, o general George Casey, comandante das for\u00e7as multinacionais no Iraque, em agosto de 2006, alertava o presidente Bush que, caso o governo estadunidense tivesse implementado a forma\u00e7\u00e3o de um Estado sunita no Iraque, a maioria xiita \u2013 que representa 62% da popula\u00e7\u00e3o, 18 milh\u00f5es de pessoas \u2013 teria realizado uma insurrei\u00e7\u00e3o geral em Bagd\u00e1 e no sul do pa\u00eds, com a explos\u00e3o de uma sangrenta guerra civil. Por isso tudo, a Casa Branca optou pela solu\u00e7\u00e3o mais segura, que lhe permitisse sair do Iraque em 2011, ap\u00f3s oito anos de sangrenta ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entretanto, o elemento mais controverso disso tudo \u00e9 a maneira como o presidente do EUA, Barack Obama, pretende \u201cdestruir o ISIL\u201d, usando, apenas, os bombardeios a tapete e os ataques dirigidos pelos drones, que na realidade s\u00e3o, apenas, uma componente estrat\u00e9gica no planejamento de uma opera\u00e7\u00e3o de guerra de alto n\u00edvel. De fato, a hist\u00f3ria mais recente dos ataques do ex\u00e9rcito sionista contra as posi\u00e7\u00f5es do Hamas em Gaza demonstra, sem sombra de d\u00favidas, que o potencial b\u00e9lico das brigadas do Hamas ser\u00e1 aniquilado somente quando os batalh\u00f5es das tropas especiais israelenses, apoiados pela for\u00e7a a\u00e9rea, puderem varrer, devidamente, todas as casas, todos os t\u00faneis, todos os bairros, todas as fazendolas &#8211; enfim, quando todo o territ\u00f3rio de Gaza for \u201cpeneirado\u201d pelos soldados israelenses. Uma opera\u00e7\u00e3o que, na realidade, n\u00e3o \u00e9 simples e que implica o risco de sofrer muitas baixas por causa do que os militares chamam \u201cEfeito Stalingrado\u201d.<\/p>\n<p>Um risco que os generais do ex\u00e9rcito sionista n\u00e3o quiseram correr mais ap\u00f3s a morte de dois oficiais e de 46 soldados. De fato, entrar nos arredores de Gaza City significa perder a imagem da invencibilidade que, em termos pol\u00edticos e diplom\u00e1ticos, permite ao governo sionista de Benjamin Netanyahu atacar Gaza e os palestinos quando e como quer.<\/p>\n<p>O mesmo aconteceu na S\u00edria, onde a cidade de Homs, apesar dos intensos bombardeios a\u00e9reos, foi libertada pelos soldados do ex\u00e9rcito regular s\u00edrio somente ap\u00f3s dois anos de duros combates urbanos. Portanto, se os bombardeios dos F-16 estadunidenses e brit\u00e2nicos permitiram aos combatentes curdos (peshmergas) retomar a barragem e a cidade de Mossul, tamb\u00e9m resultou evidente que os combatentes do IS conseguiram se recompactar para al\u00e9m da localidade de Tal Kayf, consolidando assim a nova fronteira do IS, anunciada em julho por Abu Bakr Al Baghdadi.<\/p>\n<p>Nessa cruzada, a m\u00eddia ocidental tem um papel fundamental, do momento que caber\u00e1 \u00e0 CNN, Fox, BBC, Reuters, AFP, RAI etc. manipularem as informa\u00e7\u00f5es para tranquilizar os ouvintes europeus e estadunidenses. De fato, \u00e9 nessa l\u00f3gica que jornais, revistas e TVs come\u00e7aram a enfatizar o uso massivo do potencial b\u00e9lico dos pa\u00edses da OTAN, juntamente da reorganiza\u00e7\u00e3o dos peshmergas curdos em molde de ex\u00e9rcito regular e o fornecimento de mais armas para o ex\u00e9rcito do Iraque.