{"id":6683,"date":"2014-09-11T05:13:28","date_gmt":"2014-09-11T05:13:28","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=6683"},"modified":"2014-09-11T05:13:28","modified_gmt":"2014-09-11T05:13:28","slug":"palestina-como-sempre-um-acordo-baseado-em-farsa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6683","title":{"rendered":"Palestina: Como sempre, um acordo baseado em farsa"},"content":{"rendered":"\n<p>Mais uma vez fica evidente que o combinado e o que ainda ser\u00e1 discutido nada mais \u00e9 que a exig\u00eancia de acordos descumpridos por Israel<\/p>\n<p><em>09\/09\/2014<\/em><\/p>\n<p><em>Por Lara Sartorio<\/em><\/p>\n<p><em>da Cisjord\u00e2nia (Palestina)<\/em><\/p>\n<p>Depois de 51 dias de bombardeio e genoc\u00eddio promovidos por Israel, apoiado e patrocinado pelos Estados Unidos, na Faixa da Gaza, uma proposta de cessar-fogo realizada pelo Egito no dia 26 de agosto foi acordada.<\/p>\n<p>O ataque chamado \u201cOpera\u00e7\u00e3o Prote\u00e7\u00e3o de Bordas\u201d exterminou 2.178 palestinos \u2013 dentre eles, cerca de 600 crian\u00e7as \u2013 e 69 israelenses foram mortos \u2013 soldados, quase em sua totalidade. A ONU reporta que pelo menos 1.500 crian\u00e7as ficaram \u00f3rf\u00e3s e 110 mil est\u00e3o desabrigados.<\/p>\n<p>Os termos do acordo de cessar-fogo incluem a permiss\u00e3o para que Gaza seja reconstru\u00edda (50% do territ\u00f3rio ficou arruinado); garantem a abertura de todas as fronteiras para a entrada de alimentos, medicamentos e material de constru\u00e7\u00e3o; e amplia o espa\u00e7o mar\u00edtimo para a pesca de 6 milhas n\u00e1uticas desde a costa para 12 milhas n\u00e1uticas.<\/p>\n<p>Mesmo que o acordo demonstre uma flexibiliza\u00e7\u00e3o do Hamas, j\u00e1 que os termos n\u00e3o denotam avan\u00e7os significativos, a ideia \u00e9 que configure uma conten\u00e7\u00e3o das mortes palestinas e funcione como tr\u00e9gua preliminar \u00e0s negocia\u00e7\u00f5es do m\u00eas seguinte, quando ser\u00e3o debatidos termos que incluem a abertura de um aeroporto e de um porto em Gaza.<\/p>\n<p><strong>Mar de Gaza<\/strong><\/p>\n<p>Para entender o acordo \u00e9 preciso retomar a hist\u00f3rica do territ\u00f3rio palestino. Depois da invas\u00e3o dos judeus sionistas em 1948, quando foi fundado o Estado de Israel, a Palestina foi dividida em territ\u00f3rios desconectados, Cisjord\u00e2nia e Gaza.<\/p>\n<p>A Faixa de Gaza foi capturada e ocupada por Israel na guerra de 1967. Desde ent\u00e3o, \u00e9 mantido controle completo dos espa\u00e7os a\u00e9reo e mar\u00edtimo do territ\u00f3rio, bem como das fronteiras.<\/p>\n<p>Os palestinos precisam da permiss\u00e3o de Israel para usar o mar de Gaza, o que imp\u00f5e restri\u00e7\u00f5es e limita consideravelmente sua maior fonte de renda, a pesca. Barcos de pescadores foram bombardeados com frequ\u00eancia por \u201cultrapassar a dist\u00e2ncia permitida\u201d. \u00c0 \u00e9poca, foi acordada, entre Israel e Palestina, uma permiss\u00e3o de 20 milhas n\u00e1uticas para o exerc\u00edcio da pesca. Em 2006, por\u00e9m, a dist\u00e2ncia passou a ser de 3 milhas n\u00e1uticas, como forma de retalia\u00e7\u00e3o \u00e0 vit\u00f3ria eleitoral do Hamas. Em 2012, o acordo de cessar-fogo, que deu fim ao genoc\u00eddio em Gaza naquele ano, incluiu a extens\u00e3o para 12 milhas n\u00e1uticas, mas Israel descumpriu o combinado e permitiu apenas 6 milhas n\u00e1uticas.<\/p>\n<p><strong>Aeroporto e porto<\/strong><\/p>\n<p>Apesar de o Acordo de Oslo, de 1993, ter mantido o controle de Israel sobre o espa\u00e7o a\u00e9reo de Gaza, foi permitido que constru\u00edssem um aeroporto. A obra foi conclu\u00edda em 1998. No ano de 2000, Israel fechou o aeroporto e, em 2001, bombardeou-o.<\/p>\n<p>O mesmo aconteceu com a decis\u00e3o do acordo que permitiu Gaza construir um porto. Foi iniciada a constru\u00e7\u00e3o em 2000, mas meses depois foi destru\u00eddo.<\/p>\n<p>Assim, fica evidente que o combinado e o que ainda ser\u00e1 discutido nada mais \u00e9 que a exig\u00eancia de acordos descumpridos por Israel.<\/p>\n<p>Uma semana depois, a hist\u00f3ria se repete e, tal como em 2012, Israel desrespeita o acordo e mata um pescador no mar de Gaza. Simultaneamente, projetos maiores de retalia\u00e7\u00e3o ao povo palestino foram declarados pelo primeiro-ministro de Israel, Netanyahu.