<\/p>\n<p>O verdadeiro problema disso tudo \u00e9 saber em que medida e at\u00e9 quando as opera\u00e7\u00f5es militares continuar\u00e3o. Ser\u00e1 uma guerra rel\u00e2mpago ou se instalar\u00e1 um conflito de posi\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Um questionamento que muitos gostariam de fazer a Barack Obama, no momento em que os 96 \u201craids\u201d realizados pelos ca\u00e7as-bombardeiros dos EUA, no m\u00eas de agosto, bloquearam o avan\u00e7o triunfal das brigadas do IS em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 capital Bagd\u00e1, por\u00e9m, n\u00e3o impediram consolida\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a militar do IS no interior da regi\u00e3o iraquiana de Al Anbar. Uma regi\u00e3o onde as tribos de bedu\u00ednos sunitas (os n\u00f4mades e os fellahin, agricultores) s\u00e3o quase cinco milh\u00f5es de pessoas que, agora, apoiam os combatentes do IS, tamb\u00e9m em virtude da renda mensal que o IS ofereceu aos chefes tribais. Por isso, as manobras diplom\u00e1ticas e as batalhas campais que se realizar\u00e3o nos meses de outubro e novembro ser\u00e3o decisivas para averiguar como a opini\u00e3o p\u00fablica dos pa\u00edses ocidentais e do mundo \u00e1rabe reagir\u00e1 diante dos efeitos militares dessa \u201cguerra sem prisioneiros\u201d, desejada e imposta pelos Estados Unidos e os pa\u00edses da OTAN.<\/p>\n<p><strong>Quem ap\u00f3ia os IS?<\/strong><\/p>\n<p>Oficialmente, nenhum governo do Oriente M\u00e9dio apoia o IS e, tamb\u00e9m, nenhum emir, pr\u00edncipe ou rica\u00e7o \u00e1rabe defende publicamente a cria\u00e7\u00e3o de um Califado no Iraque e na S\u00edria. Por\u00e9m, o ex-primeiro-ministro iraquiano, Nouri al Maliki, logo ap\u00f3s o ataque do IS contra as cidades de Kirkut e de Mossul \u2013 de onde foram roubados 462 milh\u00f5es de d\u00f3lares e 80 kg de lingotes de ouro da local ag\u00eancia do Banco Central Iraquiano \u2013, acusou a Ar\u00e1bia Saudita, o Kuwait, os Emirados \u00c1rabes Unidos e o Bahrein de terem apoiado financeiramente os homens de Abu Bakr Al Baghdadi, enquanto o Catar e a Turquia, al\u00e9m do suporte financeiro, deram ao ent\u00e3o ISI, depois ISIL e agora IS, tamb\u00e9m o suporte log\u00edstico e militar. Por exemplo, as milhares de caminhonetes Toyota e Mercedes, que o IS utilizou para avan\u00e7ar contra as cidades de Mossul e Kirkut no m\u00eas de julho, foram importadas atrav\u00e9s da intermedia\u00e7\u00e3o de empresas da Turquia, com o benepl\u00e1cito do servi\u00e7o de intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>A mesma fonte denunciou que o IS, atrav\u00e9s de empresas fantasma do Catar, da Turquia e israelenses, vende o barril de petr\u00f3leo a US$ 33,00, enquanto no mercado \u00e9 cotado a 105 d\u00f3lares. O mesmo acontece com o g\u00e1s que \u00e9 bombeado na S\u00edria e que chega \u00e0 Turquia atrav\u00e9s dos gasodutos que passam pelos territ\u00f3rios ocupados pelo IS.<\/p>\n<p>A este prop\u00f3sito, os partidos turcos da oposi\u00e7\u00e3o, na semana passada, denunciaram o governo de Erdogan por ter negociado com o IS a compra do petr\u00f3leo iraquiano roubado por um valor de 800 milh\u00f5es de d\u00f3lares, equiva-lente a 4% do consumo nacional. Al\u00e9m disso, desde fevereiro a Turquia compra o g\u00e1s que na S\u00edria \u00e9 extra\u00eddo pela Conoco em Deir Ezzor e que, como o petr\u00f3leo, deveria ser embargado nos terminais petrol\u00edferos do porto turco de Ceiban. Antes desse per\u00edodo, a Turquia comprava o g\u00e1s s\u00edrio, pagando 60.000 d\u00f3lares por semana ao representante da Frente Al Nusra, que havia ocupado os campos petrol\u00edferos de Deir Ezzor. Depois os comba-tentes do ISIL expulsaram os antigos aliados e come\u00e7aram a negociar com os emiss\u00e1rios do governo turco.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, a partir de 22 de maio, tamb\u00e9m os autonomistas do Curdist\u00e3o come\u00e7aram a vender para uma \u201cdesconhecida companhia europeia\u201d uma parte do petr\u00f3leo que conseguem desviar do tri\u00e2ngulo petrol\u00edfero de Baiji, na regi\u00e3o de Kirkut. Com a cumplicidade da empresa turca Betas, que gerencia os \u201cpipelines\u201d, cerca de um milh\u00e3o de toneladas de petr\u00f3leo chegam diariamente ao porto turco de Ceiban, onde os navios-tanques da companhia de navega\u00e7\u00e3o Palmali Shipping &amp; Agency JSC, cujo propriet\u00e1rio \u00e9 o turco Mubariz Gurbanoglu, v\u00e3o vender o \u201couro negro\u201d no mercado livre europeu de Roterd\u00e3.<\/p>\n<p>Segundo c\u00e1lculos aproximados, o IS e os autonomistas curdos estariam ganhando, cada um, um milh\u00e3o de d\u00f3lares por dia, gra\u00e7as \u00e0 intermedia\u00e7\u00e3o da Aramco. De fato, a transnacional estadunidense-saudita encobre as opera\u00e7\u00f5es de venda do IS e dos curdos, dando a entender aos mercados que, na realidade, n\u00e3o se trata de petr\u00f3leo roubado do Iraque, mas, sim, do aumento de suas cotas de produ\u00e7\u00e3o na Ar\u00e1bia Saudita. Uma mentira legitimada pelo pr\u00f3prio governo saudita, que camuflou essa opera\u00e7\u00e3o anunciando, em 15 de junho, que a produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo saudita aumentar\u00e1 de 10 para 15 milh\u00f5es de barris por dia!<\/p>\n<p>No dia 18 de junho, durante a reuni\u00e3o, em Moscou, dos pa\u00edses produtores e exportadores de g\u00e1s e petr\u00f3leos, a S\u00edria denunciou que a transnacional Exxon-Mobil (de propriedade da fam\u00edlia Rockfeller e associada ao emir do Catar) vende no mercado \u201clivre\u201d o petr\u00f3leo e o g\u00e1s roubado na S\u00edria pela Frente Al Nusra, enquanto o Ir\u00e3 acusou a Aramco (EUA\/Ar\u00e1bia Saudita) de vender o petr\u00f3leo iraquiano desviado pelo IS e os autonomistas curdos. Mesmo assim, n\u00e3o houve nenhuma medida coercitiva contra as referidas transnacionais e contra os bancos e as companhias de navega\u00e7\u00e3o que participam nesse neg\u00f3cio. Por qual motivo?<\/p>\n<p>A resposta vem do \u201cdocumento reservado\u201d (revelado por Wikileaks) e firmado em 2009 por Hillary Clinton, ent\u00e3o Secret\u00e1rio do Departamento de Estado, em que a Ar\u00e1bia Saudita era denunciada \u201c<em>por ser uma importante base de sustenta\u00e7\u00e3o financeira para a Al-Qaeda, os Talibans (do Afeganist\u00e3o)&#8230; Al\u00e9m disso, os doadores individuais da Ar\u00e1bia Saudita representam a fonte mais importante de financiamento para os grupos terroristas sunitas no mundo<\/em>\u201d. De fato, o pr\u00edncipe saudita Bandar bin Sultan, tamb\u00e9m chefe dos servi\u00e7os secretos da Ar\u00e1bia Saudita e respons\u00e1vel pela seguran\u00e7a pessoal do rei, Abdallah bin Abdul Aziz Al-Saud, \u00e9 quem define a maior parte dos financiamentos do Estado saudita para os grupos sunitas, al\u00e9m de ter o pleno conhecimento sobre as opera\u00e7\u00f5es financeiras realizadas pelos doadores sauditas em favor do IS e de outras forma\u00e7\u00f5es sunitas.<\/p>\n<p>Outro importante financiador do \u201cterrorismo sunita\u201d \u00e9 o Kuwait, que segundo a Brooking Institutions foi quem financiou na S\u00edria a forma\u00e7\u00e3o das primeiras brigadas salafitas \u201cJahbat al-Asala wa al-Tanmiya\u201d, \u201cAhrar al-Sham\u201d e \u201cJabhat al-Nusra\u201d, em 2011. Mas o fluxo de \u201cpetrod\u00f3lares\u201d do Kuwait continuou tamb\u00e9m quando os salafitas se juntaram aos jihadistas da Frente Al Nusra, para depois integrar as fileiras do ISIL, quando Abu Bakr Al Baghdadi rompeu com Al Qaeda, mandando assassinar Abu Mohammad al-Ansari, l\u00edder da Frente Al Nusra. Enfim, quando Abu Bakr Al Baghdadi assumiu a lideran\u00e7a dos grupos jihadistas da S\u00edria e do Iraque, o emir do Kuwait, Sabah IV Al-Ahmad Al-Jaber Al-Sabah, renovou a linha de financiamentos em favor do ISIL, n\u00e3o obstante alguns conselheiros terem-no lembrando de que as viol\u00eancias desumanas dos homens do ISIL contra os presos civis desqualificavam o Isl\u00e3.