<\/p>\n<p><strong>(mais) 400 ha roubados<\/strong><\/p>\n<p>No dia 30 de agosto, o pol\u00edtico anunciou a maior apropria\u00e7\u00e3o de terras na Cisjord\u00e2nia dos \u00faltimos 30 anos. Cinco vilas ser\u00e3o afetadas em um roubo de 400 hectares. A hist\u00f3ria dessas vilas j\u00e1 \u00e9 de ininterruptas destrui\u00e7\u00f5es e despejos por parte de Israel, marcadamente no evento conhecido como Nakba em 1948 (demoli\u00e7\u00f5es e massacres na funda\u00e7\u00e3o do Estado de Israel) e na guerra de 1967.<\/p>\n<p>Desde a d\u00e9cada de 1980, o Estado israelense n\u00e3o para de expandir os assentamentos nos entornos de vilas e cidades palestinas. Considerados ilegais pela lei internacional, os assentamentos s\u00e3o a concretiza\u00e7\u00e3o do plano sionista de expuls\u00e3o dos palestinos. Neles, \u00e9 aplicado um sistema de apartheid em que servi\u00e7os de infraestrutura s\u00e3o constru\u00eddos atrav\u00e9s da demoli\u00e7\u00e3o de moradias palestinas para servirem exclusivamente aos colonos \u2013 demarcados com a constru\u00e7\u00e3o de muros, torres de vigil\u00e2ncia e um sistema de seguran\u00e7a espec\u00edfico para as col\u00f4nias, com tanques de guerra e forte armamento.<\/p>\n<p>No plano anunciado por Israel, pelo menos 20 casas completas de um dos vilarejos, Surif, j\u00e1 receberam aviso de despejo. Dentre as informa\u00e7\u00f5es contidas nesses documentos, consta o prazo de 45 dias para apresentar reclama\u00e7\u00f5es \u00e0 corte do Estado de Israel. A maior parte dos agricultores das vilas j\u00e1 t\u00eam processos pendentes relativos \u00e0 apropria\u00e7\u00e3o ilegal de suas terras.<\/p>\n<p>Hassan Manasra, 88 anos, trabalha e habita uma parcela de terra dentro do que foi declarado, na semana passada, como \u201cterra de Israel\u201d. Manasra foi um dos despejados em 1948 e havia se mudado para uma caverna ao longo de um morro na regi\u00e3o de Wadi Fukin. Ao lado da caverna, Manasra construiu um barraco de 2m\u00b2, sem energia el\u00e9trica e sem \u00e1gua corrente. Essa \u00e9 uma das \u201costentadoras\u201d casas que receberam a visita de soldados israelenses com aviso de despejo.<\/p>\n<p><strong>Na Cisjord\u00e2nia<\/strong><\/p>\n<p>Simultaneamente, a Cisjord\u00e2nia sofre incurs\u00f5es em que tanques chegaram a adentrar grandes cidades, tal como Bel\u00e9m, e palestinos s\u00e3o presos indiscriminadamente. O ex\u00e9rcito israelense j\u00e1 prendeu pelo menos 178 pessoas na Cisjord\u00e2nia \u2013 incluindo uma crian\u00e7a de 12 anos em Hebron no dia 8 de setembro- e a pol\u00edcia da Autoridade Palestina (AP) prendeu 75 pessoas.<\/p>\n<p>Essa informa\u00e7\u00e3o pode parecer confusa \u00e0 primeira vista. \u00c9 preciso, portanto, mirar mais profundamente a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as pol\u00edticas na Palestina. A AP, produto dos acordos de Oslo, \u00e9 presidida por Abbas, do partido Fatah. N\u00e3o s\u00f3 o pr\u00f3prio acordo \u00e9 considerado uma grande trai\u00e7\u00e3o aos palestinos, por ter legitimado atrocidades \u2013 tais como o controle da \u00e1gua e a divis\u00e3o do territ\u00f3rio em \u00e1reas ABC, o que significou a entrega de mais de 70% da Cisjord\u00e2nia ao controle completo de Israel e mais de 20% a seu controle parcial \u2013, como a presid\u00eancia do Fatah representa um continu\u00edsmo dessa pol\u00edtica de acordos com Israel, que a hist\u00f3ria provou ser falha.<\/p>\n<p>Ressalta-se que a pr\u00f3pria pol\u00edcia da AP \u00e9 treinada e tem seus sal\u00e1rios pagos diretamente pelos EUA. De modo que fica clara a rela\u00e7\u00e3o entre Israel e a elite palestina.<\/p>\n<p><strong>A quem serve o cessar-fogo?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 ineg\u00e1vel que a visibilidade do genoc\u00eddio em Gaza foi elemento diferenciador dos outros tantos massacres em 66 anos de ocupa\u00e7\u00e3o militar. Era necess\u00e1rio, portanto, voltar a invisibilizar esse povo sem rosto, transformado em n\u00fameros.