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, temos o Catar, que possui a terceira reserva mundial de g\u00e1s e \u00e9 liderado pelo emir Tamim bin Hamad Al Than, que no ano passado realizou um golpe de Estado contra o pr\u00f3prio pai, para disputar a lideran\u00e7a dos sunitas no Oriente M\u00e9dio. Por isso, ap\u00f3s ter rompido com a Ar\u00e1bia Saudita, come\u00e7ou investindo cinco milh\u00f5es de d\u00f3lares na cria\u00e7\u00e3o do partido da Irmandade Mu\u00e7ulmana, do partido salafita e dos grupos jihadistas na L\u00edbia. Depois, para contrastar os sauditas, entre 2011 e 2013, depositou tr\u00eas milh\u00f5es de d\u00f3lares na conta corrente de Abu Mohammad al-Ansari, para organizar e armar a Frente Al Nusra, principal grupo armado oposto ao Ex\u00e9rcito Livre S\u00edrio, criado com o dinheiro da Ar\u00e1bia Saudita e monitorado pela CIA.<\/p>\n<p>Diante desse cen\u00e1rio, resulta evidente que a guerra civil na S\u00edria, a evolu\u00e7\u00e3o do IS e a legitima\u00e7\u00e3o dos curdos s\u00e3o um jogo de cartas marcadas, do momento que os principais produtores e exportadores de petr\u00f3leo e de g\u00e1s do Golfo (Ar\u00e1bia Saudita, Kuwait, Emirados \u00c1rabes Unidos, Bahrein e Catar) s\u00e3o tamb\u00e9m os principais financiadores dos grupos terroristas e, ao mesmo tempo, os principais aliados dos Estados Unidos, da Gr\u00e3 Bretanha e de Israel no Oriente M\u00e9dio. Sem esquecer que s\u00e3o tamb\u00e9m os fieis parceiros das transnacionais petrol\u00edferas, que exercem uma grande influ\u00eancia na m\u00eddia ocidental e nos respectivos governos, inclusive a Casa Branca.<\/p>\n<p>Um contexto geopol\u00edtico no qual a opini\u00e3o p\u00fablica mundial, mais uma vez, est\u00e1 sendo influenciada e manipulada em favor de quem est\u00e1 articulando \u201co jogo de cartas no Oriente M\u00e9dio\u201d.<\/p>\n<p>Vejam, por exemplo, o \u201cincorrupt\u00edvel\u201d Procurador do Tribunal Penal Internacional (TPI), Luis Moreno-Ocampo, conhecido mundialmente por ter emitido um mandato de captura contra Kadafi e seus filhos, logo ap\u00f3s o ataque a\u00e9reo franco-brit\u00e2nico por \u201ccrimes contra a humanidade\u201d. Pois esse Procurador do TPI, mesmo solicitado a intervir, engavetou a revela\u00e7\u00e3o do jornal brit\u00e2nico <em>The Telegraf,<\/em> que em 14 de abril de 2014, ao citar fontes dos servi\u00e7os de intelig\u00eancia ocidentais, acusava o servi\u00e7o secreto da Turquia (MIT) de ter provocado, juntamente aos homens da Frente Al-Nusra e do ISIL (naquele tempo aliados), a explos\u00e3o dos barris com g\u00e1s sarin e, assim, for\u00e7ar a interven\u00e7\u00e3o armada dos EUA e dos pa\u00edses membros da OTAN contra a S\u00edria. Esse \u201censaio\u201d provocou, em 21 de agosto de 2013, a morte de 1.729 moradores da cidade s\u00edria de Ghouta na regi\u00e3o de Rif Dimash, que a m\u00eddia ocidental e \u00e1rabe fizeram recair, injustamente, sobre o ex\u00e9rcito de Bashar Al Assad. Al\u00e9m disso, Luis Moreno-Ocampo nunca se pronunciou contra o primeiro-ministro da Turquia, Erdogan, por ter cometido o crime de recepta\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo roubado do Iraque e associa\u00e7\u00e3o com os terroristas do IS.<\/p>\n<p>Nesse contexto, o elemento mais contradit\u00f3rio e at\u00e9 rid\u00edculo se deu na reuni\u00e3o em Newport dos chefes de Estado da OTAN, na qual o presidente Obama pediu tamb\u00e9m a Turquia para integrar a \u201cCruzada do Ocidente\u201d e destruir o IS, mesmo sabendo que o primeiro-ministro turco Erdogan \u00e9 o l\u00edder de um pa\u00eds governado por um partido isl\u00e2mico que apoia totalmente a IS, a ponto de permitir que empresas e bancos turcos intermediem a compra de armas, explosivos e suprimentos, enquanto os foguetes e os proj\u00e9teis para as armas pesadas (canh\u00f5es e tanques) s\u00e3o diretamente transacionados pelos pr\u00f3prios servi\u00e7os secretos!<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>1) O IS \u00e9 parte integrante da geoestrat\u00e9gia do imperialismo estadunidense, que, por ser demasiado insegura e vacilante em termos pol\u00edticos, na pr\u00e1tica oscila entre as diferentes posi\u00e7\u00f5es tentando, sempre, compor a solu\u00e7\u00e3o que mais garanta os interesses dos EUA. Em muitos casos, essa pr\u00e1tica se transformou em trag\u00e9dia, tal como aconteceu na Som\u00e1lia, na L\u00edbia, no Sud\u00e3o, na S\u00edria e agora no Iraque.<\/p>\n<p>2) O atual l\u00edder do IS, Abu Bakr Al Baghdadi, em 2005, depois de integrar o grupo armado jihadista \u201cJama&#8217;at al-Tawhid wal-Jihad&#8221;, criado em 2004 em Bagd\u00e1, foi acusado de atividade terrorista pela intelig\u00eancia militar estadunidense e encarcerado na pris\u00e3o especial de Camp Bucca, em Umm Qasr. Por\u00e9m, segundo o ex-ministro iraquiano, Nouri al Malik, em 2009, a pedido de oficiais da CIA, ele foi solto. Um ano depois, em 16 de maio, Abu Bakr Al Baghdadi reivindicou em Bagd\u00e1 os primeiros atentados do ISI (Estado Isl\u00e2mico do Iraque) contra os xiitas. Em 2011, chefiava os \u201cbomb-men\u201d que se sacrificavam realizando sanguin\u00e1rios atentados suicidas em Mossul, desta vez reivindicados pelo ISIL. Foi desse momento que Abu Bakr Al Baghdadi come\u00e7ou a divulgar sua alian\u00e7a com Al Qaeda e a ideia de recriar o antigo califado isl\u00e2mico, que nos anos 600 e 700 estendia suas fronteiras do L\u00edbano at\u00e9 o sul do Iraque.<\/p>\n<p>Depois disso, a maior parte dos homens do ISIL, cerca 1.000 combatentes, se transferiu para a S\u00edria e integraram a Frente Al Nusra. Em 2013, Abu Bakr Al Baghdadi rompeu com Al Qaeda e mandou assassinar o l\u00edder da Frente Al Nusra. Assim, come\u00e7ou o planejamento da invas\u00e3o do Iraque.<\/p>\n<p>Segundo o analista Hisham al-Hashimi, a CIA acredita que o n\u00famero de combatentes do IS n\u00e3o chega a 15 mil homens. Por\u00e9m, dos 12.000 volunt\u00e1rios isl\u00e2micos estrangeiros que nos \u00faltimos anos foram combater na S\u00edria, agora mais de 60% estariam nas fileiras do IS, tendo participado nos ataques \u00e0s cidades de Mossul e Kirkut.<\/p>\n<p>3) Segundo o jornal brit\u00e2nico\u201d <em>The Economist<\/em>\u201d, 80% dos volunt\u00e1rios estrangeiros jihadistas (europeus, chechenos, argelinos, l\u00edbios, eg\u00edpcios, b\u00f3snios, filipinos etc.), que entre 2011 e 2013 estavam lutando na S\u00edria nas fileiras da Frente Al Nusra, ingressaram no ISIL quando Bakr Al Baghdadi lan\u00e7ou o manifesto de atacar o Iraque. Agora, a partir de 2013, o ISIL e depois o IS alistou mais de 3.000 neo-isl\u00e2micos ocidentais vindos de pa\u00edses europeus.<\/p>\n<p>Al\u00e9m desse contingente, v\u00e1rias fontes ligadas aos servi\u00e7os de intelig\u00eancia admitem que na S\u00edria estejam combatendo 4.000 sauditas e cerca de 1.500 dos Emirados Unidos, em sua maioria paramilitares utilizados pelos servi\u00e7os secretos de seus pa\u00edses e para l\u00e1 deslocados. Mais da metade desses, agora, estaria concentrada na regi\u00e3o iraquiana de Al Anbar para reprimir eventuais rea\u00e7\u00f5es das c\u00e9lulas do Partido Baath \u00c1rabe, que, em 2013, fez um acordo t\u00e1tico com o ISIL, apesar de n\u00e3o ser um partido isl\u00e2mico e n\u00e3o aceitar as leis da Sharia.