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o foi forjar um fim do conflito baseado em farsa. A brutalidade em Gaza gerou um fluxo de informa\u00e7\u00e3o cont\u00ednuo em que imagens de crian\u00e7as mutiladas se perdiam entre imagens publicit\u00e1rias dos jornais. N\u00fameros de mortes crescentes e um bombardeio de not\u00edcias fez com que o p\u00fablico n\u00e3o mais se chocasse e percebesse a pr\u00f3pria imobilidade. O cessar-fogo foi tamb\u00e9m um cessar dos assuntos da limpeza \u00e9tnica e do neocolonialismo cont\u00ednuo nos territ\u00f3rios da Palestina.<\/p>\n<p><strong>Guerra energ\u00e9tica<\/strong><\/p>\n<p>Os bombardeios em Gaza e o avan\u00e7o de grupos fundamentalistas no Oriente M\u00e9dio, tais como o Isis (o autoproclamado Estado Isl\u00e2mico do Iraque e da S\u00edria), s\u00e3o a\u00e7\u00f5es que confirmam que o que est\u00e1 em curso \u00e9 uma grande guerra energ\u00e9tica.<\/p>\n<p>O Isis \u00e9 um grupo fundado e financiado pelos EUA e Israel que vem promovendo ataques na S\u00edria contra o governo Assad, desde 2011. Em julho deste ano, o grupo avan\u00e7ou sobre o Iraque exterminando milhares e mantendo mulheres em cativeiro para explora\u00e7\u00e3o sexual. O grupo tamb\u00e9m tentou avan\u00e7ar sobre a fronteira do L\u00edbano em agosto, sendo rapidamente contido.<\/p>\n<p>\u00c9 sabido que em dezembro de 2010 foi descoberto o \u201cmais proeminente terreno de g\u00e1s natural j\u00e1 encontrado na Bacia do leste Mediterr\u00e2neo\u201d, na \u00e1rea da Bacia do Leviat\u00e3, capaz de impulsionar Israel como um grande exportador. O problema \u00e9 que a maior parte das bases est\u00e1 situada nas regi\u00f5es de Gaza e do L\u00edbano. A S\u00edria j\u00e1 realizou contratos milion\u00e1rios de explora\u00e7\u00e3o da bacia com a R\u00fassia, o que motivou os Estados Unidos a intervirem no pa\u00eds atrav\u00e9s do financiamento de grupos como o Isis.<\/p>\n<p>Certamente isso explica em parte a estrat\u00e9gia dos imperialistas em sua guerra declarada contra parte do mundo \u00e1rabe. O interesse de domina\u00e7\u00e3o \u00e9 o interesse de controle financeiro do ouro moderno: o petr\u00f3leo e o g\u00e1s.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a prote\u00e7\u00e3o do Curdist\u00e3o (regi\u00e3o aut\u00f4noma do Iraque) pelos EUA \u2013 \u00fanico limite imposto pelos estadunidenses ao Isis \u2013 faz todo sentido quando se observa que a regi\u00e3o \u00e9 estrat\u00e9gica para Israel na explora\u00e7\u00e3o e no escoamento dos hidrocarbonetos da bacia.<\/p>\n<p>Na mesma semana em que foi acordado o cessar-fogo em Gaza, not\u00edcias revelam que Israel se prepara para atacar o L\u00edbano, \u00fanico pa\u00eds cujo grupo paramilitar, o Hezbollah, teria condi\u00e7\u00f5es de conter o avan\u00e7o do Isis.<\/p>\n<p>Se o ataque se confirmar, o objetivo de desestabiliza\u00e7\u00e3o do grupo pelo maior armamento do Oriente M\u00e9dio, o de Israel, poder\u00e1 significar a domina\u00e7\u00e3o do Isis no pa\u00eds. As pol\u00edticas articuladas no Oriente M\u00e9dio demonstram uma guerra energ\u00e9tica terceirizada do imperialismo, que se utiliza de grupos \u00e1rabes para dividir e dominar sem sujar as m\u00e3os de sangue.<\/p>\n<p>A base perversa de um mundo que vive na realidade sua pr\u00f3pria fic\u00e7\u00e3o brutal est\u00e1 no sistema pol\u00edtico e econ\u00f4mico que estrutura o mundo globalizado: o capitalismo. N\u00e3o deveria surpreender a\u00e7\u00f5es que realizam verdadeiras limpezas \u00e9tnicas para concretizar interesses financeiros se ainda n\u00e3o nos revoltamos com um sistema que tem por fundamento a explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem e o roubo da for\u00e7a de trabalho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\nLara Sartorio\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/6683\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[78],"tags":[],"class_list":["post-6683","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c91-solidariedade-a-palestina"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-1JN","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6683","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6683"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6683\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6683"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6683"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6683"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}