<\/p>\n<p>4) O IS (Estado Isl\u00e2mico) \u00e9 considerado pela CIA o grupo terrorista mais rico do mundo, inclusive mais que a pr\u00f3pria Al-Qaeda quando Osama bin Laden era ainda vivo. Por outro lado, em suas limitadas apari\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e documentos pol\u00edticos, Abu Bakr Al Baghdadi nunca se refere a Israel, nunca denuncia a guerra de agress\u00e3o do sionismo contra Gaza e contra o povo palestino. Esse fato refor\u00e7a as informa\u00e7\u00f5es segundo as quais agentes da CIA e do Mossad sionista foram os principais assessores de Abu Bakr Al Baghdadi, depois de sua liberta\u00e7\u00e3o das pris\u00f5es de Camp Bucca. Isso faz lembrar o pr\u00edncipe saudita Bandar bin Sultan, que cospe veneno contra o Ir\u00e3, Bashar al Assad e os xiitas, mas nada diz contra os sionistas de Israel e os Estados Unidos.<\/p>\n<p>5) Hoje, o IS reivindica a lideran\u00e7a universal do jihadismo sunita. Por isso, a m\u00eddia ocidental come\u00e7ou a apresentar o IS como uma variante do fundamentalista sunita fora de controle por causa do uso gratuito da viol\u00eancia contra os inimigos e as popula\u00e7\u00f5es. Por\u00e9m, foi atrav\u00e9s dessas representa\u00e7\u00f5es sanguin\u00e1rias que o IS ganhou espa\u00e7o na m\u00eddia, tornando-se o prov\u00e1vel mandat\u00e1rio de um Estado sunita no Iraque e na S\u00edria. Por isso, o IS e o pr\u00f3prio Abu Bakr Al Baghdadi podem ser considerados um complemento indireto da estrat\u00e9gia dos EUA, visto que sua atua\u00e7\u00e3o permite: a) reduzir a influ\u00eancia da R\u00fassia na regi\u00e3o; b) enfraquecer o governo xiita iraquiano e, consequentemente, desestimular a interven\u00e7\u00e3o do governo do Ir\u00e3; c) criar as perspectivas para uma futura divis\u00e3o \u00e9tnica do Iraque, com um Estado curdo no norte (regi\u00f5es do Curdist\u00e3o), um Estado sunita no centro (regi\u00e3o central de Al Anbar) e um estado xiita no sul. Para que isso aconte\u00e7a, \u00e9 necess\u00e1rio qualificar os curdos do ponto de vista militar e fazer sangrar o novo governo iraquiano liderado pelo xiita Maiden al-Abadi. Com uma sangrenta guerra civil em curso, que mexe muito com a divis\u00e3o das receitas petrol\u00edferas, tudo isso tende a se materializar.<\/p>\n<p>6) Quem realmente pode quebrar esse plano \u00e9 novamente o ex\u00e9rcito regular da S\u00edria de Bashar al Assad. De fato, se as batalhas em curso em Aleppo e em Raqqa forem vencidas pelos homens de Damasco, a S\u00edria poder\u00e1 voltar a exercer o controle da fronteira com a Turquia e a Jord\u00e2nia. Nesse caso, o IS ficaria isolado na regi\u00e3o iraquiana de Al Anbar, sem nenhuma possibilidade de receber da Turquia o fluxo de armas e dos demais supri-0mentos. Nesse caso, a \u201cguerra sem prisioneiros\u201d varrer\u00e1 ainda mais vidas humanas nas areias do deserto iraquiano.<\/p>\n<p><strong>Achille Lollo \u00e9 jornalista italiano, correspondente do Brasil de Fato na It\u00e1lia, editor do programa TV \u201cQuadrante Informativo\u201d e colunista do &#8220;Correio da Cidadania&#8221;.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nEscrito por Achille Lollo, de Roma para o Correio da Cidadania \u2014 Quarta, 10 de Setembro de 2014\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6682\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-6682","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1JM","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6682","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6682"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6682\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6682"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6682"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6682"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}